quinta-feira, 3 de outubro de 2013

HOMILIA NO ENCERRAMENTO DA FASE DIOCESANA DO PROCESSO DE BEATIFICAÇÃO E CANONIZAÇÃO DE DOM VITAL


Cardeal Eugênio de Araújo Sales
Arcebispo do Rio de Janeiro
Esta solene concelebração de ação de graças pelo encerramento da fase diocesana do Processo de Beatificação e Canonização de Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira se insere entre as efemérides notáveis desta Província, deste Estado, da Arquidiocese de Olinda e Recife. Para o Brasil, a exaltação deste Servo de Deus é um fator importante no fortalecimento da estrutura moral, pelo exemplo dado no cumprimento do seu dever como sucessor dos apóstolos. Mas ainda valiosa a contribuição à vida da mesma Igreja, em nossa Pátria e em nossos dias. O pastor se sacrificou a serviço da fidelidade à doutrina, à disciplina eclesiástica. Com coragem e prudência arrostou, entre outros sofrimentos, a perda da liberdade.
Muito me honra o convite do zeloso pastor, Dom Frei José Cardoso Sobrinho, para presidir essa concelebração. A Arquidiocese do Rio de Janeiro está profundamente vinculada a esta Igreja de Olinda e Recife. Do Rio veio Dom Helder Camara; do Rio, veio Dom Leme, que retornou à então Capital do País como sucessor de Dom Arcoverde, filho deste Estado  de Pernambuco e primeiro cardeal da América Latina. Por outro lado, Dom Vital, em janeiro, prisioneiro no Arsenal da Marinha, foi assim saudado por Dom Pedro Maria de Lacerda, ao visitá-lo: “Excelência, tem toda a jurisdição nesta terra. Vejo em Vossa Excelência um prisioneiro de Cristo; meu clero, meu cabido serão felizes, pondo-se às suas ordens”.
A amizade fraterna e a comunhão na defesa da verdade e da liberdade da Igreja uniram, desde então, Dom Vital, Bispo de Olinda e a Diocese do Rio de Janeiro.
A primeira leitura, da 2ª Carta de São Paulo ao dileto filho Timóteo, escrita na prisão, já no acaso da vida, no capítulo IV, que ouvimos há pouco, é uma solene admoestação perfeitamente posta em prática por Dom Vital. A resposta do Servo de Deus a esse trecho da Carta do Apóstolo foi admiravelmente afirmativa. E hoje, pelo exemplo, ele encarece à Igreja do Brasil, ao Episcopado em particular, a observância das diretrizes dadas por Paulo. Neste momento quero recordar a atitude de um sucessor dos apóstolos, obedecendo às normas dadas por Paulo a Timóteo.
O Imperador Dom Pedro II, querendo demonstrar gratidão pelo grande trabalho que os capuchinhos realizavam no Império, desejou que um de seus membros fosse elevado ao episcopado. Vacante a Sé de Olinda, a escolha recai sobre o jovem frade brasileiro. Dom Vital tinha apenas 27 anos, nessa oportunidade.
Proposto o seu nome, o Papa Pio IX confirma-o na função e profeticamente lhe escreve: “Hás de estrenuamente defender a causa de Deus e nada omitir do que possas dizer a respeito da causa da salvação em proveito do rebanho a ti confiado”. Ordenado bispo na Catedral de São Paulo, a 17 de março de 1872, teve como sagrante o bispo do Rio de Janeiro, Dom Pedro Maria de Lacerda, que durante o duro período da “Questão Religiosa” lhe seria amigo, irmão fiel. A 24 de maio do mesmo ano toma posse da Sé de Olinda, escrevendo, então, sua primeira Carta Pastoral aos diocesanos onde transparece todo o seu zelo: “Saúde, forças, faculdades e até a própria vida, tudo, tudo agora pertence a vós!”.
Período difícil e conturbado encontra Dom Vital ao assumir o seu múnus episcopal. O regalismo criara intromissões lastimáveis na vida eclesial, acarretando dependência da Igreja ao poder civil, enfraquecendo a disciplina eclesiástica e multiplicando abusos. Ao ser suspenso um sacerdote no Rio de Janeiro, após participar de grande festa maçônica, toda uma manifestação anticlerical se fez propagar por todo o país. Graves ofensas á religião foram veiculadas e os bispos afrontados em sua autoridade pastoral. Em Plinda e Recife, esgotados todos os expedientes paternos, Dom Vital lança, por fim, o interdito sobre algumas Irmandades rebeldes. Estas, por sua vez, apresentaram recursos ao Imperador contra a decisão do bispo. Era o estopim da chamada “Questão Religiosa”.
O ministro do Império e amigo pessoal de Dom Vital, Conselheiro João Alfredo, escreve-lhe pedindo que transija. A resposta do bispo é digna de quem segue as diretrizes do apóstolo Paulo, em sua epístola a Timóteo: “Que fazer diante do dever? Quando mesmo já fosse eu um bispo octogenário, tendo apenas alguns dias de vida, não trairia os deveres de minha missão”. E mais adiante: “Compreenda Vossa Excelência que esta questão é de vida ou morte para a Igreja do Brasil. Cumpre-nos antes, arcar com os maiores sacrifícios que afrouxar. Procederei sempre com muita calma, prudência e vagar: porém ceder, e não ir avante é impossível. Não vejo meio termo”. Esta carta traz a data de 27 de fevereiro de 1873.
Dom Vital é para nós um exemplo e um estímulo. Seu testemunho de fidelidade ao Evangelho, sem concessões nem desvios, é sempre atual. Ele procura a autenticidade eclesial, a autonomia da Igreja diante do poder civil, a afirmação de seus direitos. Ao tomar posição firme e esgotados os recursos da caridade, Dom Vital tornou-se o bispo da opção. Entre acomodar-se e transigir, preferiu resistir.
A figura de Dom Vital é modelo digno de ser apresentado aos nossos jovens: “Hoje dizia ele, em sermão pronunciado em Versailles, o padre há de ser homem de sacrifício: há de fazer a Deus o sacrifício de seu corpo e de sua vida. Ele deve acostumar-se a olhar o martírio sem receio. Somente com esta condição poderá cumprir sua missão de defender, até o fim, os direitos da Igreja e da verdade”. Coerente consigo mesmo e com a sua vocação, Dom Vital foi fiel até o fim: “Se no início de minha vida religiosa tivesse previsto a estranha sorte dolorosa que estava reservada, ainda com melhor vontade, teria desejado cumpri-la”. Exemplos como este devem ser recordados às novas gerações, porquanto são fruto da autenticidade cristã.
O Evangelho de São João, lido nesta missa solene, nos descreve Jesus o Bom Pastor. Dom Vital seguiu os passos do Senhor. Ele, que deu a vida pelas ovelhas, defendendo-as do erro, “abre a porta do redil das ovelhas; quem sobre por outro lugar é ladrão ou assaltante (10,1)”.
O pastor é arrancado do seu rebanho. Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, o bispo de Olinda, está em sua residência, o Palácio da Soledade. Às 13 horas e um quarto, de 2 de janeiro de 1874, recebe ordem de prisão. Toma as vestes pontificais, com mitra e báculo. Prepara e lê um protesto, declarando que “em face de nosso rebanho muito amado e de toda a Santa Igreja de Jesus Cristo, da qual somos bispo, posto que muito indigno, só deixamos esta cara diocese que foi confiada à nossa solicitude e vigilância, porque dela fomos arrancados violentamente pela força do Governo”. Impedido pelo Juiz de ir a pé, é transportado para a corveta “Recife”, conduzido ao Rio de Janeiro, encarcerado no Arsenal da Marinha.
Memorável é este dia para esta Arquidiocese de Olinda e Recife e de todo o Brasil, quando é encerrada a fase diocesana do Processo para a Beatificação deste Servo de Deus. No passado, o grande propugnador da Causa de Dom Vital foi Frei Félix de Olívola. Além de sua obra de fôlego, a biografia, preparou valiosa documentação e viajou a Roma para entregá-la aos capuchinhos, na expectativa da beatificação do 20º bispo de Olinda. Na viagem por navio, teve morte súbita. Seu corpo foi jogado ao mar, com toda a bagagem. Fracassou, assim, a primeira tentativa concreta.
Em 24 de julho de 1953, o então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio de Almeida Moraes Junior, nomeou uma comissão para recolher o material histórico. Em 1960, instaurou o Processo sobre os escritos e constituiu um Tribunal arquidiocesano.
Lamentavelmente, os trabalhos foram paralisados no fim da década e o movimento em torno de Dom Vital arrefeceu. A atitude heroica dessa figura notável de pastor fiel é hoje quase desconhecida, especialmente da juventude, tão carente de bons exemplos. Dom Vital foi extraordinário em sua fidelidade à Igreja e obediência ás suas normas, mesmo a custas de grandes sofrimentos. O conhecimento desse Processo ajuda-nos no cumprimento de nossos deveres de cristãos. Oportuno, portanto, reavivar a memória nacional no tocante a esse episódio da história, perseguição e encarceramento de um sucessor dos apóstolos, por urgir, no interior da própria Igreja, o cumprimento da legislação eclesiástica.
Felizmente – e é merecimento do atual arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho – foi reaberto o Processo, a 14 de janeiro de 1992. Para fundamentar o pedido de reconhecimento das virtudes heroicas de Dom Frei Vital,por parte da Santa Sé, a Comissão Especial teve a incumbência de realizar uma pesquisa histórica a respeito das etapas do mesmo Processo, concluído no passado. Em 1993, Monsenhor Francisco de Assis Pereira, do clero potiguar, foi designado “postulador da Causa”.
Aqui estamos agradecendo ao Senhor o término da fase diocesana deste Processo. Agradecemos a Deus o extraordinário e benemérito trabalho realizado. E pedimos ao Senhor Jesus as graças necessárias para alcançar o êxito desejado: a elevação à honra dos altares do Servo de Deus Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Esse reconhecimento de suas virtudes heroicas muito beneficiará a Igreja e nossa pátria. A desejada beatificação será a proclamação dos méritos do grande bispo. Ele é um testemunho claro e explícito de nossa fé.
A coragem, quando unida à prudência, é uma das virtudes de grande importância na vida eclesial, também em nossos dias. No ambiente reinante no mundo de hoje, muitas vezes a criatura – e não o Criador – encontra defensores. Dom Vital lutou até ao sacrifício da própria vida, em favor da obra de Cristo.
Homilia Proferida na Basílica de N. Sra. da Penha, em Recife-PE, no dia 04/07/

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