quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Google e o controle de nossas vidas...


Teoria da conspiração ou não, fato é que nunca fomos tão vigiados, fiscalizados e controlados quanto nestes tempos. De fato, a quantidade de informação é absurdamente enorme, a internet oferece-nos muitas possibilidades. Qualquer pessoa pode escrever ou baixar informação da internet.

Minha intenção, como um cirurgião que não perde tempo com detalhes, é ir direto ao ponto.

Todo cidadão é vigiado hoje em dia. Todos nós estamos sujeitos ao controle direta ou indiretamente. Antigamente as informações eram armazenadas em papel e arquivos, não havia possibilidade de instantaneamente fazer a recuperação de informações de um cadastro de dados interligado ao outro. Quem nunca pesquisou seu nome no Google? A probabilidade de encontrar algo é enorme. Quase certa!

Temos e-mail, conta em Redes Sociais, cadastros em sites, fundações, ONGs, Bancos, Faculdades, Universidades etc. Temos muitos dados pessoais sob os cuidados de terceiros e sujeitos a todos os tipos de uso indevido.

Impressiona-me ver que os celulares modernos têm vários aplicativos que visam facilitar nossa vida e ajudar nosso dia a dia. Não digo que seja ruim, mas fico preocupado com os riscos que corremos. Certo dia depare com um serviço do Google chamado Google Now. Este serviço possibilidade muitas facilidades, como instantaneamente informar o que há próximo a você. Por exemplo: ao acordar para ir para o trabalho ele já te informar a situação do trânsito, qual a melhor rota; na hora do almoço, caso queira comer uma massa, ele informar o restaurante mais próximo; quer pagar uma conta? Ele informa agência bancária mais próxima.

Enfim, faça uma pesquisa e confira as muitas facilidades que o sistema oferece. Se há pontos positivos, temos que questionar o lado negativo. O Google conseguirá saber toda sua rotina, seus contatos, suas preferências, seus gostos... Conseguirá todas as informações da sua vida. Será que vale apena nos submetermos a isto? O que poderá ser realizado com nossas informações? Estamos em uma iminência de um controle global? Ficam no ar as dúvidas. Como tudo na história, o que são gritos isolados contra monstros enormes que se aproximam para ficar? 

Se as indústrias da informação quiserem todos os nossos dados ela tem e terão, pois estamos caminhando para a exposição de nossas vidas. Estes passos são dados com uma alegria infantil de acharmos que estamos no lucro, mas no fundo, quem ganha são as elites globalistas.

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

Novos lançamentos da Edições Cristo Rei


A excelente editora Edições Cristo Rei, que tem coragem de em sua página inicial apresentar sua face e expressar palavras tão raras de encontrar em uma editora Católica - assim se apresenta ao público brasileiro:

"Nós prezamos pela completa fidelidade ao atual sucessor de Pedro, o papa Francisco, e ao Magistério de todos os sumos pontífices."

A Editora tem publicado livros de conteúdos excelentes. Vale marcar a qualidade das edições, livros bem formatados e editados convida ao leitor a leitura. E o melhor! Os preços estão  bem acessíveis. Publicaram o livro 'Francisco O Papa dos confins da terra' (2013); a primeira publicação da  'Carta Encíclica Quas Primas' (2012) no Brasil; o excelente livro sobre a 'A Guerra dos Cristeros' (2013) (Evento histórico em que o Governo Comunista-Maçônico perseguiu e matou milhares de Cristão (Cristeiros como foram chamados) mexicanos.) Entre outros livros. Confira aqui: http://edicoescristorei.com.br 

Fico esperanço ao ver que há um reflorescimento Católico do Brasil. Convido o leitor a ler este extraordinário artigo do Beato Anacleto Gonzáles Flores: As boas Leituras - "Se é necessário evitar os maus livros e periódicos, é, também, conveniente e indispensável buscar com grande afinco e ardor as boas leituras". Anacleto Gonzáles Flores.

CitizenGO - Nova plataforma para o cidadão expressar sua opinião

Democracia, liberdade de expressão, cidadania...Palavras como estas estão em nosso dia a dia. Fazem parte de nossos vocabulários e as utilizamos muitas vezes sem consciência. Pois bem, incosnciente tem sido nosso catolicismo. Resumimos nossa vida - se pelo menos fizéssemos isso - às práticas de oração e caridade. 

Os católicos no Brasil, muitas vezes, ficam perplexos com as afrontas e desrespeitos que todos os dias e de todos os lados nossa doutrina e Igreja sofrem. Alongaria muito este pequeno intróito com os exemplos. São milhares. 

Não é de hoje que nosso catolicismo se confunde a meros atos sentimentais incoscientes. Homens como Dom Sebastião Leme e o Papa João Paulo II (em suas visitas), perceberam que nosso catolicismo é amorfo pela desorientação e má formação dos católicos; indeciso em suas decisões de cunho político; indefesso em seus planos social, cultural e intelectual. Receosos de nossas responsabilidades, sufocados pela mau hálito dos inimigos que gritam em nossa cara, seguimos impávidos colossos descompromissados com nossas responsabilidades para a defesa de nosso patrimônio de Fé.

Acordemos e tomemos consciência de que a defesa dos pilares cristão começa agora, hoje. Tomemos a peito nossas responsabilidades e não fiquemos calados diante de tantas injúrias. Gostaria de escrever mais e melhor tudo o que sinto. Me faltam as palavras adequadas. Deixo ao leitor o convite para ler a Carta Pastoral de Dom Leme: http://amigocruz.blogspot.com.br/2010/01/carta-pastoral-de-dom-leme-de-1916.html

Enquanto isso, façamos o que pudermos. Há uma plataforma para o cidadão expressar sua indignação às afrontas de as formas e meios aos princípios mais basilares de uma civilização. A que ponto chegamos de termos que lutar para defender a VIDA desde sua concepção! Não vamos nos deixar os inimigos vencer em nosso campo de batalha! Não vamos esmorecer acovardados. Não nos encastelemos em nosso comodismo e mediocridades. Não há coisa pior do que resumir a vida a fazer tudo para si mesmo, aos próprios caprichos e egoísmo. 

Conheça e divulgue (Pois isto também é importante para acordamos nossos parentes, amigos etc.) a plataforma CitizenGO


terça-feira, 15 de outubro de 2013

O VERDADEIRO E O FALSO DOM VITAL – Por Tristão de Athayde


Tristão de Athayde(Alceu Amoroso Lima)
Crítico literário, professor, pensador, escritor,Membro da Academia Brasileira de Letras


Há de todos os grandes homens, uma verdadeira e várias falsas efígies. Justamente por não caberem dentro dos moldes habituais, justamente por terem participado de lutas impiedosas e sofrido o louvor e o apodo de partidários e adversários, é que sua figura não pode nunca apresentar-se à história senão focalizada de modo antagônico e apresentando traços que se contradizem. Enquanto vivos, essa contradição é radical. Não é possível acomodação alguma. Levam consigo, até a morte, a tríplice visagem que a vida lhes empresta: a que os amigos veem, a que os inimigos traçam e a que julgam ter. E das três só é verdadeira… uma quarta. Pois só Deus sabe o que realmente somos. Só Ele dirá um dia, pela voz da posteridade e assim mesmo de modo aproximado – pois o nosso retrato verdadeiro só a visão beatífica revelará. – o que há de verdadeiro nos fragmentos de verdade de que é feita a imagem do homem neste mundo. O tempo é a voz de Deus. Dele vão lentamente emergindo os traços relativamente autênticos do que somos.
Há, portanto, dos grandes homens, ao menos uma verdadeira e várias falsas efígies. Dom Vital não podia escapar a esse fado universal. Sua vida foi uma luta contínua. E aqueles que assim vivem redobram as razões de equivocidades das imagens que deles tem o mundo.
Assim é que o grande Bispo foi apresentado, por muitos, e nem sempre os de fora, como sendo a própria expressão da truculência episcopal. Na farta messe literária e jornalística que a Questão Religiosa despertou, por todo o Império, a paixão extravasou de modo alucinante. A imagem que ficou, no público em geral, do Bispo de Olinda, foi a de homem intolerante e intratável, acostelado atrás dos seus privilégios, brandindo o báculo como um gládio, lançando anátemas como raios, querendo derrubar a Coroa para substituir por uma tiara, trocando a Constituição peloSyllabus e pretendendo varrer o liberalismo ambiente por uma onda de utramontanismo inquisitorial, que faria o Brasil retrogradar às fases mais sombrias do caos medieval. Esse é o falso Dom Vital. O verdadeiro não é a sua antítese. O Bispo de Olinda não era apenas a figura da mansidão. Ou antes, praticou a verdadeira mansuetude cristã, que não é apenas a negação da cólera, mas a sua temperança. João de S. Tomás nos diz que à mansuetude se opõem dois vícios, frutos, como todos os erros, dos extremismos contraditórios, do excesso ou da deficiência. “– À mansuetude se opõem: por excesso a iracundia e por deficiência um vício sem nome especial (sic), o das pessoas que são incapazes de cólera, embora tivessem para isso motivo razoável” (J. de S. Tomás – Isagoge ad Theologiam D. Thomae, II, IIae q. 158). No passo da Suma em que S. Tomás analisa esse “vício sem nome”, baseia-se ele numa sentença de S. João Crisóstomo, que diz: “Aquele que não se encoleriza quando tem razões para fazê-lo, peca”. Pois a paciência desarrazoada é o berço de muitos vícios, promove a negligência e provoca os maus e até os bons a procederem mal” (Hom. XI, in Math.).
E Santo Tomás raciocina: “A cólera deve ser entendida de dois modos. De um, como simples movimento da vontade, pelo qual alguém impõe uma punição, não por paixão, mas em virtude de um julgamento da razão. E, assim, sem dúvida, a falta de cólera é um pecado. Quando um homem se zanga com razão, sua cólera já não provém da paixão e por isso se diz que ele julga, não se enraivece. Em outro sentido, a cólera é tirada de um movimento do apetite sensível que acompanha uma paixão resultante de uma transmutação do corpo. Esse movimento é uma sequência necessária no homem, do movimento de sua vontade, desde que o apetite mais baixo acompanha necessariamente o movimento  do apetite mais alto, a menos que haja um obstáculo. Assim é que o movimento de cólera, no apetite mais alto, no apetite sensível, não pode faltar de todo, a menos que o movimento da vontade também falte ou seja fraco. Daí ser também um vício a falta de paixão da cólera, mesmo como falta de movimento na vontade dirigida à punição pelo julgamento da razão” (Sum. Theol. II, IIas, q. 158, art. 8).
Essa fina análise tomista da cólera, corrigida pela mansuetude, nos dá uma perfeita ideia do temperamento de um homem como Dom Vital, em sua verdadeira fisionomia. Não foi um fraco, um apático, um oportunista, que se acomodasse a qualquer situação, e confundisse a doçura e a mansidão de Cristo com a conivência com o mal. Por isso mesmo soube erguer-se varonilmente contra o erro, contra os poderosos, contra a iniquidade, sem temor do escândalo causado e particularmente das ameaças recebidas e postas em prática. Mas, ao mesmo tempo, jamais se deixou empolgar pela paixão, pela cólera apaixonada que é um vício tão grande quanto aquele “vício sem nome” de que nos falam S. João Crisóstomo, Santo Tomás e João de Santo Tomás, e que é a ausência da cólera quando há motivos de nos encolerizarmos. A mansuetude cristã não é um efeminamento. Não é um desfibramento do caráter. É apenas a educação da cólera, a afirmação de que o homem deve ser sempre senhor e não escravo de suas paixões.
O verdadeiro Dom Vital não foi, portanto, o homem truculento como pintam os seus adversários e como, por vezes, deixam de entender alguns dos seus próprios partidários. Foi, ao contrário, o perfeito filho de S. Francisco. Ao mesmo tempo, cheio de humildade, de pobreza, de renúncia, mas também inflexível na reação contra a iniquidade. Foi por isso mesmo um verdadeiro exemplo de cristão. Nele se conjugam, harmoniosamente, virtudes que o espírito do mundo apresenta como contraditórias: a energia e a mansidão, a firmeza e a renúncia, a inflexibilidade e a prudência, o espírito de ação e o espírito monástico de silêncio e oração. Conta-se que passava hora esquecidas rezando, alheio a tudo e a todos, a tal ponto que os coroinhas se divertiam em atirar, no bom frade, bolinhas de papel que iam ficando pregadas em seu hábito, sem que ele nem desse pela coisa, enquanto mergulhava em oração diante do Santíssimo.
Foi bispo contra a vontade. Defendeu-se, quanto pôde, contra a indicação da Santa Sé. Mas quando não houve outro remédio, foi Bispo de verdade, inteiramente devotado ao seu múnus pastoral, sem olhar a quaisquer interesses e conselhos de ordem subalterna ou utilitária. Sempre, porém, extremamente cuidadoso e sereno. Nunca partiu dele uma só provocação. Aguardou quanto pôde. Adiou qualquer solução mais forte enquanto foi possível e procurou trazer as Irmandades rebeldes ao reino da razão com boas maneiras. Só quando esgotou todos os meios pacíficos, como manda as Sagradas Escrituras, é que se dispôs a empregar as punições de ordem canônica.
Durante o processo, seu comportamento nunca foi o de um impulsivo. Exatamente o oposto. Sempre sereno, sempre superior, sempre conservando uma calma inalterável no meio dos acontecimentos catastróficos que abalavam todo o Império e toda a Igreja no Brasil, como só era possível a quem realmente vive uma vida de absoluto domínio de toda impulsividade inferior.
O retrato de Dom Vital, portanto, como um impulsivo, um apaixonado, um reacionário ultramontano, é tudo quanto há de mais contraditório com a verdade histórica e psicológica. Bravura e mansuetude foram as duas grandes virtudes desse varão realmente apostólico, exemplo perfeito da alma cristã que pôde compor, em perfeita harmonia, virtudes que o mundo geralmente dissocia, da violência arbitrária e da mansuetude uma ataraxia importante.
Não é, pois, o Dom Vital truculento, dos falsos retratos, que devemos colocar numa das culminâncias da nossa história espiritual e temporal, mas o verdadeiro Dom Vital, síntese incomparável de virtudes do coração manso, do caráter firme e da inteligência lúcida, reunidas num equilíbrio humano realmente sobrenatural.
(Texto publicado na Revista Dom Vital, ano XIII, n. 1, p. 8-10)

quinta-feira, 3 de outubro de 2013

HOMILIA NO ENCERRAMENTO DA FASE DIOCESANA DO PROCESSO DE BEATIFICAÇÃO E CANONIZAÇÃO DE DOM VITAL


Cardeal Eugênio de Araújo Sales
Arcebispo do Rio de Janeiro
Esta solene concelebração de ação de graças pelo encerramento da fase diocesana do Processo de Beatificação e Canonização de Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira se insere entre as efemérides notáveis desta Província, deste Estado, da Arquidiocese de Olinda e Recife. Para o Brasil, a exaltação deste Servo de Deus é um fator importante no fortalecimento da estrutura moral, pelo exemplo dado no cumprimento do seu dever como sucessor dos apóstolos. Mas ainda valiosa a contribuição à vida da mesma Igreja, em nossa Pátria e em nossos dias. O pastor se sacrificou a serviço da fidelidade à doutrina, à disciplina eclesiástica. Com coragem e prudência arrostou, entre outros sofrimentos, a perda da liberdade.
Muito me honra o convite do zeloso pastor, Dom Frei José Cardoso Sobrinho, para presidir essa concelebração. A Arquidiocese do Rio de Janeiro está profundamente vinculada a esta Igreja de Olinda e Recife. Do Rio veio Dom Helder Camara; do Rio, veio Dom Leme, que retornou à então Capital do País como sucessor de Dom Arcoverde, filho deste Estado  de Pernambuco e primeiro cardeal da América Latina. Por outro lado, Dom Vital, em janeiro, prisioneiro no Arsenal da Marinha, foi assim saudado por Dom Pedro Maria de Lacerda, ao visitá-lo: “Excelência, tem toda a jurisdição nesta terra. Vejo em Vossa Excelência um prisioneiro de Cristo; meu clero, meu cabido serão felizes, pondo-se às suas ordens”.
A amizade fraterna e a comunhão na defesa da verdade e da liberdade da Igreja uniram, desde então, Dom Vital, Bispo de Olinda e a Diocese do Rio de Janeiro.
A primeira leitura, da 2ª Carta de São Paulo ao dileto filho Timóteo, escrita na prisão, já no acaso da vida, no capítulo IV, que ouvimos há pouco, é uma solene admoestação perfeitamente posta em prática por Dom Vital. A resposta do Servo de Deus a esse trecho da Carta do Apóstolo foi admiravelmente afirmativa. E hoje, pelo exemplo, ele encarece à Igreja do Brasil, ao Episcopado em particular, a observância das diretrizes dadas por Paulo. Neste momento quero recordar a atitude de um sucessor dos apóstolos, obedecendo às normas dadas por Paulo a Timóteo.
O Imperador Dom Pedro II, querendo demonstrar gratidão pelo grande trabalho que os capuchinhos realizavam no Império, desejou que um de seus membros fosse elevado ao episcopado. Vacante a Sé de Olinda, a escolha recai sobre o jovem frade brasileiro. Dom Vital tinha apenas 27 anos, nessa oportunidade.
Proposto o seu nome, o Papa Pio IX confirma-o na função e profeticamente lhe escreve: “Hás de estrenuamente defender a causa de Deus e nada omitir do que possas dizer a respeito da causa da salvação em proveito do rebanho a ti confiado”. Ordenado bispo na Catedral de São Paulo, a 17 de março de 1872, teve como sagrante o bispo do Rio de Janeiro, Dom Pedro Maria de Lacerda, que durante o duro período da “Questão Religiosa” lhe seria amigo, irmão fiel. A 24 de maio do mesmo ano toma posse da Sé de Olinda, escrevendo, então, sua primeira Carta Pastoral aos diocesanos onde transparece todo o seu zelo: “Saúde, forças, faculdades e até a própria vida, tudo, tudo agora pertence a vós!”.
Período difícil e conturbado encontra Dom Vital ao assumir o seu múnus episcopal. O regalismo criara intromissões lastimáveis na vida eclesial, acarretando dependência da Igreja ao poder civil, enfraquecendo a disciplina eclesiástica e multiplicando abusos. Ao ser suspenso um sacerdote no Rio de Janeiro, após participar de grande festa maçônica, toda uma manifestação anticlerical se fez propagar por todo o país. Graves ofensas á religião foram veiculadas e os bispos afrontados em sua autoridade pastoral. Em Plinda e Recife, esgotados todos os expedientes paternos, Dom Vital lança, por fim, o interdito sobre algumas Irmandades rebeldes. Estas, por sua vez, apresentaram recursos ao Imperador contra a decisão do bispo. Era o estopim da chamada “Questão Religiosa”.
O ministro do Império e amigo pessoal de Dom Vital, Conselheiro João Alfredo, escreve-lhe pedindo que transija. A resposta do bispo é digna de quem segue as diretrizes do apóstolo Paulo, em sua epístola a Timóteo: “Que fazer diante do dever? Quando mesmo já fosse eu um bispo octogenário, tendo apenas alguns dias de vida, não trairia os deveres de minha missão”. E mais adiante: “Compreenda Vossa Excelência que esta questão é de vida ou morte para a Igreja do Brasil. Cumpre-nos antes, arcar com os maiores sacrifícios que afrouxar. Procederei sempre com muita calma, prudência e vagar: porém ceder, e não ir avante é impossível. Não vejo meio termo”. Esta carta traz a data de 27 de fevereiro de 1873.
Dom Vital é para nós um exemplo e um estímulo. Seu testemunho de fidelidade ao Evangelho, sem concessões nem desvios, é sempre atual. Ele procura a autenticidade eclesial, a autonomia da Igreja diante do poder civil, a afirmação de seus direitos. Ao tomar posição firme e esgotados os recursos da caridade, Dom Vital tornou-se o bispo da opção. Entre acomodar-se e transigir, preferiu resistir.
A figura de Dom Vital é modelo digno de ser apresentado aos nossos jovens: “Hoje dizia ele, em sermão pronunciado em Versailles, o padre há de ser homem de sacrifício: há de fazer a Deus o sacrifício de seu corpo e de sua vida. Ele deve acostumar-se a olhar o martírio sem receio. Somente com esta condição poderá cumprir sua missão de defender, até o fim, os direitos da Igreja e da verdade”. Coerente consigo mesmo e com a sua vocação, Dom Vital foi fiel até o fim: “Se no início de minha vida religiosa tivesse previsto a estranha sorte dolorosa que estava reservada, ainda com melhor vontade, teria desejado cumpri-la”. Exemplos como este devem ser recordados às novas gerações, porquanto são fruto da autenticidade cristã.
O Evangelho de São João, lido nesta missa solene, nos descreve Jesus o Bom Pastor. Dom Vital seguiu os passos do Senhor. Ele, que deu a vida pelas ovelhas, defendendo-as do erro, “abre a porta do redil das ovelhas; quem sobre por outro lugar é ladrão ou assaltante (10,1)”.
O pastor é arrancado do seu rebanho. Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, o bispo de Olinda, está em sua residência, o Palácio da Soledade. Às 13 horas e um quarto, de 2 de janeiro de 1874, recebe ordem de prisão. Toma as vestes pontificais, com mitra e báculo. Prepara e lê um protesto, declarando que “em face de nosso rebanho muito amado e de toda a Santa Igreja de Jesus Cristo, da qual somos bispo, posto que muito indigno, só deixamos esta cara diocese que foi confiada à nossa solicitude e vigilância, porque dela fomos arrancados violentamente pela força do Governo”. Impedido pelo Juiz de ir a pé, é transportado para a corveta “Recife”, conduzido ao Rio de Janeiro, encarcerado no Arsenal da Marinha.
Memorável é este dia para esta Arquidiocese de Olinda e Recife e de todo o Brasil, quando é encerrada a fase diocesana do Processo para a Beatificação deste Servo de Deus. No passado, o grande propugnador da Causa de Dom Vital foi Frei Félix de Olívola. Além de sua obra de fôlego, a biografia, preparou valiosa documentação e viajou a Roma para entregá-la aos capuchinhos, na expectativa da beatificação do 20º bispo de Olinda. Na viagem por navio, teve morte súbita. Seu corpo foi jogado ao mar, com toda a bagagem. Fracassou, assim, a primeira tentativa concreta.
Em 24 de julho de 1953, o então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio de Almeida Moraes Junior, nomeou uma comissão para recolher o material histórico. Em 1960, instaurou o Processo sobre os escritos e constituiu um Tribunal arquidiocesano.
Lamentavelmente, os trabalhos foram paralisados no fim da década e o movimento em torno de Dom Vital arrefeceu. A atitude heroica dessa figura notável de pastor fiel é hoje quase desconhecida, especialmente da juventude, tão carente de bons exemplos. Dom Vital foi extraordinário em sua fidelidade à Igreja e obediência ás suas normas, mesmo a custas de grandes sofrimentos. O conhecimento desse Processo ajuda-nos no cumprimento de nossos deveres de cristãos. Oportuno, portanto, reavivar a memória nacional no tocante a esse episódio da história, perseguição e encarceramento de um sucessor dos apóstolos, por urgir, no interior da própria Igreja, o cumprimento da legislação eclesiástica.
Felizmente – e é merecimento do atual arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho – foi reaberto o Processo, a 14 de janeiro de 1992. Para fundamentar o pedido de reconhecimento das virtudes heroicas de Dom Frei Vital,por parte da Santa Sé, a Comissão Especial teve a incumbência de realizar uma pesquisa histórica a respeito das etapas do mesmo Processo, concluído no passado. Em 1993, Monsenhor Francisco de Assis Pereira, do clero potiguar, foi designado “postulador da Causa”.
Aqui estamos agradecendo ao Senhor o término da fase diocesana deste Processo. Agradecemos a Deus o extraordinário e benemérito trabalho realizado. E pedimos ao Senhor Jesus as graças necessárias para alcançar o êxito desejado: a elevação à honra dos altares do Servo de Deus Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Esse reconhecimento de suas virtudes heroicas muito beneficiará a Igreja e nossa pátria. A desejada beatificação será a proclamação dos méritos do grande bispo. Ele é um testemunho claro e explícito de nossa fé.
A coragem, quando unida à prudência, é uma das virtudes de grande importância na vida eclesial, também em nossos dias. No ambiente reinante no mundo de hoje, muitas vezes a criatura – e não o Criador – encontra defensores. Dom Vital lutou até ao sacrifício da própria vida, em favor da obra de Cristo.
Homilia Proferida na Basílica de N. Sra. da Penha, em Recife-PE, no dia 04/07/

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Chesterton vs Nietzsche - "Deus morreu" - G K Chesterton The Apostle of Common Sense

RETÓRICA E ELOQUÊNCIA - Mário Ferreira dos Santos

De Mário Ferreira dos Santos
Capítulo do livro "CURSO DE ORATÓRIA E RETÓRICA"


Uma das mais justas e nobres aspirações de todos é ter o pleno domínio das ideias e dos meios de expres-são. A maioria sente dificuldade em escrever, falar e argumentar. E não são poucos aqueles que, em face de outras pessoas, sentem-se inibidos, faltam-lhe as palavras no instante preciso, que, momentos depois, surgem abundantes e nítidas.

Factos como esses provocam insatisfações e servem apenas para aumentar o poder inibidor, pela falta de confiança em si mesmo que se apodera de quem passa por tais experiências.
Entretanto, são elas tão frequentes, tão comuns, em todas as épocas e ocasiões, que há necessidade de evitarem-se tais malogros, e permitir e auxiliar que as ideias surjam vivas e eficientes, revestidas de pleno brilho pelo emprego justo de palavras correspondentes.
Impõe-se, por isso, sempre o estudo da Retórica e da Eloquência.

Muitos professores julgam suficientes os métodos práticos, em contraposição ao excesso de teoria que se ministrava antigamente.

Depois de percorrermos, por uma análise cuidadosa, muitos cursos, nacionais e estrangeiros, e considerando as nossas típicas condições psicológicas, organizamos um programa que não dispensa nem a parte teórica nem a prática, embora considere da primeira apenas o essencial, e inclua, na segunda, tudo quanto de melhor tem revelado a experiência de famosos oradores.

Não se pode excluir o estudo teórico e apresentar apenas o prático, porque aquele fundamenta a aplicação do segundo e dá ao estudioso meios de novas investigações.
É a palavra um meio maravilhoso de aperfeiçoamento do espirito: todas as palavras são sinais de ideias, e corno partimos das Ideias, para revesti-las com palavras, também podemos partir das palavras pura construir novas Ideias

O manejo simples e o domínio pleno das palavras abre um campo imenso ao progresso individual, pois em todas as eras ela foi, como ainda é, o meio mais eficaz de comunicação entre os homens.

O primeiro cuidado de quem deseja ser estimado como escritor, atrair a atenção como orador, consiste em enriquecer o vocabulário e as ideias. E todas as ocasiões devem ser aproveitadas para esta atividade tão frutuosa. Além disso, para comunicar suas ideias, desde que tenha alguma coisa a dizer, a linguagem deve ser clara, agradável, compreensível e interessante.

Ora, tais qualidades podem ser obtidas, apesar de exigirem esforço, trabalho e muita prática. Não se pode construir uma boa retórica sem uma base lógica e uma sólida dialéctica.

Esta é a razão por que desde o início queremos chamar a atenção para os exercícios práticos que são oferecidos neste livro. Eles devem ser seguidos à risca e repetidos constantemente, até quando julgados fáceis.

Um dos graves defeitos de todos os que estudam qualquer matéria é não dar maior atenção aos exercícios. Referem-se estes à parte somática, cuja constante repetição cria o hábito. Compreender cabe ao espírito. É muito; porém não é tudo. É preciso realizar o prático. Quem fala bem, não é acaso aquele de quem dizemos ter "o hábito de falar em público?"

Além disso, o raciocínio deve ser claro, sem ideias confusas, revestido depois por palavras correspondentes. Como pode convencer a outrem quem não sabe expressar o que pensa? Quem não é senhor do que pensa, como pode ser senhor do que diz?

Pensar claro e expressar claro. Dar nitidez às ideias em primeiro lugar, depois procurar formas que as revistam sem empanar essa diafaneidade.

E como se consegue este domínio? Em primeiro lugar, não falar nunca do que se desconhece. Nada há mais aborrecido que ouvir um orador falar do que não sabe.

O domínio do tema é um ponto de partida importante. Depois, outros virão. . .

Comecemos, pois, nosso caminho, para percorrê-lo. 

* * *

Pode o gosto ser definido como "a faculdade de receber uma agradável impressão das belezas da natureza e da arte". Todos os homens são dotados de gosto, pois todos avaliamos, estimamos, valoramos.

Há um sentimento de beleza, que é comum a todos, embora em graus diferentes. Uns têm mais aptidão, mais capacidade de apreciar, mais requinte no gosto, outros menos. Uns sentem a beleza na harmonia, nas belas proporções, para as quais outros são quase cegos.
Mas sempre, até no mais estúpido dos seres humanos, há um ponto em que a admiração é despertada, em que é capaz de sentir e gozar da beleza das coisas. Não basta para bem apreciar ter sentidos agudos, boa percepção. Impõe-se a educação requintada do gosto que é mental, como nos mostra a psicologia. Um semi-surdo pode ser um grande apreciador de música, e entendê-la e criá-la (como Beethoven). A educação é mental e não meramente dos sentidos, que apenas servem de meios para nos transmitirem os estímulos exteriores.

Não há dúvida que a sensibilidade pessoal é decisiva em muitos pontos. Quem nasce com predisposição artística tem naturalmente possibilidades maiores. Mas a educação pode preparar-nos ("educar o gosto", como se diz) para aumentar o grau de apreciação e de prazer que oferece a contemplação da beleza.

O gosto sofre modificações não só de indivíduo para indivíduo, como de época para época. Na Idade Média, o gótico suplantou no gosto dos povos europeus a arte grega, que ressurgiu, depois, no Renascimento. Quando Milton escreveu o "Paraíso Perdido", a simplicidade majestosa de sua obra passou despercebida, enquanto autores, hoje esquecidos, como Cowley, Wallaer, Suckling e Etheridge, conseguiram interessar mais aos leitores de então. É o que se dá ainda em nossos dias. Vemos meteoros surgirem deslumbrantes no céu, mas passarem com a velocidade dos meteoros. Obscurecem, por momentos, o brilho pálido das estrelas, mas este é eterno.

Como o gosto depende da subjetividade, costuma-se dizer que "de gostos não se discute". Realmente, o gosto, apenas por seu aspecto subjectivo, não é passível de discussões sérias. Mas a obra de arte, a beleza que esta na obra de arte, é discutível. O que o gosto procura e a beleza. Encontrá-la é a missão do verdadeiro artista. Numa época como a nossa, uma época de transição, era que todos os valores estão colocados na mesa para serem analisados, em que uma torrente de opiniões mal dirigidas perturba a humanidade, em que ideias das mais diversas procedências disputam entre si uma prioridade duvidosa, é natural que a confusão em questões de gosto seja premente e impeça um critério firme que nos oriente através do acúmulo de pontos de vista dos mais contraditórios. Tal, no entanto, não impede que estudemos, calma e serenamente, a beleza que sempre tem sido a meta desejada pelos homens, fugindo quanto possível a sugestão das formas da moda.

* * *

A maneira mais simples, sob a qual podemos avaliar a grandeza nos objetos, é a de uma extensão imensa, por exemplo, a de um grande campo onde a vista se perde na distância. As coisas vastas fazem nascer a impressão do sublime, É essa a impressão que dá o cimo de uma montanha, um abismo profundo, um grande rio, cujas margens desaparecem na distância, o firmamento, o oceano, o universo estrelado. Foram sempre esses os temas mais sublimes que a literatura empregou. Assim como a proporção exata das partes constitui quase sempre a beleza, o sublime desdenha essa proporção. O sublime aceita o desproporcionado, o imenso, o ilimitado. Uma catedral gótica, com suas torres esguias, penetrando pelo céu, dá-nos sempre uma impressão do sublime.

Contudo, o sublime não é somente revelado nas coisas, mas também no estilo. O sublime só se verifica no estilo quando há plena concordância deste com o objecto que deseja expressar, e esse objecto é já sublime. No sublime, sentimos que ultrapassamos a nós mesmos, como se nos fosse dado apreciar o que sentimos muito mais elevado ou longe de nós. Os estudiosos clássicos da retórica davam cinco fontes do sublime. Vamos sintetiza-las:

1.a) a audácia ou grandeza nos pensamentos;
2.a) o patético;
3.a) o emprego conveniente das figuras;
4.a) o uso de tropos e expressões ricas;
5.a) a construção harmoniosa das palavras.

O estilo sublime não necessita de ornamentos. É na simplicidade que está muito da sua grandeza. O homem de hoje não se impressiona tão vivamente com os factos da existência como um homem primitivo, para o qual cada facto encerrava em si mistérios insondáveis e a natureza não tinha aquele sentido lógico e legal que nós lhe damos.

Por isso é tão raro o sublime hoje. Só em certos momentos êle nos surge, às vezes, num pequeno facto que nos exalta e nos leva a sobrepassar a nós mesmos. No décimo-sétimo salmo, temos o sublime em toda a sua simplicidade, como o temos nas descrições da Ilíada. No entanto, o sublime pode ficar desmerecido pelo estilo do autor quando os termos não estão à altura da ideia. Pode encontrar-se ainda o belo, mas o sublime já não existe mais.

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A simplicidade, a concisão são necessárias para aparelhar a ideia sublime, a ideia que nos exalta. Assim nesta frase de Nietzsche: "Deveis buscar o vosso inimigo e fazer a vossa guerra, uma guerra por vossos pensamentos; e se vosso pensamento sucumbir, vossa lealdade, contudo, deve cantar vitória", há muito do sublime como o entendemos hoje: a simplicidade permite que o sublime da ideia ressalte. Um outro autor encheria de frases, de tropos, de imagens, e diluiria a sublimidade para ressaltar apenas a beleza.

Essa a razão por que a poesia rimada oferece tantos perigos e tantos males ao sublime. É que a necessidade da rima leva muitas vezes a frases desnecessárias e a simplicidade é prejudicada.

Um outro aspecto não se deve deixar de lado. O grande escritor é aquele que é capaz de tornar sublime o que, nas mãos de um medíocre, não tem sublimidade. Temas aparentemente simples tomam um caráter complexo nas mãos do grande escritor. E como se consegue isso?

Consegue-se ao fixar em cada ideia o seu aspecto mais elevado, aquele que é capaz de ultrapassar o tempo, aquele que tem um significado que ultrapassa o transeunte, o trivialmente comum. Assim, digamos que alguém quer referir-se a certas suspeitas surgidas por entre os pensamentos. Sabemos que elas surgem nos momentos de desfalecimento, ou quando o pensamento não consegue, com certa força, traduzir o seu objecto. No entanto, um Byron, aproveitando-se desse facto, expressa-o assim: "As suspeitas são entre os pensamentos o que os morcegos são entre os pássaros: só voam ao crepúsculo".

A mesma ideia é expressa, com tal tom, que nos eleva imediatamente, isto é, nos dá a emoção do sublime, e não da trivialidade. Assim vimos que há um sublime na natureza, mas há um sublime nas ideias.

O sublime das ideias está nas ideias e não nas palavras. O segredo do sublime está em expressar grandes pensamentos com termos simples e bem claros. Os escritores mais sublimes no pensamento foram os mais simples nas palavras.

E os exemplos que demos já nos mostraram. Uma ideia, expressada chãmente, poderá transformar-se numa trivialidade, mas se dermos uma harmonia e aquele ímpeto que nos eleva, ela pode tornar-se sublime. Vamos a um exemplo: todos os homens são ambiciosos e o ser humano quereria ter tudo, ser tudo, apossar-se de tudo. No entanto não o pode. Que deve fazer senão conformar-se com os limites que lhe são naturais? Mas vejamos essa mesma ideia exposta acima, tão simples, trivial até, dita no Ramayana com sublimidade: "Nem todo o ouro do mundo, nem todo o trigo, nem todas as mulheres são bastantes para um só homem; lembra-te e resigna-te".

Há aí, na harmonia, e no ímpeto da frase, uma beleza que torna a ideia sublime. Há um calor que nos inflama, que se nos comunica.

Analise o leitor todas as ideias enunciadas que o arrebataram, que o elevaram, que o colocaram num certo instante acima de si mesmo, como sentindo-se pairar acima do comum, e verá que, em todas elas, há esse ímpeto ao lado da harmonia e da simplicidade. E este exercício já é uma preparação para o domínio do sublime.

"O mínimo que você precisa saber para não ser um idiota"

O Senhor dos Anéis

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