domingo, 31 de janeiro de 2010

Documentário sobre a cruz da Jornada Mundial da Juventude (JMJ)


-----------------------------------------

--------
Fonte:; http://www.youtube.com/amigodacruz

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Para os jovens!

Para os jovens!
  
(Autoria de Anacleto González Flores.
 Editoriales de la palabra,
17 de novembro de 1918) 

Que a juventude é a força, a energia mais poderosa da humanidade, é coisa que salta a vista e brilha diante de nós com evidência claríssima, e que por isto pesa sobre os jovens uma responsabilidade imensa, é uma verdade que só se atreverão a negar os que jamais tiveram nem sequer uma remota idéia da nobreza incomparável da missão da juventude. Praticamente se há chegado a crer que nessa idade em que treme o coração agitado pelas veemências enlouquecedoras que se despertam em nossa alma quando tudo é ritmo, canção, harmonia, sorriso, horizonte azul carregado de esperança, que voam desordenadas todas as ilusões, se há chegado a crer que então devemos dobrar o joelho, inclinar a cabeça diante do superficial, diante de tantos sonhos que rapidamente se esvaem, diante de tantas e tantas quimeras que depois de realizar sua marcha triunfal por nosso coração, se pia para deixar-nos mudos, desnorteados e entristecidos.

E se há chegado a pensar que as coisas austeras, graves e santas, são dignas só da velhice que já experimentaram os desenganos da existência e da força física, e é a época em que contra nosso desejo começamos a ver o lado sério da vida. Tudo isto há sido e é uma grande aberração, um erro imperdoável, uma das causas dos esquecimentos que tem arruinado os povos. Em todos os instantes do tempo, a vida individual e coletiva tem tido necessidade de grande e forte poder, de uma força que mantenha inquebrantável e firme o equilíbrio, que contenha o desdobramento das tendências demolidoras e canalize vigor indomável todas as energias e as empunhe até a verdade, até o bem, até Deus, que é a ordem eterna, a harmonia absoluta.

Veja bem, esse poder não o chamamos na velhice que é a impotência do músculo devorado pelo cansaço; não o encontramos nas crianças, fase que começa a despertar a luta, mas sim na juventude, onda que se choca para golpear a rocha endurecida, torrente que rompe o leito e transborda sobre planícies, tormenta em meio a trovões que tudo obscurece, tempestade que humilha e sopra impetuosamente sobre a frente altiva e orgulhosa das montanhas, paixão capaz de todos os sacrifícios e de todas as dores, braço, nervo, músculo forte que pode derrubar ou levantar de um só golpe as construções mais fortes e sólidas, que é, ainda quando incorremos em uma repetição, corrente de energias vivas da humanidade.

Esta força titânica, ímpeto de força, músculo gigante, não há prestado seu apoio a realização dos sistemas salvadores nem há influído como deveria nos movimentos transcendentais, todo tem sido arrebatado pelas loucuras do furação desordenado e tem sido impossível construir algo sólido. Já é tempo de que a juventude, que até agora tem vivido uma vida trunca, mutilada, dolorosamente mutilada, porque não tem reconhecido sua missão, porque não tem querido assumir sua responsabilidade, se detenha um instante na metade do caminho, lance seus olhos no futuro e medite seriamente que no momento atual a humanidade busca energias para se reconstruir.

E por isso da aridez dos campos entristecidos, das planícies embranquecidas com os ossos dispersos dos guerreiros vencidos, das oficinas enegrecidas do lugar ameaçado pela ruína, da boca dos oprimidos, dos lábios da pátria escarnecida e dos sentimentos maternais e sagrados da Igreja caluniada e perseguida, brota um grito que ao passar sobre a humanidade, faz ouvir uma ressonância que é canto de guerra, vibração que flutua acima dos cumes, estrofe que desperta entusiasmos, ritmo sonoro que redime e encoraja, hino que chama a luta, e arrasta a todos os combatentes, que treme, e se agita em torno da juventude com sacudidos do “Deus assim o quer” dos cruzados e que faz vibrar poderosamente esta palavra de esperança: sursum corda (Levantemos o coração!).

-----
Transcrito e traduzido do livro:
FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayuntamiento de Guadalajara, 2005. p. 571-573.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

"Devemos (...) encorajar mais uma vez o conceito de um "Jesus histórico"

[Esta carta foi transcrita do livro "Cartas de um Diabo a seu Aprendiz", de C.S. Lewis. Esta correspondência se dá entre o experiente diabo (Fitafuso) e o seu sobrinho Vermebile. Lewis nos dá uma aula de como são as artimanhas e arapucas utilizadas pelo diabo para nos confundir. Hoje, Lewis se surpreenderia como nós demos tão rapidamente ao diabo o maior prêmio que ele poderia receber: não acreditar na existência dele; ou, acreditar em demasia e se sentir atraído por ele! Amigo da cruz]


Querido Vermebile,


Através dessa moça e de sua família asquerosa agora o paciente passa a conhecer mais e mais cristãos todos os dias, e cristãos bastante inteligentes também. Durante um bom tempo, será praticamente impossível eliminar a espiritualidade da sua vida. Pois bem; sendo assim, devemos corrompê-la. Sem dúvida você muitas vezes já se transformou num anjo de luz como mero exercício de exibicionismo. Agora é hora de fazer isso diante do Inimigo. O Mundo e a Carne nos desapontaram; resta um terceiro Poder. E a vitória que ele nos dá é a mais gloriosa de todas. No Inferno, um santo corrompido, um fariseu, um inquisidor ou um mago é ainda melhor passa-tempo do que um simples tirano ou um libertino.

Observando os novos amigos do seu paciente, descubro que o ponto mais vulnerável dele ao ataque é a fronteira entre a teologia e a política. Vários de seus novos amigos estão bastante interessados nas implicações sociais da religião deles. Isso, por si só, é uma coisa ruim; mas podemos tirar proveito disso.

Você perceberá que muitos escritores políticos Cristãos pensam que o Cristianismo começou a dar errado bem cedo, afastando-se da doutrina do seu Fundador. Devemos fazer uso dessa ideia para encorajar mais uma vez o conceito de um "Jesus histórico", que só será encontrado quando eles se livrarem dos "acúmulos e perversões" posteriores, para depois compará-lo com toda a tradição Cristã. Na última geração de seres humanos, nós conseguimos estimular uma interpretação do tal "Jesus histórico" em linhas mais liberais e humanitárias; agora formulamos um novo "Jesus histórico" em linhas Marxistas, catastróficas e revolucionárias. As vantagens dessas interpretações, que esperamos modificar a cada trinta anos mais ou menos, são inúmeras. Em primeiro lugar, todas tendem a direcionar a devoção dos homens para algo que não existe, pois cada "Jesus histórico" não existe na história. Os documentos dizem o que dizem, e não podem ser alterados; cada novo "Jesus histórico", portanto, tem de ser criado a partir desses documentos, suprimindo certos aspectos e exagerando outros, e também fazendo certas suposições (genial é o adjetivo que ensinamos os humanos a aplicar à coisas) nas quais, na vida comum do dia-a-dia, ninguém apostaria nem dez centavos, mas que são suficientes para produzir uma safra de novos Napoleões, novos Shakespeares e novos Swifts na lista dos novos títulos das editoras.

Em segundo lugar, cada uma dessas interpretações confia a importância do seu Jesus histórico a alguma estranha teoria que supõe-se que Ele tenha pregado. Ele tem de ser um "grande homem", no sentido moderno da expressão - um homem no fim de uma linha de raciocínio centrífuga e desequilibrada - um excêntrico que vende uma panaceia. Desse modo, conseguimos distrair a mente dos homens daquilo que Ele é e daquilo que Ele fez. Primeiro, fazemos d'Ele um simples mestre, e depois escondemos a própria semelhança essencial que existe entre Seus ensinamentos e aqueles de todos os outros grandes mestres morais. Pois não devemos permitir que os humanos percebam que todos os grandes moralistas são enviados pelo Inimigo - não para informar os homens, e sim para relembrá-los, para restabelecer aquelas obviedades morais primordiais, opondo-se ao contínuo obscurecimento que fazemos delas. Nós criamos os Sofistas; Ele cria um Sócrates para responder a eles.

E o nosso terceiro objetivo é destruir, com essas interpretações, a vida devocional. Substituímos a presença real do Inimigo, experimentada pêlos homens na prece e no sacramento, por uma figura pouco plausível, remota, obscura e esquisita, alguém que falava numa língua estranha e que morreu há muito tempo. Tal objeto certamente não é digno de adoração. Em vez, do Criador adorado pela sua criatura, em breve você terá apenas um líder aplaudido por um partidário, e finalmente um ilustre personagem aprovado por um historiador criterioso.

E, em quarto lugar, além de não possuir uma base histórica para esse Jesus que descreve, esse tipo de religião prova-se também falsa em outros aspectos históricos. Nenhuma nação, e pouquíssimas pessoas, chegam até o Inimigo pelo estudo histórico da mera biografia de Jesus. Na verdade, os fatos necessários para uma biografia completa foram ocultos dos homens. Os primeiros adeptos do Cristianismo se converteram por causa de um único fato histórico (a Ressurreição) e uma única doutrina teológica (a Redenção) que estava de acordo com um entendimento de pecado que eles já possuíam - pecado, deve-se ressaltar; não algo baseado em alguma lei falsa apresentada como novidade por algum "grande homem", e sim na velha e corriqueira lei moral universal que lhes foi ensinada por suas mães e amas-secas. Os "Evangelhos" vieram mais tarde e foram escritos não para criar Cristãos, e sim par edificar os Cristãos já existentes.

Portanto, devemos sempre promover o "Jesus histórico", por mais perigoso que isso possa parecer para nós em certos momentos. Mas, quanto à ligação existente tente entre o Cristianismo e a política, nossa posição um pouco mais delicada. Obviamente, não desejamos que os homens permitam que o Cristianismo domine sua vida política, porque estabelecer qualquer coisa parecida com uma sociedade realmente justa seria uma grande tragédia. Por outro lado, devemos desejar ardentemente que os homens tratem o Cristianismo como um meio para alcançar determinados fins; de preferência, é claro, como um meio para benefício próprio; mas, se não conseguirem isso, como um meio para qualquer coisa - mesmo que seja para a justiça social. Você deve fazer com que os homens primeiro vejam a justiça social como algo que o Inimigo exige, e fazer com que eles depois cheguem ao estágio no qual dão valor ao Cristianismo porque ele pode gerar a justiça social; pois o Inimigo não deseja ser usado como mera conveniência. Se assim fosse, os homens ou as nações que acreditam que devem restaurar a fé para criar uma sociedade justa poderiam muito bem utilizar o caminho que leva ao Céu como um atalho para a farmácia mais próxima. Felizmente, é bem fácil seduzir os humanos a pensar assim.

Hoje mesmo encontrei urna passagem na obra de um escritor Cristão na qual ele recomenda aos leitores a sua própria versão de Cristianismo, argumentando que "apenas essa fé pode sobreviver à morte das culturas antigas e ao nascimento de novas civilizações". Percebe a diferença? "Creia em tudo isso, não por ser algo verdadeiro, mas por alguma outra razão." Esse é o jogo.

Afetuosamente, seu tio, FITAFUSO

CLIVE STAPLES LEWIS, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, Carta 23, Oxford, 1942.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

SITES DAS PARÓQUIAS DA ARQUIDIOCESE DE BH

"É inclusivamente importante que as pessoas, a todos os níveis da Igreja, lancem mão da Internet de maneira criativa, para assumirem as responsabilidades que lhes cabem e para ajudarem a Igreja a cumprir a sua missão. Na perspectiva das inúmeras possibilidades positivas apresentadas pela Internet, não é aceitável hesitar timidamente, por medo da tecnologia ou por algum outro motivo. « Os métodos de melhoramento das comunicações e do diálogo entre os seus membros podem reforçar os vínculos de unidade entre eles. O acesso imediato à informação torna-lhe [para a Igreja] possível aprofundar o seu diálogo com o mundo contemporâneo... a Igreja pode mais prontamente informar o mundo sobre o seu credo e explicar as razões da sua posição sobre cada problema ou acontecimento. Ela pode escutar mais claramente a voz da opinião pública e estabelecer uma discussão contínua com o mundo em seu redor, “para assim se envolver mais imediatamente” na busca comum da solução dos problemas mais urgentes da humanidade (cf. Communio et progressio, 114) ». (Cf. Igreja e internet, 10)


LISTA DE SITES DAS PARÓQUIAS DA ARQUIDIOCESE DE BELO HORIZONTE

REGIÃO EPSICOPAL NOSSA SENHORA DA PIEDADE(RENSP)

Arquidiocese de Belo Horizonte
http://www.arquidiocesebh.org.br/site/
Paróquia Santa Efigênia
http://www.santaefigeniabh.org.br/
Paróquia Nossa Senhora Rainha
http://www.nsrainha.com/home/index.php
Paróquia Nossa Senhora da Consolação
http://www.igrejaconsolacaocorreia.com.br/home/index.php
Paróquia São José
http://www.igrejasaojose.org.br/
Paróquia São Sebastião
http://www.igrejasaosebastiao.com.br/
Paróquia Santa Luzia
http://www.igrejasantaluzia.org/
Paróquia Santa Cruz
http://www.parsantacruz.org.br/
Paróquia Nossa Senhora da Glória
http://www.portaldagloria.org.br/site/
Paróquia Nossa Senhora do Bom Sucesso
http://www.pnsbs.com.br/
Paróquia São Judas
http://www.saojudasbh.com.br/
Paróquia Nossa Senhora de Nazaré
http://www.paroquiansnazare.org.br/
Paróquia Senhor do Bom Jesus
http://www.senhorbomjesus.org.br/
Paróquia Santo Inácio
http://www.paroquiasantoinacio.com.br/

REGIÃO EPISCOPAL NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO (RENSC)
Nossa Senhora das Neves
www.nsneves.com/
Paróquia Santa Maria Mãe de Deus
http://www.santamariamaededeus.org.br/
Paróquia São Francisco Xavier
http://www.psfx.org.br/
Paróquia São Sebastião e São Vicente
http://www.psssv.blogspot.com/

REGIÃO EPISCOPAL NOSSA SENHORA DA ESPERANÇA (RENSE)

Paróquia Nossa Senhora Rainha da Paz
http://www.rainhadapaz.org.br/
Paróquia São Luiz Gonzaga
http://www.pslg.com.br/
Paróquia Santa Clara de Assis
http://www.portalsantaclara.org.br/
Paróquia Santíssima Trindade
http://www.santissimatrindade.org.br/
Paróquia Santa Terezinha do Menino Jesus
http://www.teresinha.com/2009/

REGIÃO EPISCOPAL NOSSA SENHORA APARECIDA (RENSA)
Paróquia Cristo Redentor
http://www.cristoredentor.org.br/

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

A Igreja Católica: Construtora da Civilização

Série da EWTN apresentada por Thomas E. Woods, autor do livro Como a Igreja Católica Construiu a Civilização Ocidental (Quadrante).

Thomas Woods graduou-se na Universidade de Harvard e é doutor em História pela Universidade de Columbia.

----------
1.1 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Introdução


-------------------------------------------------------
1.2 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Introdução

------------------------------------------------------
1.3 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Introdução

-------------------------------------------
2.1 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Igreja e Ciência

-------------------------------------------
2.2 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Igreja e Ciência

-------------------------------------------
2.3 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Igreja e Ciência

-------------------------------------------
3.1 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Padres como pioneiros da ciência

--------------------------------------------
3.2 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Padres como pioneiros da ciência

--------------------------------------------
3.3 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Padres como pioneiros da ciência

--------------------------------------------
4.1 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - O Caso Galileu

--------------------------------------------
4.2 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - O Caso Galileu

--------------------------------------------
4.3 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - O Caso Galileu

--------------------------------------------
5.1 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - O Sistema Universitário

--------------------------------------------
5.2 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - O Sistema Universitário

--------------------------------------------
5.3 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - O Sistema Universitário

--------------------------------------------
12.1 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Atrocidades anticatólicas

--------------------------------------------
12.2 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Atrocidades anticatólicas

--------------------------------------------
12.3 A Igreja Católica: Construtora da Civilização - Atrocidades anticatólicas

COMO ESTRAGAR A LITURGIA

COMO ESTRAGAR A LITURGIA*
(Autor desconhecido)


[Confesso que a primeira vez que li este artigo senti como que estivesse lendo uma nova carta do livro: Cartas de um diabo ao seu Aprendiz, de C.S. Lewis. Muito interessante o artigo. Amigo da Cruz.]

1. Como esconder o altar
Esconda o altar debaixo de uma grande toalha branca com rendas, como se usa em banquete de casamento novo-rico. Aperfeiçoe a camuflagem pondo à frente do altar uma mesinha com bacia e jarra tamanho GG para lavar as mãos, cadeiras de presidente e ministros, caixa de som, tronco do dízimo e estandarte da irmandade. Sobre o altar, ponha seis castiçais barrocos, com velas coloridas e rendas na base da vela, como também alguns conjuntos de flores (artificiais, para economizar), um grande pão (pode ser pão-de-açúcar), uma bandeja com frutas (de preferência jaca), uma imagem de Nossa Senhora e uma estante para receber a Bíblia que será trazida em procissão dançante. Se sobrar espaço, coloque também uma estante ou uma almofado (da cor do time do padre) para o missal.

2. Como abafar a palavra
Ponha o microfone no volume máximo. Provoque regularmente microfonia, sem ter pressa de acertar o som. Introduza o maior número possível de comentários. Evite usar o lecionário litúrgico e leitores treinados. Fale ao povo para acompanhar no folheto, pode ser um exercício de alfabetização coletiva. Use o folheto ainda para ventilar. Antes das leituras, apresente o leitor como nome e sobrenome, inclusive da sogra. Substitua a primeira leitura por um texto de Paulo Coelho. Na homilia, fale as últimas notícias da Igreja e não mencione o evangelho, a não ser para introduzir o relatório de sua recente viagem à Terra Santa.

3. Como esvaziar os símbolos
Faze uma procissão com símbolos no início, no meio e no fim. Explique amplamente os símbolos, para lhes dar um sentido, já que pode não ser evidente. Não tenha medo de repetir sempre os mesmos símbolos novos, mas, para não sobrecarregar, esqueça os símbolos que a liturgia já tem de si mesma.

4. Como matar o canto
Confie a parte musical a uma banda de rock. Tente imitar Padre Marcelo ou, ao menos, Roberto Carlos. Escolha melodias que na América do Norte são autóctones. Não dê a letra ao povo e cuide de que ele não a entenda. Cante tudo com a mesma força máxima, e todas as estrofes até o fim; desconheça a diferença entre estrofe e refrão, solista e canto geral. Alterne os cantos cantados ao vivo com músicas de CD, com o acompanhamento mais chinfrim possível.

5. Como banir o silêncio
Construa sua igreja rente à rua principal e deixe a porta bem aberta durante a celebração. Prepare o ambiente da missa, tocando música religiosa meio hora antes (no tempo comum, o Coro dos Escravos de Verdi; na Semana Santa, o Aleluia de Haendel; na Páscoa, o final da Nona Sinfonia de Beethoven). Se depois da missa houver festa da comunidade no pátio ao lado, peça que os jovens testem o som durante a missa. Não deixe um segundo de silêncio durante a ação litúrgica. Se casualmente houver algum momento sem outro barulho, contrate umas mães para que ponham seus filhos a chorar. Depois da comunhão, dê a palavra a um candidato político.

6. Como desfigurar o celebrante
O celebrante seja vestido de maneira ecléctica, pós-moderna: túnica axê, casula romana, estola andina, cruz de bispo oriental no peito. Se sofrer de resfriado, pode usar turbante hindu. Treine a voz escutando as rádios apropriadas para ela ficar melosa. Nunca fale em tom de quem preside, pois isso seria antidemocrático. Comece cada frase com “Vamos...”. Não use o microfone na oração eucarística, pois essa não precisa ser ouvida, já que não tem nenhuma novidade. Dê instruções aos ministros, não com antecedência, mas a cada momento da missa, interrompendo ostensivamente a ação sagrada. Se for capaz, ou também se não o for, puxe o canto tocando violão ou teclado posto sobre o altar. De vez em quando corra à sacristia para levantar mais ainda o som.


7. Como alienar o povo
Organize sua liturgia de modo que possa competir com os shows da TV. Evite tocar em assuntos melindrosos, como sejam a justiça, a educação, o desemprego, a corrupção (especialmente a da própria cidade). Diga que tudo vai bem quando tudo vai mal. Ensine que Jesus é bom em vez de justo, pois a justiça não é boa para os donos deste mundo. Ensine que Jesus lava nossos pecados com seu sangue e que, portanto, podemos abastecer a lavanderia à vontade. Não confronte as pessoas com Deus nem consigo mesmas.

8. Como desfigurar o sentido da eucaristia
Logo após o relato institucional, conduza um momento de adoração, com muitos gritos e louvores, terminando com derramamento de lágrimas ao som de músicas como "Ninguém te ama como eu" ou "Jesus está aqui, Aleluia, tão certo como o ar que eu respiro..." (o povo gosta...).

Ao final da missa, tome um ostensório de meio metro (ou mais, depende da situação econômica da comunidade; aliás, nem tanto, pode ser pago em leves prestações, no campo religioso temos bondosas casas comerciais, cheias do melhor espírito evangélico de ajuda aos pobres), coloque-o sobre o altar antes da missa e conduza uma oração de cura e libertação. Em seguida, caminhe com ele em meio à multidão, instigando-a a tocá-lo com carteiras de trabalho e fotos, bem ao estilo “Universal catolicizado”.

_____________________________
* Se alguém pensa descobrir nestas orientações uma crítica à inculturação luso-afro-brasileira ou ameríndia, ou às celebrações das capelas pobres e das comunidades populares, asseguro que essa não é a intenção.

A Igreja e o Estado para Santo Tomás de Aquino



O fim do homem, para Santo Tomás, é o aperfeiçoamento de sua natureza, o que somente pode cumprir-se em Deus. A finalidade última das ações humanas transcenderia, portanto, ao próprio homem, cuja vontade, mesmo que ele não o saiba, leva-o a dirigir-se ao ser supremo.

Para que possa ser considerada boa, a vontade deve conformar-se á norma moral que se encontra nos homens como reflexo da lei eterna da vontade divina. Esta, no entanto, não pode ser conhecida pelo homem, de tal forma que ele deve limitar-se a obedecer aos ditames da lei natural, entendida como lei da consciência humana.

Em política, Santo Tomás distingue três tipos de lei, que dirigem a comunidade ao bem comum.

O primeiro é constituído pela lei natural (conservação da vida, geração e educação dos filhos, desejos da verdade); o segundo inclui as leis humanas ou positivas, estabelecidas pelo homem com base na lei natural e dirigidas à utilidade comum; finalmente, a lei divina guiaria o homem à consecução de seu fim sobrenatural enquanto alma imortal.

Quanto ao problema das relações entre o poder temporal e o poder espiritual, as idéias de Santo Tomás revelam a procura de equilíbrio entre as tendências conflitantes da época. O Estado (poder temporal) é concebido como instituição natural, cuja finalidade consistiria em promover e assegurar o bem comum.

Por outro lado, a Igreja seria uma instituição dotada fundamentalmente de fins sobrenaturais. Assim, o Estado não precisaria se subordinar à Igreja, como se ela fosse um Estado superior. A subordinação do Estado à Igreja deveria limitar-se aos vínculos de subordinação existentes entre a ordem natural e a ordem sobrenatural, na medida em que esta aperfeiçoaria a primeira.

A harmonização, no plano social e político, entre poder temporal e poder espiritual seria, portanto, análoga à que Santo Tomàs procura estabelecer entre filosofia e teologia, entre razão e fé.

------------------------
Coleção Os pensadores. Santo Tomás de Aquino . Pág 13-14.

terça-feira, 19 de janeiro de 2010

PORQUÊ SOU CATÓLICO

GILBERT KEITH CHESTERTON: PORQUÊ SOU CATÓLICO


Por Gilbert Keith Chesterton (1874-1936)

Tradução: Rondinelly Ribeiro

Fonte: The Collected Works of G.K. Chesterton, Vol. 3

A minha dificuldade em explicar por quê sou católico decorre do fato de existirem cerca de dez mil razões, mas todas se resumindo em apenas uma: porque o Catolicismo é verdadeiro. Poderia preencher todo este texto com frases isoladas, cada uma se iniciando pelas palavras: "é a única que. . .", como, por exemplo, (1) é a única que realmente evita que o pecado de se torne um segredo; (2) é a única onde o superior não pode ser superior, no sentido de arrogante; (3) é a única que liberta o homem da degradante escravidão do ambiente de sua época; (4) é a única que fala como se suas palavras sempre fossem verdadeiras; como se fosse um mensageiro que se recusa a adulterar uma mensagem verdadeira; (5) é o único tipo de Cristianismo que realmente contém todo tipo de pessoas; inclusive as mais respeitáveis; (6) é a única que tenta mudar o mundo a partir do interior; através da escolha, não pelas leis; e assim por diante...

Ou poderia tratar a questão pessoalmente e descrever minha própria conversão; mas tenho a sensação que este método faria desmerecer o assunto em questão. Muitos homens sábios foram convertidos às piores religiões. Eu prefiro muito mais tentar mencionar aqui sobre a Igreja Católica as coisas que não foram ditas mesmo por seus muitos e respeitáveis rivais. Em resumo, eu diria primeiramente sobre a Igreja Católica que ela é católica. Antes gostaria de deixar bem claro que ela não é somente maior que eu, mas maior que qualquer coisa no mundo; ela é de fato maior que o mundo. Mas como este espaço é curto, a considerarei em sua capacidade de guardiã da verdade.

Outro dia um conhecido escritor, de certa maneira bem-informado, disse que a Igreja Católica é sempre inimiga das novas idéias. Provavelmente não ocorreu a ele que sua própria observação não era precisamente uma novidade. Esta é uma das concepções que os católicos vêm continuamente refutando, porque ela mesma já é muito antiga. De fato, estes que se queixam de que o catolicismo não consegue dizer nada de novo, raramente pensam ser necessário dizer qualquer coisa nova sobre o catolicismo. Aliás, um estudo sério e real da história mostrará fato contrário. À medida que as idéias realmente sejam idéias, e à medida que tais possam ser novas, os católicos sempre sofreram por sustenta-las quando eram novidades; quando eram novas demais para encontrar qualquer outro apoio. A Igreja Católica não foi somente a primeira neste campo, mas a única; e assim está, e até agora ninguém consegue compreender o que ela tem descoberto.

Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução francesa, numa época dedicada à ostentação e ao elogio dos príncipes, o cardeal Belarmino e Suarez, 'o Espanhol', derrubaram toda a teoria da democracia real. Porém, naquela época de Direito Divino, eles somente causaram a impressão de serem modernistas e Jesuítas sanguinários, rastejando com punhais para assassinar os reis. Então, novamente, os pensadores das escolas católicas disseram tudo que poderia ser dito sobre seus problemas práticos e até os problemas de nossa própria época, duzentos anos antes destes serem escritos. Disseram que realmente haveria problemas de conduta moral; mas tiveram o infortúnio de afirmar isto duzentos antes. Num tempo de fanatismo, de livre e fácil vitupério, eles foram classificados como mentirosos e plagiadores por estarem sendo psicólogos antes que a psicologia fosse moda. Seria fácil citar vários outros exemplos, além de casos de idéias que ainda são muito recentes para serem entendidas. Há passagens do documento Rerum Novarum, publicado em 1891 pelo do Papa Leão, que só agora começam a ser usadas como sugestão para movimentos sociais muito mais recentes que o socialismo. E quando Belloc escreveu sobre o Estado Servil, desenvolveu uma teoria econômica tão original que dificilmente alguém já a tenha compreendido inteiramente. Alguns séculos doravante, outras pessoas provavelmente a reproduzirão, e o farão de forma errada. E então, se os católicos se manifestarem, seu protesto será explicado pelo fato, bem conhecido, de que os católicos não dão valor a novas idéias.

Não obstante, o homem que fez aquela observação sobre os católicos quis dizer algo; Preferindo tornar mais clara sua afirmação, é mais justo fazer entender o seu significado. O que ele quis dizer era que, no mundo moderno, a Igreja Católica é de fato a inimiga de muitos modismos influentes; a maioria reivindica ser nova, embora muitas delas estejam na verdade começando a se tornar um pouco antigas. Em outras palavras, o que ele quis dizer sobre a Igreja freqüentemente atacar o que o mundo em um determinado momento apóia está perfeitamente correto. A Igreja geralmente se manifesta contra os modismos passageiros deste mundo; e tem experiência suficiente para saber quão rapidamente são fugazes. Mas para entender exatamente o que está envolvido, é necessária uma visão mais ampla e considerar a natureza última das idéias em questão, para entender, por assim dizer, a idéia da idéia.

Nove entre dez das chamadas ?novas idéias? são na verdade erros antigos. A Igreja Católica tem como um de seus deveres de liderança prevenir que as pessoas caiam nestes erros; de os tornar eternos, como as pessoas sempre fazem se forem deixadas por si mesmas. A atitude Católica frente à heresia, ou como alguns dizem, frente à 'liberdade', pode ser explicada talvez pela metáfora de um mapa. A Igreja Católica carrega um tipo de mapa da mente como o mapa de um labirinto, e ela é o guia deste labirinto. Foi compilado do conhecimento que, considerado como humano, é completamente sem qualquer paralelo humano.

Não há outro caso de uma instituição inteligente contínua que tenha refletido sobre o pensar por dois mil anos. Sua experiência cobre quase todas as experiências; e especialmente quase todos erros. O resultado é um mapa em que todos os becos sem saídas e estradas mal conservadas estão claramente demarcados, todos os caminhos que demonstraram ser os piores pela melhor das evidências: a dos que foram derrotados por eles.

Neste mapa, os erros são exceções. A melhor parte dele consiste em pátios de recreio e alegres campos, onde a mente pode ter a liberdade que desejar; sem mencionar qualquer campo de batalha intelectual em que esta batalha está indefinidamente aberta e indecisa. Porém ela assume a responsabilidade da demarcação de certas estradas que levam a parte alguma, ou à destruição, a uma parede rígida, ou a um íngreme precipício. Desta forma, evita que os homens desperdicem seu tempo ou percam suas vidas em caminhos que foram fúteis ou desastrosos repetidas vezes no passado, e que podem receber viajantes outras vezes no futuro. A Igreja faz-se responsável por advertir seus membros contra estes maus caminhos; e sobre estes depende a real questão do caso. Ela defende dogmaticamente a humanidade de seus piores inimigos, esses monstros horríveis encanecidos de devoradores dos antigos erros. Hoje todas estas falsidades apresentam um meio de parecerem suaves, especialmente à geração moderna. Sua primeira declaração sempre soa inofensiva e plausível. Darei somente dois exemplos. Parece inofensivo dizer, como muitas pessoas já disseram: "Ações somente estão erradas se são más para a sociedade" Siga-o, e cedo ou tarde você terá a crueldade de um enxame de abelhas ou de uma cidade de pagãos, estabelecendo a escravidão como o melhor e mais barato meio de produção, torturando os escravos nos julgamentos, porque o indivíduo não é nada ao Estado, declarando que um homem inocente deve morrer para povo, como fizeram os assassinos de Cristo. Então, talvez, voltarás às definições católicas, e descobrirá que a Igreja, enquanto diz que é nosso dever trabalhar para a sociedade, também proíbe a injustiça individual. Ou novamente, parece simples e inócuo dizer: "Nosso conflito moral deve acabar com uma vitória do espiritual sobre o material" Siga-o, e cedo ou tarde você acabará como um maniqueu, dizendo que o suicídio é bom porque é um sacrifício, que uma perversão sexual é boa porque não produz nenhum fruto, que o demônio fez o sol e lua porque são materiais. Então podes começar a imaginar por quê o catolicismo insiste na existência de espíritos do mal e do bem; e que o que é material também podem ser sagrado, como na Encarnação ou a Missa, no sacramento do matrimônio ou a ressurreição do corpo.

Hoje não há outra instituição no mundo que esteja atenta a prevenir as pessoas dos falsos caminhos. O policial chega muito atrasado quando tenta prevenir os homens do erro. O médico também chega muito atrasado, pois ele só vem para trancafiar o louco, e não para aconselhar um homem são em como não ficar louco. E todas as outras seitas e escolas são inadequadas para este propósito. Não é porque cada uma delas não possa conter uma verdade, mas precisamente porque cada uma delas contêm a sua verdade. Nenhuma das outras realmente pretende conter a verdade. Isto é, nenhuma das outras realmente pretende estar buscando na mesma direção. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado e mesmo do presente, mas igualmente contra as do futuro, e estas podem ser o exato oposto destas do presente. O catolicismo não é ritualismo; pode no futuro lutar contra algum tipo de superstição ou de um exagero idolátrico do ritual. O catolicismo não é asceticismo; repetidas vezes no passado reprimiu exageros cruéis e fanáticos de asceticismo. O catolicismo não é meramente misticismo; está agora mesmo defendendo a razão humana contra o mero misticismo dos pragmáticos. Assim, quando o mundo tornou-se puritano, no século XVII, a Igreja foi acusada de tornar a caridade um sofisma, por tornar tudo fácil por causa do confessionário. Agora que o mundo não está se tornando puritano, mas pagão, é a Igreja que em todo lugar protesta contra uma lassidão pagã do modo de vestir e tantos outros costumes. Está sendo feito o que os puritanos desejavam que fosse feito. Entre todas as possibilidades, tudo que é melhor no Protestantismo somente sobreviverá no Catolicismo; e neste sentido, todos os católicos serão puritanos quando todos os puritanos serão pagãos.

Dessa forma, por exemplo, o catolicismo, de uma certa forma pouco compreendida, permanece fora de discussões como sobre o Darwinismo. Fica fora dela porque fica ao redor dela, como fica uma casa ao redor de dois móveis perpendiculares. Não é nenhum sectarismo vangloriar-se em dizer que ela está anterior, posterior, e além de todas estas coisas em todos os sentidos. É imparcial na disputa entre o Fundamentalista e a teoria da Origem das Espécies, porque retrocede a uma origem anterior àquela Origem, que é mais fundamental que o fundamentalismo. Ela sabe de onde veio a Bíblia. Também sabe para onde vão a maioria destas teorias da Evolução. Sabe que existem muitos outros evangelhos além dos Quatro Evangelhos, e que os outros só foram eliminados pela autoridade da Igreja Católica. Sabe que há muitas outras teorias evolutivas além da teoria de Darwin; e que há grande possibilidade de que esta última seja eliminada por uma ciência mais tardia. Não aceita, no sentido convencional da palavra, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a ciência nada concluiu. Concluir é fechar, decidir; e não é provável que o homem da ciência assim possa proceder indubitavelmente. Não acredita, no sentido da convencional da palavra, no que a Bíblia diz, pela razão simples de que a Bíblia sozinha não diz nada. Você não pode por um livro no local das testemunhas (NT: como nas cortes judiciárias) e perguntar para ela o que realmente ela significa. A própria controvérsia fundamentalista destrói o fundamentalismo. A Bíblia por si mesma não pode ser base de acordo quando é causa de discórdia; não pode ser o fundamento comum dos cristãos quando alguns tomam-na alegoricamente e alguns literalmente. O católico refere-a a algo que possa dizer algo, ao vivo, consistente e contínuo entendimento de que tenho falado; a sabedoria de um homem guiado por Deus.

Cada momento faz crescer em nós a necessidade moral de uma mente imortal. Devemos ter algo que suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossas experiências sociais ou construímos nossas utopias. Por exemplo, nós devemos possuir um pacto definitivo, se somente pelo truísmo da fraternidade humana resistiremos a alguma reação da brutalidade dos homens. Nada é mais provável agora mesmo do que a quebra de um modo geral da liberdade dos ricos por causa da corrupção do governo, ignorando todas as tradições de eqüidade com mero orgulho pagão. Devemos ter o truísmo em parte reconhecido como verdadeiro. Devemos evitar a repetição sombria dos erros antigos. Devemos tornar o mundo intelectual seguro para a democracia. Mas nas condições da moderna anarquia mental, nem ela nem nenhuma outra idéia estará segura. Assim como os protestantes apelavam aos seus pastores com relação à Bíblia, e não percebiam que a Bíblia também poderia ser questionada, da mesma forma os republicanos apelavam aos reis com relação ao povo, e não percebiam que o povo também podia ser desafiado. Não há nenhum fim para a dissolução das idéias, a destruição de todas as provas da verdade, que tenha se tornado possível a partir do momento em que o homem abandonou a tentativa de manter uma verdade central e civilizada, para conter todas as verdades e caminhos, e que refute todos os erros. Desde então, cada grupo tomou para si uma verdade e gastou o seu tempo para torná-la uma falsidade. Não tivemos nada mais que movimentos; ou em outras palavras, monomanias. Mas a Igreja não é um movimento, mas um local de reunião; o rendez-vous de todas as verdades do mundo.
------------------------
(1874-1936), Gilbert Keith Chesterton. Apostolado Veritatis Splendor: GILBERT KEITH CHESTERTON: PORQUÊ SOU CATÓLICO. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/1924. Desde 01/09/2003.

A Carta Pastoral de Dom Leme de 1916

A Carta Pastoral de Dom Leme de 1916

[Que os católicos mornos de hoje após lerem está atualíssima carta se covertam assim como Jackson de Figueiredo e tantos outros que, acordados pelas palavras inspiradas de Dom Leme, despertaram para a constante e urgente necessidade na Igreja de leigos comprometidos e com ardor dos santos! Amigo da Cruz]

… No Brasil (…) todos ou quase todos se dizem católicos e podem ser apontados os que como tais não se apresentem. Quer dizer que somos um povo inteiramente católico. Não há dúvida. Mas, haveremos chegado com isto a uma idéia precisa da situação religiosa do Brasil? não. (…)

Por índole, por educação e até por patriotismo, o nosso povo é, e não só pode deixar de ser, prosélito do catolicismo. Olhemos, sequer de relance, para os vinte Estados da Confederação. Desde o nome das cidades e das aldeias como dos mais remotos povoados do sertão, desde essas igrejas magníficas que se alteiam para o azul até as cruzes humildes que, orvalhadas das lágrimas do céu, ladeiam as estradas, despertando sentimentos de fé e guardando – quem sabe? – o derradeiro suspiro de um coração partido, tudo proclama as crenças religiosas do povo brasileiro. E não é uma religião entretecida, apenas, de tradições; estas se entrelaçam às maifestações variadas de fé intensa e profunda.

Sem falar nas encantadoras cenas de família, todos podem ver como regorgitam os nossos templos, por ocasião das solenidades culturais, riquíssimas de esplendor, na profusão de flores e das luminárias custosas. Quem é que não tem sentido vibrar-lhe na alma a mais íntima comoção, ao assistir a essas tão tradicionais e Tão populares romarias aos santuários da Virgem? Quem é que não se impressiona ante a suntuosidade de nossas procissões? (…)
A quem observar com ÂNIMO desprevenido, logo manifesto se faz que o brasileiro é profundamente católico. (…) Pouquíssimos, muito poucos, são os que não fazem batizar os filhos. Reduzido o número dos que não aceitam os últimos sacramentos da Igreja. (…) Fenômenos são esses que, sem induções violentas, uma única explicação padecem. É esta para nós uma coisa nacional; faz parte do nosso organismo social: Somos um país essencialmente católico.

Somos a maioria e quase totalidade da nação – acabamos de ver. Agora bem; perguntamos: somos uma maioria CONSCIA dos seus deveres religiosos e sociais? Infelizmente, parece-nos que não. Entre todos os outros, essenciais são os deveres religiosos. Ora, da grande maioria dos nossos católicos, quantos são os que se empenham em cumprir os mandamentos de Deus e da Igreja? É certo que os sacramentos são caudais divinos por onde corre a seiva vivificadora da fé. E, no entanto, parte avultada dos nossos católicos vive afastada dos sacramentos. A Penitência e a Eucaristia, focos de luz divina, são sacramentos conhecidos Tãp somente da minoria eleita dos nossos irmãos. E os outros? não carecem do perdão magnânimo de Cristo? não precisam, quem sabe, das luzes, do conforto e das inenarráveis graças do Pão Eucarístico? não são católicos! É que são católicos de nome, católicos por tradição e por hábito, católicos só de sentimento. Ensinou-lhes uma santa mãe a beijar a cruz e a Virgem. Eles ainda o fazem. Mas, das práticas cristãs, dessas que purificam e salvam, eles se apartaram desde os primeiros dias da mocidade. Balda de convições quanto aos seus deveres religiosos, grande parte dos nossos católicos o é também quanto aos deveres sociais. Fácil é verificá-lo.

Somos a maioria absoluta da nação absoluta da nação. Direitos inconcussos nos assistem com relação à sociedade civil e política, de que somos a maioria. Defendê-los, reclamá-los, fazê-los acatados, é dever inalienável. E nós não o temos cumprido. Na verdade, os católicos, somos a maioria do Brasil e, no entanto, católicos não são os princípios e os órgãos da nossa vida política. Não é católica a lei que nos rege. Da nossa fé prescindem os depositários da autoridade. Leigas são nossas escolas; leigo, o ensino. Na força armada da República, não se cuida da Religião. Enfim, na engrenagem do Brasil oficial não vemos uma só manifestação de vida católica. O mesmo se pode dizer de todos os ramos da vida pública. Anticatólicos ou indiferentes são as obras de nossa literatura. Vivem a achincalhar-nos os jornais que assinamos. Foge de todo à ação da Igreja a indústria, onde no meio de suas fábricas inúmeras, a religião deixa de exercer a sua missão moralizadora. O comércio de que nos provemos parece timbrar em fazer conhecido que não respeita as leis sagradas do descanso festivo. Hábitos novos, irrazoáveis e até ridículos, vai introduzindo no povo o snobismo cosmopolita. Carnavais transferidos para tempos de oração e penitência, danças exóticas e tudo o mais que o morfinismo inventou para distração de raças envelhecidas na saturação do prazer.


Que maioria-católica é essa, tão insensível, quando leis, governos, literatura, escolas, imprensa, indústria, comércio e todas as demais funções da vida nacional se revelam contrárias ou alheias aos princípios e práticas do catolicismo? É evidente, pois, que, apesar de sermos a maioria absoluta do Brasil, como nação, não temos e não vivemos vida católica. Quer dizer: somos uma maioria que não cumpre seus deveres sociais. Obliterados em nossa consciência os deveres religiosos e sociais, chegamos ao abuso máximo de formarmos uma grande força nacional, mas uma força que não atua e não influi, uma força inerte. Somos, pois, uma maioria ineficiente. Eis o grande mal. Grande mal, não há dúvida, porque importa no menosprezo inadmissível dos nossos deveres para com Deus, a sociedade e a pátria, deveres religiosos e sociais.

Os deveres religiosos, como não cumpri-los? Ou cremos em Deus e na sua Igreja ou não cremos. Sim? Então não podemos recusar obediência ampla e incondicional às suas leis sagradas. Não cremos em Deus e na Igreja? Nesse caso, não queiramos esconder a nossa descrença. Digamo-lo francamente: não somos católicos. Se, porém, temos a dita de o ser, não há tergiversação possível. Pautando a vida pelos ditamos do Credo e dos Mandamentos, deles não nos é permitido seleccionar o que nos agrada e o que nos contraria as paixões. Seria ofender a consciência e faltar à coerência. Dessa incoerência, menos rara do que se pensa, resulta a quase nenhuma influência dos princípios regeneradores do cristianismo nos atos da vida individual. E não é só. Privados do influxo benéfico e incomparável do Cristo, privamos a família, a sociedade e a pátria da nossa influência salvadora. Se Cristo não atua sobre a nossa vida individual, como poderemos atuar sobre o meio social?

E, no entanto, da influência social dos católicos, é certo que muito precisa a nossa pátria amada. Ela tem o direito indiscutível a exigir de nós uma floração de virtudes privadas e cívicas que, estimulando a todos no cumprimento do dever, em todos se infiltrem para germe da probidade e são patriotismo.

Da nossa parte, a consciência nos impele a nos desobrigarmos dos deveres que temos para com a sociedade e a pátria. Eles nascem da fé que nos anima e vivifica. Temos fé, somos possuidores da verdade! Como não querer propagá-la? Como não difundi-la? Seria desumano que pretendêssemos insular a nossa fé nas inebriações de perene doçura extática.

É natural, é cristão, é lógico que devo pôr todo o empenho em que meu Deus seja conhecido e amado. Devo esforçar-me para que se dilate o seu reinado e ele – o meu Jesus – viva e reine, impere e domine nos indivíduos, na família e na sociedade. Devo esforçar-me, em tudo e por tudo, para que o meu Deus, Mestre e Senhor, viva e reine, principalmente, nos indivíduos, na família e na sociedade que, irmanadas comigo nos laços do mesmo sangue, da mesma língua, das mesmas tradições, da mesma história e do mesmo porvir, comigo vivem sobre a mesma terra, debaixo do mesmo céu.


Sim, ao católico não pode ser indiferente que a sua pátria seja ou não aliada de Jesus Cristo. Seria trair a Jesus; seria trair a pátria! Eis por que, com todas as energias de nossa alma de católicos e brasileiros, urge rompamos com o marasmo atrofiante com que nos habituamos a ser uma maioria nominal, esquecida dos seus deveres, sem consciência dos seus direitos. É grande o mal, urgente é a cura. Tentá-lo – é obra de fé e ato de patriotismo.
------------------------------------------------

Fonte: A Carta Pastoral de S. Em. Sr. Cardeal D. Leme quando Arcebispo de Olinda, saudando os seus diocesanos. Vozes, Petrópolis, s/d (a original é de 16 de julho de 1916).

Por que acredito no cristianismo

Não tenho a intenção de desrespeitar o Sr. Blatchford dizendo que nossa dificuldade, em grande medida, está em que ele, como a maioria das pessoas inteligentes atualmente, não entende o que é Teologia. Equivocar-se em ciência é uma coisa, mas equivocar-se sobre a natureza da ciência é outra. Na medida em que leio “God and My Neighbour (Deus e o meu vizinho)”, cresce minha convicção de que ele pensa que Teologia é o estudo sobre se as diversas lendas que a Bíblia conta sobre Deus é historicamente demonstrável. É como se ele estivesse tentando provar a um sujeito que o Socialismo seria, na verdade, a sólida ciência da Economia Política[2] e começasse a perceber, no meio do caminho, que o sujeito considerava a Economia Política o estudo sobre se os políticos eram econômicos.

É muito difícil de explicar brevemente a natureza de todo um ativo campo de estudo, tanto quanto o é explicar o que é política ou ética. Pois, quanto maior e mais óbvia é uma coisa, e quanto mais ela te encara face a face, mais difícil é defini-la. Todo mundo pode definir concologia.. Ninguém pode definir a moral.

No entanto, toca-nos tentar explicar essa filosofia religiosa que era, e de novo será, o estudo dos maiores intelectuais e a fundamentação das mais fortes nações, mas que nossa diminuta civilização, há algum tempo, esqueceu, da mesma forma que esqueceu como dançar e como se vestir decentemente. Tentarei explicar porque eu considero necessária uma filosofia religiosa e porque eu considero o cristianismo a melhor filosofia religiosa. Mas, antes que eu faça isso, quero que você se lembre de dois fatos históricos. Não peço para que você tire deles as minhas conclusões ou mesmo qualquer conclusão. Peço que você se lembre deles como simples fatos, ao longo da discussão.

1. O cristianismo surgiu e se expandiu num mundo muito refinado e cínico – num mundo muito moderno. Lucrécio era tão materialista quanto Haeckel e um escritor muito mais persuasivo. O mundo romano tinha lido “God and My Neighbour”, e de uma maneira um tanto sonolenta o considerou verdadeiro. Vale a pena notar que as religiões quase sempre surgem nessas civilizações céticas. Um livro recente sobre a literatura pre-maometana da Arábia descreve uma vida inteiramente luxuosa e refinada. Foi assim com Buda, nascido em berço de ouro, numa antiga civilização. Foi assim com o Puritanismo na Inglaterra e com a Restauração Católica na França e Itália, ambas advindas do racionalismo da Renascença. É assim hoje, e será sempre assim. Vá a dois dos mais modernos centros do pensamento moderno, Paris e EUA, e você encontra-los-á cheios de anjos e demônios, de velhos mistérios e novos profetas. O racionalismo está lutando pela própria vida contra as novas e vigorosas superstições.

2. O cristianismo, que é uma religião muito mística, tem sido, contudo, a religião das porções mais práticas da humanidade. Ele tem mais paradoxos que as filosofias orientais, mas ele também constrói as melhores rodovias. O mussulmano tem uma concepção lógica e pura de Deus, o Alah monístico. Mas ele permanece bárbaro na Europa e a grama não renascerá por onde ele passar. O cristão tem um Deus Trino, “uma trindade oblíqua,” que parece uma caprichosa contradição em termos. Mas, em ação, ele abarca a terra e, mesmo, o mais inteligente oriental só pode com ele lutar, imitando-o a princípio. O Oriente tem sua lógica e vive do arroz. A cristandade tem seus mistérios – e seus automóveis. Não importa a inferência. Como eu disse, registremos os fatos.

Agora com essas duas coisas em mente, deixe-me tentar explicar o que é a Teologia Cristã.

O agnosticismo completo é a atitude óbvia para o homem. Todos somos agnósticos até descobrirmos que o agnosticismo não funciona. Então, adotamos alguma filosofia, a do Sr. Blachford ou a minha, ou alguma outra, pois, o Sr. Blatchford não é mais agnóstico que eu, é claro. O agnóstico diria não estar certo se o homem é responsável pelos seus pecados. O Sr. Blatchford diz que ele tem certeza de que o homem não é.

Aqui temos a semente de toda uma imensa árvore de dogmas. Por que o Sr. Blatchford vai além do agnosticismo e afirma que não há, certamente, livre arbítrio? Porque ele não pode desenvolver seu sistema moral sem afirmar a inexistência do livre arbítrio. Ele deseja que nenhum homem seja culpado de pecado. Portanto, ele tem de convencer seus discípulos de que Deus não os fizeram livres e, por conseguinte, culpáveis. Nenhuma mínima dúvida cristã pode passar pela mente do determinista. Nenhum demônio pode sussurrá-lo, numa hora de angústia, que, talvez, o promotor de vendas fraudulento foi o responsável por ele estar no asilo. Nenhum ataque de ceticismo deve sugeri-lo que, talvez, o professor primário foi o culpado pela surra de matar dada no pequeno garoto. A fé do determinista deve permanecer firme, senão a fraqueza da natureza humana, certamente, fará com que os homens se enfureçam quando são difamados ou devolvam o soco, quando são socados. Em resumo, o livre arbítrio parecerá, em princípio, pertencer ao Desconhecido. Mesmo assim, o Sr. Blatchford não conseguirá pregar o que a ele pareça mera caridade sem afirmar, sobre isso, um dogma. E eu não conseguirei pregar o que me parece ser mera honestidade, sem afirmar outro.

Aqui está a falha do agnosticismo. Que a nossa visão cotidiana das coisas que sabemos (do senso comum), realmente depende de nossa visão de coisas que não sabemos (do senso comum). Tudo bem dizer a um homem, como faz o agnóstico, “cultive seu jardim.” Mas, suponha que ele ignore tudo fora do seu jardim, inclusive o sol e a chuva?

Isso é fato real. Você não pode viver sem dogmas sobre as coisas. Você não pode agir vinte e quatro horas por dia sem decidir se as pessoas são responsáveis ou não. A Teologia é um produto muito mais prático que a Química.

Alguns deterministas imaginam que o cristianismo inventou um dogma como o livre arbítrio por diletantismo – uma simples contradição. Isso é absurdo. Você se confronta com contradições onde quer que você esteja. Os deterministas me dizem, com um grau de verdade, que o determinismo não faz diferença na vida diária. Isso significa que, apesar do determinismo saber que os homens não têm livre arbítrio, mesmo assim, ele continua tratando-os com se tivessem.

A diferença, então, é muito simples. O cristão coloca a contradição em sua filosofia. O determinista a coloca em seus hábitos diários. O cristão afirma, como um mistério declarado, o que o determinista chama nonsense. O determinista tem o mesmo nonsense em seu café da manhã, em seu almoço, em seu chá e em seu jantar, todos os dias de sua vida.

O cristão, repito, coloca o mistério em sua filosofia. Este mistério, pela sua escuridão, ilumina todas as coisas. Depois disso, vida é vida, pão é pão e queijo é queijo: ele pode sorrir e lutar. O determinista torna a questão lógica e lúcida: e à luz dessa lucidez, todas as coisas são obscurecidas, as palavras perdem o sentido, e as ações, o objetivo. Ele fez de sua filosofia um silogismo e dele próprio um lunático delirante. [3]

Essa não é uma questão entre misticismo e racionalidade. É uma questão entre misticismo e loucura. Pois, o misticismo, e somente o misticismo, tem mantido o homem são, desde o início dos tempos. Todos os caminhos retilíneos da lógica levam ao caos, à anarquia ou à obediência passiva, por tratar o universo como uma pura engrenagem material ou então como uma ilusão da mente. É somente o místico, o homem que aceita as contradições, que pode sorrir e caminhar livremente pelo mundo.

Você está surpreso pelo fato de que a mesma civilização que acreditou na Trindade descobriu a máquina a vapor? Todos as grandes doutrinas cristãs são deste tipo. Examine-as você mesmo, cuidadosa e justamente. Tenho espaço para apenas dois exemplos. O primeiro é a idéia cristã de Deus. Tal como temos todos sido agnósticos, também temos sido panteístas. Com uma ingenuidade infantil é fácil dizer, “Por que o homem não pode enxergar Deus num vôo de um pássaro e ser feliz?” Mas, vem o tempo em que, indo além, dizemos, “Se Deu está nos pássaros, sejamos não só bonitos como eles, mas sejamos cruéis como os pássaros, vivamos a vida louca e colorida da natureza.” E algo que mantém sua própria inteireza dentro de nós resiste e nos alerta, “Meu amigo, você está enlouquecendo.”

Então vem o outro lado e dizemos: “Os pássaros são odiosos, as flores são vergonhosas. Um universo com tais coisas não merece meu tributo.” E a coisa inteira em nosso íntimo diz: “Meu amigo, você está enlouquecendo.”

Então vem uma coisa fantástica e nos diz: “Você está certo de gostar dos pássaros, mas errado em copiá-los. Há uma coisa boa em todas essas coisas, mas todas essas coisas são menores que você. O Universo está certo, mas o Mundo está errado. A coisa por trás de tudo não é cruel como um pássaro, mas bondosa como um homem.” E a coisa inteira dentro de nós diz: “Encontrei o caminho da montanha.”

Assim, quando o cristianismo surgiu, o mundo antigo tinha acabado de chegar a esse dilema. Ele ouviu a Voz do Culto à Natureza que rezava, “Todas as coisas naturais são boas. A guerra é saudável como as flores. A luxúria é tão cândida como as estrelas.” E ele ouviu também o lamento dos desesperados Estóicos e Idealistas. “As flores estão em guerra: as estrelas estão maculadas: nada é certo além da consciência do homem e esta foi completamente vencida.”

Ambas as visões eram consistentes, filosóficas e exaltadas: suas únicas desvantagens eram que a primeira levava logicamente ao assassinato, e a segunda, ao suicídio. Depois de uma agonia do pensamento, o mundo descobriu um caminho saudável entre os dois. Era o Deus cristão. Ele fez a Natureza mas, Ele era Homem.

Finalmente, há uma palavra a dizer sobre a Queda. Só poderá ser uma palavra, e ela é esta. Sem a doutrina da Queda, toda a idéia do progresso é sem sentido. O Sr. Blatchford diz que não houve uma Queda, mas uma ascensão gradual. Mas, a própria palavra “ascensão” implica que você saiba em que direção está ascendendo. A menos que haja um padrão, você não pode se dizer em ascensão ou em queda. Mas o ponto principal é que a Queda, tal como todos os outros largos caminhos do cristianismo, está embebida, invisivelmente, na linguagem comum. Qualquer um pode dizer, “Muito poucos homens são realmente humanos.” Ninguém diria, “Muito poucas baleias são realmente, ‘baleiais’.”

Se você quisesse dissuadir um homem de beber sua décima dose de whisky, você bateria em suas costas e diria, “Seja homem.” Ninguém que desejasse dissuadir um crocodilo de comer seu décimo explorador, bateria nas costas da fera e diria, “Seja crocodilo.” Pois, não temos nenhuma noção de um crocodilo perfeito, nenhuma alegoria de uma baleia expulsa do Éden ‘baleial’. Se uma baleia viesse ao nosso encontro e dissesse: “Eu sou um novo tipo de baleia, eu abandonei a ‘baleiez’,” não deveríamos nos preocupar. Mas, se um homem viesse até nós (como muitos logo virão) e dissesse, “Eu sou um novo tipo homem. Eu sou o super-homem. Eu abandonei a misericórdia e a justiça;” deveríamos responder, “Sem dúvida você é novo, mas nem um pouco parecido com o homem perfeito, pois este sempre esteve na mente de Deus. Caímos com Adão e ascenderemos com Cristo; mas preferimos cair com Satã, que ascender com você.”



Publicado em The American Chesterton Society

[1]Reproduzido de The Religious Doubts of Democracy (1904) e de "The Blatchford Controversies" (in The Collected Works of G.K. Chesterton, Vol. 1) (N. do T.)

[2] Nome que a Economia tinha na época. (N. do T.)

[3] A linguagem da cruz é loucura para os que se perdem, mas, para os que foram salvos, para nós, é uma força divina. Onde está o sábio? Onde o erudito? Onde o argumentador deste mundo? Acaso não declarou Deus por loucura a sabedoria deste mundo? Já que o mundo, com a sua sabedoria, não reconheceu a Deus na sabedoria divina, aprouve a Deus salvar os que crêem pela loucura de sua mensagem (...) mas nós pregamos Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os pagãos. Pois a loucura de Deus é mais sábia do que os homens, e a fraqueza de Deus é mais forte do que os homens. (1 Cor. 1, 18; 20-21; 23;25) (N. do T.)
--------------------------------
Extraído do blog: Blog do Angueth

Escritor Católico: Gilbert Keith Chesterton


Toda a vida de Gilbert Keith Chesterton, um dos maiores e mais lidos apologistas cristãos do século XX, pode ser compreendida como a viagem de um homem que sai de um e volta ao mesmo lugar. Como o personagem do conto por ele redigido, Homesick at home, que percorre todo o mundo tentando voltar para casa, ponto de partida da viagem, foi preciso que Chesterton vivesse longos anos de inquietações espirituais para finalmente encontrar a verdade da fé católica.


Eis o resumo da aventura espiritual de Chesterton: durante todo o tempo, ao longo dos anos de sua vida, ele estava em casa, mas não se reconhecia em casa. As coisas estavam lá, o tempo todo, diante de seus olhos, mas ele não as via. A filosofia em que Chesterton sempre acreditou era aquela que aprendeu quando criança: a dos contos de fadas, o reino luminoso do senso comum. Encontrou no cristianismo, e só nele, a correspondência a essa filosofia e as respostas para os dilemas e paradoxos da vida.

Nasceu Gilbert Keith Chesterton em Kensington, distrito central de Londres, em 29 de maio de 1874, filho de Edward Chesterton e Marie Louise Keith. A primeira filha do casal, Beatrice, morreu aos 8 anos de idade. Gilbert teve como único irmão Cecil, com quem se dava muito bem.

Embora batizado e formado segundo a tradição anglicana, desde muito cedo o garoto demonstrou admiração pelo católico, particularmente pela pessoa da Virgem Maria, conforme confessou mais tarde: “Mal consigo recordar um tempo em que a imagem de Nossa Senhora não se erga muito concretamente no meu espírito [...]. Quando recordava a Igreja Católica, recordava-a a Ela; quando tentava esquecer a Igreja Católica, tentava esquecê-la a Ela”.

A infância de Chesterton foi marcada pela alegria genuína do meio familiar: a casa sempre cheia de primos e amigos, povoada de iluminuras medievais, estampas antigas, fadas, gnomos e duendes do teatro de marionetes com que seu pai divertia as crianças.

Chesterton estudou no Saint Paul’s College, onde viveu uma realidade amarga, duramente contrastante com a alegria do lar. Eis, segundo suas próprias palavras, um resumo da sua juventude: “Eu era um pagão à idade de 12 anos, e um completo agnóstico aos dezesseis... Eu nunca li uma linha da apologética cristã.” Foi inclusive atormentado na adolescência por pensamentos de suicídio.

Não freqüentou a Faculdade, como a maioria de seus amigos, mas a Escola de Artes, que não chegou a terminar. Estreou na imprensa como crítico de arte, mas logo teve seus horizontes jornalísticos ampliados por outros temas. Prolífico e versátil, o escritor inglês sentia-se à vontade em praticamente qualquer gênero literário e assunto. Poeta, narrador, ensaísta, desenhista, teólogo, filósofo, jornalista, historiador, biógrafo, crítico literário, conferencista... Seus vôos poéticos iam do cômico O Vegetariano Lógico à grave e magnífica Lepanto, ambos textos de 1915.

A primeira obra de Chesterton, um conjunto de poemas e ilustrações, recebeu o título de Greybeards at Play e foi publicada em 1900. Já nela se nota o seu humor sadio e o desejo permanente de transmitir o gozo pela realidade das coisas, pelo simples fato de as coisas serem. “No espanto há um elemento positivo de prece”, escreveu mais tarde. Chesterton foi, sim, um apaixonado pelo universo, entendido aqui, é claro, não num sentido panteísta. Deleitava-se nas coisas porque sabia perfeitamente bem que elas não precisavam existir: “cada homem na rua é um grande poderia-não-ter-sido”.

Durante a Guerra dos Boers (1899-1902) na África do Sul, Chesterton escrevia artigos no semanário liberal The Speaker contra a Guerra, que considerava injusta e imperialista. Nessa época travou estreita amizade com Hilaire Belloc, deputado na Câmara dos Comuns, que também se opunha à investida militar. Belloc e Chesterton se tornaram tão próximos que Bernard Shaw chegou a falar num certo “monstro biforme Chesterbelloc”. Os dois amigos desenvolveram juntos a teoria do Distributismo (ou Distribucionismo), teoria política critica do capitalismo e do socialismo.

No ensaio Eugenia e outros males (1922), Chesterton atacava o que em seu tempo parecia ser uma das idéias mais progressivas, a idéia de que a raça humana poderia e deveria dar origem a uma versão superior de si mesma. Temos aí um exemplo de sua análise lúcida e profética dos acontecimentos que desembocariam no nazismo.

Chesterton discutiu com alguns dos mais célebres intelectuais de seu tempo: George Bernard Shaw, Herbert George Wells, Bertrand Russell, Clarence Darrow. Atraía multidões aos debates e quase sempre saía como vencedor. E mais: se sabia enfrentar com valentia os adversários, no trato pessoal nunca deixava o cavalheirismo e a delicadeza de lado. Combatia o pecado, não o pecador. E por isso amava os inimigos. Tanto assim que todos os seus oponentes o tratavam com o máximo respeito e estima; Shaw, por exemplo, chegou a dizer: "O mundo não agradeceu o suficiente a Chesterton".

Esta influência continuou depois de sua morte. Clive Staples Lewis, ao se aproximar do cristianismo, escreveu: “Chesterton tem mais razão que todos os outros modernos juntos”. Chesterton também influenciou a conversão de Evelyn Waugh e, indiretamente, a de Graham Greene. E Dorothy Sayers confessou que foi a Ortodoxia (1908) que lhe revigorou e salvou a fé na juventude, o mesmo sucedendo a Ronald Knox. E – podemos nos perguntar – quantos cristãos anônimos não deverão à leitura de Chesterton a descoberta, ou redescoberta, daquela “beleza tão antiga e tão nova” de que fala Santo Agostinho ao se referir à fé católica?

Chesterton foi um grande homem, também, porque sabia rir-se de tudo e de todos, a começar de si mesmo: num desenho intitulado “Como eu sou”, vemo-lo muito gordo (como de fato era), desajeitado, cabelos desgrenhados; num outro, “Como eu gostaria de ser”, encontramo-lo de perfil, barba desenhada, porte nobre. Saber rir-se de si mesmo, afinal, é uma das marcas da verdadeira humildade.

Defendia o matrimônio e a família, o homem comum, o bom senso, a beleza e a Igreja. Desconfiava da concentração de poder e da abundância material. Era otimista, mas não tolo. Tinha uma visão alegre da existência e gostava da polêmica e dos paradoxos.

Sobre esse último ponto, aliás, vale ressaltar que Chesterton recorria constantemente aos paradoxos não como um garoto em busca de auto-afirmação, mas com a intenção consciente de apresentar a realidade tal como ela é. De acordo com Gustavo Corção, “Chesterton não procurou nos seus tão admirados paradoxos fazer acrobacias verbais, e muito menos procurou jogos para agradar os jovens e os imaturos. Pascal, com seu timbre de abismos, não é mais trágico nem mais sério do que Gilbert Keith Chesterton”.

Na obra Heretics (1905), atacou com fino humor e lógica impecável o subjetivismo ético de George Moore, o socialismo desumanizador de Bernard Shaw, o imperialismo de Rudyard Kipling, o historicismo naturalista de Herbert George Wells, o esteticismo aético de Oscar Wilde. Chesterton explicava ali por que não era ele próprio um seguidor das filosofias da moda: não as seguia porque as compreendia, via a desordem sobre a qual estavam fundadas. O escritor inglês, afinal, sempre soube enxergar as contradições de seus contemporâneos; foram eles, com suas inúmeras contradições, e não os cristãos, que o empurraram para a fé cristã.

Ortodoxia (1908), uma de suas obras-primas, pode ser vista como um resumo da filosofia de Chesterton. O resumo daquilo em que acreditava e que um dia percebeu, não sem espanto, coincidir com o credo cristão. O livro foi escrito como resposta a um crítico de Heretics, que cobrava de Chesterton a exposição de sua própria visão de mundo. Dizia o crítico que atacar e destruir todo o mundo era fácil; difícil mesmo era construir uma visão sólida e coerente da realidade. Então Chesterton, “sempre disposto a escrever um livro à menor provocação”, escreveu Ortodoxia, em que tentava demonstrar, entre outras coisas, que (1) o racionalismo levado às últimas conseqüências conduz ao suicídio do pensamento; (2) a tradição tem um caráter democrático (dar o direito de voto aos nossos antepassados); (3) a teoria da felicidade condicional, ou “ética do país das fadas”, é a mais sadia: tudo é permitido, em troca de uma pequena coisa que é negada e (4) a doutrina cristã traz um acerto paradoxal (o ponto de equilíbrio entre virtudes contrárias).

Sobre o segundo ponto, o caráter democrático da tradição, isto é, a transmissão da cultura, do legado grego, romano e judaico e do legado da Europa nos últimos dois mil anos, vale dizer que, num mundo de devastação cultural como o atual, essa herança espiritual corre grande perigo. Tratava-se, para Chesterton, de uma tradição sagrada, que salvaguarda as verdades eternas, que falam com autoridade para cada nova geração. A mais alta função da arte, portanto, é expressar os fatores comuns mais elevados da vida humana e não os seus denominadores comuns inferiores – os amores da vida e não suas luxúrias. É nesse sentido que devemos entender a literatura de Chesterton.

Ao contrário da austeridade que a princípio o título pode sugerir, Ortodoxia significa nada mais, nada menos que “a opinião certa”. Quer dizer que há uma opinião certa e outra errada sobre o que somos nós e o mundo onde vivemos, e que a diferença entre as duas importa fundamentalmente no modo como vivemos. Embora não seja uma autobiografia, é uma obra bastante autobiográfica. Embora Chesterton não fosse católico quando a escreveu, Ortodoxia é provavelmente um dos melhores livros católicos escritos no século XX.

A filosofia de Chesterton ali exposta lhe dava liberdade para aceitar ou rejeitar os milagres com base nas evidências. Já o filósofo determinista estava obrigado, por princípio, a rejeitar todos os milagres sem sequer examiná-los. Logo, Chesterton, o ortodoxo, era mais livre que o filósofo determinista, escravo de seus postulados e preconceitos.

Naturalmente, com a fama literária, chegaram convites para conferências nos mais distantes pontos da Inglaterra e a aquisição de novos e importantes amigos: Joseph Conrad, Henry James, Baden Powell, Winston Churchill e Thomas Hardy, para citar apenas alguns.

Suas inquietações espirituais se canalizaram em certo momento para o espiritismo. Nessa mesma época conheceu Frances Blogg, sua futura esposa. Ele, idealista e distraído; ela, prática e de fortes convicções religiosas, anglicana praticante. Enquanto Frances era ordenada, metódica, comedida e pontual, o marido era o típico gênio distraído, pródigo, desleixado com a aparência pessoal e sem ter idéia do tempo. Shaw o definiu como um “querubim gigantesco”: um menino disfarçado de adulto, com sua cara gorda e redonda e sua expressão infantil. Duas anedotas ilustram bem esse aspecto da personalidade de Chesterton: Um dia sua esposa recebeu um telefonema do marido, que se encontrava numa estação de trem: "Estou em Harborough Market. Onde deveria estar agora?" Noutra ocasião, distraído como sempre, Chesterton pediu um café à senhorita que trabalhava no guichê de... uma estação ferroviária.

Embora apreciasse muito a companhia de crianças, Chesterton não teve filhos porque sua esposa não os pôde ter, mas em compensação teve uma excelente secretária, a Sra. Dorothy Collins, que foi como uma filha adotiva para o casal. Por fim, ela acabou se tornando administradora do legado literário do patrão, levando adiante a publicação de suas obras após a morte.

Apesar da distração, a capacidade do “apóstolo do senso comum” para o trabalho era impressionante: Chesterton escreveu uma centena de livros, contribuições para outros duzentos, centenas de poemas (entre os quais um épico), cinco peças de teatro, cinco romances e uns duzentos contos, incluindo a popular série de contos policiais do Padre Brown, que foi inclusive adaptada para televisão. Escreveu mais de 4000 artigos, entre os quais trinta anos de colunas semanais para o Illustrated London News e treze anos de colunas semanais para o Daily News, além dos textos diversos que redigiu para o seu próprio jornal, G.K.’s Weekly.

Foi esse alegre homenzarrão inglês quem escreveu um romance intitulado O Napoleão de Nothing Hill (1904), que inspiraria Michael Collins a liderar o movimento pela independência da Irlanda, e também um artigo no Illustrated London News que inspiraria Mohandas Gandhi a liderar o movimento que pôs fim ao domínio colonial inglês na Índia. É O Napoleão de Notting Hill, aliás, considerada por muitos como a melhor novela escrita por qualquer um dos grandes escritores de ficção ingleses.

Em 1911 começou a sua aproximação mais séria ao catolicismo. Foi nesse período que o escritor inglês conheceu o Padre John O'Connor, que lhe inspirou a criação de um dos personagens mais conhecidos da literatura policial inglesa: o Padre Brown. O clérigo “baixinho, de rosto afável e expressão de duende”, como o definiu seu criador, dá conta de resolver todos os casos, não apoiado na lógica mais rigorosa e no método científico, mas partindo simplesmente da sua experiência, do senso-comum, do conhecimento da natureza humana. O padre detetive assim se expressa numa de suas histórias: “O criminalista olha para o criminoso como um ser estranho e abjeto; eu o vejo como a mim mesmo, capaz de cometer qualquer barbaridade: daí que me pergunto como faria o que ele fez.”. As histórias do Pe. Brown, embora muito divertidas, não são apenas entretenimento, porque a habilidade do detetive para solucionar crimes está baseada no seu conhecimento profundo da natureza humana, adquirido no dia-a-dia do confessionário.

Do contato com o Pe. O'Connor nasceu o desejo de Chesterton de se fazer católico, ele era então anglicano. Nesse processo foi fundamental também a ajuda de seus amigos Maurice Baring e o Pe. Ronald Knox. Numa carta ao amigo Belloc, Chesterton mais tarde assim se expressava: “A Igreja Católica é o lar natural do espírito humano. A estranha perspectiva da vida, que ao princípio parece um quebra-cabeça sem sentido, tomada sob esse ponto de vista, adquire ordem e sentido”. Seu processo de conversão, no entanto, foi lento.

O homem que tanto podia debater seriamente com pensadores do porte de um Bertrand Russell quanto se divertir com crianças numa festinha de aniversário, entrou na Igreja Católica em 1922. Sua conversão foi então um dos mais comentados eventos religiosos na Europa desde a conversão do cardeal John Henry Newman, ocorrida 75 anos antes. Mais tarde, também sua esposa Frances se converteria ao catolicismo.

Na sua Autobiografia (1936), afirmava que a teologia católica é “a única não só que pensou, mas que pensou sobre tudo. Que quase todas as demais teologias ou filosofias contêm alguma verdade, não o nego; ao contrário, é isso o que afirmo, e é disso que me queixo. Sei que todos os demais sistemas ou seitas se contentam com seguir uma verdade, teológica ou teosófica, ética ou metafísica; e, quanto mais reclamam-se universais, mais isso significa que colhem algo e o aplicam a tudo”. Só a teologia católica era, e é, universal.

Quando lhe perguntaram por que afinal se converteu ao catolicismo, Chesterton respondeu: “Porque eu queria me livrar dos meus pecados.” E arrematou: “A Igreja Católica é a única que realmente apaga os pecados.” Ecoando a história de Santo Tomás e a velhinha, Chesterton confessava na Autobiografia que o catecismo lhe ensinou tudo o que a ciência, a filosofia pagã e o mundo não sabem. Ensinou-lhe o óbvio: que o orgulho e o desespero são pecados e que o único remédio para eles é estar no mundo com humildade. Só a aceitação de grandes mistérios, concluía Chesterton, depois de estudar inúmeras filosofias e aderir a diversos “ismos”, é capaz de manter a lucidez do espírito humano; sua negação conduz invariavelmente à loucura: “Aceitar todas as coisas é um exercício, mas compreender todas as coisas é um frenesi.” E mais adiante, comparando o lunático com o poeta (que sería uma pessoa sã), escreveu: “O poeta procura apenas a exaltação e a expansão, isto é, procura um mundo onde se possa distender. Pretende ele, simplesmente, enfiar a cabeça nos céus, ao passo que o lógico se esforça por enfiar os céus na cabeça. E é a cabeça que estala.”

Uma das vantagens da conversão é sabermos a quem devemos agradecer a alegria de existir; é, melhor dizendo, termos a quem agradecer. “O teste de toda felicidade é a gratidão; e eu me sentia grato, embora mal pudesse saber a quem”. Eis a maneira de Chesterton expressar sua realização: afinal, o bem é realmente bem, o belo é realmente belo, o verdadeiro é realmente verdadeiro. Estava em casa, por fim.

Toda a obra de Chesterton é como que um hino à alegria. É alegre e arriscado viver. A existência do livre-arbítrio, contrariando o determinismo, torna a vida perigosa e excitante: a partir daí todas as nossas escolhas são infinitamente sérias e potencialmente perigosas.

Depois de Heretics e Ortodoxia, outra obra-prima foi escrita no fim de sua vida: a biografia Santo Tomás de Aquino (1933), cujo valor foi atestado por Étienne Gilson, famoso filósofo tomista, que a considerou “o melhor livro jamais escrito sobre Santo Tomás.”

Mais afastado da imprensa, o “querubim gigantesco” dedicou os anos de 1923 e 1924 para redigir, com a tranqüilidade que lhe convinha, aquela que seria considerada por muitos a sua melhor obra: O Homem Eterno (1925), em que expunha a sua filosofia da História, tendo como eixo o mistério de Deus encarnado. Esse livro foi crucial para a conversão de Lewis, que acabou por se tornar também um dos apologistas cristãos mais importantes do século passado.

Em suma: em todas as suas obras é patente o entusiasmo do escritor pela realidade, pelo que é. Chesterton era o grande inimigo do racionalismo idealista e cético. É notável em seus escritos a atitude profundamente humilde do espectador que se maravilha diante do quadro à sua frente: a realidade da Criação.

Chesterton guardou a fé até o último instante, recebendo a extrema-unção de seu amado Padre O’Connor. Faleceu em 14 de junho de 1936, aos 62 anos, em Beaconsfield, Buckinghamshire. O Papa Pio XI, em telegrama ao povo da Inglaterra, escreveu: “Santo Padre profundamente consternado morte de Gilbert Keith Chesterton, devoto filho Santa Igreja, dotado defensor da Fé Católica”.

Os escritos do criador do Pe. Brown foram saudados por Ernest Hemingway, Graham Greene, Evelyn Waugh, Jorge Luis Borges, Gabriel Garcia Marquez, Karel Capek, Marshall McLuhan, Paul Claudel, Dorothy Leigh Sayers, Agatha Christie, Sigrid Undset, Ronald Knox, Kingsley Amis, Wystan Hugh Auden, Anthony Burgess, Ernst Friedrich Schumacher, Orson Welles e até Neil Gaiman. Para não falarmos no nosso grande Gustavo Corção. Segundo Thomas Stearns Eliot, Chesterton “merece o direito perpétuo à nossa lealdade”.

A respeito da missão de Chesterton, o Padre Leonardo Castellani ressalta que ela consiste em “rir, fantasiar, disputar, atirar-se no pasto e andar de pernas para o ar, cantar as verdades mais gordas à tesa Inglaterra, denegrir copiosamente os políticos, banqueiros, cientistas e literatos, escarnecer os inimigos e crer na Igreja Católica Romana; mas a graça está em que isto último é o que dá poder ao primeiro”.

Já em A abolição do homem, Clive Staples Lewis assinala: “Até agora, os planos educativos conseguiram pouco do que pretendiam e, de fato, quando os relemos – vendo como Platão faria de cada criança ‘um bastardo criado em uma repartição pública’, e como Elyot desejava que a criança não visse homem nenhum até os sete anos e, completada essa idade, não visse nenhuma mulher, e como Locke queria os meninos de sapatos esfarrapados e sem aptidão para a poesia –, podemos agradecer a benéfica teimosia das verdadeiras mães, das verdadeiras amas e (sobretudo) das verdadeiras crianças por preservar a sanidade que a raça humana ainda possui.” Os grifos são nossos.

Sem hesitar incluímos o “querubim gigantesco” entre as “verdadeiras crianças”, aproveitando para lhe agradecer a benéfica lucidez que pode preservar a sanidade da raça humana – ou, ao menos, de alguns representantes da raça. Chesterton nos ensina, como ensinou a vários grandes homens, e também a muitos pequenos cristãos, anônimos, a ver o cristianismo com novas lentes. Assim como os antigos monges costumavam recomendar a leitura dos Salmos para curar a tristeza ou a acídia, também não podemos deixar de recomendar, contra uma visão cinzenta e sem graça do cristianismo, a leitura desse grande médico de almas que foi Gilbert Keith Chesterton.


Nota biográfica preparada por Davi James Dias, membro do Nuec,
Belo Horizonte, Maio de 2009
-------------
Extraído do blog: Núcleo Universitário de Estudos Católicos

O que queres vir a ser?

Sim, o que queres vir a ser? Supões, talvez, que me interesso aqui pela escolha da tua carreira. Não; não é isso que aqui me interessa. Não te pergunto se queres ser médico ou negociante, engenheiro ou sacerdote, advogado ou industrial; para onde irás, aonde te conduzirão os teus talentos, a tua vocação, as circunstâncias, a tua situação social... pouco me importa isso aqui. Mas o que me importa muito, é que venhas a ser um homem e que cumpras o teu dever na situação que tiveres escolhido.

Sim, mais uma vez, que queres vir a ser? Se eu te faço esta pergunta à maneira de adeus, é porque eu desejaria saber se já alguma vez te perguntaste qual é a verdadeira finalidade, a grande missão do homem neste mundo. Porque, neste mundo, tudo, até o inseto mais minúsculo, até o mais pequeno grão de areia, tem um sentido, uma significação, um encadeamento estreito com o universo inteiro. Muitas vezes, esta finalidade, este destino das coisas, é dificilmente perceptível; não obstante, tudo a tem.

Só o homem não haveria de ter a sua finalidade? A sua é até a mais sublime de todas. E qual é então esta finalidade do homem?... A glorificação de Deus e a sua própria felicidade.

Que quer isto dizer? Isto quer dizer que deves empregar todas as tuas forças para realizar o teu ser essencial, a substância da tua vida na sua inteira totalidade. Por outras palavras: deves vir a ser um homem de caráter, um cristão e um patriota de caráter irrepreensível.

E quem é um homem de caráter? Aquele que ousa afrontar a corrupção moral sob todas as suas formas.

E quem é um cristão e um patriota de caráter irrepreensível? Aquele que não blasona de patriota com palavras teatrais, mas que serve a sua pátria com uma vida honesta e uma fidelidade inviolável ao seu dever.

Meus filhos: com a energia indomável de vossas almas juvenis, trabalhai por virdes a ser cristãos que honram a sua pátria!

A grande nação de tempos antigos - o Império Romano - edificou em Roma uma igreja magnífica. Deram-lhe o nome de "Panteão" e para ela trouxeram todos os deuses dos povos subjugados. Os ídolos mais extravagantes encontraram lugar neste templo construído com arte incomparável, e estas imagens grotescas - sinais de tentativas confusas da alma humana - davam uma nota triste e dissonante no meio de ricos tesouros acumulados sob as maravilhosas arcadas das colunas coríntias.

Um dia, em princípios do século IV, chegaram a esta cidade alguns viajantes estrangeiros: eram cristãos vindos de muito longe. Entraram no Panteão e, à vista de todas estas divindades pagãs de rostos extravagantes, ficaram possuídos de profunda tristeza. Um deles tomou então o seu pequeno crucifixo que trazia ao peito, tendo-o colocado ao pé da enorme estátua de um daqueles deuses, retirou-se em silêncio com os companheiros.

Olha, meu filho: esta pequena cena assemelha-se muito à luta que um jovem cristão deve sustentar hoje no panteão dos ídolos modernos. Ao saíres da escola, também tu hás-de sentir o sopro gélido do paganismo contemporâneo passar sobre o ideal da tua alma juvenil. No mundo, onde mutuamente se empurram e se espezinham uns aos outros para passar à frente, encontrar-te-ás bem depressa diante do panteão de erros e de preconceitos malsãos diante dos quais tantos dos teus compatriotas estarão de joelhos e como que em êxtase, - panteão onde só não terá lugar a adoração ao verdadeiro Deus.

E - quer queiras quer não - serás obrigado a penetrar neste panteão, e a ficar rodeado deste novo paganismo. O que então te importará será precaver-te bem para não te tornares também pagão.

Se trouxeres a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo ao peito e no teu coração, se viveres segundo os princípios cristãos, se não te envergonhares do teu crucifixo no meio dos teus companheiros e de teus amigos, no teu ofício, na sociedade, e isso por toda a tua vida, ficarás cristão, irradiarás luz, alegria, bom exemplo. E, assim, de jovem de caráter, tornar-te-ás homem de caráter.
---------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

Receba nossas atualizações