sábado, 15 de junho de 2013

DA BELEZA - Mário Ferreira dos Santos

De Mário Ferreira dos Santos
Capítulo do livro "CURSO DE ORATÓRIA E RETÓRICA"

Falamos nas páginas anteriores da beleza muitas vezes, sem que a tivéssemos estudado. Assim como o sublime, a beleza é uma fonte de agradáveis prazeres para a imaginação humana. A emoção da beleza é diferente da emoção do sublime, embora, como nos últimos exemplos que fornecemos, o belo e o sublime conheçam um ponto de contacto, o que aliás é comum observar-se. Quando o homem, em épocas mais recuadas, era capaz de assombros, o sublime predominava. Mas o homem moderno, sobretudo o das grandes cidades, é um tanto céptico, menos emocional em relação ao sublime. Um temporal que, no campo, é uma coisa sublime, na cidade perde grande parte de seus caracteres para nos parecer algo de impróprio, de inconveniente, de desajustado. É que a metrópole impõe sempre o seu gosto (ou melhor o seu mau gosto); é o estado do artificial, do apócrifo. Por isso o homem moderno, até quando vive nas pequenas cidades, não tem capacidade de captar facilmente o sublime.

Enquanto o sublime eleva o espírito, exalta, arrebata, a beleza dá uma emoção agradável, suave. O sentimento que pode engendrar o sublime, por ser violento, é menos durável que o prazer que dá a beleza. Os trechos que citamos participam tanto do sublime como da beleza. Elevam-nos e nos dão uma emoção agradável, perdurável, de tranquilo bem-estar. É que, como dissemos, não há fronteiras delimitadas entre o sublime e a beleza, pois se confundem muitas vezes.

Em que consiste a beleza? Se lermos as obras dos estetas, veremos que há uma grande divergência sobre o que consideram belo e qual o conceito que dele formam. E a dificuldade é simples de explicar: é que o belo não consiste em alguma coisa, que está aí. O belo é um valor, o belo vale. Quando dizemos que uma coisa é bela,nada acrescentamos nem tiramos da coisa. Se dizemos que um objecto é azul, o azul está no objecto, e se dizemos que não é azul, é que o azul não está nele. Mas quando dizemos que é belo, não o encontramos no objecto, que continua com as suas mesmas características como se não tivéssemos dito nada. O belo não o encontramos aqui ou ali. Então o belo é uma relação entre o objecto e o sujeito? Também não, porque o belo não depende apenas das apreciações subjectivas. O facto de alguém não perceber o belo de uma coisa, não quer dizer que essa coisa não seja bela. É êle um valor e os valores, na filosofia, são estudados diferentemente dos outros objectos, porque os valores, em suma, valem. Mas deve haver uma base real, de res, de coisa, no belo? Sim, há. E o que há é uma disposição harmoniosa de aspectos que permite despertar uma emoção estética, a qual nos leva a declarar belo um objecto porque tem beleza. Todos nós sabemos o que é belo, quando nos perguntam o que êle é, e não sabemos quando queremos dizer o que é. Dá-se com o belo o que se dava com o tempo para Santo Agostinho; todos o sentimos, mas não sabemos defini-lo.
Este tema transcende os limites da retórica, e cabe à filosofia da arte estudá-lo. Procuraremos simplificar quanto possível para tentar uma explicação singela.

Os estetas têm dificuldades em definir o belo, e é fácil ver-se por que. Alguns (são os cépticos), negam qualquer possibilidade de definição ou de encontrar-se nele um caráter objectivo. Vamos analisar.
Todos sentimos o que é belo. Há assim, em todos nós uma intuição do belo. Acreditamos que há coisas belas, que conhecemos e que não conhecemos. Sentimos que o belo é tudo quanto é capaz de nos provocar uma emoção estética. Em face de um objecto que nos provoca essa emoção, não trepidamos em chamá-lo de belo. Neste caso, procedemos a uma apreciação estética do objecto. Outro, porém, poderá dizer o contrário, isto é, apreciar diferentemente o mesmo objecto e dizer, dele, qeu não vale o ser-belo, que é uma obra sem beleza. O conceito do belo, intuitivamente formado por um e por outro, é o mesmo, mas, quando em relação ao objecto, um afirma que vale o ser-belo e outro afirma o contrário. Nesses casos, é a emoção estética, de um e de outro, quedeu o valor, valorou o objecto. Se examinarmos a história da humanidade, veremos que essas valorizações variam de uma época para outra, de uma classe para outra, de um povo para outro. São esses factos que fundamentam a opinião dos cépticos, na estética.

No entanto, há coisas chamadas belas que são belas em todas as eras e em todos os povos e para todas as classes.

Então, essas são dotadas da verdadeira beleza? Ora, não esqueçamos que o ser humano é sempre o ser humano. Há uma parte dele que varia, modifica-se através do tempo, mas há outra que permanece invariante. Quando a beleza é da primeira parte, é variante também; quando da segunda, atravessa o tempo.
Um crepúsculo de cores maravilhosas e cambiantes será belo em todas as eras humanas, independentemente do histórico, enquanto o homem fôr homem. Quando algum objecto é capaz de nos provocar a emoção estética mais elevada, chamamo-lo de belo. E êle realmente o será quando obedeça a essa parte invariante, quando fôr capaz de atravessar os tempos, quando tenha, em suma, o que chamamos de "eternamente actual".

Em que consiste esse "eternamente actual?" Consiste em ser actual sempre, não agora, nem ontem, mas sempre. A emoção estética, já vimos, ou nos arrebata pelo sublime ou nos dá esse estado agradável, manso, que é próprio da beleza. O homem sempre se emocionou esteticamente com o sublime e com o harmonioso, com o profundo e sábio, com o que o exalta, com o que lhe dá uma emoção de superação, e lhe modifica o estado interior sem um fim utilitário, sem que o utilize sempre que a contemplação se faça, não exigindo um esforço desagradável. Em suas linhas gerais, o "eternamente actual" e o instante que a arte toma e tira o tempo, liberta do tempo, do fluxo do tempo, do que se passa, para torná-lo eterno, imutável. Como esses temas pertencem à estética, bastam, para o estudo da retórica, os elementos que demos acima, que são suficientes para empreendermos outras análises de ordem teórica.

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