domingo, 27 de fevereiro de 2011

Os paralíticos


Por Anacleto González Flores
El Plebiscito de Los Mártires 



Até agora nosso catolicismo tem sido um catolicismo de verdadeiros paralíticos. Porque não temos feito, nem somos todavia capazes de fazer algo permanente, sério e tenaz para abrir passagem para que nossas idéias alcancem triunfo completo. Mas nosso catolicismo não começou a ser catolicismo de paralíticos nestes últimos tempos, senão que começou a ser desde tempos atrás.

Porque é um sinal inequívoco da inércia, da petrificação dos católicos o que lhes vai escapando a vida com todas as suas complexidades, até chegar ao extremo da prostração e de desonra que hoje nos encontramos colocados.

Somos, pois, os herdeiros paralíticos do catolicismo, que tem a quase todos os católicos de nosso meio atados a inércia em tudo, é a causa de nossa escravidão e de nossa prostração.

Os paralíticos do catolicismo, entre nós, são de duas classes: os católicos que sofrem uma paralisia total, porque se limitam a crer em verdades fundamentais e jamais tem feito nem fazem nada sério em relação a suas idéias, a não serem atos rotineiros de culto ; e os paralíticos que se deixam em êxtases diante de seus devocionários e que nunca fazem nem tem feito nada por seus princípios e para que Cristo volte a ser o Senhor de tudo: da imprensa, da escola, do livro, da rua, da praça, enfim, de tudo.

Está claro que quando uma doutrina não tem mais que paralíticos, se tem que estancar, se tem que bater em retirada das batalhas da vida pública e social, e a volta de pouco tempo terá que ficar reduzida a categoria de múmia inerte, muda e derrotada.

A paralisia dos católicos explica suficientemente nossa desonra, derrota, prostração e fracasso.

Ninguém duvida que se creia e se professem os princípios luminosos do catolicismo; é bom também saber manejar devocionários; mas reduzir o catolicismo como temos feito entre nós, a uma convicção encarcerada pela paralisia ou o êxtase de um livro de Missa; sem voltar os olhos a torrente da vida para apoderar-se dela, para conquistá-la e para oferece - lá a Deus purificada, transfigurada com o contato de Cristo e de sua Igreja, é entrar pelo caminho de todas as derrotas  e todas as desonras.

Chegado o instante em que sobre a face de cada paralítico, sobre os músculos desgastados e estirados pela paralisia de nosso catolicismo, passe vibrante, despertando, como o estouro de um vento que desce dos cumes até areia do deserto, colocando em marcha todas as batalhas e o anúncio de todas as vitórias.

Arranquemo-nos de toda paralisia; deixemos que o fogo de nossas idéias de católicos se converta em fogueira de paixão imensa e profunda e coloquemos em marca até a reconquista da vida.

Chesterton, talvez o mais profundo dos escritores convertidos ultimamente ao catolicismo, em seu livro chamado vida de São Francisco de Assis, disse que a atitude dos católicos diante da vida, diante do mundo, não deve ser de renuncia e sim de conquista.
 Voltamos nossos olhos, músculos para a vida; travemos com ela corpo a corpo, uma luta encarniçada e tenaz para redimir baixo o golpe de nosso braço e para voltá-la toda inteira para Cristo, que anunciou que atrairia até Ele todas as coisas.

A paralisia significa escravidão, desonra miséria e esquecimento. A volta ao caminho da ação e ao combate, é enobrecimento, reconquista, vitória segura e esmagadora.

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FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. p. 310-311.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Oração para o casal de namorados

Senhor, dai-nos a retidão de intenção e desejo em nosso namoro.
Purifique nossos corações para que possamos estar abertos a acolher seu amor e a partilhá-lo entre nós. Faça-nos puros e generosos. Preserve-nos das ciladas do maligno.
Dai-nos Senhor a clareza do que Tu queres para nós.
Mostre-nos e nos guie para que possamos participar juntos do sacramento do matrimônio.  Faça-nos um para o outro e que a fidelidade a Ti possa ser manifestada na fidelidade em nosso namoro.
Amém!

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Pier Griogio Frassati, um jovem incomum

Diego G. Silva
Publicado no site: www.piergiorgio.com.br

Quando uma coisa nos impressiona ou nos deixa admirados, ela sempre nos vem à mente, mesmo com o passar de dias, meses e até anos. A imagem de algo que nos agrada e nos traz boas lembranças é como um despertar que nos motiva a continuar com alegria a vida. Traz-nos uma sensação de bem estar, ânimo e alegria.

Quando pensamos nos santos e em seus feitos, vemos a força, grandeza, heroísmo e amor que eles tinham para o com próximo e para com Cristo. Não se pode dizer que um santo seja melhor ou maior que outro. Todos possuem sua grandeza e são dignos de admiração. No entanto, assim como existem santos que são conhecidos por suas habilidades intelectuais, como Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino, outros o são por sua dedicação à política como Thomas Morus, pela ajuda aos mais necessitados, como São Francisco, por dedicar ao amor ao sacerdócio, como são João Maria Vianney, e até por lutar em uma guerra, como Santa Joana d’Arc. São numerosos os santos, e cada um possui dons e carismas particulares.

Chesterton, um dos maiores escritores católicos, escreveu certa vez que o “que separa um santo dos homens ordinários é sua disposição habitual de se confundir com os homens ordinários.” Pier Giorgio Frassati é um evidente exemplo de jovem que se santificou nas coisas ordinárias, ou seja, no dia-a-dia, transformando-as em coisas extraordinárias. Sua dedicação aos mais necessitados, sua alegria contagiante (ele nos transmite isso até por meio de suas fotos), sua paixão pelos esportes e o amor ardente a Cristo Eucarístico, tudo isso o levou a ter uma vida extraordinária.

Se pensarmos em um exemplo e modelo para os jovens, não podemos de forma alguma esquecer a figura de Pier Giorgio. Este jovem, que nasceu na cidade de Turim, Itália, no dia 06 de abril de 1901, e que neste ano de 2011 completará 110 anos de nascimento, é um exemplo evidente de que a santidade pode ser alcançada sem limite de idade.

De família com posses, Pier Giorgio sempre teve consciência de que o que possuía deveria ser colocado à disposição dos mais necessitados. Todo dinheiro que seu pai lhe dava, generosamente doava aos pobres. “Ajudar os necessitados, disse a sua irmã Luciana, é ajudar a Jesus”. Seu testemunho impactava e assustava seus amigos, que não entendiam como ele podia fazer aquilo. Certa vez, um amigo lhe questionou como ele podia aguentar aquele odor das casas e dos doentes, ao que ele respondeu: “Nunca esqueça que mesmo sendo a casa miserável, você está se aproximando de Cristo. Em meio aos doentes e desafortunados, vejo uma luz peculiar, uma luz que não temos”. Com toda caridade visitava os doentes que moravam aos arredores de Turim e lhes prestava ajuda no que necessitassem. Era capaz de parar o trajeto que fazia para ajudar algum pobre a carregar seu carrinho com sucata para vender.

Desportista nato, apaixonado por escalar montanhas, Pier Giorgio utilizava disso para convidar seus amigos e com isso os evangelizava. Escreveu certa vez ao escalar uma montanha: “Quanto mais alto formos, melhor nós ouviremos a voz de Cristo.” Tinha consciência dos riscos que corria ao escalar: “quando se vai a escalar, é necessário ter limpa a consciência, porque não se sabe nunca se há volta.” Seu lema era "Verso l'alto" (Em direção ao alto).

Morreu em no dia 30 de junho de 1925, de poliomielite fulminante, que muito provavelmente pegou em uma de suas visitas aos doentes. “O melhor homem do mundo está morto”, escreveu o Deputado italiano Alberto Falchetti em seu diário. Este foi o sentimento com que milhares de pessoas foram ao seu velório e enterro. O fato surpreendeu seus pais, que não tinham dimensão de quão amado era seu filho. Por sua vez, os pobres e doentes que foram lhe prestar os últimos agradecimentos ficaram perplexos ao saber que aquele que lhes ajudava era de família tão rica.

Não me estenderei mais nos dados biográficos. Faço o convite para que leiam a biografia de Pier Giorgio Frassati e confiram os seus grandes feitos. Este jovem foi chamado por João Paulo II, durante a celebração da missa de sua beatificação, no dia 20 de maio de 1990, de “O Homem das oito Bem-Aventuranças”. Não bastasse isso, seu corpo está incorrupto e com um radiante sorriso. Somente Deus poderia deixar intocável até mesmo pelos menores dos seres vivos aquele que ama.

Frassati tinha consciência, como o mártir e beato Anacleto González Flores, um dos mais incansáveis defensores dos jovens e da juventude, de que somente o contato e a amizade com aqueles que partilham da mesma fé poderia ajudá-lo a vivenciar a sua. Anacleto González escreveu certa vez que: "Os jovens devem sair de seu isolamento, devem buscar o contato com outros jovens que trabalham e lutam por reivindicar os direitos de Deus e do homem. Não devem permanecer indiferentes diante das distintas agrupações formadas com o fim de dar ao bem uma alma de caráter social, já que o mal a tem como muito poderosa. Agrupai-vos, jovens católicos! Afastai-vos do isolamento que degrada, que envelhece, que mata, que leva indefectivelmente à derrota. Ide prontamente à organização [católica], pois assim vossos brilhos e vossas energias crescerão titanicamente e Cristo reinará apesar dos tiranos."

Pier Giorgio, não por menos, também escreveu um dos mais belos textos de motivação para os jovens. Devemos ter em mente estas palavras que refletem milimetricamente o que os jovens devem ser e pensar. Assim escreveu em uma de suas cartas: "Nós - que, por graça de Deus, somos católicos - não devemos gastar os anos mais belos da nossa vida como desgraçadamente fazem tantos jovens infelizes que se preocupam em gozar os bens terrenos e não produzem nada de bom, mas que apenas fazem frutificar a imoralidade da nossa sociedade moderna. Devemos treinar-nos, a fim de estar prontos para travar as lutas que, seguramente, teremos de combater pela realização do nosso programa e para assim darmos à nossa Pátria, num futuro não muito longínquo, dias mais alegres e uma sociedade moralmente sã. Mas para tudo isto é preciso: a oração contínua para obter de Deus a graça sem a qual as nossas forças são vãs; organização e disciplina para estarmos prontos para a ação no momento oportuno e, finalmente, o sacrifício das nossas paixões e de nós mesmos, porque sem isso não se pode atingir o objetivo." (Das cartas de Pier Giorgio)

Jovens, se querem ser santos, não vivam na mediocridade na qual tantos jovens vivem hoje. Nossa sociedade tende a nos oferecer o que há de pior. Não aceitem o que lhes é mostrado como bom e certo. Conheçam a vida de outros jovens que foram modelos de santidade, como Marcelo Callo, Alberto Marvelli, Albertina Berckenbrok (Brasil), Egidio Bullesi, Isabel Cristina Mrad Campos (Brasil), Isidoro Bakanja, Carlo Acutis, entre numerosos outros que devem ser seguidos por seu heroísmo na pureza da castidade, no amor a Cristo Eucarístico e por terem se destacado em uma coisa fundamental e que fez e faz toda a diferença: queriam ser santos!

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Nota biográfica sobre Chesterton


Nota biográfica sobre Chesterton*


Um “Pai da Igreja, forçado pela necessidade dos tempos e do mistério a pregar num estilo burlesco às multidões dos céticos e dos gaudérios”, um novo “Abram de Domenico Cavalca, que enfiou um capuz sobre a armadura e ataviou-se com belas vestes, para entrar no local de perdição a fim de converter a sobrinha”, um “bispo vestido palhaço“ (E. Cecchi), um “gênio colossal”, o “Chesterbelloc” (G.B.Shaw), “tão alegre que se poderia quase ficar tentando a acreditar que ele de fato encontrou Deus” (F. Kafka), “um presente oferecido à comunidade católica (e a toda humanidade) diretamente por Deus” (Cardeal G. Biffi), “um dos melhores que existem” (E. Hemingway), “talvez nenhum autor me tenha proporcionado tantas horas felizes como Chesterton” (J. L. Borges), “Crianchesterton”  (PE. J.O’Connor), “Defensor fidei” (papa Pio XI).

Partindo das mil maneiras utilizadas para definir esse homem, logo perceberemos que estamos diante de um gênio, um homem excepcional sob todos os pontos de vista. “ Gilbert Keith Chesterton foi excepcional de verdade. Em sua Autobiography [Autobiografia] ele afirma, mostrando toda sua personalidade amável e polêmica, humorística e cheia de alegria:

Curvando-me com certa credulidade, como costumo fazer, ante a mera autoridade e a tradição de meus antepassados, fruindo superticiosamente uma história que, quando aconteceu, não me foi possível controlar como experiência pessoal, tenho a mais convicta opinião de ter nascido no dia 29 de maio de 1874, em Campden Hill, Kensington, e de ter sido batizado, segundo as fórmulas da Igreja Anglicana, na igrejinha de São Jorge, situada na frente da torre da caixa d’água que domina aquela paisagem elevada.

Mas de onde provêm essa personalidade tão vivaz e essa alegria profunda e contagiante que deixaram nos leitores marca tão forte? A pergunta se faz óbvia diante de homens de tal quilate. Tudo leva a pensar que se trata de um presente, como diz o cardeal Biffi, um presente inesperado. É como uma semente caída numa terra que não esperava outra coisa. Uma feliz intuição de liberdade da razão e otimismo em relação à vida; germina num contexto familiar afetuoso e receptivo ao bom, cresce primeiro nas margens e depois no lugar onde tudo isso se sente em casa, a Igreja. Assim nasce um autêntico gênio do pensamento e da vida, Chesterton.

Nasce numa família não comum: o pai Edward trabalha no setor imobiliário, sócio com seu irmão Sidney de uma agência que existe até hoje; sereno e despreocupado, transmite aos filhos o amor pela arte e literatura, o gosto pelo fantástico e uma desenfreada paixão por brinquedos, em primeiro lugar pelo teatro de marionetes. “Inglês no grau máximo”, uma espécie de Sr. Pickwick, dirá Gilbert; liberal e unitarista, mais propenso às discussões que ao fervor religioso.A mãe é Marie Louise Grosjean, cujo pai era suíço (pregador leigo calvinista) e a mãe escocesa. A avó escocesa é que vai abrir para Gilbert as portas do “ensolarado país das fábulas”, para o ele tecerá pela primeira vez em The Defendant [O réu] e ao qual atribuirá um fundamental valor moral e teórico em Ortodoxia. Terá a seu lado outro irmão, Cecil, ele também jornalista, nas batalhas jornalísticas e culturais.

Sua infância é serena, cheia de brinquedos e de afeto; não brilha de modo especial nos estudos e no fim da escola superior precisa acertar as contas especial nos estudos e no fim da escola superior precisa acertar as contas com a solidão e a depressão: desorientado diante da vida e do futuro, tenta a universidade sem obter nenhum êxito, em seguida uma escola de arte (será também bom pintor e desenhista); perde o contato com seus caros amigos do Junior Debating Club, todos na universidade, e fecha o jornal que juntos haviam fundado, The Debater; pratica o espiritismo, do que se arrependerá amargamente.

Essa é uma confusão desgastante para um homem fundamentalmente bom e inocente como ele é e será a vida inteira. Mas no fim sai de modo milagroso (essa é a expressão mais adequada) desse túnel aparentemente sem saída (no qual acalentou, como ele mesmo admite, até a idéia mais insana), graças à leitura do livro bíblico de Jó. A esse respeito contará depois numa carta a um amigo algo bastante estranho, uma experiência mística: “Tenho certeza de que cada coisa é o que é porque assim deve ser. Agora a visão está se desvanecendo na vida do dia a dia e me sinto feliz por isso. É embaraçoso falar com Deus cara a cara, como se fala com um amigo.”

A partir de então, a partir da inesperada granítica certeza (ou melhor, confirmação depois da prova) da intrínseca positividade da existência, enveredada por uma vida totalmente nova, sentindo um desejo incontrolável de dizer ao mundo que a vida é bela, que estamos aqui e poderíamos não estar e que se pode preservar o dom inestimável da inocência sem renunciar a nada da vida. São os motivos que fundamentam o pensamento de Chesterton, e deles nascerá toda sua vasta reflexão.

Isso é o que alegrará todos os anos de sua vida, literalmente dedicados à máxima difusão da feliz descoberta, sem poupar energias. São intuições naturais, que percorrem sem trégua sua obra inteira, como um rio subterrâneo que aparece     e desaparece, mas que sabemos estar sempre por trás de cada linha, cada palavra.

Descobre seu talento de escritor e começa a colaborar com muitos jornais; consegue em pouco tempo um sucesso imprevisto. Cresce cada vez mais o número de pessoas que se perguntam quem será esse “GKC” que assina aqueles artigos tão originais, bem escritos, cheios de inelutáveis paradoxos e bom-senso. Os primeiros artigos resultam no volume The Defendant [O réu] de 1901 (uma defesa do indefensável, desde as pastorinhas de porcelana aos thrillers de dez tostões...), e depois de alguns textos poéticos ele assina em 1904 seu primeiro romance, The Napoleon of Notting Hill [Napoleão de Notting Hill], narrativa surreal onde encontramos o seu amor pelas pequenas pátrias que o caracterizará por toda a vida, a coragem de letar pela própria casa e o próprio altar, princípio de toda ousadia, e os ecos da guerra anglo-bôer. Paradoxalmente Chesterton ganha notoriedade opondo-se ao imperialismo britânico, considerado pelos ingleses mais do que uma fé religiosa, e colocando-se na defesa dos camponeses bôeres num país em que isso é comparável a uma blasfêmia e alegremente provocando, junto com Hillare Belloc, seu amigo de toda a vida, até mais do que algum materialíssimo safanão por essa causa.

Desse ponto em diante temos um homem novo que delineará uma imagem absolutamente inédita do escritor, brilhante e apaixonado amante da verdade e do bom humor, jamais separados.

Não deixa de ser verdade o que dele disse Emilio Cecchi: é um bispo vestido de palhaço, alguém obrigado a pintar o nariz de verde a fim de atrair nosso olhar para a verdade. Ele se faz paladino da vida normal, da família, da ordem contra o caos, do senso comum. Mostra ao mundo com o entusiasmo de um apóstolo e a alegria de uma criança que há mais aventura na vida “normal” do que em qualquer romance de aventura, mesmo numa família onde nenhuma “aventura” acontece.

O padre Ian Boyd, presidente do Chesterton Institute for Faith and Culture, sublinha que “a exuberância e o modo divertido que caracterizavam o jovem Chesterton foram elementos decisivos na criação de sua imagem pública. Ele chegava a ser citado por quem nunca havia lido nenhuma de suas obras. As suas frases tornaram-se rapidamente proverbiais.” Sua fama de arguto debatedor rapidamente se faz enorme. Ele é “a delícia dos cartunistas” (Ian Boyd) por seu perfil inconfundível (ele, que na adolescência era um sujeito alto e enxuto, com o passar dos anos torna-se um gigante com mais de um metro            e noventa de altura pesando cento e trinta quilos (ou mais), que alimenta histórias e lendas de todos os tipos (uma delas é a seguinte: Chesterton se levantava no ônibus e de repente havia espaço para que três mulheres se sentassem...).

Mais uma vez é o padre Boyd quem nos diz que Chesterton “via a literatura como uma profecia; ele se tornara o depositário das e dos idéias de seus leitores. Expressava por eles o espírito de uma das épocas mais exuberantes desde o período isabelino. Personificava a energia e o otimismo edwardianos e o espírito que mais tarde foi definido em sua biografia de São Tomás de Aquino como ‘aquele que se alimentava de fatos universais e também de um forte apego à vida”’.

Em 1905, escreve Heretics [Heréticos], o ensaio que mostra, na crítica das idéias e das figuras em voga em seu tempo, seu distanciamento pessoal em ralação ao “pensamento” segundo o qual “a verdade cósmica tem um peso tão insignificante que nada do que alguém diga pode ter importância alguma”. E mais adiante: “Em volta de qualquer inocente mesa de chá, todos os dias acontece de ouvir-se alguém sentenciar”: ‘A vida não vale  a pena’. E ninguém acha que essa consideração difere desta outra: ‘Hoje o tempo está bom’; ninguém pensa que isso exerça algum efeito nos homens e no mundo”. Toda a sua vida será uma alegre luta contra esse mal de viver; dirá de fato em outra passagem: “Desentocar e combater o mal é o princípio de todas as alegrias.” Só assim é possível compreender Chesterton e seus vibrantes personagens.

Escreve num ritmo torrencial artigos sobre qualquer assunto que julgue dever discutir (Alberto Castelli dirá que sua vida foi uma única interminável discussão), praticamente sobre tudo, aonde quer que o empurre seu ela vital milagrosamente reconquistado. Trava batalhas em qualquer campo, como, por exemplo, na polêmica antieugênica. Sua produção jornalística é imensa, um “desperdiço de arte e de ideias” que “causa uma sensação quase angustiante” (Emilio Cecchi). Sua assinatura aparece, entre outros, em periódicos como “Daily News”, “The Speaker” e “The Ilustrade London News”. Também publica sólidos ensaios sobre literatura enfocando R. L. Stevenson, Browning, Tennyson, Blake e outros autores, e mais adiante lança The Victorian Age in Literature (A época vitoriana na literatura), obra que muitos consideram de grande valor.

Em 1908 Chesterton atinge um momento de extraodinária clareza acerca do objetivo de sua vida e obra, e dá à luz duas de suas obras-primas, nas quais talvez seja mais vibrante e eficaz toda a lucidez recebida como dom inesperado: The Man Who Thursday (O homem que era Quinta-Feira) e Ortodoxia, reelaboração literária e teórica das passagens fundamentais de sua experiência humana até aquele ponto: o renasceer a partir do absurdo e a redescoberta da fé cristã mediante a experiência da razão aberta à realidade. Essas obras foram com razão como “autobiográficas” (Ian Boyd).

A Primeira é uma espécie de romance policial metafísico – dizem empregando uma expressão feliz – com o significativo subtítulo de Um pesadelo. Obra visionária, entre o místico e o grotesco, altamente poética e simbólica, ela faz um relato muito autobiográfico da descoberta da beleza e bondade da vida que é um mistério, e da possibilidade real da felicidade para o ser humano. É um livro repleto de referências ao Livro de Jó, ao qual Chesterton deve sua salvação. Gabriel Syme, o protagonista, é no fundo Gilbert, o homem com olhar de poeta, que descobre o ponto de fuga, presente em toas as coisas, que conduz ao Mistério, à origem de tudo. O monsenhor Ronald Knox, amigo de Chesterton e, como ele, brilhante autor de romances policiais e convertido ao catolicismo, afirma: “Trata-se de um livro extraodinário: é como se o editor lhe houvesse pedido para escrever um romance do gênero O peregrino empregando o estilo de As aventuras do Sr. Pickwick”. É a história do homem, de cada um de nós, que depois de mil confusões de forte sabor policial (porque no fundo numa vida normal há muito mais aventura do que em qualquer romance de detetive...) descobre o segredo da vida.

Ortodoxia relata a tentativa do autor no sentido de encontrar respostas para o mistério da vida e sua descoberta de que tudo o que ele procurava está no Credo dos Apóstolos; é a intuição da razão que caminha assombrada e feliz rumo à fé, ocasionada pelo desafio de G. S. Street, que depois de ler sua obra Heretics  (Hereges) fizera o seguinte comentário: “Com a minha filosofia [...] começarei a preocupar-me depois que o Sr. Chesterton tiver apresentado a dele.”

Chesterton, com uma comparação fulminante e engraçada – a história de um homem que deixa a Inglaterra em seu barquinho e aporta diante do pavilhão no litoral de Brigthon convencido de ter descoberto uma nova terra selvagem -, narra sua tentativa de inventar uma nova religião (é ele, portanto, o iatista... fantasioso, que vamos encontrar em outros textos) e a descoberta de que ela já foi “inventada”, é o cristianismo. Mais uma vez afirma o padre Ian Boyd:
           
Chesterton acreditava que no fundo de todas as realidades mais profanas cada um fosse capaz de encontrar a Deus. Poucas vezes ele escreveu sobre temas religiosos, mas nas ruas urbanas, ele conseguiu descobrir o mistério religioso presente no fundo de todas as coisas.

Chesterton chega assim à conclusão de que o cristianismo é para o ser humano “a maior fonte de sanidade mental”. Ortodoxia contém páginas inteiras de autêntica e agudíssima compreensão da vida, pela qual devemos ser eternamente gratos.

Dessa sua consciência nasce um fantástico romance, breve e muito intenso. Manalive (O homem vivo), publicado em 1911. Narra a história de Inocêncio Smith (nome e sobrenome nada casuais, personificação da inocência e da normalidade), que empreende uma viagem pelo mundo e também é iatista, e depois é acusado (pelo míope de alguns inquilinos da mesquinha Casa Beacon) de homicídio, furto, abandono da família, sua única e amada frente, que ele havia perdido na paralisia da rotina quotidiana. Um homem, diz Chesterton, que não aceitava estar morto enquanto ainda estava vivo. Em outras palavras, ele mesmo.

Essa, como praticamente todas as suas obras narrativas, apresenta aspectos nitidamente autobiográficos, embora dispersos no suerral. Sua intenção é falar da própria vida que é a vida de qualquer homem, e do mistério que nela existe, para não morrer.

Mas O homem vivo está em cada um de nós (um verdadeiro e adequado motivo poético para Chesterton) e precisa de ajuda; precisamos de alguém que nos empuree no Mistério e para o Mistério, e que do serviço quotidiano prestado ao Mistério tenha feito sua vida: padre Brown, sacerdote católico romano (como dizem os ingleses), detetive primeiro da alma e depois das coisas matérias. O primeiro de uma longa e feliz série de contos que têm como protagonista o semi-invisível padrezinho inglês foi lançado em 1911, e se inspira numa das pessoas mais importantes na vida de Gilbert e de sua mulher Frances Blogg, o padre Jonh O’Connor, sacerdote irlandês que se estabeleceu na Inglaterra, homem de extraordinária Inteligência e argúcia, bem descrito num capítulo memorável da Autobiography [Autobiografia], a primeira característica do padre Brown é o fato de ele ter não ter características, e sua importância consiste em não parecer importante, tudo contrastando com sua atenção e inteligência, graças a sua experiência de padre e confessor, na mente de quem cometeu o delito, compartilhando com ele tudo exceto o ato de delito final, como explica o próprio Chesterton em O segredo do padre Brown.

Em 1914 Chesterton foi acometido por uma grave enfermidade que quase lhe custou a vida, deixando aturdida aquela Inglaterra que, embora por ele muitas vezes criticada, correspondia sinceramente a seu amor. Nesse mesmo ano sai um romance profético e visionário, The Flying Inn (A pousada voadora); é a história de uma Inglaterra em que se instala um governo filoislâmico com o objetivo de eliminar no país todos os bares e casas onde se vendem bebidas alcoólicas, mas que encontra Patrick Dalroy o herói que – tendo atrás de si um barrilote de rum, uma peça de queijo e o distintivo do pub “O velho marinheiro” – conduz a rebelião contra a insensatez e desumanidade desse tipo de governo. É um hino ao bom humor cristão e contra os sincretismos impossíveis.

Em 1922 ele opta pelo catolicismo. Não faltou nisso a colaboração de amigos como o padre O’Connor, o padre Vicent McNabb (vibrante domenico irlandês defensor, como ele, do distributismo) e Hilaire Belloc. È o ancouradouro definitivo, nada fácil nem mesmo depois de toda um existência devotada a demonstrar ao mundo a sensatez da vida cristã. Naquele abençoado dia, em sua casa em Beaconsfield, Gilbert declara: “Os sábios têm mapas que desenham ao mundo universos densos como árvores, agitam a razão com mil peneiras que retêm a areia e deixam passar o ouro; para mim tudo isso ale menos que o pó porque meu nome é Lázaro e estou vivo”. A conversação origina também maior reflexão, e um Chesterton parcialmente diverso do brilhante jornalista em voga nos anos anteriores; isso lhe custará a perda de muitas amizades em sua prórpia casa (no fundo a desconfiança em relação ao Roman Catholic não morre facilmente nem nos dias de hoje).

No ano subseqüente à conversão Chesterton publica a biografia de São Francisco de Assis, talvez o santo por quem mais se apaixonará por seu poder de profecia e menestrel, de amante e forte contestador de seu tempo.

Em 1925 sai O homem eterno. Começa com o recorrente motivo da viagem e é uma excursão histórica do homem sobre esta terra, com a qual o nosso Autor prova que o cristianismo é o fator supremo de civilização em todas as épocas. Do mesmo modo que se fala do cristianismo como fonte de sanidade mental para o homem, nessa obra se fala do cristianismo como fator de civilização para o mundo. Se Ortodoxia é uma resposta ao desafio de Street, O homem eterno é a resposta a The Outline of History, de H. G. Wells, e seu “darwinismo histórico”.

A partir de agora Chesterton viaja muito, especialmente pelo Canadá e Estados Unidos, aquele país criticado por ele mas que lhe reserva acolhidas triunfais, em sua turnês que se tornarão proverbiais. Visita a Palestina, a França, várias vezes a Itália, que muito amava da mesma forma que amava os países católicos como a Irlanda e a Polônia (são “esses onde ainda se canta, se dança e se vestem roupas vistosas e onde a arte vive ao ar livre”, afirmava Chesterton), que também visita.

Em 1933 publica a biografia de santo Tomás de Aquino, definido por Etienne Gilson como a mais bela obra sobre o “Boi mudo”. “Ao lê-la não se pode pensar em outra hipótese que não seja a do gênio...” Colabora também em transmissões radiofônicas na BBC, conseguindo imensa popularidade.

Mas quem define Chesterton? Chesterton ama a gente comum porque Deus “criou muita gente assim”, sua querida mulher, a tradição por ser “a democracia dos mortos”, a cerveja e os bares “onde tinha seu trono” e “extravasava humorismo (R. Church)”; nele a liberdade e dogma são sinônimos; ele ri feito criança e é sábio como um velho de muitos séculos. Ama os bebês e a inocência (isso mesmo, a inocência!) que transforma na quintessência do homem verdadeiro e sobretudo vivo; participa das festas geralmente  entediado e mata o atirando cenouras no ar para depois apanhá-las com a boca fazendo rir as crianças presentes; ele é alguém que sai de casa para se casar, mas não deixa de passar pela padaria, freqüentada na infância com sua mãe, para beber um copo deleite, como também não deixa de levar consigo uma pistola, porque o casamento, senhores, é uma grande aventura e então é bom que se vá ao encontro dele devidamente armado...

Uns afirmam que ele é conservador, outros que é progressista: lamento dizer isso, mas rotulá-lo assim significa ter lido pouco ou apenas trechos de sua obra. Chesterton só descobriu a vida, seu segredo a ser defendido com o sacrifício e até com o próprio sangue, a ser difundido discursando sobre os telhados e chegando para isso até a loucura, a ser sempre defendido na vida sempre tendo em vista sua Fonte, o próprio Deus, cuja casa é a Igreja católica. Talvez ele não seja muito politicamente correto, tanto ontem como hoje. Mas está errado?

Morre em Beaconsfield (Buckinghamshire) no dia 14 de junho de 1936, onde está seputado até hoje, no pequeno cemitério católico junto à igreja paroquial de Santa Terezinha do Menino Jesus (uma santa quase menina, veja só...), junto com a mulher Frances e a quase filha e secretaria Dorothy Collins.

*Marco Sermarini
Presidente da Sociedade Chestertoniana da Itália


CHESTERTON, G.K. O homem eterno. Mundo Cristão. Tradução de Almiro Pisetta, São Paulo: Mundo Cristão, 2010. P. 291-300.

Carta de Jackson a Alceu Amoroso

Cartas de ontem e de hoje

Aproveitamos com muito prazer a colaboração do Sr. Abib Netto, de Mogi das Cruzes, que nos envia uma carta de Jackson de Figueiredo a Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde). Embora as cartas de ambos já hajam sido publicadas pela Editora Agir sob o título “Correspondências”, muitos leitores talvez não as conheçam, - e a de hoje é uma interessante amostra, marcando um momento decisivo na vida do fundador da nossa Revista.

Rio, 22/23-2-28

Querido Alceu!
           
Já aqui estou , de volta do retiro em Friburgo. Mais contente com Deus, mais descontente comigo, mais tranqüilo com a consciência, mais desconfiado do coração.
           
Enfim, está é a verdade: não noção vital do que é a Igreja (e até do que vale a sua força meramente discursiva) sem mergulhar-se num retiro. E depois, como não se lucra na perda de ilusões sobre nós mesmos! Porque não é brinquedo debruçar-se a gente durante três dias e três noites sobre a própria miséria interior.

Eu, pelo menos, ganhei isto: a certeza, desta vez, de que só do sobrenatural posso esperar solução do meu caso psicológico – pobre estragado por tantas perversidades do mundo. De mim mesmo é impossível. O mais que eu próprio poderei fazer em bem de mim mesmo é manter-me, como até agora, em atitude agressiva contra tudo quanto, em mim, me pareça amável, delicado, anuançado, propriamente lírico.

            Entreguei o seu livro ao velho Madureira, figura de santo.
            Com o Franca conversei muito sobre você.
            Estamos, pois, de novo, face a face.
            Adeus, meu querido Alceu!
            Um abraço do seu velho,
            Jackson

CARTA de Jackson de Figueiredo a Alceu Amoroso Lima. A Ordem, Rio de janeiro, v. 32, n. 48, p. 243, jul./dez. 1952

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

BBB 11 – o que fazer?

[Há muito tempo reflito sobre o BBB e o mal que ele vem gerando nos jovens e adultos que o assistem. Este programa é imoral. Os cristão não devem assistir e dar audiência sob o risco de estarem colaborando para a descristianização de desmoralização da nossa sociedade. Infelizmente é comum famílias inteiras assistirem esse jogo que tem como objetivo explícito mostrar o homem em seu mais baixo grau de depravação. É um jogo arquitetado para mostrar homens e mulheres embreagados e se pegando sem o menor pudor. Além de ser um jogo em que a busca pelo prêmio, ou seja, a fama e o dinheiro, é o fim dos que dele participam e, neste caso, a máxima "o fim justifica os meios" é aplicado em seu mais perfeito grau. Católicos não colaborem para a descristianização e desmoralização de nossa sociedade. Vocês serão cobrados por compactuarem com isso! Não assista BBB! Anacleto González nos adiantou: "Por toda parte se veem católicos degenerados rendendo homenagem de adoração a Deus com a inteligência, mas escarnecendo e pisoteando com seus atos, o que são uma contradição vivente das doutrinas que professam. E são estes mesmo que se espantam de que se persiga a Igreja, de que se odeie a Cristo, de que se blasfemem e de que a impiedade o inunde todo um rio imenso que transborda; pois tenham claro que as gerações, por cima do influxo das ideias, se formam com o contato e exemplo dos demais, portanto, se os católicos muito longe de viver sua fé e de observá-la no máximo possível em seus atos continuam como até agora trabalhando em oposição mais ou menos aberta com sua doutrinas e seu critério, seguindo sendo responsáveis da depravação profunda que trava nossa sociedade e que é obra das más ideias e dos exemplos corruptores." (Os católicos de hoje)] Amigo da Cruz Confira o artigo abaixo. Ele reafirma nossas convicções.
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Alguns pensam que o cristianismo não se deve ocupar de temas cotidianos. Para estes, deve-se refletir apenas em temas eternos, espirituais. Esquecem que o Senhor Jesus é Senhor do Tempo de da Eternidade; do Ontem e do Hoje. Não há aspecto da vida humana que escape do Senhorio de Cristo. Por este motivo, não se pode perder de vista o que acontece nos meios de comunicação. E o que os meios de comunicação estão veiculando?

Reprodução
O Brasil está discutindo a Lei 8029? O Congresso analisa a possibilidade de os cidadãos brasileiros darem a seus filhos a educação que eles acharem melhor, inclusive em suas próprias residências? A reforma tributária está em paula nos telejornais? E a diminuição dos impostos, o debate está sendo estimulado pelas televisões brasileiras? Não. Estamos  iniciando o ano com os mesmos problemas. As questões fundamentais, que deveriam ser a pauta do dia de todos os jornais, deveriam ser discutidas nas esquinas e padarias, todas elas darão lugar a infame prática de “bisbilhotar” a vida alheia, como se isso fosse importante para o Brasil ou para cada um em particular.
A mentira, a sensualidade, a dissimulação, a mediocridade, a irreflexão, a traição, a alienação política, superficialidade moral, a pequenez cultural e outras atitudes deste calibre serão veiculadas nos jornais e televisores de todo Brasil. As famílias brasileiras (infelizmente) vão torcer para que romances irresponsáveis aconteçam, para que tímidos sejam “eliminados”, para que velhos e gordos passem vergonha.
A continuidade deste Reality Show no Brasil demonstrou que os seus idealizadores não estão realmente preocupados com os temas nacionais. Aliás, o diretor do Big Brother Brasil, Boninho, já deu testemunho de sua moralidade e comprometimento com os cidadãos brasileiros. Assim, esperar que a Globo compreenda que este tipo de programa não melhora o país, nem os cidadãos, que ele veicula a imoralidade e a perversão social é esperar demais. Portanto, o caminho deve ser outro.
Se os cidadãos brasileiros desejam uma nação melhor, meios de comunicação mais dignos, devem agir de algum modo. Duas práticas que podem servir para alertar a TV Globo de que o caminho desses programas está equivocado:
1. Não assistir ao programa. Desligar a TV ou, o que é melhor, assistir a outro programa no horário é uma ação que impacta fortemente a emissora. A audiência é o objetivo destes programas, pois retornam publicidade. Ora, se a audiência está baixa e perdendo para outros programas, a emissora certamente repensa a continuação da atração.
2. Não comprar produtos que financiam o programa. Outra prática é boicotar os produtos que financiam o programa. Obviamente, se o objetivo é publicidade e se não há empresas interessadas na compra do horário de TV, o programa fica inviável. Abaixo há a lista – que será atualizada – das empresas que patrocinam o programa
Sei que caminhamos para a entropia. De fato, não é possível o Paraíso na Terra. Mas também não é necessário viver no Inferno, não é? Se aos cristãos é vedada a esperança de um mundo paradisíaco, pois seria a aceitação de uma vida sem Deus, igualmente é vedada a posição que aceita o pecado como condição ordinária da vida humana. O pecado deve ser vencido por nós, pois já foi vencido por Jesus. Façamos, portanto, o que podemos para que o erro não se propague por nossas ações ou omissões.


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quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Jackson

Jackson

Hamilton Nogueira*

Jackson de Figueiredo.  A Ordem,
Rio de Janeiro, v. 40, n. 5,
p. 323-324. nov. 1948.
Vinte anos passados não arrefeceram a lembrança viva do amigo, sempre presente no nosso espírito, neste ou naquele momento da nossa vida. Parece-nos, ao contemplar o seu retrato, que o seu olhar curioso, que tinha a expressão de ver mínimos detalhes, da nossa atividade, no plano do espírito, da nossa fidelidade à grande obra de renascimento religioso, detestavelmente, um dos grandes paladinos, durante dez anos de intenso trabalho intelectual.

Ele e Wagner Dutra foram duas criaturas predestinadas a fazer-nos pensar, a todo instante, no sentido eterno da vida. Jackson, despertando em cada um de nós o gosto pelos debates das idéias, mostrando-nos a grandeza do Catolicismo e tirando-nos do nosso indiferentismo; Wagner, pela ação de presença, pela sua bondade, pelo seu dom de adivinhar o sofrimento e as angústias do amigo.

Jackson morreu aos 37 anos. Somos hoje muito mais velhos, e no entanto, ele é que continua a ser nosso mestre, tão grande foi sua experiência, tão agudo o seu conhecimento dos homens, tão penetrante o seu julgamento.

Relendo, agora, a sua admirável correspondência, sentimos a profundeza do seu espírito ao pressentir o papel que iriam representar no mundo contemporâneo as figuras de Maritain e de Berdiaeff, cuja influência, há vinte anos, limitava-se a um círculo ainda limitado.

Era um profundo conhecedor da realidade brasileira, quer sob aspecto político, quer sob o aspecto religioso, representando a sua atuação de jornalista o bom senso de uma das inteligências mais lúcidas que passaram pelo cenário intelectual do Brasil.

Este ano, como nos anos anteriores, estão presentes todos os seus amigos, para manifestar toda a sua gratidão àquele que foi um dos guias da formação espiritual de cada um. 

*NOGUEIRA, Hamilton. Jackson.  A Ordem, Rio de Janeiro, v. 40, n. 5, p. 323-324. nov. 1948.

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quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Jackson, humanista integral

Por Silvio Elia*

Quando das comemorações na primeira década da morte do grande brasileiro fui honrado com um convite para participar do número desta revista [A Ordem] ao mesmo dedicado, e não pude imediatamente aceder.

As minhas dificuldades não eram de tempo, nem de inspiração, mas de preparo.

Foi a doze anos atrás que me surgiu aos olhos, pela primeira vez, o nome de Jackson de Figueiredo. Cursava eu o ginásio e já me ia afeiçoando com os nomes de nossos mais notáveis homens de letras, pois entremeava o estudo nos compêndios com leitura de jornais e revistas. Conhecia-os, portanto, através das crônicas de imprensa.

Lembro-me perfeitamente a surpresa que me causou a notícia da morte de um Jackson. É que o jornal a dera com grandes louvores à inteligência e à personalidade do morto. Tive então a impressão – mais tarde confirmada - que se tratava de um vulto singular, e admirei-me bastante de nunca lhe haver lido o nome em qualquer outro periódico.

Todavia, Jackson durante ainda algum tempo continuou a ser para mim um desconhecido. Só quando vim a me sentir atraído pelos escritos de Tristão de Atayde, então em plena campanha de combate ao mofado cientismo de tantos soi-disant valores da nossa intelectualidade, é que reencontrei o seu nome. Percebi que ele era agitado como a bandeira de luta e conseguia reunir em torno a si temperamentos os mais diversos.

Nessa época, iniciando o curso jurídico, eu me sentia revoltado contra o ambiente bolchevizado da nossa Faculdade, em que professores panfletários inoculavam vírus dissolventes nas inteligências jovens que acorriam a suas aulas. Em nome da libertação do proletariado, negava-se Deus (que atualmente os comunistas se apressam em “respeitar”...), solopavam-se as bases da família, favorecia-se a libertação dos piores instintos. E não havia quem se levantasse contra tamanha dissolução que Tristão de Atayde, cujo livros se sucediam demolidores e restauradores.

Foi nessa ocasião que li alguns livros de Jackson. Confesso que muito pouco me interessou. Não que desconhecesse valor, mas neles não encontrei elementos com que satisfizesse a minha vontade de acertar com idéias definitivas e rechaçar as idolatrias demoníacas do marxismo internacional, ou nacional. Era cedo demais para eu compreender a posição do bravo sergipano.

Hoje se passaram alguns anos. Nesse breve espaço de tempo as condições do mundo se transformaram profundamente. O fascismo tornou-se de “defensor” em perseguidor da Igreja. O comunismo político procura uma aliança com as democracias e volta a incensar a lírica liberdade dos tempos burgueses. E as chamadas grandes democracias aproveitam-se dos erros crassos dos totalitarismos, para identificar a sua causa com a da cultura e, por isso, tentaram uma recomposição, bastante suspeita, com a Igreja.

Pois bem: no mundo novo de hoje, tão diferente do de há três anos, a personalidade de Jackson se vinca com o mesmo fulgor e a mesma atração dos tempos em que vivia entre os homens.

É esse admirável fenômeno que hoje se vai explicando. Jackson foi, essencialmente um anti-burguês. Foi um perturbador realmente, um homem que veio falar à avestruz da tempestade, exatamente quando o satisfeito animal melhor se julgava protegido pela asa...

Ora, o burguês é apenas um aspecto desprezível da natureza humana que triunfou num dado momento histórico. Ele, porém, está sempre ao nosso lado, chamando-nos, enleando-nos, convencendo-nos. Não podemos, nem devemos ceder um momento sequer. Para isso é preciso reagir sempre, reagir com violência, com âmago da nossa personalidade. Porque o burguês é o homem epidérmico, das ilusões fáceis e dos prazeres grosseiros.

Daí a luta de Jackson consigo mesmo, com o “seu” burguês. Daí a sua força sobre os bem intencionados, sobre todos aqueles que sinceramente procuravam a verdade.

Por isso os seus livros nada têm de sistemático, quase diríamos de harmonioso. Jackson nunca foi um fazedor de idéias. É muito fácil e distrai bastante os intelectuais burgueses a criação de sistemas. Não conheço melhor exemplo, no domínio da mediania intelectual, que a doutrina espírita, onde fantasias mentais são tão abundantes, quanto indemonstráveis e satisfazem comodamente a necessidade de uma explicação final do universo. Haverá coisa mais incômoda que o diabo e o fogo eterno?

Jackson não expõe idéias em seus livros, mas põem problemas. E quem ainda não os tiver sentido dentro de si, inútil buscá-los nas páginas de suas obras. O homem livresco é exatamente aquele que “conhece” os problemas e as soluções propostas, por haver encontrado expostos em algum trabalho, mas não os sentiu realmente em si. E por isso não os compreende. E Jackson ou é compreendido, ou abandonado. Não pode provocar admirações no puro intelectual, nem alegria entre os amáveis.

Essas razões que dele me distanciam, no primeiro encontro. Nessa época eu não percebera ainda o meu “burguês”. Estávamos talvez ainda um pouco identificados demais... e, com certeza, dele ainda não os despojamos suficientemente. Do ponto de vista intelectual, o que me seduzia era exatamente as idéias, e não as situações. Para mim as ideais governam o mundo e a consciência modelava a existência.

Por isso, dizia eu a princípio, sentir-me fraco demais para escrever sobre Jackson, quando a isso me aludiram.

Ao ler posteriormente o número de “A Ordem” em homenagem ao inquieto analista de de Maistre, bem como as reveladoras cartas que dirigiu a Alceu Amoroso Lima, verifiquei quão justo fora o meu temor. Não era eu que precisava falar dos outros de Jackson, mas precisamente quem precisava ouvir falar de Jackson. E de fato, os artigos de Amoroso Lima, Barreto Filho, Hamilton Nogueira nos apresentaram o verdadeiro Jackson, o apaixonado da “vida”, o diretor de consciências.

Jackson, pelo contrário, só se satisfazia com a solução total. Coisa alguma lhe interessava se não se satisfazia com a solução total. Coisa alguma lhe interessava se não fosse apreciada “sub ratione aeternitatis”. Os objetos mais queridos pela beleza, pela graça ou pela riqueza, ele os abandonava sem saudade, nem tinha inveja de que os possuía. A si próprio, a que tanto amava, a ponto de ser tentado a constituir-se em chave do universo, desprezava enquanto ser contingente e votado ao desaparecimento. Só a alma, a salvação da alma o orientava nas suas decisões.

E nesse sentido é que Jackson era homem de ação. Não ainda “de ação” na algaravia ianque de “ativista”. Mas de ação real, isto é, incapaz de se mover sem se para deixar a marca indelével de sua passagem.

Nem se pode dizer que Jackson só pensava para agir. Isso diria um comteano, ou qualquer outro calinada. Para Jackson, o pensamento já era a própria ação, pensar era agir, era se identificar com uma situação e compreendê-la e, portanto, resolvê-la.

Essas pequeninas reflexões e ainda outras me vinham à mente ao perpassar a extraordinária correspondência do autor do “Aevum”. E eu pude então entender porque não me aproximara de Jackson, quando estudante de direito. A minha inveterada tendência para tudo resolver na tela das idéias puras, o meu semi-burguesismo mesmo me afastaram desse perturbador, desse inquieto contagioso, que não deixava incólume alma alguma que resvalasse pelo campo de suas infatigáveis análises.

Só a lição da vida, só as situações que ela nos cria, só a necessidade de vencê-las, isto é, de assimilá-las a nós sem nos deturpar, nos pode por em face com certas questões fundamentais, que encontramos em Jackson de Figueiredo.

Doze anos passados, a sua presença é uma realidade. Jackson de foi talvez a mais forte personalidade da história do Brasil independente. Ele é uma revelação de Deus e da Terra e um sinal de que no Brasil nada se fará em contrário à corrente cristã e ocidental, que ele veio encarnar.

*ELIA, Silvio. Jackson, humanista integral. A Ordem, Rio de Janeiro, v. 21, n. 2, 167-171, fev. 1941.


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Prefácio da obra São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino, de G.K. Chesterton.

Prefácio de  Joseph F. Girzone

É divertido observar uma criança brincando. As crianças vivem em seu mundinho próprio e o vêem como algo sério, dotado de muito sentido. Sorrimos para elas; As crianças conseguem aceitar nossos sorrisos. Se zombamos delas, porém, elas fogem de nós e não hesitam em se esconder. Como adultos, há muito perdemos a chave que abre as portas da beleza desse mundo infantil. Podemos observá-lo à distância, sentir a alegria e a atmosfera de aventura que fluem tão espontaneamente da imaginação da criança, mas já não podemos entrar nesse mundo. Nós o perdemos para sempre. Já estivemos nele um dia, mas, ao longo do caminho da vida, perdemos a chave para abrir as portas desse mundo.
Poderíamos ser tentados a considerar o mundo da criança como um mundo de faz-de-conta. Mas seria um erro. É faz-de-conta para nós, que descobrimos este outro mundo que não ousamos chamar de faz-de-conta. O mundo infantil assim como nosso mundo doentio para nós, nada tem de fantasia para a criança.
Quando examinamos a vida dos santos, deparamos esse mesmo fenômeno. A vida deles parece quase ficção, faz-de-conta, e não realidade. Dizemos que são sonhadores. Ou psicóticos. Atribuímos a eles uma série de nomes, pois somos incapazes de perceber o significado ou a relevância de suas ações para nosso mundo de faz-de-conta. Fazemos estátuas de São Francisco e rezamos sua Oração pela Paz. Nosso mundo assustado se apega desesperadamente à sua lembrança, numa frenética tentativa de proteger o meio ambiente da poluição; mas não o levamos a sério. Apenas o adotamos como sinal de estimação ou mascote, sem entender o verdadeiro sentido de sua vida.

Ler sobre a vida de Francisco nos relatos da maioria dos biógrafos é como ler uma série de episódios quase tão estranhos como os que vemos em Os caçadores da arca perdida ou num filme de James Bond. A história de Francisco é curiosa, mas não é para ser levada a sério,  e se – Deus não o permita! – um dos nossos filhos começasse a fazer algumas das coisas que ele fez, nós certamente levaríamos a criança aos gritos, não ao bispo, como fez o pai de Francisco, mas a um psiquiatra, algo desconhecido da época.

O notável gênio de G. K. Chesterton, nesta pequena biografia de São Francisco, reside em ter encontrado a chave para entrar no mundo aparentemente de faz-de-conta do santo, permitindo que o leitor compreendesse a lógica subjacente à resposta que Deus pôde dar a um homem que O levou a sério, tocando sua vida com uma magia proveniente de um outro mundo real.

Nesta pequena história, São Franscisco não é um sonhador. Ele via o mundo tal como era de fato em sua época, um mundo que, embora professasse a crença em Deus, zombava d’Ele na vida cotidiana. Francisco encontrou Deus e por acaso se apaixonou por Ele. Com isso, pode ver o mundo tal como Deus o via, passando a zombar desse mundo e de todo o absurdo que havia nele. Assim, pode aproveitar ao máximo o seu todo o absurdo que havia nele. Assim, pôde aproveitar ao máximo o seu papel de jongluer (malabarista) de Deus, procurando levar os filhos de Deus a compreender realmente o que significa ser filho de Deus. 

Não destruamos as coisas divinas ou as seculares

A revista “The Chesterton Review” de maio de 1992 republicou um ensaio de G. K. Chesterton chamado “As raízes do mundo” (The Roots of the World). Esse ensaio foi originalmente publicado no “The Daily News”, em Londres, no dia 17 de agosto de 1907. Nesse mesmo período Chesterton estava escrevendo sua obra “Ortodoxia” (Orthodoxy), que foi publicada em 1908.

O ensaio começa com uma espécie de parábola. Padre Ian Boyd CSB, em sua breve introdução ao texto na “The Chesterton Review”, observa que esse foi um ensaio muito famoso e que Chesterton costumava usar tais parábolas “como forma de ensinar verdades morais”. Suspeito que ele as usava também como um modo de ensinar as verdades metafísicas em que se baseiam as verdades morais.

Em suma, Chesterton discorria sobre a conexão existente em todo o universo, desde as coisas mais elevadas até as coisas mais inferiores. O que não podemos fazer é mudar Deus, mas, caso tentemos transformar Deus em algo que ele não é, acabaremos por mudar a nós mesmos ou a mudar o mundo. Isso quer dizer que a lógica da mudança de uma coisa irá, necessariamente, resultar na mudança de outra coisa no mundo. Se pensarmos Deus de modo incorreto, pensaremos incorretamente o homem.

A estória é um modo novo de narrar a queda do homem do Paraíso, descrita no livro do Gênese. Há um jardim onde cresce uma estranha flor em forma de estrela e um menininho que está proibido de arrancar as plantas. Ele pode tirar as flores, mas não arrancar as plantas pela raiz.

Naturalmente, o menino, um reflexo do jovem Agostinho, quer algo mais nesse mundo do que arrancar a flor com raiz e tudo. Os mais velhos dão a ele inúmeras razões, não muito boas, para não arrancar a planta. Mas o menino tem um motivo “bobo” para querer arrancar a planta pela raiz, independente de qualquer argumentação. Ele explica que “a verdade exige que eu deva arrancar a coisa pela raiz para ver como ela está crescendo”.

Os pais e professores do menino nunca lhe disseram o verdadeiro motivo dessa proibição, ou seja, o fato de que ao arrancar a planta pela raiz, ele “mataria a planta e nada é mais verdadeiro numa planta morta do que a planta viva”. Em outras palavras, teria ajudado muito se os pais dessem ao menino uma razão precisa para a proibição, mas mesmo que não o fizessem, a proibição permanecia. Já que a planta morta não iria revelar a verdade sobre si mesma, o menino arriscou-se ao castigo por violar a proibição e correu o risco de perder a própria verdade, que não poderia ser descoberta por outro método.

Parece que, numa noite escura, o menino se esgueirou pelo jardim e começou a arrancar a planta pela raiz. De repente, coisas estranhas começaram a acontecer. Primeiro, o menino não conseguia arrancar a planta. Mas enquanto puxava, a grande chaminé de sua casa caiu. Ele puxou novamente e o estábulo caiu. Gritos de agonia começaram a ser ouvidos. O próprio castelo onde morava ruiu. Esse caos pareceu atemorizar o menino, mas ele cuidou de não dizer nada sobre o estranho incidente com a flor. Ele ainda não queria obedecer a proibição.

O menino cresceu e decidiu tentar arrancar a planta novamente. Agora ele era um político e o governante local. Ele se cercou de um grupo de homens fortes e proclamou: “Vamos decifrar o mistério dessa erva daninha irracional”. Então, começou a puxar a planta com grande força. De repente, caíram a torre Eiffel, a muralha da China e a estátua da liberdade. “A Catedral de St. Paul matou todos os jornalistas na Fleet Street”. O governante lembrou-se da primeira experiência no jardim.

Nas várias tentativas, os homens fortes conseguiram derrubar metade dos prédios do país do governante, mas, ainda assim, não puderam arrancar as raízes da planta. Finalmente, o governante desistiu de seu projeto, ficando bastante frustrado. No entanto, chamou seus pastores e mestres. Ele os culpava por não lhe dizerem que não poderia tirar a raiz daquela planta, e que, caso tentasse, destruiria tudo ao seu redor. Tudo o que os sábios o disseram foi que não fizesse aquilo. Agora o governante via os resultados, mas não admitia sua responsabilidade.

Essa parábola, é claro, trata do cristianismo e das tentativas dos homens secularizados em se livrarem dele. Ao atacar a religião, os defensores do secularismo acabaram, não por eliminar a religião, mas conseguirar arrancar as raízes “da vinha e da figueira, de todos os jardins, de cada homem comum”. De certo modo há uma conexão entre religião e a vida do dia-a-dia.

Somos advertidos sobre a existência dessa relação e conseguimos obter algumas razões mal fundamentadas. Caso ponhamos em dúvida o erro ou acerto dessas razões, o que poderemos fazer é seguir adiante e tentar tirar as raízes da religião, acabando, nessa tentativa, por destruir o próprio coração da vida civilizada. Não pretendemos esse resultado, mas é o que acaba por acontecer. “Os secularistas não foram bem-sucedidos em destruir as coisas divinas, mas tiveram sucesso em destruir as coisas seculares”.

Os “inimigos da religião”, concluiu Chesterton, são como o menininho. Eles não podem deixá-la quieta. É uma espécie de fruto proibido, um desafio à autonomia deles. Eles vêem todas as proibições como meramente arbitrárias, como “algo violento”, não como algo razoável. Não podem acreditar que as desordens derivam das intromissões nas proibições solenes. “Eles diligentemente tentam estraçalhar a religião. Não podem arruinar a religião, mas conseguem destruir todo o resto”.

Mas, por que eles não conseguem destruir a religião? Os secularistas e os que se opõem à religião não podem tocar em seus axiomas, que são dogmas inteligíveis. Os axiomas permanecem como são, não importantdo o que aconteça no mundo. Ao não possuir as doutrinas da fé, eles necessariamente se comprometem com outras doutrinas. Defender que o homem não é feito à imagem de seu criador é tão dogmático quanto defender que ele o é.

Chesterton deu dois exemplos, o caso do pacifista e o do evolucionista. O pacifismo é uma doutrina sobre a coerção. O resultado disso é uma alternativa “intolerável e ridícula” onde “não devo culpar um rufião, nem elogiar o homem que o golpeia”. A teoria tem conseqüências estranhas.

Por causa das inúmeras gradações na natureza, sobre a qual está baseada a teoria evolucionista, não podemos, segundo ela, ser forçados a “negar a personalidade de Deus, pois um Deus pessoal também pode trabalhar com gradações, como de qualquer outro modo”. Então, permanece a teoria. No entanto, o que o evolucionista faz, se a teoria for levada ao pé da letra, não é negar a personalidade em Deus, mas negá-la, por exemplo, em João.

Se a evolução é verdadeira, João está contido nela. Ou seja, ele é ele mesmo, mas está constantemente “aparando as arestas”. Ele está, nesse exato momento, evoluindo e se transformando em algo diferente. Se tudo está em evolução, até nós mesmos, até mesmo o João, então, nessa mesma lógica, nós não somos realmente nós mesmos. O que por fim deve ser negada não é a personalidade em Deus, mas “a existência de um Sr. João individual”.

Se queremos que o João exista como João, então ele não deve estar, nem mesmo de leve, num processo de se transformar no Sr. Silva, ou em alguma espécie superior. A antiga religião quer que o João permaneça João. Se tentarmos arrancar as raízes dessa doutrina da religião, não terminaremos por eliminar a doutrina de que João é João, mas nos forçaremos a olhar para ele como “não-João”. No caso evolucionário, nessa lógica, o mundo está cheio de coisas, onde incluimos o João, que não são, realmente, elas mesmas.

Portanto não podemos, em verdade, destruir as coisas divinas, mas certamente podemos destruir as coisas humanas. Se observarmos as coisas humanas e seculares sendo destruídas, devemos começar a suspeitar de que estamos violando algumas proibições. Devemos suspeitar de que se arrancarmos determinada flor, iremos arrancar o mundo. Também não devemos esquecer de que as proibições estão, da mesma forma, enraizadas na verdade que o menininho estava buscando. A verdade é que ele não poderia conhecer a verdadeira realidade da flor se a matasse, arrancando-a do solo. A proibição teria salvado o mundo. A razão poderia ter salvado a flor.

Nas raízes do mundo repousa, incomodamente, a vontade que quer somente a sua própria verdade. As proibições nos dizem que há um mundo que nós, e o João, queremos, mesmo que não seja o mundo que estamos construindo. A flor já estava lá. João já era João. Os Mandamentos, as proibições, foram projetados para manter os dois. Mesmo se demolirmos todo o mundo, não acharemos nossa verdade, mas somente a Verdade. Há somente uma teoria, até onde sei, que permite João ser João. Essa teoria ainda é chamada cristianismo. Creio que esse é o sentido da parábola de Chesterton sobre as raízes do mundo.

Padre James V. Schall SJ
Tradução de Márcia Xavier de Brito

fonte: CIEEP

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