quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O verdadeiro sentido da vida

Por Anacleto González Flores

Discurso pronunciado no dia 26 de agosto de 1916, na primeira sessão celebrada  pela A.C.J.M. (Asociación Católica de la Juventud Mexicana), na cidade de Guadalajara.



Senhores:

Entre a “multidão” de ideias que se movem nos cérebros e que todos os dias escapam e se precipitam por todos os rumos, como aves de luz em busca de um céu que ilumina e de um espaço azul para bater suas assas, tem umas que apenas levantam poeira da terra, que apenas tocam a superfície dos corpos e que passam longe, muito longe das almas e vão a perder-se, desaparecer nos confins em que caem condenadas, impotente; outras, como a luz que vem do céu aquecer as plantas, a rejuvenescer os troncos envelhecidos como água que cai do firmamento e umedece e faz brotar os germens. Vão ao mais alto e baixo do espírito humano, tocam as distâncias, se estendem a todos os confins e sob o influxo incontrastável dos atos, se tornam orientação suprema das inteligências, dos corações, das vontades, em fim, dos homens e das coisas.

E aquelas ideias, ou seja, as que desaparecem e somem, tem um caráter de todo acidental e acessório e não importa para a humanidade senão de muito longe, e caso se faça uma discussão sobre elas deve ser breve para abandoná-las e fixar profundamente a visão do espírito nos princípios de poder decisivos e de força transcendental. Ah! E em torno delas devem-se travar as mais ardentes batalhas, deve livrar-se o possível das discussões e deve-se engajar na mais formidável e acalorada das discussões, porque batalhar, lutar e discutir ao redor dos grandes pensamentos, é o mesmo que batalhar, lutar e discutir em torno dos grandes destinos do gênero humano. 

Ai, pois, onde se inicie uma afirmação, onde surja um sistema e onde se levanta uma doutrina dessas que pretendem arrancar a verdade ou erro da supremacia sobre as mentes e os corações, devem estar juntos todos os soldados do pensamento, todos os lutadores da idéia; devem levantar todas as bandeiras, devem relampear no campo de batalhas todas as espadas, devem brilhar todas as baionetas, devem iluminar todas as trincheiras e deve combater feroz e ardentemente ao redor de todas as posições. Aí do que queira guarda a espada! O estigma dos covardes cairá sobre sua face como uma maldição. Aí dos espíritos desgastados pelo sofisma, pela inércia e pela podridão do coração!

A mão de Deus que tem acumulado a luz do pensamento no cérebro da classe governante saberá descarregar golpes formidáveis sobre todas as eminências e saberá fundir todos os cumes de montes; e a humanidade que cansada e transpirando espera pelos raios do sol que irão romper a sombra que escurece o horizonte, se precipitará por caminhos desconhecidos e extraviados; mas no dia do cataclisma, encontrará os pensadores gastados pelo sofisma e pela podridão do coração e os derrotará, com a ignorância e a força fundidas, em só poder de dissolução: a barbárie.

Frente a frente com os pensamentos de caráter transcendental todos os homens devem parar, ficar de pé e perplexos; o gênio deve interrogar todos os confins até que sua palavra, como luminar esplendoroso acendido dobre a planície, ilumine todos os caminhos que vão parar diretamente o por vir e o resto dos mortais sem temor e sem indecisão deverá precipitar pelas rotas traçadas desde os riscos da imanência.

E bem: houve uma época de pavor e obscura como a noite que põem nos céus a obstinação das grandes tempestades: essa época é conhecida na história com o nome de paganismo (1).  Durante ela, a humanidade gemeu desolada baixo o peso enorme do erro transcendental. Conceitos extraviados, sistemas errôneos e opiniões falsas acerca do que está acima ou abaixo, do céu ou da terra, de Deus e da matéria; a sobram haviam baixado sobre todos os abismos, havia subido a todos os cumes, havia enegrecido todos os horizontes e havia envolvido a gerações nos densos nevoeiros dos erros transcendentais.

Houve outra época luminosa e brilhante como as irradiações que o dia põem nos céus nas manhãs úmidas, claras e tranqüilas da estação de verão. Durante elas tiveram idéias precisas e exatas acerca de Deus e do homem, do espírito e da matéria; do que está longe ou próximo; se viu com claridade esplendorosa o ponto remoto de nossa partida, o confim longínquo em que encontraremos repouso e o lugar em que se livram os combates da vida. O Verbo luminoso de Deus partiu do Calvário, baixo a todos os abismos, prendeu seus fulgores em todos os cumes, acendeu todos os horizontes, tocou todas as longínquas e envolveu as gerações no oceano  de luz da verdade. Mas o erro não supôs nem quis declarar-se vencido e continuou, segundo a expressão do Conde de Maistre (2), preparando a grande conspiração contra a verdade. A rebelião estalou há um tempo e em todos os pontos, removeu todos os sistemas, sacudiu todas as doutrinas e removeu todas as idéias.  Os que ontem em apertadas multidões e com passo firme e seguro marchavam com a face voltada para o oriente, tiveram que deter-se um instante, entraram na confusão do pensamento que é mais obscura e mais negra que a confusão da palavra, não puderam se entender e se dispersaram para buscar a verdade, uns lá onde o sol se põem todos os dias; e outros, lá nos confins onde a luz não acende nem apaga jamais.

Tem vindo à desagregação dos espíritos; tem multiplicado e individualizado os sistemas; foi quebrado o feixe apertado e forte da inteligência e do coração formado pela verdade; tem sobrevivido a dissolução das idéias e se tem apoderado da humanidade inteira a anarquia dos entendimentos que é a causa geradora de todas as anarquias. A vida dos povos se derrama pelos caminhos extraviados e a época presente se encontra baixo o peso enorme do erro trancendetal.

Assinalar aqui todos os erros de caráter transcendental que padecemos nesses dias, seria cansar bastante vossa atenção e ir demasiado longe, por isto só analisarei por agora o verdadeiro sentido da vida.

Que o conceito da vida é força transcendental, o diz bem claro o fato de que dela depende a orientação individual e coletiva dos homens; e que as gerações de agora sofrem um grande erro sobre este ponto, nos demonstra o espetáculo doloroso que oferecem as sociedades modernas com o emprego que fazem de suas energias.

A questão pode ser colocada da seguinte forma: Qual é o verdadeiro sentido da vida? Ou, em outros termos: que emprego devemos fazer desta torrente de energias que circula por nossas artérias e que todos temos chamado vida? Teodoro Jouffroy (3),  esse grande filósofo que gemia desoladamente ao sentir em seu cérebro o vazio que abre a negação religiosa, escreveu estas ou semelhantes palavras:

“Há um livro pequeno que é posto nas mãos do homem nos primeiros anos de sua existência e nele se coloca a resposta e solução satisfatória aos grandes problemas que inquietam os pensadores e aperta fortemente o coração: se quer saber de onde vem, onde está e para onde vai? Pois não há mais que abrir o catecismo e se saberá o ponto fixo para a solução dessas questões.”

Bom, agora para resolver o problema do sentido da vida, poderia fazê-lo repetindo uma vez mais o que tantas vezes se tem dito: o homem foi posto no mundo para que ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Mas ainda que a verdade só se alcance por um ponto, no entanto, a ela se pode chegar por diversos caminhos, e nós agora vamos fazer um esforço para resolver este problema apelando a um procedimento, se não desconhecido de todo, quando menos não muito seguido.

Mas de uma vez tem passado por vossos olhos essa visão esplendorosa traçada com a mão mestra pelo pincel do autor Quo vadis? E vocês sabem da velha Roma envolvida em torrentes de sua voluptuosidade, de sua glória, de seu poder e de sua força, e perceberam também duas grandes figuras: uma que é o símbolo de um povo em dissolução e outra que é o símbolo do ressurgimento da humanidade caída: São Petrônio (4) e Paulo de Tarso. (5) o discípulo de Cristo e de Epícuro (6) se encontraram frente a frente e começou a discussão: “Grécia, - disse Petrônio -, nos contornos geniais de seus mármores, nos traços magníficos das pinceladas de seus pintores e no ritmo sonoro de suas estrofes imortais, tem lhe dado a beleza a humanidade; Roma no ímpeto avassalador de suas legiões, no esplendor de suas conquistas e na espada de seus capitães a deu poder e glória. E vocês cristãos, que vos atrai o gênero humano?” Paulo de Tarso se ergueu tão alto como era, fixou profundamente no pagão aqueles olhos que haviam visto sem reclamar a todos os tiranos, e logo, como torrente que se despenca, fez ouvir sua voz grave, solene e incontrastável e disse: “Nós trouxemos o amor”.

Veja bem, o problema proposto sobre o verdadeiro sentido da vida se resolve com a resposta de Paulo de Tarso; e nós podemos afirmar que esse sentido da vida se encontra no amor. E não é questão de meras palavras, nem misticismo, nem muito menos dogmatismo filosófico, não: é uma verdade que lança análise sobre as inteligências e que caem sobre os espíritos para não levantar-se jamais.

Nós surpreendemos a vida com diversos graus de poder e de força nos distintos seres que formam o universo. Ao longo da planície imensa e nos declives do pico, a encontramos nos momentos precisos em que os germens brotam a luz do dia e quando as ramas rejuvenescem e cobre os troncos desfolhados com o verde da primavera. Ah! Mas em torno dela e em seu centro não há queixas que se elevem, nem alegrias que se despertem, nem amarguras que se levantem, nem dores que se recordem, e por isso lá vão se perder e morrer os ecos dispersos pelos cantos de guerra o das harmonias que se escuta próximos dos mortos. Surpreendemos-nos a vida com diversos graus de poder e de força no animal: e entre o verde das folhas e os troncos da selva há pupilas que ascendem, olhos que se iluminam e se dilatam, quando o estrondo dos céus e as canções dos ninhos despertam mil sensações.

Finalmente, no homem encontramos a vida em um grau superior; não é o ímpeto que rejuvenesce as selvas e que rompe a resistência da terra e saca a luz os germens fecundados; não é o sentido que ao colocar-se em contato com a matéria se estremece e depois sacode e empurra poderosamente o sangue de nossas artérias, não: é o pensamento que relampeja em nosso cérebro, como o raio nas noites tormentosas; é a idéia que através das sombras em que nos envolve o mundo dos corpos, fagulha e traz seus rastros resplandecente que não  se apagam; é, em fim, esse poder que leva ao mais profundo de nossos ossos e põem no mais profundo de nosso ser; um estremecimento sentido por todos e conhecido por todos e que dilata o coração, que enlouquece a cabeça e que faz saltar a alma de júbilo: o amor. A análise, pois, de nossa natureza nos ensina que todos os poderes acumulados no homem, devem ter um só fim e devem reconcentrar-se em só ponto; o amor. O poder vegetativo seria inútil se não estivesse ordenado ao poder sensitivo; este por sua vez o seria, se não o estivesse ao intelecto e este se não se ordena pela vontade.

O amor constitui pois verdadeiro sentido da vida; mas esse amor deve ter por desejo o infinito e o homem. O infinito, porque o homem que é capaz de conceber o imenso e também o deseja, e, como a felicidade, tem que resolver-se na posse do que não se esgota nem perece jamais, do que é a plenitude do poder, da força e do ser, pois de outra sorte surgiria de novo o desejo e não terminaria a inquietude do espírito humano; o amor deve terminar ou ter por ponto objetivo o infinito, isto é, Deus. Com muita verdade dizia Santo Agostinho: Inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te: inquieto está nosso coração até que não descanse em Ti.

Dirá vocês que o amor do homem deve terminar no infinito, em Deus. Isso está correto, mas o que é amor ao homem?; Que é o homem? Não é por acaso uma barreira que se rompe? Não é uma sombra que desaparece? Não é um fantasma que passa, um pouco de poeira que se dispersa como o sopro mais leve? Não é isso tudo o homem? Oh, sim! O homem é tudo isso, no entanto há entre o homem o grande poder da semelhança, o grande poder da fraternidade e, sobretudo, o grande poder de sua missão social.

Estava errado Aristóteles (8), apesar de todo seu gênio, quando não percebeu ou na quis perceber, a igualdade entre os homens; mas Cristo, que não em vão disse que Ele mesmo é a verdade e a vida, lançou sua palavra sobre nós e hoje todos nos vemos iguais. Existe o poder da fraternidade: por nossas veias corre e se precipita sangue vermelho, branco ou azul, que cor é não sei, mas o certo, o exato e o indispensável, é que um mesmo é sua origem, um mesmo seu ponto de partida, e por isso cada um de nós não é mais que uma prolongação do primeiro princípio humano.

Existe, por último, o poder da missão social: essa corrente de energias acumuladas no pensamento e no coração humano, não pode subir as alturas incomensuráveis, se não como rogar, como uma petição, com um queixa; mas não pode cobrar o que está acima, o infinito; e se deve baixar as profundidades para levantar os caídos, iluminar os que vivem nas sobras, e por último preencher os inumeráveis vazios e deficiências criados pelas limitações de nossa natureza. E os poderes antes mencionados devem impulsionar fortemente o amor, e de um modo especial a missão social deve estar encorajada, sustentada com vigor por Ele. A razão, pois, não nos ensina que o amor ao infinito e ao homem constitui o verdadeiro sentido da vida.

Se quiser, descemos do mundo das abstrações e das regiões altíssimas da metafísica para nos colocar em contato com os fatos. Agora me pergunto qual tem sido a luz da história, o critério que tem a humanidade para saber que emprego se deve dar a vida?  Pois a história nos ensina que o gênero humano se dividiu em três grandes grupos: o dos que tem colocado todos seus desejos e energias ao serviço do mal e do terror; o dos que tem amado até o sacrifício a verdade e o bem e os mornos e indiferentes que assistem o grande combate de braços cruzados. A humanidade e a história têm lançado sobre os primeiros seus anátemas e maldições; sobre os que não são capazes de fazer amar ou odiar porque não sabem conquistar o sorriso dos céus nem os ataques do abismo o silêncio, o esquecimento que cai sobre os sepulcros e que é a morte última e definitiva sobre a terra. Oh! Mas a história e a humanidade têm querido reservar os aplausos, os louvores e a apoteose para os que amam com delírio, com loucura e até sacrifício, o grande, o nobre, o santo, o infinito e o que merece nossa compaixão, nosso apoio e nossa ajuda, em uma palavra: Deus e o homem.

Saber viver é, pois, saber amar; mas não a nós mesmo com exclusão do infinito e do próximo, se não, sobretudo, o infinito e logo o homem que é e deve ser o objeto, o foco de nossa missão social.

Senhores, conta à história que certa vez um dos maiores conquistadores de Roma foi surpreendido chorando aos pés da estátua de Alexandre o Grande. Quando o perguntaram qual era o motivo de suas lágrimas, ele respondeu: choro porque não sei viver, prova disso é que em minha idade Alexandre havia silenciado o mundo com suas conquistas, enquanto eu ainda não cingi minha face com os louros da vitória.  As gerações de agora deveriam chorar desoladamente porque não sabem viver, porque não sabem amar e não sabem amar porque recusaram e tem concentrado todos os seus desejos, seus afetos e suas esperanças em amar a si mesmas. E por isso ao longo da imensa estrada, mole e gentilmente encostado no canto do caminho está a figura grotesca de Sancho (9) e apenas se vê de quando em quando na nuvem empoeirada dos caminhos da glória a dom Quixote, ou seja, ao espírito fortemente apaixonado do grande, do nobre, do santo, da verdade, da justiça e do direito. E se pode dizer de um modo geral que as gerações de agora sabem amar; de um modo especial temos que dizer dos jovens dos nossos dias; eles fazem a jornada da vida envolta nas sombras desse abismo onde tudo envelhece e degrada, e vivem esquecidos e sem nome porque se tem os  braços lançados no redemoinho das paixões e dos prazeres materiais. Ah! Não sabem amar.

Mas posso ter me equivocado ao ter generalizado os jovens. Há alguns jovens e entre eles está você, que sabem viver e que tem feito e fazem todo o possível para saber amar.  Pois bem, vocês e eu, estamos profundamente convencidos de que o verdadeiro sentido da vida se encontra no amor. Eu afirmo que isso é uma grande verdade, consagremos hoje em diante todas as nossas energias, nossos desejos e nossas esperanças em nossa vontade para viver conforme o verdadeiro sentido da vida. E agora que a luta entre o bem e o mal, entre a verdade e o erro, tem se intensificado e tomado uma amplitude transcendental, faremos um esforço para assistir todos os combates, para lutar em todas as batalhas e estarmos juntos em todos os encontros.

Viva Deus! Não haverá trincheiras que nos segure, muralha que não sofra nossos ataques, posição que resista ao nosso entusiasmo, nem bandeira que resista a nossas espadas. Nos altos de todos os cumes das montanhas estarão os triunfantes estandartes de Cristo, estandartes da civilização.


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1. Pagánus, em língua latina, significa aldeão ou campesino. Quando o Império romano se converteu ao cristianismo, os agricultores resistiram a ele ao grado que o término passou a usar-se para designar os não cristãos de antes e depois.

2. MAIST RE, José de, escritor e filósofo francês (1753-1821)

3. JOUFFROY, Teodoro. Filósofo espiritualista francês (1796-1799). Foram célebres seus cursos em Sorbone sobre o direito natural, seu Curso de estética e seus ensaios, recolhidos  na obra Mélanges Philosphiques.

4. PETRONIO, Cayo, escritor latino (s.I.d.C). Célebre por seu refinamento e clareza, é autor de El satiricón, frescor social da Roma neroniana.

5. SAN PABLO. Chamado Saulo de Tarso e apóstolo dos gentios, martirizado em Roma no ano 67. Depois de sua conversão a caminho para Damasco, organizou a disciplina eclesiástica e de doutrina cristã.

6. EPICURO, filósofo grego (341-270 a.C.) ensinava que o prazer é o fim supremo do homem. O prazer não consiste, disse ele, nos gozos materiais dos sentidos, se não no cultivo do espírito na prática da virtude.

7 SANTO AGOSTINHO. Gênio do pensamento universal, Pai da Igreja e bispo de Hipona (356-430), trás uma juventude complicada, se converteu ao catolicismo escutando santo Ambrósio de Milão.

8. ARISTÓTELES. Célebre filósofo grego, nasceu em Estagira, Macedônia (381-322 a.C.), foi uma das inteligências mais vasta que já existiu.

9. SANCHO PANZA, escudero de Dom Quixote, tipo de criado fiel mas falador, simples e ignorante e cheio de sentido comum.  

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Carlo Acutis, um modelo para os jovens.

Em 12 outubro de 2006, Carlos Acutis tinha 15 anos de idade e sua vida se apagou por uma agressiva leucemia. O adolescente, oriundo de Milão, comoveu familiares e amigos ao oferecer todos os sofrimentos de sua enfermidade pela Igreja e pelo Papa.


"Eucaristia: Meu caminho para o céu. Biografia de Carlo Acutis" é o título do livro escrito por Nicola Gori, um dos articulistas de L’Osservatore Romano, e publicado pelas Pulinas na Itália. Carlo tinha uma verdadeira devoção a Eucaristia chegando a elaborar o site: www.miracolieucaristici.org.

Carlo "era um adolescente de nosso tempo, como muitos outros. Esforçava-se na escola, entre os amigos, era um grande apaixonado por computadores. Ao mesmo tempo era um grande amigo de Jesus Cristo, participava da Eucaristia diariamente e se confiava à Virgem Maria, era devoto do beato Pier Giorgio Frassati - www.piergiorgio.com.br - Depois de sua Primeira Comunhão, nunca faltou à celebração cotidiana da Santa Missa e da reza do Terço, seguidos de um momento de Adoração Eucarística".


"Com esta intensa vida espiritual, Carlo viveu plena e generosamente seus quinze anos, deixando em quem o conheceu um profundo sinal. Era um adolescente especialista em computadores, lia textos de Engenharia de Informática e deixava a todos estupefatos, mas este dom o colocava a serviço do voluntariado e o utilizava para ajudar seus amigos".

"Sua grande generosidade o fazia interessar-se por todos: os estrangeiros, os portadores de necessidades especiais, as crianças e os mendigos. Estar próximo a Carlo era esta perto de uma fonte de água fresca".

Recorda-se claramente que "pouco antes de morrer Carlo ofereceu seus sofrimentos pelo Papa e pela Igreja. Certamente o heroísmo com a qual confrontou sua enfermidade e sua morte convenceram a muitos que verdadeiramente era alguém especial. Quando o doutor que o acompanhava perguntava se sofria muito, Carlo respondeu: ‘Há gente que sofre muito mais que eu!".

"Fama de santidade"

Dra Francesca Consolini, postuladora para a causa dos Santos da Arquidiocese de Milão, acredita que no caso de Carlo há elementos que poderiam levar a abertura de um processo de beatificação, quando se fizerem cinco anos de sua morte, como o pede a Igreja.

"Sua fé, singular em uma pessoa tão jovem, madura e segura, levava-o a ser sempre sincero consigo mesmo e com os outros. Manifestou uma extraordinária atenção para o próximo: era sensível aos problemas e as situações de seus amigos, os companheiros, as pessoas que viviam perto a ele e quem o encontrava dia a dia", explicou Consolini.

Carlo Acutis "tinha entendido o verdadeiro valor da vida como dom de Deus, como esforço, como

resposta a dar ao Senhor Jesus dia a dia na simplicidade. Queria destacar que era um moço normal, alegre, sereno, sincero, que amava a vida, que gostava da amizade".

Carlo "tinha compreendido o valor do encontro cotidiano com Jesus na Eucaristia, e era muito amado e procurado por seus companheiros e amigos por sua simpatia e vivacidade”.

"Depois de sua morte muitos sentiram a necessidade de escrever uma própria lembrança dele e outros comentaram que vão pedir sua intercessão em suas orações: isto fez com que sua figura seja vista com particular interesse" e em torno de sua lembrança está se desenvolvendo o que se chama "fama de santidade". Em 2011 será o quinto aniversário de sua entrada no Paraíso é o momento em que a Igreja de Milão estará abrindo o processo de beatificação.

Para Eduardo Henrique, Assistente Social da Faculdade Santa Marcelina, “Carlo Acutis é um verdadeiro santo! Um modelo para todos nós. Um adolescente que nos deixou um valioso legado; o amor pela vida, a alegria de viver e a coragem de ser fiel a Deus em todos os momentos”.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

OS JOVENS: REPRESENTAM DE FATO UMA ESPERANÇA?


Nota do blog: Segue abaixo o capítulo (Os jovens: representam de fato uma esperança?) do livro Cruzando o limiar da Esperança. Trata-se de uma longa entrevista que o jornalista Vittorio Messori realizou com o Papa João Paulo II. Foi publicado com título original Crossing the Threshold Hope. No trecho do livro abaixo João Paulo II reafirma: "Vocês são a esperança da Igreja e do mundo. Vocês são minha esperança." Os grifos em negrito abaixo são nossos.


OS JOVENS:
REPRESENTAM DE FATO UMA ESPERANÇA?

PERGUNTA de Vittorio Messiori:
Quanto aos jovens: são privilegiados pela atenção afetuosa do Santo Padre, que com freqüência reitera que a Igreja olha para eles com esperança especial para o relançamento da evangelização.
Santidade, tal esperança é realmente fundamental? Ou, lamentavelmente, não estaremos mais uma vez diante da sempre renovada ilusão, por parte de nós adultos, de que a nova geração vai ser melhor do que a nossa e todas aquelas que a precederam?

RESPOSTA de João Paulo II:

Aqui você descortina um campo enorme para análise e para meditação.

Os jovens de hoje como são, o que buscam? Poder-se-ia dizer que são como os de sempre. Há algo no ser humano que naõ padece mutações, como lembrou o Concílio na Gaudium et spes (no. 10). Precisamente na juventude, talvez mais do que em outra faixas etárias, isto encontra confirmação. Isso, no entanto, naõ quer dizer que os jovens de hoje não sejam também diferentes daqueles que os precederam. No passado, as jovens gerações se formaram nas dolorosas experiências da guerra, dos campos de concentração, do perigo constante. Essas experiências liberavam também, nos jovens – e acho em toda parte do mundo, apesar de ter em mente a juventude polonesa - , os traços de um grande heroísmo.

É só lembrar o levante de Varsóvia em 1944: o ímpeto desesperado dos meus coetâneos, que não se pouparam. Jogaram sua vida jovem no ardor da fogueira. Eles queriam demonstrar que estavam amadurecendo no confronto com a grande e difícil herança que receberam. Também eu pertenço àquela geração, e penso que o heroísmo dos meus companheiros ajudou-me a definir minha própria vocação. Padre Konstanty Michalski, um dos grandes professores da Universidade Jaguelônica de Cracóvia, sobrevivente do campo de concentração de Sachsenhausen, escreveu um livro: Entre heroísmo e bestialidade. Este título reproduz bem o clima da época.o próprio Michalski, a respeito de Frei Alberto Chmielowki, lembra a frase evangélica segundo a qual “é preciso dar a vida” (Jo 15,13). Exatamente naquele período de terrível desprezo pelo homem, quando o preço da vida humana foi aviltado como talvez jamais acontecera antes, precisamente naquele momento a vida de cada indivíduo tornou-se valiosa, adquirindo o valor de um dom gratuito.

Neste sentido, os jovens de hoje certamente crescem em um contexto diferente: não carregam dentro de si as experiências da Segunda Guerra Mundial. Além disso, muitos dentre eles não conheceram – ou não lembram - as lutas contra o sistema comunista, contra o Estado totalitário. Vivem num clima de liberdade, conquistada para eles por outros, e cederam sobremaneira à civilização do consumo. São estes os parâmetros, obviamente apenas percebidos, da situação atual.

Apesar disso, é difícil dizer que a juventude rejeite os valores tradicionais, que abandone a Igreja. As experiências dos educadores e dos pastores confirmam, hoje não menos do que ontem, o idealismo característico desta idade, mesmo quando atualmente isso é expresso, talvez, sobretudo em forma de crítica, ao passo que no passado se traduzia mais simplesmente no compromisso. Em geral, pode-se afirmar que as novas gerações agora crescem prevalentemente num clima da nova era positivista, ao passo que, por exemplo, na Polônia, quando eu era garoto, dominavam tradições românticas. Os jovens com os quais entrei em contato logo após a minha ordenação sacerdotal cresceram precisamente nesse clima. Na Igreja e no Evangelho enxergavam um ponto de referência onde concentrar o esforço interior para formar a própria vida de uma maneira que tivesse sentido. Lembro ainda os colóquios com aqueles jovens, que exprimiam precisamente desse modo sua relação com a fé.

A experiência principal daquele período, quando a minha ação pastoral se concentrava antes de mais nada em torno deles, foi a descoberta da importância essencial da juventude. O que é juventude? Não é apenas um período da vida que corresponde a uma determinada faixa etária, mas é, no conjunto, um tempo concedido pela Providência a cada ser humano,sendo-lhe conferido como tarefa. Nesse período ele procura, como o jovem do Evangelho, a resposta às suas interrogações fundamentais; não somente o sentido da vida , mas também um projeto concreto para começar a construir sua vida. é exatamente esta característica mais essencial da juventude. Todo educador, a começar pelos pais, assim como todo pastor, precisa conhecer bem essa característica e deve saber identificá-la em cada rapaz ou moça. Digo mais, deve amar aquilo que é essencial para a juventude.

Se em cada período de sua vida o ser humano deseja afirmar-se, encontrar o amor, na juventude o deseja de uma forma ainda mais intensa. O desejo de afirmação, em todo caso, não deve ser entendido como uma legitimação de tudo, sem exceções. Os jovens de modo algum querem isso: estão dispostos inclusive a serem repreendidos, exigindo que se diga a eles sim ou não. Eles precisam de guias, e os querem disponíveis. Se procuram pessoas abalizadas, fazem-no porque as percebem ricas do calor humano e capazes de caminharem junto com eles pelos caminho que escolherem seguir.

Fica claro, portanto, que o problema essencial da juventude é profundamente pessoal. A juventude é precisamente o período da personalização da vida humana. É também o período da comunhão. Os jovens, tanto os rapazes como também as moças, sabem da obrigação de viver para os outros, sabem que sua vida tem sentido na medida em que se torna um dom gratuito para o próximo. Aí tem origem todas as vocações: tanto as sacerdotais ou religiosas como também as vocações ao matrimônio e à família. Também a chamada para o matrimônio é uma vocação, um dom de Deus. Nunca mais vou me esquecer de um rapaz, estudante do politécnico de Cracóvia, do qual todos sabiam que aspirava com decisão à santidade. Ele tinha este programa de vida. ele sabia ter sido “criado para os grandes ideais”, como se expressou certa vez São Estanislau Kostka. E, ao mesmo tempo, naõ tinha dúvida alguma de que sua vocação não era nem o sacerdócio nem a vida religiosa. Sabia que devia ser um leigo. O que mais o apaixonava era o trabalho profissional, bem com os estudos de engenharia. Procurava uma companheira para a vida, e a procurava de joelhos, na oração. Jamais poderei esquecer o colóquio em que, depois de um dia especial de retiro, me disse: “Penso que exatamente essa moça vai ser minha esposa, e é Deus quem vai dá-la para mim.” Como se não seguisse apenas a voz de seus desejos, mas antes de tudo a voz do próprio Deus. sabia que d’Ele vem todo o bem, e fez uma boa escolha. Estou falando de Jerzy Ciesielsky, desaparecido em um trágico acidente no Sudão, para onde foi enviado para ensinar na Universidade, e cujo processo de beatificação já foi iniciado.
Esta vocação para o amor é obviamente o elemento de contato mais estreito com os jovens. Como sacerdote me conscientizei disso bem cedo. Sentia como que um impulso interior nessa direção. É preciso preparar os jovens para o matrimônio, é preciso ensinar-lhes o amor. O amor não é uma coisa que se aprende, e todavia não há uma coisa tão necessária a ser aprendida! Quando jovem sacerdotal aprendi a amar o amor humano. Este é um dos temas fundamentais em que concentrei meu sacerdócio, o meu ministério da pregação, no confessionário, bem como por meio da palavra  escrita. Quando se ama o amor humano, nasce também a vivia necessidade de empenhar todas as forças a favor do “belo amor”.

Na verdade o amor é lindo. Os jovens, afinal, buscam sempre a beleza do amor, desejando que seu amor seja lindo. Se cedem às fraquezas, seguindo modelo de comportamento que bem poderiam ser classificados como um “escândalo do mundo contemporâneo” (e são modelos lamentavelmente muito difundidos), no fundo do coração desejam um amor lindo e puro. Isso vale tanto para os rapazes como também para as moças. Sabem, afinal, que ninguém pode conceder-lhes um amor assim, a não ser Deus. E, portanto, estão dispostos a seguir a Cristo, sem olhar para os sacrifícios que isso pode implicar.

Durante os anos em que eu mesmo era um jovem sacerdote e pastor, me fiz esta imagem dos jovens e da juventude, que me acompanhou ao longo de todos os anos sucessivos. Imagem que possibilita também encontrar-me com os rapazes em qualquer lugar aonde for. Qualquer vigário de Roma que a visita à paróquia deve encerrar-se com o encontro do Bispo de Roma com os jovens. E não somente em Roma, mas também em toda parte aonde o Papa vai, procura os jovens e em toda parte é procurado pelos jovens. Aliás, na verdade não é ele a ser procurado. Quem é procurado é o Cristo, o qual sabe ó que há em cada homem”(Jo,2,25), de modo especial no homem jovem, e sabe dar as verdadeiras respostas ás suas perguntas! E mesmo quando são respostas exigentes, os jovens de modo algum as evitam; antes, dir-se-ia que esperam por elas.

Desse modo se explica também a gênese do Dia Mundial da Juventude. A primeira vez, por ocasião do Ano Jubilar da Redenção e depois pelo Ano Internacional da Juventude, promovido pelo Organização das Nações Unidas (1985), os jovens foram convidados a Roma. E esse foi o começo. Ninguém inventou os Dias Mundiais da Juventude. Foram os próprios jovens que os criaram. Aqueles Dias, aqueles Encontros, desde então se tornaram uma necessidade dos jovens em todos os lugares do mundo. no mais das vezes foram uma grande surpresa para os pastores, e até mesmo para os Bispos. Pois superaram tudo aquilo que eles mesmo esperavam.

Tais Jornadas mundiais se tornaram um grande e fascinante testemunho que os jovens dão a si mesmos, se tornaram um meio poderoso de evangelização. Com efeito, nos jovens há um imenso potencial de bem e de possibilidades criativas. Ao encontrá-los, em qualquer lugar do mundo, espero antes de tudo por aquilo que eles querem me dizer a respeito de si próprios, de sua sociedade, de sua Igreja. E sempre procuro concientizá-los a respeito: “De modo algum é mais importante aquilo que vou dizer-lhes: importante é o que vocês me dirão. Talvez não possam dizer isso com as palavras, mas conseguem dizê-lo com a sua presença, com o seu canto, quem sabe também através de sua dança, por meio de suas apresentações, enfim, com seu entusiasmo.”

Nós precisamos do entusiasmo dos jovens. Temos necessidade da alegria de viver que os jovens têm. Nela se reflete algo da alegria originária que Deus teve ao criar o ser humano. Precisamente essa felicidade os jovens experimentam em si próprios. É a mesma em todo lugar, embora seja sempre nova, original. Os jovens sabem exprimi-la à sua maneira.

Não é verdade que é o Papa a conduzir os jovens de um canto para outro do globo terrestre. São eles que o conduzem. E mesmo que seus anos aumentem, eles exortam-no a ser jovem, não lhe permitindo esquecer sua esperança, sua descoberta da juventude e da grande importância que ela tem para a vida de cada ser humano. Acredito que isso explique muitas coisas.

No dia da inauguração do Pontificado, em 22 de outubro de 1978, após o encerramento da liturgia, eu disse aos jovens na Praça de São Pedro: “Vocês são a esperança da Igreja e do mundo. Vocês são a minha esperança.” Aquelas palavras são lembradas constantemente.

Os jovens e a Igreja. Resumindo, desejo destacar que os jovens buscam a Deus, buscam o sentido da vida, buscam respostas definitivas: “O que farei para alcançar a vida eterna?”(Lc 10,25), nesta procura não podem deixar de encontrar a Igreja. E também a Igreja não pode deixar de encontrar os jovens. É necessário apenas que a Igreja tenha uma profunda compreensão daquilo que é a juventude, da importância que reveste para cada ser humano. É preciso também que os jovens conheçam a Igreja, que nela enxerguem a Cristo, o qual caminha ao longo dos séculos com cada geração, com cada ser humano. Caminha com cada um como um amigo. Importante na vida de um jovem é o dia em que ele estiver convencido de que este é o único Amigo a não desiludir, com quem pode sempre contar.

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Capítulo do livro entrevista de Viottorio Messiori com o Papa João Paulo II: Cruzando o Limiar da Esperança, editora Francisco Alves, 1994. P. 121-127.

sábado, 18 de dezembro de 2010

Constância no trabalho de hoje

 Por Anacleto González Flores
Editoriales de La Palavra
17 de março de 1918

Nota do blog: Anacleto, em seus artigos, reforça a exigência dos católicos serem constantes e determinados em suas atividades e, sobretudo, em seu caráter, para que assim Cristo possa reinar na sociedade e em nossos corações. Sabemos que um defeito que sofremos é o de nos empolgarmos e logo em seguida, por diversos motivos, largamos nossos trabalhos inacabados por preguiça, caráter débil ou falta de constância. Indicamos para leitura do artigo abaixo e de outro artigo intitulado A Constância. Boa leitura!


As transformações sociais exigem, para sua realização, dois elementos importantes, dois poderes que devem ser conhecidos pelos que se dedicaram e se dedicam ao nobre trabalho de regenerar as sociedades e encaminhá-las até a prosperidade e a seu florescimento.

Esses poderes são a constância e o conhecimento profundo do meio que se deseja transformar. Sem a constância será possível entusiasmar-se, enlouquecer-se, fazer propósitos atrevidos e tomar resoluções as mais generosas; mas não é, nem tem sido, nem será possível jamais chegar até o coroamento de uma obra, de uma empresa por insignificante que seja.

Por isto, quem faz a regeneração dos povos o ideal supremo de sua existência deve começar por sincronizar sua alma com o vigor incontrastável, com a força invencível que presta a todos os espíritos fixação invariável na realização de um fim, ou seja, a constância. De tal maneira que o fracasso de ontem, o desengano de hoje e a desilusão de amanhã não sejam um motivo para desistir, uma causa de derrota, senão uma lição que nos revele o caminho que temos de seguir para chegar à vitória. Muitas vezes o fracasso vem do fato de não se conhecer profundamente os males que se deseja combater, nem os meios mais adequados para combatê-los; daí a necessidade grande, urgente de se fazer esforços decisivos e vigorosos com o objetivo de ter uma idéia, a mais exata possível, da sociedade cuja transformação se deseja.

Não falta na história das transformações sociais o testemunho de homens integrados como o padre Rutten, na Bélgica, que sacrificam seu bem estar para passar parte de sua vida em companhia dos trabalhadores, para conhecê-los melhor, para palpar suas dores, suas amarguras, suas misérias, suas tendências e poder assinalar um remédio seguro e eficaz.

Nós, idealistas por temperamento e muito pouco práticos, gostamos muito de remontarmos as alturas incomensuráveis do abstrato, e carecemos de tato para levar os fatos e as coisas por determinado caminho. Este defeito nos há impedido ter uma visão exata da estrutura de nossa sociedade e nos há feito buscar sua salvação por caminhos que quase sempre vai para o desengano, ao mais ruidoso fracasso.

Por isso é indispensável modificarmo-nos neste ponto consagrando, assim, nossas energias para sermos mais práticos, para estudar a luz da realidade o ambiente social que respiramos, para avançar assim em pleno dia pelas rotas que nos levará diretamente a restauração da ordem das sociedades sobre as bases inabaláveis das doutrinas da Igreja.

Sejamos constantes como a firmeza do granito; investiguemos nosso meio social até descobrir suas enfermidades e seus remédios. 

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FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. p. 521-522.


Leia também: A constância 

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Chesterton fala sobre sua conversão

Retirado e traduzido da biografia de Luis Ignácio Seco. Chesterton: um escritor para todos los tiempos, 1998, Ediciones Palabra.


“Talvez tenha sido minha conversão o único ato de minha vida que nunca lamentei ter feito. Cada dia que passa a Igreja me parece mais maravilhosa; os sacramentos, mais solenes e reconfortantes; a voz da Igreja, sua liturgia, suas regras, sua disciplina, seu rito, suas decisões em questões de Fé e Moral, mais excelentes e profundamente sabias, verdadeiras e acertadas; e seus filhos, marcados por algo que não tem os demais. Aqui encontrei a Verdade e a realidade e vejo o que está fora como poeira e sombras. Uma vez mais peço a Deus que te bendiga (Maurice Baring) e a Frances. Expressa-lhe, por favor, meu afeto. Sempre lembrei de seu nome e o dela em minhas orações.”

(Carta de Chesterton a Maurice Baring, 25 de agosto 1922, a respeito de sua conversão a Igreja Católica)

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Beato Pier Giorgio Frassati


Pier Giorgio Frassati (Turim, 6 de abril de 1901 — Turim, 4 de julho de 1925) foi um activista católico italiano.

Modelo do jovem leigo, o jovem foi signitivamene popular nas décadas seguintes à sua inesperada morte, sobretudo nas Conferências de São Vicente de Paulo e na Ação Católica. Foi beatificado pelo Papa João Paulo II como o Homem das Oito Bem-Aventuranças aos 20 de maio de 1990.

"Nós - que, por graça de Deus,somos católicos-não devemos gastar os anos mais belos da nossa vida como desgraçadamente fazem tantos jovens infelizes que se preocupam com gozar os bens terrenos e não produzem nada de bom,mas que apenas fazem frutificar a imoralidade da nossa sociedade moderna.Devemos treinar- nos, a fim de estarmos prontos para travar as lutas que, seguramente, teremos de combater pela realização do nosso programa e para, assim darmos á nossa Pátria,num futuro não muito longínquo, dias mais alegres e uma sociedade moralmente sã. Mas para tudo isto, é preciso: a oração contínua para obter de Deus a graça sem a qual as nossas forças são vãs; organização e disciplina para estarmos prontos para a ação no momento oportuno e, finalmente ,o sacrifício das nossas paixões e de nós mesmos,porque sem isso não se pode atingir o objetivo." (Das cartas de Pier Giorgio)

Distributismo

Por Gustavo Corção
Capítulo do livro 'Três alqueires e uma vaca'*

Não se pode dizer, rigorosamente, que Chesterton tenha uma doutrina social. Como já disse atrás ele é mais um homem de idéias do que um doutrinador, e o mérito de sua obra consiste na manipulação dessas idéias, na organização particular e original dos argumentos, a serviço da doutrina clássica. Seu distributismo não é mais do que a doutrina chestertoniano, caracterizando-se pela acentuação de certos pontos e não pelo conteúdo. A idéia central é a da defesa da pequena propriedade e da pequena empresa contra o gigantismo, que já no seu tempo ameaçava a sociedade, e que no nosso tornou-se uma calamidade declarada. Afirmava o direito à posse, não como uma concessão, mas  ousadamente, como outorgado por Deus; admitia o capital enquanto indispensável reserva, mas não admitia, de modo algum, o capitalismo, porque a principal característica desse regime a seu ver está na raridade e não na abundância do capital. O capitalismo é uma situação em que quase ninguém possui. Não são a existência e o uso do capital que constituem o capitalismo, é antes a sua quase inexistência ou seu abuso. Por isso, nos tempos de juventude, teve Chesterton a idéia de rejeitar o nome de capitalismo como impróprio e contraditório, propondo em seu lugar o de pauperismo ou proletarismo já que sua principal conseqüência é sem dúvida a difusão da miséria e do proletarismo escravizado. Mas reconheceu que sua denominação dava lugar a certas confusões quando se referia, por exemplo, ao pauperismo de Lorde Northumberland. Voltou á designação corrente; mas de vez em quando, ao longo de sua obra, manifesta uma visível antipatia: “eu não gosto dessa palavra; é feia.”

O capitalismo em si é inteiramente admissível, pertença a ele a um só ou a uma corporação, ao Estado ou a uma sociedade anônima; o capital, em si, existirá sempre por uma razão extremamente simples: o ritmo da produção não é igual ao ritmo do consumo. A economia privada gasta-se numa lixa cotidiana e contínua, pois os homens comem, vestem-se e moram todos os dias. A produção, ao contrário, tem geralmente um ritmo mais largo, que no campo obedece às quatro estações, e nas cidades, à organização industrial. Por isso, uma vez que o homem gasta continuamente, e fabrica descontinuada mente e em prazo longo, torna-se inevitável o acúmulo de reservas, como nas represas e nos açudes. Negar o capital como legítimo instrumento equivale a negar o armazém, o estoque, o saco, a gaveta e o bolso. Equivale a obturar todos esses buracos onde o homem, como a formiga, guarda as reservas de seu trabalho.

O que Chesterton combate é o capitalismo, e combate-o por esse motivo que pode parecer original: porque o capitalismo é, de fato, contrário à idéia de posse. Considerando o capitalismo nas suas origens e causas, estudando o ambiente do liberalismo e apreciando o fenômeno de dissociação entre o conceito de posse e o de responsabilidade moral, concluímos que o capitalismo foi gerado por um desregramento da propriedade e da liberdade; mas tomando o fenômeno tal como hoje se apresenta, considerando-o um fato, observamos que seu caráter atual é heterogêneo com suas origens, o que não é de espantar, tratando-se de um erro prático, que é necessariamente antinômico. O capitalismo, inteiramente desabrochado, tornou-se uma atrofia; a livre competição degenerou em privilégio. À primeira vista não parece existir privilégio, uma vez que a estrutura politicamente democrática assegura a qualquer cidadão as mesmas oportunidades e direitos de despojar os outros cidadãos. Na realidade esse julgamento é falso e resulta de uma confusão entre democracia política e democracia econômica. O privilégio mais ou menos análogo a que distingue dos homens comuns um jogador de xadrez excepcionalmente dotado. Estando o domínio da economia reduzido a uma técnica ou uma arte, e não havendo nenhum compromisso moral, o capitalismo é qualquer coisa como um campeão de bilhar ou de xadrez; é um especialista.

Não insisto na amoralidade ou na imoralidade dos processos que permitem o vertiginoso enriquecimento, mas insisto na especialidade técnica que faz do capitalista um privilegiado. Se o direito de posse é um direito comum não pode ser um privilégio. Logo, o capitalismo como tal, de fato, é uma negação do direito à propriedade privada. Talvez seja negativo o dom principal do moderno herói das finanças; talvez seja uma especial falta de imaginação. Um homem normal (e normalmente dotado de escrúpulos e imaginação) ou recua diante de certas situações, ou distrai-se apreciando o desenho de uma flor: e basta esse pequeno colapso em sua defesa para o obstinado, que não recua ou não se distrai, ponha um pé diante e tome conta de um pequeno pedaço dos três alqueires que o outro não soube guardar. Mas se ganhar é uma técnica, o guarda é também uma arte em que nem todos são capazes.

Eu disse acima que o capitalismo atual está em contradição com suas origens e com a idéia de propriedade. A contradição vai ainda mais longe e chega até o nível da psicologia de seus habilidosos campeões. O capitalista hoje, sendo um dionisíaco, prende-se menos à propriedade concreta do que à ação. O que ele quer acima de tudo é o domínio sobre os homens, o poder conferido marginalmente por um Estado ainda tolerante nessa matéria. Tivesse ele o apetite das coisas concretas, o mal não seria tão grande, porque essas coisas encontram seus limites mais depressa que o poder. Um homem rico não pode comer muito mais do que um pobre; nem muito melhor. E o capitalista moderno é geralmente sóbrio. O pobre, nos delírios de sua miséria, imagina o ricaço com um enorme guardanapo no pescoço, a se fartar das mais esquisitas iguarias; mas na verdade o milionário é um pobre sujeito que tem uma dieta rigorosa e que vive de pílulas. Também não pode morar em muitas casas nem  sustentar um harém, porque os incômodos que essas coisas trazem, cedo ou tarde, o impelem a um esquema mais simples de duas ou três casas e de uma só mulher como reserva clandestina, para não cair na excessiva simplicidade da monogamia. O rico, em suma, é um homem de costumes muito mais moderados do que alguns oficiais de gabinete ou subchefes de seção nas repartições públicas.

O capitalismo moderno é um homem empreendedor que muitas vezes acorda cedo, que quase sempre trabalha pelo amor ao trabalho, e que tem a mística das realizações; e é nisso que consiste sua insanidade e sua monstruosidade. O capitalista, em poucas palavras, é um chefe de pequena república socialista enquistada no corpo de uma nação.

O distributismo de Chesterton (que tinha por divisa, entre outras, a fórmula rural que escolhi para o título deste livro, cuja capa foi tirada de um desenho do próprio Chesterton) combatia o capitalismo pelo que esse regime tem de semelhante ao socialismo no que se refere ao direito de propriedade e à dignidade humana. Chesterton pugnava pela pequena propriedade e pela pequena empresa. Recomendava, com grande escândalo de um jornal, que recusou um artigo seu a esse respeito, o boicote sistemático dos grandes armazéns. E tomava como sua uma palavra de Francis Bacon: “A propriedade é como o estrume, só é boa quando espalhada.”

*Capítulo do livro 'Três alqueires e uma vaca', autoria de Gustavo Corção, Editora Agir, 1961. p. 249-254.


Trecho do livro Ortodoxia de G.K. Chesterton



PREFÁCIO DO AUTOR

ESTE LIVRO FOI ESCRITO para ser lido como complemento a Heretics [Hereges] e mostrar o lado positivo além do negativo. Muitos críticos se queixaram daquele livro dizendo que ele simplesmente criticava as filosofias correntes sem oferecer nenhuma filosofia alternativa. Este livro é uma tentativa de responder a esse desafio. Ele é inevitavelmente afirmativo e, por isso mesmo, inevitavelmente autobiográfico. O autor foi levado a recuar e enfrentar mais ou menos a mesma dificuldade que afligiu Newman ao escrever a sua Apologia; foi forçado a ser egoísta só para ser sincero. Embora todos os outros aspectos possam diferir, o motivo nos dois casos é o mesmo. O autor tem o propósito de tentar explicar não se a fé cristã pode ser abraçada, mas como ele pessoalmente passou a abraçá-la.

Este livro, portanto, está organizado com base no princípio positivo de um enigma e sua solução. Trata primeiro de todas as solitárias e sinceras especulações pessoais do autor e depois do dramático estilo em que elas são de súbito respondidas a contento pela teologia cristã. O autor vê isso como algo que leva a um credo convincente. Mas se não chegar a tanto, trata-se no mínimo de uma repetida e surpreendente coincidência.

GlLBERT K. CHESTERTON

I.                    INTRODUÇÃO EM DEFESA DE TUDO O MAIS

A ÚNICA DESCULPA POSSÍVEL para este livro é que se trata de uma resposta a um desafio. Mesmo um mau disparo tem sua dignidade quando se aceita um duelo. Quando há algum tempo publiquei uma série de artigos escritos às pressas, porém honestos, sob o título de "Heretics", vários críticos cuja inteligência tem meu sincero respeito (menção especial pode ser feita ao sr. G. S. Street) disseram que não viam problema algum no fato de eu dizer a todos que afirmassem a sua teoria cósmica, mas que eu cuidadosamente me havia furtado a sustentar os meus preceitos com exemplos. "Começarei a preocupar-me com a minha filosofia", disse o sr. Street, "depois que o sr. Chesterton tiver apresentado a dele."

Talvez tenha sido uma sugestão incauta, dirigida como foi a alguém sempre mais que disposto a escrever um livro diante da mais ligeira provocação. Mas, no fim das contas, embora o sr. Street tenha inspirado e criado este livro, ele não precisa lê-lo. Se de fato o ler, descobrirá que em suas páginas eu tentei, de forma vaga e pessoal, num conjunto de quadros mentais mais do que numa série de deduções, expor a filosofia em que passei a acreditar. Não a chamarei de minha filosofia, uma vez que não a criei. Deus e a humanidade a criaram; e ela me criou.

Muitas vezes alimentei a fantasia de escrever um romance sobre um navegador inglês que cometeu um pequeno erro ao calcular sua rota e descobriu a Inglaterra, tendo a impressão de estar numa nova ilha dos Mares do Sul. Sempre me vejo, porém, com ocupações ou preguiça demais para escrever essa bela obra, portanto é melhor que eu o ofereça com o objetivo de apresentar uma ilustração filosófica. Provavelmente a impressão geral será a de que o homem que desembarcou (armado até os dentes e falando por sinais) para fincar a bandeira britânica naquele templo bárbaro que no fim das contas era o Pavilhão de Brighton, sentiuse um perfeito idiota.

Não estou aqui preocupado em negar que ele parecia idiota. Mas se você imagina que ele se sentiu idiota, ou que em todo o caso a sensação de tolice era sua emoção única ou dominante, então você não estudou com a delicadeza exigida a rica natureza romântica do herói dessa história. Seu erro foi de fato um erro altamente invejável; e ele sabia disso, se é que era o homem que eu imaginei. O que poderia ser mais prazeroso do que provar em poucos minutos todos os fascinantes terrores de ir para o exterior combinados com toda a confortável segurança de voltar novamente para casa? O que poderia haver de melhor do que ter toda a emoção de descobrir a África do Sul sem a repugnante necessidade de lá desembarcar? O que poderia ser mais maravilhoso do que preparar-se para descobrir a Nova Gales do Sul e depois perceber, com uma efusão de lágrimas, que era apenas a velha Gales do Sul?

Esse pelo menos me parece ser o principal problema dos filósofos e, de certo modo, é o principal problema deste livro. Como podemos imaginar ficarmos ao mesmo tempo assombrados com o mundo e, mesmo assim, nele nos sentirmos em casa? Como pode esta estranha cidade cósmica, com seus cidadãos de muitas pernas, com suas monstruosas e antigas lâmpadas, como pode este mundo provocar em nós ao mesmo tempo o fascínio de uma cidade estranha e o conforto e a honra de ser a nossa cidade?

Mostrar que uma crença ou uma filosofia é verdadeira de todos os pontos de vista seria uma tarefa demasiado grande mesmo para um livro muito maior do que este. É necessário seguir uma linha de raciocínio, e esta é a linha que me proponho seguir aqui: quero apresentar a minha crença como uma resposta específica a essa dupla necessidade espiritual, a necessidade da mistura do conhecido com o desconhecido que a cristandade corretamente chamou de romance. Pois até mesmo a palavra "romance" tem em si o mistério e o antigo significado de Roma.

Quem quer que se disponha a discutir o que quer que seja deveria sempre começar dizendo o que não está em discussão. Além de declarar o que se quer provar é preciso declarar o que não se quer provar. O que eu não me proponho provar, o que proponho que se tome como terreno comum entre mim e o leitor médio, é essa atração de uma vida ativa e imaginativa, pitoresca e cheia de curiosidade poética, uma vida como a que em todo o caso o homem ocidental sempre parece ter desejado. Se um homem diz que a extinção é melhor do que a existência, ou que uma vida insossa é melhor que a variedade e a aventura, então esse homem não é uma das pessoas comuns com quem estou falando. Se alguém prefere o nada. nada lhe posso dar. Mas quase todas as pessoas que conheço nesta sociedade ocidental no seio da qual vivo concordam com a proposição geral de que precisamos dessa vida de romance prático: a combinação de alguma coisa que é estranha com alguma coisa que é segura. Precisamos ver o mundo de tal modo que nele se combine uma idéia de deslumbramento com uma idéia de acolhimento. Precisamos nos sentir felizes nessa terra deslumbrante sem nunca nos sentir meramente confortáveis. É ESSA realização do meu credo que vou principalmente perseguir nestas páginas.

Mas tenho uma razão peculiar para aludir ao navegador que descobriu a Inglaterra. Aquele navegador sou eu. Eu descobri a Inglaterra. Não consigo imaginar como este livro pode conseguir não ser egoísta: e. para dizer a verdade, não consigo absolutamente imaginar como ele pode conseguir não ser chato. A chatice, todavia, me livra da acusação que mais lamento: a acusação de ser superficial. Mera sofisticação superficial é o que desprezo acima de tudo, e talvez seja um fato salutar que é disso que geralmente sou acusado.

Não conheço nada tão desprezível como o mero paradoxo: uma defesa meramente engenhosa do indefensável. Se fosse verdade, como se afirmou, que o sr. Bernard Shaw vivia de paradoxos, então ele deveria ser um mero milionário; pois um homem de sua atividade mental poderia inventar um sofisma a cada seis minutos. E tão fácil como mentir, pois é mentir. A verdade é, naturalmente, que o sr. Shaw enfrenta o cruel estorvo de não conseguir dizer uma mentira se não pensar que é uma verdade. Percebo que estou sob a mesma intolerável escravidão. Nunca em minha vida eu disse coisa alguma simplesmente por pensar que era engraçada; embora, naturalmente, eu tenha alimentado a vanglória humana e possa ter considerado algo engraçado por tê-lo dito. Uma coisa é descrever uma entrevista com uma górgona ou um grifo, uma criatura que não existe; outra coisa é descobrir que o rinoceronte existe e depois sentir prazer pelo fato de que ele parece um animal que não existe.

A gente procura a verdade, mas pode acontecer que a gente procure instintivamente as verdades mais extraordinárias. E apresento este livro com os mais sinceros senti mentos a todos os bons sujeitos que odeiam o que escrevo e o consideram (com muita justiça, segundo tudo o que eu sei) como um exemplo de uma cena burlesca inferior ou uma brincadeira cansativa.

Pois se este livro é uma brincadeira, ele é uma brincadeira contra mim mesmo. Eu sou o homem que com a máxima ousadia descobriu o que já fora descoberto antes. Se nas páginas que seguem há um elemento de farsa, a farsa é às minhas custas; pois este livro explica como eu fantasiei que era o primeiro a pôr os pés em Brighton e depois descobri que era o último. Ele relata as minhas obtusas aventuras em busca do óbvio. Ninguém pode considerar o meu caso mais ridículo do que eu mesmo o considero; nenhum leitor pode aqui acusar-me de tentar fazê-lo de bobo: o bobo desta história sou eu, e nenhum rebelde pode roubar-me o trono. Confesso francamente todas as ambições idiotas do fim do século XIX. Como todos os outros menininhos pomposos, tentei colocar-me à frente de meu tempo; e descobri que estava 1800 anos atrás. Forcei minha voz com penoso exagero juvenil ao proferir minhas verdades. E fui punido da maneira mais adequada e engraçada, pois mantive as verdades: mas descobri, não que não eram verdades, mas simplesmente que não eram minhas. Quando imaginei que estava sozinho encontrei-me de fato na ridícula posição de receber o apoio de toda a cristandade. Deus me perdoe, mas talvez eu tenha tentado ser original; mas só consegui inventar por minha própria iniciativa uma cópia inferior das tradições existentes da religião civilizada. O navegador pensou ser o primeiro a descobrir a Inglaterra; eu julguei ser o primeiro a descobrir a Europa. Tentei fundar uma heresia só minha; e quando lhe dei o último acabamento descobri que era a ortodoxia.

Talvez alguém se divirta com o relato deste feliz fiasco. Talvez um amigo ou inimigo se divirta ao ler como eu gradativamente aprendi, da verdade de alguma lenda perdida ou da falsidade de alguma filosofia dominante, verdades que eu poderia ter aprendido do meu catecismo — se o tivesse estudado. Pode haver ou não algum entretenimento na leitura de como finalmente descobri num clube anarquista ou templo babilônico o que poderia ter descoberto na paróquia mais próxima. Se alguém se diverte aprendendo como as flores do campo ou as palavras escritas num ônibus, os acidentes de políticos ou os sofrimentos da juventude se juntaram numa certa ordem para produzir um certo convencimento de ortodoxia cristã, essa pessoa pode muito bem ler este livro. Mas há em tudo uma sensata divisão de trabalho. Eu escrevi o livro, e nada neste mundo me induziria a lê-lo.

Acrescento uma nota meramente pedante que aparece, como  uma nota naturalmente deveria aparecer, no início do livro. Estes ensaios pretendem apenas discutir o fato real de que a teologia cristã central (suficientemente resumida no Credo dos Apóstolos) é a melhor raiz de energia e ética sólida. Eles não pretendem discutir a questão muito fascinante, mas totalmente outra, de qual é o atual cetro de autoridade para a proclamação desse credo. Quando a palavra "ortodoxia" é usada aqui, ela significa o Credo dos Apóstolos, como era entendido por todos os que se chamavam cristãos até pouco tempo atrás e a conduta histórica daqueles que adotavam esse credo.

Fui forçado pelo mero espaço a restringir-me ao que recebi desse credo; não toco a questão muito discutida entre os cristãos modernos de onde nós mesmos o recebemos. Este não é um tratado eclesiástico, mas uma espécie de autobiografia desconjuntada. Mas, se alguém quiser minhas opiniões sobre a verdadeira natureza da autoridade, o sr. G. S. Street só precisa me lançar outro desafio, e eu vou escrever outro livro.


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Retirado do Livro Ortodoxia de Gilbert Keith Chesterton, 2008, editora Mundo Cristão. 

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

"Frases retirada do livro de G.K. Chesterton, Ortodoxia, 2008.

RAZÃO
"Todo o mundo moderno está em guerra contra a razão; e a torre já oscila." (p. 59)

"É inútil falar sempre da alternativa de razão e fé. A própria razão é uma questão de fé. é um ato de fé afirmar que nossos pensamentos têm alguma relação com a realidade por mínima que seja" (p. 56)

"Com um puxão demorado e constante, tentamos tirar a mitra da cabeça do pontífice; e a cabeça dele veio junto com a mitra."(p. 58)

EVOLUCIONISMO
"Se a evolução simplesmente significa que algo positivo chamado macaco transformou-se lentamente em algo positivo chamado de homem, então ela é inofensiva para o mais ortodoxo; pois um Deus pessoal poderia muito bem criar coisas de modo lento ou rápido, especialmente se, como no caso do Deus cristão, ele estivesse situado fora do tempo." (p. 58-59)

Descartes disse: "Penso; logo existo". O filósofo evolucionista inverte e negativiza o epigrama e diz: "Não existo; portanto, não posso pensar". (p. 59)

ALEGRIA
"A questão não é que este mundo mundo é triste demais para ser amado ou alegre demais para não o ser; a questão é que, quando se ama alguma coisa, a sua alegria é a razão para amá-la, e a sua tristeza é a razão para amá-la ainda mais." (p. 111)

CRIADOR
"...este nosso mundo tem algum propósito; e se há um propósito, há uma pessoa. Eu sempre sentira a vida primeiro como uma história; e se há uma história há um contado da história". (p. 101)

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