“O problema de muitas de nossas escolas modernas é que o Estado, uma vez controlado tão particularmente por uns poucos, permite que excentricidades e experimentos entrem diretamente nas salas de aula, sem jamais terem sido submetidos à apreciação do Parlamento, dos pubs, da igreja, das praças públicas. Obviamente, às pessoas mais jovens dever-se-ia ensinar as coisas mais velhas, as verdades seguras e experimentadas que se ensinam primeiro aos bebês. Mas na escola de hoje o bebê tem de se submeter a um sistema que é ainda mais jovem do que ele próprio.”
“Quanto mais alto formos, melhor nós ouviremos a voz de Cristo.” Beato Pier Giorgio Frassati
domingo, 27 de julho de 2014
Escolas modernas - G. K. CHESTERTON
quarta-feira, 23 de abril de 2014
O imbecil juvenil
O imbecil juvenil
Olavo de Carvalho
Jornal da Tarde, São Paulo, 3 abr. 1998
Disponível no site: http://www.olavodecarvalho.org/textos/juvenil.htm
Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.
O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a vencer.
Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da maioria - a supressão, em suma, da personalidade.
É verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo, e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a imitação - literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo miméticode que fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.
Não é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação impedindo-o, simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo, objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor, senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.
Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.
Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.
Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum.
sábado, 15 de março de 2014
O Pensamento de Jackson de Figueiredo
O Pensamento de Jackson de Figueiredo (1999)
Andre Stangl
Retirado do site: http://andrestangl.wordpress.com/2009/09/11/jackson-de-figueiredo/
VIDA E OBRA
O filósofo sergipano, Jackson de Figueiredo*, trilhou o caminho da polêmica, sua filosofia foi sua luta pela revitalização da fé. Nascido em 09 de Outubro de1891, estudou entre 1904 e 1908 no colégio protestante Americano e no Ateneu Sergipano. Em 1908, passa a estudar em Maceió no Liceu Alagoano e publica seu primeiro livro de poesia – “Bater de Asas”. Em 1909, já matriculado na Faculdade de Direito, passa a viver em Salvador. Nesta época envolve-se com o grupo estudantil Nova Cruzada que promove algumas reuniões literárias e alguns atos públicos, como sua famosa polêmica com a polícia no Teatro Politeama e uma tentativa de expulsão dos jesuítas portugueses. Também nesta época conhece o escritor baiano Xavier Marques, sobre quem, mais tarde, Jackson escreveria seu terceiro livro – “Xavier Marques” (1913). Antes, ainda publica mais um livro de poesias “Zíngaro” (1910) e em 1918 publica outro: “Crepúsculo Interior”, neste à influência boêmia de Baudelaire e Antero de Quental, soma-se a influência agônica de Nietzsche e Pascal. Influências estas, vindas, de sua amizade com Pedro Kilkerry, poeta que seria redescoberto na década de 70 pelos concretistas, irmãos Campos.
Conclui o curso de Direito em 1913 e no ano seguinte se muda para o Rio de Janeiro. Em 1915 escreve um ensaio sobre o poeta sergipano Garcia Rosa e conhece o filósofo cearense Farias Brito que marcará profundamente seu formação intelectual e espiritual, e, no ano seguinte casará com a cunhada deste. Em 1919 conhece Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Athayde ou Dr. Alceu) com quem inicia intensa correspondência, nesta época integra-se na vida sacramental da Igreja.
Em 21 publica “Humilhados e Luminosos”, dedicado a seu amigo Kilkerry e edita a revista A Ordem, em seguida funda o Centro Dom Vital, estas duas ferramentas acentuam sua fase mais polêmica, seus artigos também são publicados na Imprensa, Gazeta de Notícias e O Jornal; o material depois será reunido e publicado nas coletâneas: Em Defesa de Sergipe (1918), Boa Imprensa (1919), Do Nacionalismo na Hora Presente (1921), Afirmações (1921), A Reação do Bom Senso (1922), Literatura Reacionária (1924) e A Coluna de Fogo (1925). Ainda publica dois estudos literários: Auta de Souza (1924) e Durval de Morais e os Poetas de Nossa Senhora (1925).
Morre em 4 de Novembro de 1928, afogado na Barra da Tijuca, na Gruta da Imprensa, pescando num domingo de sol maravilhoso, diante do filho e de um amigo. Deixa duas obras póstumas: Aevum (1932) que significa “o tempo dos anjos”, um romance semi-autobiográfico e Correspondências (1946) que reúne as cartas que escreveu a Alceu entre outros. Sua obra filosófica, propriamente dita, se resume a três livros: Algumas Reflexões Sôbre a Filosofia de Farias Brito (1916), A Questão Social na Filosofia de Farias Brito (1919), e, seu principal livro, Pascal e a Inquietação Moderna (1922).
FILOSOFIA E VIDA
O pensamento de Jackson e sua conversão ao catolicismo estão imbricados à sua juventude boêmia e poética, niilista e anarquista. Nesta época era a poesia que lhe servia de linguagem, e para seus pensamentos de então, o mundo parecia um triste caos. Em uma entrevista Alceu Amoroso da Lima, comenta:
“não saber exatamente a linha anarquista adotada por Jackson, mas conta que um amigo comum lhe disse certa ocasião que encontrou Jackson e este carregava um livro chamado The Unique Man and his Own, de Max Stirner, ‘que foi um anarquista violento’ (…) Jackson era portador de um nacionalismo intrínseco, violento, bravo…”[1].
Era a época do “mal-do-século”, Freud e Nietzsche; a rebordosa da culpa cristã importando-se e sofrendo pelo ‘porque’ das coisas. Era o choque entre o poder do indivíduo e a felicidade da coletividade:
“Quem me dera ser nuvem, quem me dera/Ser qualquer coisa, indiferente mesmo…/Ser pedra, pó ou flor da primavera,/Não cogitar do fim e andar a esmo…”[2].
No Brasil o desesperança elegeu o Materialismo do Positivismo e do Comunismo, preocupava a Jackson que o fim da transcendência matasse a esperança, pois o legado do cristianismo estava sufocado pela arte. Os modernistas ironizaram e relativizavam o Positivismo e o Catolicismo abrindo o diálogo com as tradições populares de origem africana e indígena: antropofagia e mestiçagem (Oswlad de Andrade, Mário de Andrade, Gilberto Freire, etc.). O Catolicismo brasileiro ainda estava enfraquecido após a nuvem negra do romantismo (Junqueira Freire, Álvares de Azevedo, Castro Alves, etc.). O niilismo nietzscheano era a única forma ocidental e racional de chegar a Deus, só que o matava para isso; a frase “Deus está morto”, fala de um Deus que existiu.
O romantismo niilista de Jackson negava o racionalismo, o paradoxo, o individualismo, o ego, o livre arbítrio. Após a conversão suas posições não mudam, mas a forma de expor seu pensamento muda; abraçando o dogma católico, Jackson continuava negando o egocentrismo de sua época, como diz no prefácio a “Cartas à Gente Nova” (1924), de Nestor Vítor:
“troquei toda veleiadde de construir por mim só ou com ajuda deste ou daquele grande espírito uma filosofia da ação. Preferi ser o humilde soldado que sou da Igreja Católica, e me sinto tão orgulhoso disto como se fora um rei”[3]
Jackson era antimodernista e contra o liberalismo, anti-democrático e hierárquico, converteu-se por pragmatismo, a ciência lhe parecia perigosa e a fé, para ele, não precisava de adornos humanos, a qualidade da moral está na ação e não na justificativa racional da ação. O Comunismo queria paz através da guerra, o Positivismo queria ordem através do progresso, o Catolicismo, para Jackson, deveria lutar (guerra) pela lei (ordem) divina onde a paz seria o supremo progresso. Jackson achava que “o mal-do século” era fruto da pretensão racional e a felicidade só seria encontrada quando a mente descansasse.
“não acredito numa ciência sobre a essência de Deus. Penso, como Jacobi, que o que imaginamos conhecer do infinito não tem ‘logicamnete’ nenhum valor”[4].
Segundo Guilhermo Francovivh, Jackson foi uma das mais fortes oposições ao intelectualismo no pensamento brasileiro. Podemos dizer que seu pragmatismo católico de inspiração pascalina e profundamente nacionalista, defendia a essência religiosa da alma brasileira da desilusão importada de alguns de nossos acadêmicos. Em “Algumas Reflexões Sobre a Filosofia de Farias Brito”, Jackson desafiava o pensamento relativista da época, de forma apaixonada e pouco metódica, mas mesmo assim erudita. Foi somente em “Pascal e a Inquietação Moderna” que teve o tempo suficiente para burilar sua crítica à modernidade:
“A liberdade humana tal como na obra de Pascal fica reduzida teoricamente a quase nada, mas esta mesma teoria reserva um cantinho de onde jorra a luz de uma outra realidade, amoral, cuja força toda reside no amor…”[5].
A força da argumentação de Jackson estava em demonstrar como o extremo da dúvida pode gerar a certeza tranquila da fé, ou seja da angústia de Pascal vem a força de sua esperança.
“Pascal é apontado como o avô gigante dos modernos individualistas. Mas é preciso não esquecer que ele, se o foi, pelo menos, deu ao individualismo uma solução digna do homem como ser moral, isto é: fazer-se consciente para negar-se a si mesmo, reconhecendo que é muito em face do universo, e nada diante de Deus. O individualismo será, assim, a demonstração por absurdo dos verdadeiros fins da nossa vida: conhecimento e caridade, de que a religião é a prática mais alta. O homem, queira ou não queira, é um escravo da lógica”[6].
Alceu Amaroso Lima foi provalvelmente o mais importante e conhecido intelectual da renovação católica, e, após a morte de Jackson assume a liderança do Centro Dom Vital. Ele sempre que falava de seu longo processo de conversão, citava as cartas que trocou com Jackson e o papel que elas tiveram no sentido de lhe provocar uma reação (depois foram publicadas como Correspondências). Alceu, que também foi um dos mais conhecidos críticos literários do país, era em tudo oposto a Jackson, carioca, praieiro, modernista e portanto “levado naturalmente a indiferença”; enquanto Jackson era nordestino, sertanejo e reacionário, “um homem do sim e do não, pronto a morrer por seus ideais”[7]. As cartas começaram superficiais, discutiam ‘politicagem’, mas logo ficou claro que precisavam ir além:
“então nossas cartas se voltaram para a razão de ser da vida, as origens do mundo, a existência ou não de Deus, o papel da Igreja, as posições políticas como consequência de posições filosóficas e as posições filosóficas como consequência de posições transcendentais, isto é, religiosas”[8].
Alceu considerava a conversão, de Jackson, violenta, diferente da sua que foi lenta; a de Jackson foi fruto da agonia:
“Só compreendo completamente meu cristianismo quando estou só. Principio por ter então uma grande pena de mim (….), e acabo por ter pena de todos nós, pobres homens, divididos, vaidosos da divisão, amantes do próprio orgulho e, todos, como dizia o velho Machado, todos afinal…. pontuais na sepultura….”[9].
A obra de Jackson, a primeira vista parece incoerente e de fato algumas contradições e exageros recheiam suas páginas, mas se na forma existem hesitações o mesmo não se pode dizer quanto ao alvo de suas críticas: o egoísmo moderno que em nome de uma fraca razão fecha os olhos e ignora o sofrimento alheio. Então porque, Jackson assume posições tão anti-revolucionarias, porque uma “coluna de fogo” que preservasse Brasil dos ‘destrutivos’ ideais revolucionários? Segundo Jackson, a mudança deveria ser nas consciências, pois em nada mudaria o mundo, se o reconhecimento do princípio gerador de tudo ainda fosse uma polêmica. A diferença entre aceitar a crença no dogma católico ou aceitar a crença científica, é o fundo moral sobre o qual se projetam nossas ações. O receio de Jackson quanto ao comunismo da época estava na confusão moral de seus adeptos, se olharmos prospectivamente a crítica de Gabeira nos anos 70 ao sectarismo dos militantes, ajuda nos a entender a posição de Jackson. De resto, se considerarmos que o Dr. Alceu, o principal continuador do trabalho ‘apostólico’ de Jackson, futuramente irá identificar-se com a Teologia da Libertação, assim, o próprio Jackson, tivesse sobrevivido, talvez também se juntasse a essa cruzada. Quem sabe?
BIBLIOGRAFIA
FIGUEIREDO, Jackson de. Trechos escolhidos. Rio de Janeiro: AGIR, 1958.
FRANCOVICH, G. Filósofos Brasileiros. Rio de Janeiro: Presença, 1979.
LIMA, Alceu Amoroso. Memorando dos 90. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
FRANCOVICH, G. Filósofos Brasileiros. Rio de Janeiro: Presença, 1979.
LIMA, Alceu Amoroso. Memorando dos 90. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
Notas
[1] LIMA, 1984:426
[2] FIGUEIREDO, 1958:10
[3] Ibid. p.6
[4] FRANCOVICH, 1979:80.
[5] FIGUEIREDO, 1958:45
[6] Ibid. 46
[7] LIMA, 1984:359
[8] Ibid. p. 360
[9] FIGUEIREDO, 1958:101
*Jackson era irmão de meu avó Rubens de Figueiredo.t
[1] LIMA, 1984:426
[2] FIGUEIREDO, 1958:10
[3] Ibid. p.6
[4] FRANCOVICH, 1979:80.
[5] FIGUEIREDO, 1958:45
[6] Ibid. 46
[7] LIMA, 1984:359
[8] Ibid. p. 360
[9] FIGUEIREDO, 1958:101
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Catolicismo no Brasil,
Jackson de Figueiredo
domingo, 9 de março de 2014
Jackson de Figueiredo por Agripino Grieco
"O fundador do Centro Dom Vital diferia desses cidadãos algo pendantes que fazem profissão de pensar, que deitam pensamento como outros deitam humorismo, em caráter permanente, de manhã à noite, que só tomam da pena dispostos a ser sublimes, a ser transcendentais. De nós para nós, mais que um doutrinador insolente, um moralista abstrato, dos que dão cabeçadas nas nuvens, achamo-lo sempre um historiador perspícuo das idéiais alheias. E Jackson provou existir muita afinidade eletiva na sua predileção por certos autores, sendo que, nele, a escolha de determinados assuntos já era em si uma opinião. No desejo de que a arte representasse cada vez mais a 'santificação da vida' e de que uma literatura impregnada de elementos criadores se sobrepusesse à literatura simplesmente anedótica ou sentimental, esse talento sem rasuras, dando-se a estudos enciclopédicos e achando que especialização é uma anquilose, parecia-nos, à maneira de Chales Maurras em França, um reacionário sincero e avesso a criar fantasmas políticos. Poucos como Jackson possuiram, no Brasil dos últimos tempos, o dom dessas frases-relâmpagos que, em meio à escuridão das idéias ambientes, fazem entrever cimos de montanhas."
sábado, 2 de novembro de 2013
Igreja e Estado - por José Pedro Galvão de Sousa
Igreja e Estado*
por José Pedro Galvão de Sousa (*1912 - +1992)
A Sociedade civil tem um fim temporal. Os homens nela reunidos, através das famílias e de outros grupos que a compõem, procuram os bens de que carecem, mediante um esforço comum coordenado pela autoridade que a governa.
Esse mesmos homens têm um fim sobrenatural. Acham-se de passagem neste mundo. Peregrinos em demanda da Eternidade, conforme o seu viver terreno receberão a eterna recompensa ou o castigo eterno.
A graça de Deus permite-nos vencer a nossa própria natureza, que, em consequência da queda dos nossos primeiros pais, se tornou rebelde e inclinada para o mal. Essa vitória sobre o "eu", sobre o homem velho do pecado, que está em cada um de nós, significa o vivermos a vida do homem novo pela graça de Cristo Redentor. É, pois, uma vitória sobre a natureza corrompida pelo pecado; é a elevação do homem, alcançando a sua perfeição, pela união com Deus, a cuja imagem e semelhança ele foi criado.
A ordem da graça é infinitamente superior à ordem natural dos sentidos (vida corporal) ou à da inteligência.
O naturalismo dos nossos dias quer reduzir a vida humana a estas ordens inferiores. Daí provém, na organização das sociedades políticas, a concepção do Estado leigo ou secularizado, que fecha os olhos ao fim sobrenatural do homem.
O Estado tem um fim precipuamente temporal, que, por isso mesmo, se subordina ao fim superior e último do homem. Cabe-lhe, pois, proporcionar a todos condições de ordem temporal que não prejudiquem, mas antes favoreçam o bem espiritual.
Daí as relações entre a sociedade política e a sociedade religiosa ou a Igreja.
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quinta-feira, 3 de outubro de 2013
HOMILIA NO ENCERRAMENTO DA FASE DIOCESANA DO PROCESSO DE BEATIFICAÇÃO E CANONIZAÇÃO DE DOM VITAL
Cardeal Eugênio de Araújo Sales
Arcebispo do Rio de Janeiro
Arcebispo do Rio de Janeiro
Esta solene concelebração de ação de graças pelo encerramento da fase diocesana do Processo de Beatificação e Canonização de Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira se insere entre as efemérides notáveis desta Província, deste Estado, da Arquidiocese de Olinda e Recife. Para o Brasil, a exaltação deste Servo de Deus é um fator importante no fortalecimento da estrutura moral, pelo exemplo dado no cumprimento do seu dever como sucessor dos apóstolos. Mas ainda valiosa a contribuição à vida da mesma Igreja, em nossa Pátria e em nossos dias. O pastor se sacrificou a serviço da fidelidade à doutrina, à disciplina eclesiástica. Com coragem e prudência arrostou, entre outros sofrimentos, a perda da liberdade.
Muito me honra o convite do zeloso pastor, Dom Frei José Cardoso Sobrinho, para presidir essa concelebração. A Arquidiocese do Rio de Janeiro está profundamente vinculada a esta Igreja de Olinda e Recife. Do Rio veio Dom Helder Camara; do Rio, veio Dom Leme, que retornou à então Capital do País como sucessor de Dom Arcoverde, filho deste Estado de Pernambuco e primeiro cardeal da América Latina. Por outro lado, Dom Vital, em janeiro, prisioneiro no Arsenal da Marinha, foi assim saudado por Dom Pedro Maria de Lacerda, ao visitá-lo: “Excelência, tem toda a jurisdição nesta terra. Vejo em Vossa Excelência um prisioneiro de Cristo; meu clero, meu cabido serão felizes, pondo-se às suas ordens”.
A amizade fraterna e a comunhão na defesa da verdade e da liberdade da Igreja uniram, desde então, Dom Vital, Bispo de Olinda e a Diocese do Rio de Janeiro.
A primeira leitura, da 2ª Carta de São Paulo ao dileto filho Timóteo, escrita na prisão, já no acaso da vida, no capítulo IV, que ouvimos há pouco, é uma solene admoestação perfeitamente posta em prática por Dom Vital. A resposta do Servo de Deus a esse trecho da Carta do Apóstolo foi admiravelmente afirmativa. E hoje, pelo exemplo, ele encarece à Igreja do Brasil, ao Episcopado em particular, a observância das diretrizes dadas por Paulo. Neste momento quero recordar a atitude de um sucessor dos apóstolos, obedecendo às normas dadas por Paulo a Timóteo.
O Imperador Dom Pedro II, querendo demonstrar gratidão pelo grande trabalho que os capuchinhos realizavam no Império, desejou que um de seus membros fosse elevado ao episcopado. Vacante a Sé de Olinda, a escolha recai sobre o jovem frade brasileiro. Dom Vital tinha apenas 27 anos, nessa oportunidade.
Proposto o seu nome, o Papa Pio IX confirma-o na função e profeticamente lhe escreve: “Hás de estrenuamente defender a causa de Deus e nada omitir do que possas dizer a respeito da causa da salvação em proveito do rebanho a ti confiado”. Ordenado bispo na Catedral de São Paulo, a 17 de março de 1872, teve como sagrante o bispo do Rio de Janeiro, Dom Pedro Maria de Lacerda, que durante o duro período da “Questão Religiosa” lhe seria amigo, irmão fiel. A 24 de maio do mesmo ano toma posse da Sé de Olinda, escrevendo, então, sua primeira Carta Pastoral aos diocesanos onde transparece todo o seu zelo: “Saúde, forças, faculdades e até a própria vida, tudo, tudo agora pertence a vós!”.
Período difícil e conturbado encontra Dom Vital ao assumir o seu múnus episcopal. O regalismo criara intromissões lastimáveis na vida eclesial, acarretando dependência da Igreja ao poder civil, enfraquecendo a disciplina eclesiástica e multiplicando abusos. Ao ser suspenso um sacerdote no Rio de Janeiro, após participar de grande festa maçônica, toda uma manifestação anticlerical se fez propagar por todo o país. Graves ofensas á religião foram veiculadas e os bispos afrontados em sua autoridade pastoral. Em Plinda e Recife, esgotados todos os expedientes paternos, Dom Vital lança, por fim, o interdito sobre algumas Irmandades rebeldes. Estas, por sua vez, apresentaram recursos ao Imperador contra a decisão do bispo. Era o estopim da chamada “Questão Religiosa”.
O ministro do Império e amigo pessoal de Dom Vital, Conselheiro João Alfredo, escreve-lhe pedindo que transija. A resposta do bispo é digna de quem segue as diretrizes do apóstolo Paulo, em sua epístola a Timóteo: “Que fazer diante do dever? Quando mesmo já fosse eu um bispo octogenário, tendo apenas alguns dias de vida, não trairia os deveres de minha missão”. E mais adiante: “Compreenda Vossa Excelência que esta questão é de vida ou morte para a Igreja do Brasil. Cumpre-nos antes, arcar com os maiores sacrifícios que afrouxar. Procederei sempre com muita calma, prudência e vagar: porém ceder, e não ir avante é impossível. Não vejo meio termo”. Esta carta traz a data de 27 de fevereiro de 1873.
Dom Vital é para nós um exemplo e um estímulo. Seu testemunho de fidelidade ao Evangelho, sem concessões nem desvios, é sempre atual. Ele procura a autenticidade eclesial, a autonomia da Igreja diante do poder civil, a afirmação de seus direitos. Ao tomar posição firme e esgotados os recursos da caridade, Dom Vital tornou-se o bispo da opção. Entre acomodar-se e transigir, preferiu resistir.
A figura de Dom Vital é modelo digno de ser apresentado aos nossos jovens: “Hoje dizia ele, em sermão pronunciado em Versailles, o padre há de ser homem de sacrifício: há de fazer a Deus o sacrifício de seu corpo e de sua vida. Ele deve acostumar-se a olhar o martírio sem receio. Somente com esta condição poderá cumprir sua missão de defender, até o fim, os direitos da Igreja e da verdade”. Coerente consigo mesmo e com a sua vocação, Dom Vital foi fiel até o fim: “Se no início de minha vida religiosa tivesse previsto a estranha sorte dolorosa que estava reservada, ainda com melhor vontade, teria desejado cumpri-la”. Exemplos como este devem ser recordados às novas gerações, porquanto são fruto da autenticidade cristã.
O Evangelho de São João, lido nesta missa solene, nos descreve Jesus o Bom Pastor. Dom Vital seguiu os passos do Senhor. Ele, que deu a vida pelas ovelhas, defendendo-as do erro, “abre a porta do redil das ovelhas; quem sobre por outro lugar é ladrão ou assaltante (10,1)”.
O pastor é arrancado do seu rebanho. Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira, o bispo de Olinda, está em sua residência, o Palácio da Soledade. Às 13 horas e um quarto, de 2 de janeiro de 1874, recebe ordem de prisão. Toma as vestes pontificais, com mitra e báculo. Prepara e lê um protesto, declarando que “em face de nosso rebanho muito amado e de toda a Santa Igreja de Jesus Cristo, da qual somos bispo, posto que muito indigno, só deixamos esta cara diocese que foi confiada à nossa solicitude e vigilância, porque dela fomos arrancados violentamente pela força do Governo”. Impedido pelo Juiz de ir a pé, é transportado para a corveta “Recife”, conduzido ao Rio de Janeiro, encarcerado no Arsenal da Marinha.
Memorável é este dia para esta Arquidiocese de Olinda e Recife e de todo o Brasil, quando é encerrada a fase diocesana do Processo para a Beatificação deste Servo de Deus. No passado, o grande propugnador da Causa de Dom Vital foi Frei Félix de Olívola. Além de sua obra de fôlego, a biografia, preparou valiosa documentação e viajou a Roma para entregá-la aos capuchinhos, na expectativa da beatificação do 20º bispo de Olinda. Na viagem por navio, teve morte súbita. Seu corpo foi jogado ao mar, com toda a bagagem. Fracassou, assim, a primeira tentativa concreta.
Em 24 de julho de 1953, o então arcebispo de Olinda e Recife, Dom Antônio de Almeida Moraes Junior, nomeou uma comissão para recolher o material histórico. Em 1960, instaurou o Processo sobre os escritos e constituiu um Tribunal arquidiocesano.
Lamentavelmente, os trabalhos foram paralisados no fim da década e o movimento em torno de Dom Vital arrefeceu. A atitude heroica dessa figura notável de pastor fiel é hoje quase desconhecida, especialmente da juventude, tão carente de bons exemplos. Dom Vital foi extraordinário em sua fidelidade à Igreja e obediência ás suas normas, mesmo a custas de grandes sofrimentos. O conhecimento desse Processo ajuda-nos no cumprimento de nossos deveres de cristãos. Oportuno, portanto, reavivar a memória nacional no tocante a esse episódio da história, perseguição e encarceramento de um sucessor dos apóstolos, por urgir, no interior da própria Igreja, o cumprimento da legislação eclesiástica.
Felizmente – e é merecimento do atual arcebispo de Olinda e Recife, Dom José Cardoso Sobrinho – foi reaberto o Processo, a 14 de janeiro de 1992. Para fundamentar o pedido de reconhecimento das virtudes heroicas de Dom Frei Vital,por parte da Santa Sé, a Comissão Especial teve a incumbência de realizar uma pesquisa histórica a respeito das etapas do mesmo Processo, concluído no passado. Em 1993, Monsenhor Francisco de Assis Pereira, do clero potiguar, foi designado “postulador da Causa”.
Aqui estamos agradecendo ao Senhor o término da fase diocesana deste Processo. Agradecemos a Deus o extraordinário e benemérito trabalho realizado. E pedimos ao Senhor Jesus as graças necessárias para alcançar o êxito desejado: a elevação à honra dos altares do Servo de Deus Dom Frei Vital Maria Gonçalves de Oliveira. Esse reconhecimento de suas virtudes heroicas muito beneficiará a Igreja e nossa pátria. A desejada beatificação será a proclamação dos méritos do grande bispo. Ele é um testemunho claro e explícito de nossa fé.
A coragem, quando unida à prudência, é uma das virtudes de grande importância na vida eclesial, também em nossos dias. No ambiente reinante no mundo de hoje, muitas vezes a criatura – e não o Criador – encontra defensores. Dom Vital lutou até ao sacrifício da própria vida, em favor da obra de Cristo.
Homilia Proferida na Basílica de N. Sra. da Penha, em Recife-PE, no dia 04/07/
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Cardeal Eugênio de Araújo Sales,
Dom Vital
terça-feira, 1 de outubro de 2013
RETÓRICA E ELOQUÊNCIA - Mário Ferreira dos Santos
De Mário Ferreira dos Santos
Capítulo do livro "CURSO DE ORATÓRIA E RETÓRICA"
Uma das mais justas e nobres aspirações de todos é ter o pleno domínio das ideias e dos meios de expres-são. A maioria sente dificuldade em escrever, falar e argumentar. E não são poucos aqueles que, em face de outras pessoas, sentem-se inibidos, faltam-lhe as palavras no instante preciso, que, momentos depois, surgem abundantes e nítidas.
Factos como esses provocam insatisfações e servem apenas para aumentar o poder inibidor, pela falta de confiança em si mesmo que se apodera de quem passa por tais experiências.
Entretanto, são elas tão frequentes, tão comuns, em todas as épocas e ocasiões, que há necessidade de evitarem-se tais malogros, e permitir e auxiliar que as ideias surjam vivas e eficientes, revestidas de pleno brilho pelo emprego justo de palavras correspondentes.
Impõe-se, por isso, sempre o estudo da Retórica e da Eloquência.
Muitos professores julgam suficientes os métodos práticos, em contraposição ao excesso de teoria que se ministrava antigamente.
Depois de percorrermos, por uma análise cuidadosa, muitos cursos, nacionais e estrangeiros, e considerando as nossas típicas condições psicológicas, organizamos um programa que não dispensa nem a parte teórica nem a prática, embora considere da primeira apenas o essencial, e inclua, na segunda, tudo quanto de melhor tem revelado a experiência de famosos oradores.
Não se pode excluir o estudo teórico e apresentar apenas o prático, porque aquele fundamenta a aplicação do segundo e dá ao estudioso meios de novas investigações.
É a palavra um meio maravilhoso de aperfeiçoamento do espirito: todas as palavras são sinais de ideias, e corno partimos das Ideias, para revesti-las com palavras, também podemos partir das palavras pura construir novas Ideias
O manejo simples e o domínio pleno das palavras abre um campo imenso ao progresso individual, pois em todas as eras ela foi, como ainda é, o meio mais eficaz de comunicação entre os homens.
O primeiro cuidado de quem deseja ser estimado como escritor, atrair a atenção como orador, consiste em enriquecer o vocabulário e as ideias. E todas as ocasiões devem ser aproveitadas para esta atividade tão frutuosa. Além disso, para comunicar suas ideias, desde que tenha alguma coisa a dizer, a linguagem deve ser clara, agradável, compreensível e interessante.
Ora, tais qualidades podem ser obtidas, apesar de exigirem esforço, trabalho e muita prática. Não se pode construir uma boa retórica sem uma base lógica e uma sólida dialéctica.
Esta é a razão por que desde o início queremos chamar a atenção para os exercícios práticos que são oferecidos neste livro. Eles devem ser seguidos à risca e repetidos constantemente, até quando julgados fáceis.
Um dos graves defeitos de todos os que estudam qualquer matéria é não dar maior atenção aos exercícios. Referem-se estes à parte somática, cuja constante repetição cria o hábito. Compreender cabe ao espírito. É muito; porém não é tudo. É preciso realizar o prático. Quem fala bem, não é acaso aquele de quem dizemos ter "o hábito de falar em público?"
Além disso, o raciocínio deve ser claro, sem ideias confusas, revestido depois por palavras correspondentes. Como pode convencer a outrem quem não sabe expressar o que pensa? Quem não é senhor do que pensa, como pode ser senhor do que diz?
Pensar claro e expressar claro. Dar nitidez às ideias em primeiro lugar, depois procurar formas que as revistam sem empanar essa diafaneidade.
E como se consegue este domínio? Em primeiro lugar, não falar nunca do que se desconhece. Nada há mais aborrecido que ouvir um orador falar do que não sabe.
O domínio do tema é um ponto de partida importante. Depois, outros virão. . .
Comecemos, pois, nosso caminho, para percorrê-lo.
* * *
Pode o gosto ser definido como "a faculdade de receber uma agradável impressão das belezas da natureza e da arte". Todos os homens são dotados de gosto, pois todos avaliamos, estimamos, valoramos.
Há um sentimento de beleza, que é comum a todos, embora em graus diferentes. Uns têm mais aptidão, mais capacidade de apreciar, mais requinte no gosto, outros menos. Uns sentem a beleza na harmonia, nas belas proporções, para as quais outros são quase cegos.
Mas sempre, até no mais estúpido dos seres humanos, há um ponto em que a admiração é despertada, em que é capaz de sentir e gozar da beleza das coisas. Não basta para bem apreciar ter sentidos agudos, boa percepção. Impõe-se a educação requintada do gosto que é mental, como nos mostra a psicologia. Um semi-surdo pode ser um grande apreciador de música, e entendê-la e criá-la (como Beethoven). A educação é mental e não meramente dos sentidos, que apenas servem de meios para nos transmitirem os estímulos exteriores.
Não há dúvida que a sensibilidade pessoal é decisiva em muitos pontos. Quem nasce com predisposição artística tem naturalmente possibilidades maiores. Mas a educação pode preparar-nos ("educar o gosto", como se diz) para aumentar o grau de apreciação e de prazer que oferece a contemplação da beleza.
O gosto sofre modificações não só de indivíduo para indivíduo, como de época para época. Na Idade Média, o gótico suplantou no gosto dos povos europeus a arte grega, que ressurgiu, depois, no Renascimento. Quando Milton escreveu o "Paraíso Perdido", a simplicidade majestosa de sua obra passou despercebida, enquanto autores, hoje esquecidos, como Cowley, Wallaer, Suckling e Etheridge, conseguiram interessar mais aos leitores de então. É o que se dá ainda em nossos dias. Vemos meteoros surgirem deslumbrantes no céu, mas passarem com a velocidade dos meteoros. Obscurecem, por momentos, o brilho pálido das estrelas, mas este é eterno.
Como o gosto depende da subjetividade, costuma-se dizer que "de gostos não se discute". Realmente, o gosto, apenas por seu aspecto subjectivo, não é passível de discussões sérias. Mas a obra de arte, a beleza que esta na obra de arte, é discutível. O que o gosto procura e a beleza. Encontrá-la é a missão do verdadeiro artista. Numa época como a nossa, uma época de transição, era que todos os valores estão colocados na mesa para serem analisados, em que uma torrente de opiniões mal dirigidas perturba a humanidade, em que ideias das mais diversas procedências disputam entre si uma prioridade duvidosa, é natural que a confusão em questões de gosto seja premente e impeça um critério firme que nos oriente através do acúmulo de pontos de vista dos mais contraditórios. Tal, no entanto, não impede que estudemos, calma e serenamente, a beleza que sempre tem sido a meta desejada pelos homens, fugindo quanto possível a sugestão das formas da moda.
* * *
A maneira mais simples, sob a qual podemos avaliar a grandeza nos objetos, é a de uma extensão imensa, por exemplo, a de um grande campo onde a vista se perde na distância. As coisas vastas fazem nascer a impressão do sublime, É essa a impressão que dá o cimo de uma montanha, um abismo profundo, um grande rio, cujas margens desaparecem na distância, o firmamento, o oceano, o universo estrelado. Foram sempre esses os temas mais sublimes que a literatura empregou. Assim como a proporção exata das partes constitui quase sempre a beleza, o sublime desdenha essa proporção. O sublime aceita o desproporcionado, o imenso, o ilimitado. Uma catedral gótica, com suas torres esguias, penetrando pelo céu, dá-nos sempre uma impressão do sublime.
Contudo, o sublime não é somente revelado nas coisas, mas também no estilo. O sublime só se verifica no estilo quando há plena concordância deste com o objecto que deseja expressar, e esse objecto é já sublime. No sublime, sentimos que ultrapassamos a nós mesmos, como se nos fosse dado apreciar o que sentimos muito mais elevado ou longe de nós. Os estudiosos clássicos da retórica davam cinco fontes do sublime. Vamos sintetiza-las:
1.a) a audácia ou grandeza nos pensamentos;
2.a) o patético;
3.a) o emprego conveniente das figuras;
4.a) o uso de tropos e expressões ricas;
5.a) a construção harmoniosa das palavras.
O estilo sublime não necessita de ornamentos. É na simplicidade que está muito da sua grandeza. O homem de hoje não se impressiona tão vivamente com os factos da existência como um homem primitivo, para o qual cada facto encerrava em si mistérios insondáveis e a natureza não tinha aquele sentido lógico e legal que nós lhe damos.
Por isso é tão raro o sublime hoje. Só em certos momentos êle nos surge, às vezes, num pequeno facto que nos exalta e nos leva a sobrepassar a nós mesmos. No décimo-sétimo salmo, temos o sublime em toda a sua simplicidade, como o temos nas descrições da Ilíada. No entanto, o sublime pode ficar desmerecido pelo estilo do autor quando os termos não estão à altura da ideia. Pode encontrar-se ainda o belo, mas o sublime já não existe mais.
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A simplicidade, a concisão são necessárias para aparelhar a ideia sublime, a ideia que nos exalta. Assim nesta frase de Nietzsche: "Deveis buscar o vosso inimigo e fazer a vossa guerra, uma guerra por vossos pensamentos; e se vosso pensamento sucumbir, vossa lealdade, contudo, deve cantar vitória", há muito do sublime como o entendemos hoje: a simplicidade permite que o sublime da ideia ressalte. Um outro autor encheria de frases, de tropos, de imagens, e diluiria a sublimidade para ressaltar apenas a beleza.
Essa a razão por que a poesia rimada oferece tantos perigos e tantos males ao sublime. É que a necessidade da rima leva muitas vezes a frases desnecessárias e a simplicidade é prejudicada.
Um outro aspecto não se deve deixar de lado. O grande escritor é aquele que é capaz de tornar sublime o que, nas mãos de um medíocre, não tem sublimidade. Temas aparentemente simples tomam um caráter complexo nas mãos do grande escritor. E como se consegue isso?
Consegue-se ao fixar em cada ideia o seu aspecto mais elevado, aquele que é capaz de ultrapassar o tempo, aquele que tem um significado que ultrapassa o transeunte, o trivialmente comum. Assim, digamos que alguém quer referir-se a certas suspeitas surgidas por entre os pensamentos. Sabemos que elas surgem nos momentos de desfalecimento, ou quando o pensamento não consegue, com certa força, traduzir o seu objecto. No entanto, um Byron, aproveitando-se desse facto, expressa-o assim: "As suspeitas são entre os pensamentos o que os morcegos são entre os pássaros: só voam ao crepúsculo".
A mesma ideia é expressa, com tal tom, que nos eleva imediatamente, isto é, nos dá a emoção do sublime, e não da trivialidade. Assim vimos que há um sublime na natureza, mas há um sublime nas ideias.
O sublime das ideias está nas ideias e não nas palavras. O segredo do sublime está em expressar grandes pensamentos com termos simples e bem claros. Os escritores mais sublimes no pensamento foram os mais simples nas palavras.
E os exemplos que demos já nos mostraram. Uma ideia, expressada chãmente, poderá transformar-se numa trivialidade, mas se dermos uma harmonia e aquele ímpeto que nos eleva, ela pode tornar-se sublime. Vamos a um exemplo: todos os homens são ambiciosos e o ser humano quereria ter tudo, ser tudo, apossar-se de tudo. No entanto não o pode. Que deve fazer senão conformar-se com os limites que lhe são naturais? Mas vejamos essa mesma ideia exposta acima, tão simples, trivial até, dita no Ramayana com sublimidade: "Nem todo o ouro do mundo, nem todo o trigo, nem todas as mulheres são bastantes para um só homem; lembra-te e resigna-te".
Há aí, na harmonia, e no ímpeto da frase, uma beleza que torna a ideia sublime. Há um calor que nos inflama, que se nos comunica.
Analise o leitor todas as ideias enunciadas que o arrebataram, que o elevaram, que o colocaram num certo instante acima de si mesmo, como sentindo-se pairar acima do comum, e verá que, em todas elas, há esse ímpeto ao lado da harmonia e da simplicidade. E este exercício já é uma preparação para o domínio do sublime.
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