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quarta-feira, 13 de julho de 2022

JOHN HENRY NEWMAN (1801-1890) - Relato de conversão

Este relato foi extraído do livro Voltando Para a casa, da Editora Santo Thomas More. Agradecemos a autorização. 

JOHN HENRY NEWMAN (1801-1890) 

Nascido no seio de uma família anglicana48 de banqueiros, em Londres, a 21 de fevereiro de 1801, John Henry Newman passou por uma “primeira conversão” (como ele a chamou) aos 15 anos. Em 1825, após completar seus estudos em Oxford, foi ordenado sacerdote anglicano. Três anos depois foi nomeado vigário da igreja de Santa Maria, anexa à Universidade de Oxford. 

Nesse cargo, que ocupou até 1843, ele cultivou amizade com pessoas instruídas e sábias da Inglaterra da época. Foi o promotor, a partir de 1833, do “Movimento Oxford”, corrente religiosa dentro da Igreja Anglicana que promovia um “meio-termo”, uma terceira via, entre o Protestantismo e a Igreja Católica. Em sua autobiografia, Newman diz o seguinte: “Posteriormente, e sem ser capaz de especificar a ordem ou as datas em minhas palavras, falei da Igreja de Roma como ligada à causa do anticristo (“um dos muitos anticristos”), ou como uma Igreja que tinha em si algo “não cristão”, ou “verdadeiramente anticristão”.

Mas, estudando a história dos hereges monofisistas e arianos, ele percebeu que não poderia manter essa terceira via e que deveria ou permanecer anglicano, ou se tornar católico de uma vez por todas. Newman enfrentou muitas lutas internas e, para ser fiel à sua consciência, teve de trabalhar duro para investigar a verdade nos livros dos Santos Padres da Igreja dos primeiros séculos, até que, gradualmente, descobriu o verdadeiro caminho. 

Em 1843, decidiu deixar o cargo de pastor anglicano e foi reduzido a um simples leigo, embora ainda não estivesse decidido a se tornar católico, devido a obstáculos como a devoção à Virgem e aos santos: “Em 1843, dei dois passos muito importantes: 1) Em fevereiro, fiz uma retratação formal de todas as coisas duras que havia dito contra a Igreja de Roma. 2) Em setembro, abdiquei do benefício concedido a mim na igreja de Santa Maria, em Littlemore”, diz Newman. 

“Entre o outono de 1843 e 1845, permaneci em comunhão leiga com a Igreja da Inglaterra, frequentando, como de costume, seus atos de culto e me abstendo completamente de lidar com os católicos e seus ritos e práticas religiosas, como a invocação dos santos (que são característicos de seu credo). Eu fazia tudo isso por convicção, porque nunca consegui entender como alguém pode pertencer a duas confissões religiosas ao mesmo tempo”, escreveu o ex-sacerdote anglicano. Em 9 de outubro de 1845, ele abraçou o catolicismo. 

Eis o depoimento de John Henry Newman sobre sua conversão: “A partir do momento em que me tornei católico, naturalmente não tenho mais histórias de minhas ideias religiosas para contar. Ao dizer isso, não quero dizer que meu entendimento tenha ficado ocioso ou que parei de pensar em questões teológicas, mas que não tenho contratempos e não tive angústia no coração. Tenho estado em perfeita paz e contente, e nunca tive dúvidas. Ao me converter, não notei nenhuma mudança, intelectual ou moral, operando em meu espírito... Tampouco senti mais fervor. Foi como chegar ao porto depois de uma tempestade, e a felicidade que então senti permanece ininterrupta até o presente. 

“Nunca fiquei constrangido com a aceitação dos artigos adicionais, que não são encontrados no credo anglicano. Alguns eu já acreditara, mas nenhum deles foi uma prova de fogo para mim. Ao ser recebido na Igreja Católica, professei- -os com a maior facilidade, e sinto o mesmo quando penso sobre eles hoje em dia. 

“Falarei da doutrina que os protestantes consideram a maior dificuldade: a da Imaculada Conceição de Maria, que afirma que a Bem-Aventurada Virgem Maria foi concebida sem o pecado original. Na verdade, cai por si mesma a afirmação de que os católicos passaram a acreditar porque foi definido, pois ocorreu justamente o contrário: foi definido porque acreditavam. Longe de ser uma decisão, uma imposição tirânica ao mundo católico, sacramentada em 1854, foi recebida em toda parte, quando promulgada, com o maior entusiasmo. A definição foi feita a partir do pedido unânime de toda a Igreja à Santa Sé, pois que o dogma sobre a Concepção Imaculada de Maria surgiu ainda na época apostólica”. 

Após uma viagem a Roma em 1847, Newman foi ordenado padre católico. Um de seus principais objetivos, então, foi mostrar aos ingleses que se pode ser um bom católico e um cidadão leal. O Papa Leão XIII o nomeou cardeal em 1879. 

Junto com ele, converteram-se 22 sacerdotes anglicanos e 11 professores da Universidade de Oxford e de Cambridge. Estima-se que, desde a conversão de Newman, em 1935, 900 reverendos episcopais tornaram-se católicos.


Os anglicanos têm como líder de sua igreja a rainha ou o rei da Inglaterra. Dentro da hierarquia eclesiástica britânica, após a família real, vêm: o parlamento inglês e o arcebispo de Canterbury. É, deste modo, uma igreja dirigida pela autoridade civil. A Igreja Anglicana aceita o divórcio, visto que, para ela, o casamento não é indissolúvel.



Para comprar: https://livrariaborasersanto.com.br/santo-thomas-more/voltando-para-casa 

Esta obra, que o leitor tem agora em mãos, mais do que uma série de histórias aponta um caminho seguro para se aprofundar na Fé Católica. Chamo a atenção para um ponto, do fenômeno da Conversão: é possível ocorrer "conversões" para o erro, a mentira... assim aconteceu aos nossos primeiros pais, assim está profetizada nos últimos dias, assim ocorreram tantas que abandonaram a Santa Igreja. Porém a genuína conversão é para a verdade, e comparando tantas conversões, reconhecemos que uma genuína conversão só pode ocorrer se ela for fundamentada na VERDADE, e por isso ela se caracteriza por ser lógica e racional.

Enquanto conhecemos conversões que somente ocorreram por meio de acontecimentos emocionais, revoltosos ou por mera conveniência, o leitor terá histórias cujos personagens entraram no caminho de um estudo sincero, racional superando gostos e emoções e aceitando os fatos e verdades que se verificam com suas consequências e na maior das provas o FRUTO como já havia apontado Jesus no Sermão da Montanha. Ainda que a Verdade toque a realidade Sobrenatural, essa está analogicamente ligada as realidades visíveis e racionais.

Pe. Reinaldo Aparecido Bento



Ficha Técnica:
ISBN: 9788553019199
Editora: Santo Thomas More
Dimensões: 14.00 x 21.00 cm
Idioma: Português
Páginas: 194

sexta-feira, 1 de abril de 2022

Universidade segundo o Cardeal Newman

Se me pedissem uma descrição breve e popular do que seja um Universidade, derivaria minha resposta da antiga designação, Studium Generale, ou “Escola de Conhecimentos Universais”. Esta descrição supõe a reunião de estrangeiros de todas as procedências em um lugar: de todas as procedências, do contrário, como se encontrariam professores e estudantes para todos os departamentos do saber? E num lugar, senão como poderia haver realmente uma escola? Consonantemente, em sua forma simples e rudimentar, é uma escola de toda sorte de saber, contando com professores e mestres de todos os quadrantes. Muitos são os requisitos para completar e satisfazer a ideia incorporada nesta descrição; porém sem mais vemos que uma Universidade em sua essência parece ser um lugar para a comunicação e circulação do pensamento, mediante a comunicação pessoal, dominando uma vasta extensão do país.

Nada há de rebuscado e irrazoável nesta nossa concepção assim apresentada. E se tal é uma Universidade, pois então a Universidade vai bem de encontro a uma necessidade de nossa natureza, e não é mais do que a concretização num determinado setor, do que poderia tornar outras formas em outros para prover à mesma necessidade, pois a educação mútua, no sentido lato da palavra, é uma das grandes incessantes ocupações da sociedade humana, a que o homem se entrega já de per si, já intencionalmente um geração forma a seguinte; e a geração existente está perpetuamente agindo e reagindo sobre si própria na pessoa de cada membro. Neste processo educativo, não será preciso dizer, que os livros, a Littera Scripta, são um dos instrumentos.

[...] O campo e o inestimável serviço da Littera Scripta, é o de ser o arquivo da verdade, uma autoridade a que se apelar, um instrumento de ensino nas mãos de um professor; mas se queremos ser exatos e nos torna plenamente equipados em qualquer ramo do conhecimento que seja variado e difícil, temos que consultar o homem vivo e ouvir a sua viva voz.

[...] Livro algum poderá carrear o espírito peculiar, e as delicadas particularidades do seu tema com a rapidez e a certeza que animam a simpatia de uma mente com a outra, através do olhos, da expressão, da tonalidade, da maneira, nas fórmulas casuais saída de improviso e os giros espontâneos da conversação familiar.

[...] Os princípios gerais de qualquer matéria podem ser estudados em casa num livro; mas o por menor, a cor, o tom, o ar, a vida que a faz viver em nós, temos que captar tudo isso daqueles em que já está vivendo. Temos que fazer como o estudante francês ou alemão, que não contente com sua gramática, vai a Paris ou Dresden; ou como o jovem artista ansioso por visitar os grandes mestres em Florença e em Roma. Enquanto não se houver descoberto um espécie de fotografia intelectual que retrate o andamento do pensar, e a forma, os lineamentos, as feições da verdade e isto tão completa e minuciosamente como o aparelho ótico reproduz o objeto sensível; não há senão ir aos mestres da sabedoria para aprender a sabedoria, senão recorrer à fonte e daí beber. Doses podem ir daqui aos confins da terra levado por livros; mas a plenitude está só num lugar (: a Universidade). Os mesmo livros, obras mestras do gênio humano são escritos, ou pelo menos têm origem em tais ajuntamentos e congregações da inteligência.

[...] Uma universidade é o lugar de concurso, onde estudantes vêm de todos os cantos em busca de todo o gênero de conhecimentos. Impossível terem em toda a parte o melhor de tudo... Por força das coisas, grandeza e unidade vão juntas: a excelência supõe um centro... a Universidade é o lugar para onde colaboram mil escolas; no qual a inteligência facilmente pode ter surto e especular, certa de achar seus iguais nalguma atividade rival, e o seu juiz no tribunal da verdade. É o lugar onde a investigação é incentivada, as descobertas verificadas e aperfeiçoadas, o arrojo feito inofensivo, o erro indigitado, pela colisão de mente com mente, e de conhecimento com conhecimento. O lugar onde o professor se faz eloquente, é missionário e pregador, apresentando o seu saber pela forma mais completa e sedutora, vertendo-o com zelo do entusiasmo, e acendendo o próprio amor no seio dos ouvintes. Lugar em que o catequista solidifica o caminho ao passo que progride, martelando a verdade dia a dia na memória pronta, como que entalando-a e apertando-a na razão em desenvolvimento. Lugar que arrebata por sua celebridade a admiração dos moços, inflama por sua beleza as afeiçoes dos de meia idade e assegura por suas associações a fidelidade dos velhos. Ela é a Sede da sabedoria, luz do mundo, ministra da fé, a Alma Mater da geração que sobe. Isto e muito mais é uma Universidade a pedir melhor talento e mão do que a minha para descrevê-la. Assim é um Universidade em sua essência e em seu fim, e em boa parte assim tem sido de fato até agora. Sê-lo-á de novo?

CARDEAL JOHN HENRY NEWMAN, Idéia da Universidade, Dublin, 1858