quarta-feira, 31 de agosto de 2022

O HOMEM-MASSA - Dom Fulton Sheen

O HOMEM-MASSA

Por Fulton J. Sheen — Jornal do Dia (RS). Domingo, 27–7–1952.

Um novo tipo de homem prolifera no mundo moderno e, se algum leitor se reconhecer neste artigo, que faça uma pausa, reflita e procure transformar-se. O novo homem é o homem-massa. Ele não dá mais valor à sua personalidade individual mas deseja ser submergido na coletividade ou na multidão.

Este homem-massa pode ser reconhecido pelas seguintes características:

1. Não é original ao julgar ou discernir. Ele nada lê a não ser o jornal diário, a revista ilustrada ou uma novela ocasional. Sobre um assunto, ele pode ter um ponto de vista diferente a externar mas não possui um novo principio de solução.

2. Ele odeia a tranquilidade, a meditação, o silêncio ou qualquer coisa que lhe dê possibilidade de penetrar nos recônditos da alma. Ele tem necessidade de ruídos, ajuntamentos, de ter o rádio ligado, mesmo que não esteja prestando atenção.

3. Precisa de evasão. Necessita fugir de si mesmo. Álcool, coquetéis, histórias policiais, filmes, são tomados em doses excessivas, para matar o tempo. Assim como o gênio ama a concentração, ele procura a dispersão, especialmente no terreno sexual, de maneira a que a excitação do momento o faça esquecer o problema da vida.

4. Ele procura ser influenciado ao invés de influenciar. É muito sensitivo a propaganda, às excitações da publicidade e geralmente, tem no seu jornal diário, um colunista favorito que pensa por ele.

5. Acredita que todo instinto deve ser satisfeito, não importando se se exerce de acordo com a lógica ou a moral. Ele não compreende continência ou autodisciplina.

6. Nas suas crenças sobre o que é certo e o que é errado, ele varia como um cata-vento. Ele mantém posições que nada mais são do que uma sucessão de contradições segue, num mês, certas vias de pensamento e, no mês seguinte, as abandona. Ele não vai a parte alguma mas está certo de que está no bom caminho.

Não possui o menor sento de gratidão para com o passado nem de responsabilidade para com o futuro. Nada interessa a não serem distrações. A vida, então, se torna a louca soma de instantes sucessivos que não fazem sentido entre si.

7. Ele identifica dinheiro e prazer e procura ter muito do primeiro para conseguir bastante do segundo. Mas o dinheiro tem que ser conseguido com o mínimo esforço possível. Seu ego é o centro de tudo e tudo com ele se relacionam, com o dinheiro a servir de intermediário.

8. Para evitar a solidão, ele recorre a estar com pessoas em night-clubs, festas e diversões coletivas. Mas, de cada um delas, ele retorna mais solitário do que antes, chegando finalmente a estar de acordo com Sartre, quando ele diz que o “inferno são os outros”.

9. Sendo um homem-massa completamente estandardizado, ele odeia a superioridade nos outros, seja real ou imaginária. Adora escândalos porque eles parecem provar que os outros não são melhores do que ele. Despreza a religião pela única razão de achar que, ao negá-la, garante para si a possibilidade de continuar a viver como vive, sem ter remorsos na consciência.

10. Ele pode ser designado mais por um número de que por um nome, de tal maneira

está imbuido das ideias coletivas. Até a autoridade que invoca é anônima. Sempre informa que “estão dizendo” isto ou “estão fazendo” aquilo. O anonimato torna-se uma proteção contra a obrigação de assumir responsabilidades. Nas grandes cidades, ele se sente mais livre porque é menos conhecido. Ao mesmo tempo, porém, ele odeia isso porque elimina as suas possibilidades de se destacar, de possuir uma distinção pessoal.

Estas são as dez características do homem-massa, que é a matéria prima de toda a forma de totalitarismo, do fascismo ao comunismo. Psicologicamente, ele é também um homem infeliz, cheio de desespero, ansiedade, medo e atemorizado com a falta de sentido da vida. Mas, ele não perderá a esperança, se conseguir se conhecer. A única razão que ele tem para se perder na multidão, é a impossibilidade de esquecer sua miséria interior. É necessário, portanto, que ele se aparte das massas e comece a sondar o próprio eu. A fuga é uma covardia, um escapismo. Especialmente a fuga pelo anonimato.

É preciso coragem para olhar no espelho da própria alma e ver as rugas causadas pelo mau procedimento. Não é um truísmo dizer que os homens devem ser homens não átomos numa massa.

Desde que o homem reconheça a extensão dos danos que causou a si próprio, ele procurará o Divino Médico para curá-lo. Foi para os homens-massa exaustos que Ele enviou o seu apelo:

“Vinde para mim todos os que trabalham e estão sobrecarregados, pois encontrarão alívio para suas almas”.

domingo, 21 de agosto de 2022

SERVO DE DEUS NICHOLAS BLACK ELK "ALCE NEGRO"


SERVO DE DEUS NICHOLAS BLACK ELK "ALCE NEGRO", Leigo, indígena Sioux, catequista conhecido entre os jesuítas como um "segundo São Paulo" e um "fervente apóstolo" pela sua evangelização entre os Lakota. Ele viveu sua fé através da tradição Lakota e levou ao catolicismo estas culturas convertendo centenas quando morreu.
Nascido em 01 de dezembro de 1863 no Rio Powder, Estados Unidos. Com cerca de 12 anos, participou da batalha de Little Big Horn de 1876, e foi ferido no massacre de Wounded Knee em 1890.
Alce Negro casou com sua primeira mulher, Katie War Bonnett, em 1892. Ela se converteu ao catolicismo e seus três filhos foram batizados. Após sua morte em 1903, Alce Negro também foi batizado, tomando o nome de Nicholas Black Elk, e continuando como líder espiritual da tribo naquilo que ele não via contradição entre tradições tribais e cristianismo.
Em 1905 ele voltou a casar com uma viúva com duas filhas chamada Anna Brings White e com a qual teve mais três filhos permanecendo com ela até a morte em 1941.
No fim de sua vida,Alce Negro contou a história de sua vida e um bom número de rituais sagrados Sioux a John Neihardt e Joseph Epes Brown para ser publicado. Suas narrações obtiveram um interesse considerável do público.
No livro de John G. Neihardt, diz-se que o Sioux aos nove anos esteve inconsciente durante 12 dias e teve visões do cavalo das quatro direções que o levou à nuvem dos seis avós, ou seja, os quatro pontos cardeais mais o zênite e o nadir. Estes ensinaram-lhe os segredos de conhecer e curar. Na sua juventude foi instruído com o conhecimento dos grandes sacerdotes, incluindo Whirlwind Chaser, Black Road e Elk Head.
Com esse conhecimento, Alce Negro rezou e jejuou por grandes temporadas o que o tornou um homem sábio que recebeu visões e um poder especial para o bem de sua nação. Essa missão obcecou o Alce Negro e causou-lhe muito sofrimento, apesar de poder guiar o seu povo para o caminho sagrado, não conseguiu ver meios suficientes para fazê-lo acontecer na sua totalidade.
Durante 50 anos, Black Elk levou outros a Cristo muitas vezes derretendo sua cultura Lakota em sua vida cristã. "Esta enculturação pode sempre revelar um pouco da verdadeira natureza e santidade de Deus" desafiou as pessoas a renovarem-se, a buscar esta vida que Cristo lhes oferece. "
A vida de Alce Negro como um catequista dedicado, líder espiritual e guia "inspirou muitos a viver para Cristo pela sua própria história. " Morreu em 19 de agosto de 1950 em Pine Ridge.
Com a abertura formal de sua causa, Alce Negro agora tem o título de "Servo de Deus".
A causa de Black Elk começou oficialmente após uma petição com 1.600 assinaturas que foi apresentada à Diocese de Rapid City em 2016. O processo foi formalmente aberto no ano seguinte e obteve a aprovação unânime dos bispos americanos na sua assembleia de novembro de 2018. A fase diocesana terminou em 25 de junho de 2019.
Os últimos papéis sobre a causa de Black Elk foram apresentados por William White, um católico Lakota em formação para o diaconado e postulador diocesano desta causa para a diocese de Rapid City, no Dakota do Sul.

sábado, 13 de agosto de 2022

COMO SE PROPAGAM AS IDEOLOGIAS - João Camilo de Oliveira Torres


COMO SE PROPAGAM AS IDEOLOGIAS

Disponível: https://livraria.camara.leg.br/interpretacao-da-realidade-brasileira 


O problema, fundamental, não está em saber como um determinado cidadão adotou, de repente, uma posição ideológica – o que nos interessa é o fato de transformar-se uma doutrina em ideologia, de difundir-se afinal. Geralmente, quando lemos um livro e ele nos agrada, nos convence, nos estimula, isto significa que o autor disse, clara e explicitamente, o que já estava em nosso coração... 

Vamos estabelecer algumas das razões básicas para a transformação de uma doutrina em ideologia, razões que, igualmente, servem para explicar as motivações particulares e o nascimento das doutrinas nos mestres. Podemos fixar as razões em duas categorias básicas: 

a) psicológicas; b) sociológicas. A) Causas Psicológicas 

Há motivações psicológicas perfeitamente definidas. Talvez a mais importante das bases psicológicas para a formação de ideologias é a ligada ao ressentimento, cuja importância Nietzsche e Scheler souberam estudar em páginas clássicas. Para resumir, podemos dizer que o ressentido nega o valor daquilo que não pode atingir. O ressentido passa a considerar mau o bom, pequeno o grande, feio o belo, simplesmente por estar fora do alcance de seu poder, como a raposa da fábula que considerou verdes as inatingíveis uvas. É um caso de desvalorização de valores. Eis o que diz Scheler:

O ponto de partida mais importante na formação do ressentimento é o impulso de vingança. Já a palavra ‘ressentimento’ indica, como dissemos, que as emoções aqui referidas são emoções baseadas na prévia apreensão dos sentimentos alheios; isto é, que se trata de reações. Impulso reativo é, com efeito, o impulso de vingança, diferentemente dos impulsos ativos e agressivos, de direção amistosa ou hostil. Um ataque ou uma ofensa precede a todo impulso de vingança. Mas o importante é que o impulso de vingança não coincide, em hipótese alguma, com o impulso para o contra-ataque ou defesa, mesmo quando esta reação vá acompanhada de cólera, furor ou indignação. Quando,por exemplo, um animal agredido morde seu agressor, isto não se pode chamar vingança. Tampouco o contra-ataque imediato a uma bofetada é vingança. Dois caracteres são essenciais para a existência da vingança: um refreamento e detenção, momentâneos pelo menos (ou que duram um tempo determinado), do contraimpulso imediato (e dos movimentos de cólera e furor enlaçados com ele), e um aprazamento da contrarreação para outro momento e situação mais apropriada (‘Você não perde por esperar...’). Este refreamento, porém, é devido à previsora consideração de que a contrarreação imediata seria fatal. Um caso de sentimento de ‘importância’ vai enlaçado, pois, com esta consideração. A vingança em si é, pois, uma vivência que se baseia em outra vivência de impotência; sempre, portanto, sempre, coisa do ‘fraco’ em algum ponto. De resto pertence à essência da vingança o conter sempre a consciência de ‘isto por isto’, o não representar nunca, portanto, uma simples contrarreação acompanhada de emoções. Graças a estes dois caracteres, o impulso de vingança é o ponto de partida mais próprio para a formação do ressentimento. Nossa língua (alemã) estabelece finas diferenças. Desde o sentimento de vingança, passando pelo rancor, pela inveja e pela ojeriza, até à perfídia, corre uma gradação do sentimento e do impulso que chega à cercania do ressentimento propriamente dito. A vingança e a inveja têm objetos determinados as mais das vezes. Estes modos da negação hostil necessitam motivos determinados para aparecer; estão ligados, em sua direção, a objetos determinados, de modo que desaparecem com o desaparecimento destes motivos. A vingança conseguida faz desaparecer o sentimento de vingança, e, analogamente, o castigo daquele a quem aponta o impulso de vingança; por exemplo: o autocastigo. Também a inveja desaparece quando o bem pelo qual invejo alguém se faz meu. A ojeriza, ao contrário, é uma atitude, que não está ligada a objetos determinados, no mesmo sentido; não surge por motivos determinados, para desaparecer com eles. Antes, são buscados aqueles objetos e aqueles valores de coisas e pessoas, nos quais possa satisfazer-se a inveja. O rebaixá-lo e derrubá-lo de seu pedestal é próprio desta disposição. A crescente atenção que despertam os valores negativos de coisas e pessoas, justamente por aparecerem unidos com fortes valores positivos num e no mesmo objeto;

o deter-se nestes valores negativos, com um acentuado sentimento de prazer no fato de sua existência, converte-se numa forma fixa das vivências, na qual podem encontrar lugar as matérias mais diferentes. Em quem tem ojeriza, a experiência particular e concreta da vida toma essa forma ou estrutura, eleita como real entre a experiência somente possível. O despertar da inveja já não é o mero efeito de tal experiência, e a experiência se forma com total indiferença com relação a se seu objeto tem uma relação, direta ou indireta, com o possível dano ou proveito do indivíduo correspondente. Na ‘perfídia’, o impulso detrativo se fez mais fundo e mais íntimo ainda; está disposto sempre, por assim dizer, a saltar e adiantar-se num gesto impensado, num modo de sorrir, etc. Um caminho análogo vai desde a simples ‘alegria do mal alheio’ até a ‘maldade’; esta procura provocar novas ocasiões de alegrar-se do mal alheio, e se mostra já mais independente de objetos determinados que a alegria do mal alheio. Mas nada disto é ressentimento. São só estádios no processo de seus pontos de partida. O sentimento de vingança, a inveja, a ojeriza, a perfídia, a alegria do mal alheio e a maldade não entram na formação do ressentimento, senão ali onde não tem lugar nem uma vitória moral (na vingança, por exemplo, um verdadeiro perdão), nem uma ação ou – respectivamente – expressão adequada da emoção em manifestações externas; por exemplo: insultos, movimentos dos punhos, etc.; e se não têm lugar, é porque uma consciência, ainda mais acusada da própria impotência, refreia semelhante ação ou expressão. Aquele que, ávido de vingança, é arrastado à ação por seu sentimento, e se vinga; aquele que odeia e causa um dano ao adversário, ou, pelo menos, lhe diz ‘sua opinião’ ou o ofende diante dos outros; o invejoso que procura adquirir o bem que inveja, mediante o trabalho, a trapaça ou o crime e a violência, não incorrem em ressentimento. A condição necessária para que este surja dá-se tão só ali onde uma especial veemência destes afetos vai acompanhada pelo sentimento da impotência para traduzi-los em atividade; e então se ‘exasperam’, seja por fraqueza corporal ou espiritual, seja por temor e pânico àquele a quem se referem tais emoções. O ressentimento fica circunscrito por sua base aos servos e dominados, aos que se arrastam e suplicam, em vão, contra o guante de uma autoridade. Quando se apresenta em outros,ou existe uma transmissão por contágio psíquico – especialmente fácil para o veneno psíquico do ressentimento, extraordinariamente contagioso –, ou há na pessoa um impulso violentamente reprimido, do qual o ressentimento toma seu ponto de partida e que se resolve nesta forma de uma personalidade ‘amargada’ ou ‘envenenada’. Quando um servidor maltratado pode ‘desafogar-se’ na copa, não incorre nessa ‘venenosidade’ interna que caracteriza o ressentimento; mas sim, ao contrário, quando é preciso ‘rir na tristeza’ (como tão plasticamente diz o brocardo) e sepulta em seu íntimo os afetos de repulsa e hostilidade.2

Há ressentimentos individuais, fenômeno muito conhecido, e ressentimentos coletivos, quando minorias, mesmo maiorias, religiosas, étnicas, ou políticas, passam a adotar uma posição de negação em face de um conjunto de valores, condenados em bloco. Os fenômenos são bem conhecidos, e, talvez, não precisemos documentá-los exaustivamente – e depois das finas análises de Scheler acerca do ressentimento da formação da moral, nada se precise dizer a respeito. Caso de ressentimento muito interessante que não tem sido considerado devidamente é o das relações entre os intelectuais e a sociedade industrial, e as pessoas que o estudam geralmente o fazem em função desse ressentimento, expressando, em suas análises, exatamente a situação que deve ser estudada objetivamente. Trata-se do seguinte: numa sociedade essencialmente agrária, o intelectual, quase sempre, é um porta-voz dos agricultores, impondo-lhes, todavia, seus pontos de vista – os agricultores, não podendo exercer o poder, pela distância entre as fazendas e as cidades, não sabendo manejar facilmente os conceitos e não conhecendo os meios de ação, entregam-se em mãos dos intelectuais, que admiram. Numa sociedade industrializada, os homens de empresa, instalados no coração das cidades, sabendo manejar diretamente as alavancas do poder, reduzem os intelectuais à condição de servidores, como advogados, políticos, jornalistas, técnicos, etc. Não é curioso o fato de vermos os grandes intelectuais do século XIX hostilizarem as consequências econômicas do liberalismo? Se considerarmos lado a lado, Karl Marx, o socialista, falando em nome do proletariado, Balzac, o legitimista, falando em nome da aristocracia, vemos, sempre, o mesmo protesto contra a burguesia que subia... Ambos expressão do mesmo ressentimento do intelectual contra o homem de empresa numa sociedade industrial.

Dois exemplos, nossos, e muito interessantes: como a Abolição foi obra da Princesa Isabel, os fazendeiros começaram a votar nos candidatos republicanos – os valores próprios e essenciais da monarquia foram negados, em virtude da mágoa provocada pelo gesto da soberana... Outro: como reconhecer que a independência do Brasil foi obra da monarquia (D. Pedro I) e como isto seria, afinal, admitir a legitimidade essencial e indiscutível do regime monárquico, por motivos objetivamente fundados e livres de contestação, os historiadores republicanos se esforçam, constantemente, em retirar a importância da ação de D. Pedro, e procuram acentuar a posição do Tiradentes...

Mas não é o ressentimento a única influência psicológica na difusão das ideologias. Outra, muito importante, dá-nos a psicanálise. Os choques de vontade e os conflitos de autoridade surgidos no seio da constelação familiar não são essencialmente de fundo erótico, mas ligados às tendências de autoafirmação, criam uma série de complexos, com importantes ressonâncias políticas. Podemos dizer que há um “complexo de Bruto”, que é a atitude antirrégia sistemática e universal. Começa com a agressividade do filho contra o pai, adianta-se no aluno contra o professor, e segue para a hostilidade permanente à autoridade como tal. É notório que as rainhas são bem recebidas e que os Bourbons e os Habsburgos tiveram maiores dificuldades modernamente, não por tendências absolutistas, mas por serem mais visivelmente afirmativos como homens e como reis. Certos casos como o do Brasil são quase vertiginosos – combatia-se, em D. Pedro II, acima de tudo a projeção da figura paternal...

Um fenômeno que confirma o fato é a tolerância ao ditador em face da agressividade ao rei, mesmo tranquilos e inócuos reis constitucionais. Um ditador pode mandar matar e fuzilar; mas, como seu poder nasce de circunstâncias ligadas à vontade dos homens, podemos tirar o ditador e pôr outro no lugar. Um rei nasce feito, não depende dos homens, não é criatura da vontade nossa. Não podemos aprofundar, aqui, toda a questão das ligações entre a psicanálise e as ideologias. O fato é conhecido e basta registrá-lo. E, não fora o medo da generalização e da simplificação, poderíamos dizer que o republicanismo e todas as formas de anarquismo e anomismo derivam de uma atitude de agressividade à figura paterna, e expressão do complexo de Édipo – e a aceitação dos valores de autoridade e de lei, um sinal de harmonia tranquila com o poder paterno. Auguste Comte, que não apreciava a discussão e o debate, e tinha em santo horror o “metafisismo democrático”, não queria uma realeza hereditária, mas uma ditadura, como não queria uma religião com um Deus, mas com uma deusa – a Humanidade...

B) Causas Sociais 

A importância dos fundamentos sociais na formação e difusão das ideologias não precisa ser assinalada com muita ênfase, pois o marxismo elevou isto à condição de princípio universal, em bases por assim dizer totais e em proporções muito exageradas. O erro essencial do marxismo, no caso, pode ser capitulado em estabelecer uma ligação direta entre a classe social estritamente considerada e a ideologia e de haver transformado isto em princípio único, o que é, obviamente, falso. É, quiçá, perigoso afirmarmos existirem ideologias especificamente burguesas ou proletárias. Scheler, com mais objetividade e profundidade, fixa a questão em termos de “classe alta” e de “classe baixa”, melhor ainda, em “classe descendente” ou “classe ascendente”. Certamente há posições que podem ser tipicamente burguesas, mas podem ser de classe em luta para obtenção do poder, ou em luta para a conservação do poder. A classificação de Scheler é a seguinte:

1. Prospectivismo de los valores en la conciencia del tempo – clase baja; retrospectivismo – clase alta. 2. Punto de vista de la génesis – clase baja; punto de vista del ser – clase alta. 
3. lnterpretación mecánica del mundo – clase baja; interpretación teleológica del mundo – clase alta. 
4. Realismo (el mundo preponderantemente como “resistencia”) – clase baja; idealismo – clase alta (el mundo preponderantemente como “reino de ideas”). 
5. Materialismo – clase baja; espiritualismo – clase alta. 
6. Inducción, empirismo – clase baja; saber a priori, racionalismo – clase alta. 
7. Pragmatismo – clase baja; intelectualismo – clase alta. 
8. Visión optimista del futuro y retrospección pesimista – clase baja, perspectiva pesimista del futuro y retrospección optimista, “aquellos buenos tiempos” – clase alta.
9. Modo de pensar que busca las contradicciones o modo de pensar “dialéctico” – clase baja; modo de pensar que busca la identidad – clase alta. 
10. Pensar inspirado por la teoría del medio – clase baja; pensar nativista – clase alta.3 

É, sem dúvida, arriscado fixarmo-nos em termos de classes definidas. Tomemos a ideologia liberal democrática. Como bem viu Auguste Comte, é uma arma de demolição e teve sua razão de ser na fase de destruição do absolutismo – mas torna-se incômoda depois. O filósofo do positivismo exemplifica, com suas ideias a respeito e sua posição pessoal, um fenômeno geral. Os homens que marcharam alegremente cantando a Marselhesa tornaram-se alarmados quando ouviram outros marchando sombriamente cantando a Internacional. Os argumentos que serviram contra o Direito Divino dos Reis e os privilégios da nobreza podiam ser usados contra os burgueses. E não há saída. Como tivemos, também, a perplexidade dos políticos republicanos da França, em face das revoltas anticolonialistas. Os argelinos e outros aplicaram contra a França os mesmos argumentos que os franceses aplicaram contra os seus reis...

Como ficaria um liberal de velha guarda, um republicano histórico, em face de um plebiscito favorável, visivelmente favorável, à restauração da monarquia, ou mais gravemente ainda, que se definisse claramente em apoio a uma ditadura? A crise da política brasileira vem, grandemente, do fato de haver preferido o eleitorado em muitas eleições os homens do Estado Novo, criando, assim, geral confusão nos espíritos.

Além deste aspecto que, como vimos, Comte assinalou muito bem, tanto que era, no fim da vida, contra o “metafisismo democrático”, bom para destruir e ruim para construir, temos outro, que devemos considerar.

Primeiramente a relação campo-cidade. Está fora de dúvida que a política sofre consideravelmente das influências do caráter agrário ou urbano da população. Eleições em meio rural, em pequenas e médias cidades, e em grandes metrópoles industrializadas conduzem à formação de regimes políticos perfeitamente diferentes – são três realidades distintas. Aí entram em conta, de fato, muitos fatores – gênero de vida, concentração da população, densidade demográfica, etc. Aliás, Montesquieu já dizia que a república era o regime próprio às pequenas comunidades, a monarquia, às grandes e o despotismo, às enormes. Numa comunidade agrária, o eleitor será sempre um vassalo; nas cidades, o cidadão segundo os padrões medievais e liberais clássicos; nas metrópoles, o indivíduo-massa, simples unidade atomizada.

Basta o exemplo da propaganda: ela somente surtirá efeito em grandes concentrações. Como aplicar a propaganda aos moradores de uma comunidade reduzida, principalmente de uma comunidade rural, de casas esparsas? Modernamente o rádio permite uma propaganda atingindo o meio rural, mas aí temos todos os moradores de uma região e de um país – não os membros da mesma comunidade rural. Não será a propaganda aplicada aos moradores do vale do rio Tanque – mas a todos os lavradores do vale do rio Doce. Um candidato local não poderá usar da propaganda, embora possa conversar com todos os homens. Um candidato nacional poderá aplicar a propaganda – mas aí a região se diluirá na confusão geral. (O rádio está permitindo um fenômeno novo – a massificação de indivíduos separados, a formação de multidões de indivíduos que se ignoram, mas que estão sujeitos aos mesmos fenômenos que fazem a psicologia das multidões.)

A difusão, portanto, de uma ideologia que, em linguagem filosófica, deve ser identificada à doxa, ou “opinião”, dos antigos, depende, portanto, de circunstâncias diversas, não da força probante dos raciocínios, aos quais, em geral, ninguém dá muita importância.

Certamente não se poderá, nunca, fixar as razões concretas pelas quais um determinado sujeito adota esta ou aquela posição, mas podemos achar perfeitamente natural que um comerciante, que se fez por seu esforço, seja republicano e que um agricultor, cuja riqueza depende de fatores naturais, do tempo, das estações, da fecundidade da terra e dos animais, seja monarquista, por ser um modo de sucessão que segue os mesmos processos que a natureza.

A definição de uma pessoa concreta ou de uma certa categoria de indivíduos, vale dizer, uma classe, relativa a uma posição política, é uma afirmação de valores e, assim, está ligada a estados afetivos. Certamente são estados afetivos que determinam os valores que aceita uma pessoa, são eles que revelam os valores. Toda a obra de Scheler – e é o filósofo por excelência destas questões – nos diz em muitos tons e acordes a mesma coisa: os valores nos são dados por nossos estados afetivos, é o amor ou ódio que revelam o valor ou o desvalor de uma coisa. Ora, as razões que levam o homem a amar ou a odiar concretamente nos são desconhecidas – só Deus, “que sonda os rins e o coração dos homens”, pode saber, efetivamente, como e porque um homem determinado formulou a decisão valorativa concreta. 

Ninguém, esta a verdade, se define racionalmente a respeito de regimes e soluções políticas, mas pelas razões do coração – daí preferirem os homens as ilusões da liberdade à liberdade efetiva, daí preferirem um mau governo que se funda em motivos passionais, no ódio ao estrangeiro, aos “burgueses”, aos “judeus”, ou a qualquer outra espécie de bode expiatório, a um governo racional que nos resolva os problemas, mas não nos aquece o coração. Daí Salvador de Madariaga, com desconsolada filosofia de castelhano, dizer que “países excessivamente bem administrados produzem o tédio”. Não é importante o fato de que o “securitismo” escandinavo, que resolveu os problemas sociais e econômicos de nosso tempo, não despertar entusiasmo nos jovens, nem ter produzido farta literatura, embora apresentando soluções verdadeiramente revolucionárias, enquanto o regime de Fidel Castro, que nada resolveu até agora, e ter cometido crimes vários, seja a coisa mais conhecida da América Latina, hoje? A razão é simples: na Suécia adotam soluções frias, como o gelo – embora resolvendo. Castro fala às paixões dos homens, e não às inteligências... E em política, como em qualquer atividade ligada à fixação de valores, “o coração tem razões que a inteligência desconhece”. 

Notas 
1. M. Scheler, Le Sens de la Souffrance. Paris, 1936, p. 176-177. 
2. Apud Luís Washington Vita, Momentos Decisivos do Pensamento Filosófico. S. Paulo, 1964, p. 426. 3. M. Scheler, Sociologia del Saber. B. Aires, 1947, p. 192. 

quarta-feira, 13 de julho de 2022

JOHN HENRY NEWMAN (1801-1890) - Relato de conversão

Este relato foi extraído do livro Voltando Para a casa, da Editora Santo Thomas More. Agradecemos a autorização. 

JOHN HENRY NEWMAN (1801-1890) 

Nascido no seio de uma família anglicana48 de banqueiros, em Londres, a 21 de fevereiro de 1801, John Henry Newman passou por uma “primeira conversão” (como ele a chamou) aos 15 anos. Em 1825, após completar seus estudos em Oxford, foi ordenado sacerdote anglicano. Três anos depois foi nomeado vigário da igreja de Santa Maria, anexa à Universidade de Oxford. 

Nesse cargo, que ocupou até 1843, ele cultivou amizade com pessoas instruídas e sábias da Inglaterra da época. Foi o promotor, a partir de 1833, do “Movimento Oxford”, corrente religiosa dentro da Igreja Anglicana que promovia um “meio-termo”, uma terceira via, entre o Protestantismo e a Igreja Católica. Em sua autobiografia, Newman diz o seguinte: “Posteriormente, e sem ser capaz de especificar a ordem ou as datas em minhas palavras, falei da Igreja de Roma como ligada à causa do anticristo (“um dos muitos anticristos”), ou como uma Igreja que tinha em si algo “não cristão”, ou “verdadeiramente anticristão”.

Mas, estudando a história dos hereges monofisistas e arianos, ele percebeu que não poderia manter essa terceira via e que deveria ou permanecer anglicano, ou se tornar católico de uma vez por todas. Newman enfrentou muitas lutas internas e, para ser fiel à sua consciência, teve de trabalhar duro para investigar a verdade nos livros dos Santos Padres da Igreja dos primeiros séculos, até que, gradualmente, descobriu o verdadeiro caminho. 

Em 1843, decidiu deixar o cargo de pastor anglicano e foi reduzido a um simples leigo, embora ainda não estivesse decidido a se tornar católico, devido a obstáculos como a devoção à Virgem e aos santos: “Em 1843, dei dois passos muito importantes: 1) Em fevereiro, fiz uma retratação formal de todas as coisas duras que havia dito contra a Igreja de Roma. 2) Em setembro, abdiquei do benefício concedido a mim na igreja de Santa Maria, em Littlemore”, diz Newman. 

“Entre o outono de 1843 e 1845, permaneci em comunhão leiga com a Igreja da Inglaterra, frequentando, como de costume, seus atos de culto e me abstendo completamente de lidar com os católicos e seus ritos e práticas religiosas, como a invocação dos santos (que são característicos de seu credo). Eu fazia tudo isso por convicção, porque nunca consegui entender como alguém pode pertencer a duas confissões religiosas ao mesmo tempo”, escreveu o ex-sacerdote anglicano. Em 9 de outubro de 1845, ele abraçou o catolicismo. 

Eis o depoimento de John Henry Newman sobre sua conversão: “A partir do momento em que me tornei católico, naturalmente não tenho mais histórias de minhas ideias religiosas para contar. Ao dizer isso, não quero dizer que meu entendimento tenha ficado ocioso ou que parei de pensar em questões teológicas, mas que não tenho contratempos e não tive angústia no coração. Tenho estado em perfeita paz e contente, e nunca tive dúvidas. Ao me converter, não notei nenhuma mudança, intelectual ou moral, operando em meu espírito... Tampouco senti mais fervor. Foi como chegar ao porto depois de uma tempestade, e a felicidade que então senti permanece ininterrupta até o presente. 

“Nunca fiquei constrangido com a aceitação dos artigos adicionais, que não são encontrados no credo anglicano. Alguns eu já acreditara, mas nenhum deles foi uma prova de fogo para mim. Ao ser recebido na Igreja Católica, professei- -os com a maior facilidade, e sinto o mesmo quando penso sobre eles hoje em dia. 

“Falarei da doutrina que os protestantes consideram a maior dificuldade: a da Imaculada Conceição de Maria, que afirma que a Bem-Aventurada Virgem Maria foi concebida sem o pecado original. Na verdade, cai por si mesma a afirmação de que os católicos passaram a acreditar porque foi definido, pois ocorreu justamente o contrário: foi definido porque acreditavam. Longe de ser uma decisão, uma imposição tirânica ao mundo católico, sacramentada em 1854, foi recebida em toda parte, quando promulgada, com o maior entusiasmo. A definição foi feita a partir do pedido unânime de toda a Igreja à Santa Sé, pois que o dogma sobre a Concepção Imaculada de Maria surgiu ainda na época apostólica”. 

Após uma viagem a Roma em 1847, Newman foi ordenado padre católico. Um de seus principais objetivos, então, foi mostrar aos ingleses que se pode ser um bom católico e um cidadão leal. O Papa Leão XIII o nomeou cardeal em 1879. 

Junto com ele, converteram-se 22 sacerdotes anglicanos e 11 professores da Universidade de Oxford e de Cambridge. Estima-se que, desde a conversão de Newman, em 1935, 900 reverendos episcopais tornaram-se católicos.


Os anglicanos têm como líder de sua igreja a rainha ou o rei da Inglaterra. Dentro da hierarquia eclesiástica britânica, após a família real, vêm: o parlamento inglês e o arcebispo de Canterbury. É, deste modo, uma igreja dirigida pela autoridade civil. A Igreja Anglicana aceita o divórcio, visto que, para ela, o casamento não é indissolúvel.



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Esta obra, que o leitor tem agora em mãos, mais do que uma série de histórias aponta um caminho seguro para se aprofundar na Fé Católica. Chamo a atenção para um ponto, do fenômeno da Conversão: é possível ocorrer "conversões" para o erro, a mentira... assim aconteceu aos nossos primeiros pais, assim está profetizada nos últimos dias, assim ocorreram tantas que abandonaram a Santa Igreja. Porém a genuína conversão é para a verdade, e comparando tantas conversões, reconhecemos que uma genuína conversão só pode ocorrer se ela for fundamentada na VERDADE, e por isso ela se caracteriza por ser lógica e racional.

Enquanto conhecemos conversões que somente ocorreram por meio de acontecimentos emocionais, revoltosos ou por mera conveniência, o leitor terá histórias cujos personagens entraram no caminho de um estudo sincero, racional superando gostos e emoções e aceitando os fatos e verdades que se verificam com suas consequências e na maior das provas o FRUTO como já havia apontado Jesus no Sermão da Montanha. Ainda que a Verdade toque a realidade Sobrenatural, essa está analogicamente ligada as realidades visíveis e racionais.

Pe. Reinaldo Aparecido Bento



Ficha Técnica:
ISBN: 9788553019199
Editora: Santo Thomas More
Dimensões: 14.00 x 21.00 cm
Idioma: Português
Páginas: 194

quarta-feira, 6 de julho de 2022

O RESSUSCITADO - MILAGRE DO PADRE PIO

O RESSUSCITADO -  MILAGRE DO PADRE PIO

Padre Jean Derobert com o Padre Pio


Foi fuzilado, mas um milagre do Padre Pio trouxe-o de volta à vida: ele explica o que viu no Céu.

Trata-se do testemunho credenciado que o sacerdote deu juramentado ao processo de canonização do Padre Pio e que se reproduz integralmente abaixo:

Querido padre: 

Pediram-me um resumo por escrito da evidente proteção de que fui alvo em agosto de 1958, durante a guerra da Argélia.

Naquela época eu fazia parte dos serviços de saúde do exército. Tinha observado que, nos momentos importantes da minha vida, o Padre Pio, que me tinha tomado como seu filho espiritual desde 1955, me fazia chegar uma carta na qual me prometia sua oração e apoio. Fê-lo antes do meu exame na Universidade Gregoriana de Roma, e voltou a fazê-lo no momento em que tive que me juntar aos combatentes da Argélia.

Hora do fuzilamento
Uma noite, um comando da FLN (Frente de Libertação Nacional argelina) atacou nossa aldeia e eu rapidamente fui preso.

Fui levado para um portal junto com outros cinco militares e fuzilado lá. Lembro-me de não pensar nem no meu pai nem na minha mãe, apesar de ser filho único, mas apenas experimentei uma grande alegria porque "estou disposto a ver o que há do outro lado".

Nessa mesma manhã tinha recebido uma carta do Padre Pio com duas linhas manuscritas que diziam: “A vida é uma luta, mas leva à luz” (sublinhado duas ou três vezes).

Imediatamente experimentei a descorporeização. Vi meu corpo ao meu lado, que estava coberto de sangue entre meus camaradas assassinados. E eu comecei uma curiosa ascensão por uma espécie de túnel.

Da nuvem que me rodeava surgiam rostos conhecidos e desconhecidos. No início, aqueles rostos eram sombras; eram pessoas pouco recomendadas, pecadores pouco virtuosos. À medida que ascendia, os rostos com que eu encontrava estavam cada vez menos luminosos.

Fiquei surpreso com o fato de poder andar. Disse a mim mesmo que estava fora do tempo e que, portanto, tinha ressuscitado. Fiquei surpreso por ver tudo ao meu redor sem ter que mexer a cabeça. Fiquei surpreso em sentir a dor dos ferimentos causados pelas balas das espingardas. E eu percebi que elas tinham penetrado no meu corpo tão rápido que não pude senti-las no primeiro instante. 

De repente, meus pensamentos se dirigiram aos meus pais. Imediatamente me deparei em minha casa, em Annecy, no quarto dos meus pais, que contemplei enquanto dormiam. Tentei falar com eles, mas não consegui. Fiz uma visita no apartamento e notei que uma mobília tinha sido mudada de lugar. Alguns dias depois escrevi para minha mãe e perguntei por que ela tinha trocado aquela mobília. Ela respondeu-me por carta: "Como você sabe? ”.

Pensei no Papa Pio XII, que conhecia bem (estudei em Roma) e, de repente, encontrei-me no seu quarto. Tinha acabado de dormir. Conversamos trocando pensamentos, pois ele era um homem muito espiritual.

Continuei minha ascensão até que me deparei no meio de uma paisagem maravilhosa, envolto em uma luz doce e azul. No entanto, não havia sol, "porque o Senhor os iluminará", como diz o Apocalipse.

Vi milhares de pessoas, todas com cerca de 30 anos, mas encontrei algumas que tinha conhecido quando estavam vivas. Uma tinha morrido com oitenta anos e parecia ter 30, outra tinha morrido com dois anos e todas tinham a mesma idade.

Deixei aquele "paraíso" repleto de flores extraordinárias e desconhecidas na terra. E eu ascendi ainda mais. Lá perdi minha natureza humana e me tornei uma "gota de luz".

Vi muitas outras "gotas de luz" e soube que uma era São Pedro, outra Paulo, outra João, ou um apóstolo, ou um santo.
Depois vi Maria, maravilhosamente linda com seu manto de luz, que me acolheu com um sorriso indescritível. Por trás dela estava Jesus, maravilhosamente lindo, e por trás, uma área de luz que eu sabia que era o Pai, e na qual eu mergulhei.

Lá senti a satisfação total de todos os meus desejos. Conheci a felicidade perfeita.

De volta à vida:

E bruscamente me encontrei na terra, com o rosto no pó, entre os corpos cobertos de sangue dos meus camaradas.

Eu notei que a porta que eu estava estava cheia de balas, as balas que tinham atravessado meu corpo, que minhas roupas estavam furadas e cobertas de sangue, que meu peito e minhas costas estavam manchados de sangue praticamente e levemente viscosa. Mas que estava intacto. Fui ver o comandante com aquela pinta. Ele veio até mim e gritou: "Milagre! ”.

Sem dúvida essa experiência me marcou muito. Mais tarde, quando, libertado do exército, fui visitar o Padre Pio, este me viu de longe na sala de São Francisco. Ele me fez um gesto para eu aproximar e me ofereceu, como sempre, uma pequena demonstração de carinho.
A seguir ele me disse estas palavras simples:

“Ai! O quanto você me fez passar! Mas o que você viu foi lindo! ”. E aí se acabou a explicação dele.

Agora você pode entender por que eu não tenho medo da morte... Porque eu sei o que está do outro lado.

[Padre Jean Derobert foi filho espiritual do Padre Pio. Faleceu em 2013 e escreveu um livro sobre a vida deste santo intitulado Padre Pio, transparente de Deus. Padre Pio foi canonizado em 2002 pelo Papa João Paulo II com o nome de São Pio de Pietrelcina. ]

Texto do Padre Reinaldo Bento


domingo, 3 de julho de 2022

A Descriminalização do Aborto - Dom Julio Endi

A Descriminalização do Aborto


A descriminalização do aborto pode ser considerada uma “política pública”? 

Esse tema sempre volta para a discussão. Espero poder contribuir para fazer refletir.

Devemos nos lembrar que as leis são criadas para defender e preservar valores e bens importantes para o indivíduo e para a sociedade.

A lei que criminaliza o aborto provocado está a serviço de um valor altíssimo, que é a vida do nascituro. Se lhe negamos esse direito, tiramos dele todos os outros. Que sociedade é essa que considera normal atentar contra a vida humana já no seio da mãe? Que sociedade vamos construir, se decretamos por lei que “até tantas semanas” a vida humana pode ser extirpada?

A vida que ainda não nasceu é vida humana desde a sua concepção. Ela não se torna “humana” só depois de algumas semanas, por exemplo. Quando uma mulher fica grávida a sua gestação não é algo indefinido: ela só fica grávida de gente, que é gente desde o início, e não somente depois de 13 ou menos semanas.

Nenhuma lei pode dar ou conceder a dignidade humana. Ela só pode reconhecer, proteger e defender a dignidade humana. Ser gente não é uma concessão da lei; é um fato da natureza, que precede à própria legislação.

Sendo o nascituro um ser vivo da mesma espécie de quem o gerou, o aborto interessa à sociedade como um todo. Cabe à comunidade humana civilizada fazer leis e cuidar de sua aplicação, quando se trata de proteger e defender os inocentes e indefesos. Do contrário, ela deixa de ser civilizada e passa a ser uma sociedade cruel e desumana.

O aborto é crime? Para responder a essa pergunta, basta perguntar: matar uma pessoa, matar uma vida humana é crime? A finalidade da lei que criminaliza o aborto não é primeiramente a penalização da mãe, mas a proteção do seu filho e dela mesma.

É preciso ficar claro também que não penalizar a mãe que aborta é diferente de descriminalizar o aborto. Não penalizar a mãe que aborta pode ser uma decisão para não impor à mãe uma pena a mais ao sofrimento e ao trauma que todo aborto causa e que dura a vida toda. Descriminalizar o aborto é outra coisa bem diferente: é institucionalizar a extirpação da vida humana já na sua fase inicial; é apregoar com a lei que eliminar a vida inicial e frágil não causa drama de consciência nem dano para a vida em sociedade.

Argumenta-se, também, que a lei que qualifica o aborto voluntário como crime limita os direitos fundamentais da mulher e desrespeita a sua autonomia, a sua dignidade e a sua integridade física e psíquica. O que está na base desse argumento é a visão do filho como um agressor de sua mãe. É a maternidade (e também a paternidade) uma doença que macula a dignidade da mulher? A fertilidade é um problema, um peso, uma desgraça? Gerar filhos é saúde e não o contrário! Saúde pública não é esterilização nem aborto! Aborto é exatamente o contrário de saúde pública!

Por fim, a lei que condena o aborto, deve ter também como consequência a proteção da gestante mediante políticas públicas eficazes para a vida de ambos.

Concluo, voltando ao Evangelho: Não desprezeis nenhum desses pequeninos, pois eu vos digo que os seus anjos nos céus veem sem cessar a face do meu Pai que está nos céus. Jesus nos adverte para não desprezar nenhum desses pequeninos que têm alguns centímetros de corpo, cujo coração bate baixinho, que ainda não viram a luz deste mundo. Os seus anjos têm contato direto com o Pai, veem sem cessar a sua face. Rezemos para que não nos venha esta vergonha diante de Deus; que a face do Pai não seja ferida por uma mortandade que só aumentará com a aprovação do aborto. Mobilizemo-nos para que não nos seja imposta uma lei tão injusta para com os mais frágeis e vulneráveis que são os nascituros.

 

Por Dom Julio Endi Akamine SAC

Fonte: https://arquidiocesesorocaba.org.br/a-descriminalizacao-do-aborto/ 


NOVENA EM HONRA A SÃO THOMAS MORE

Novena de Santo Thomas More

composta por Anita Moore; tradução de D.J.

 

Primeiro dia

Caríssimo Santo Thomas More, em tua vida terrena, foste modelo de prudência. Nunca participaste, precipitadamente, de nenhum empreendimento grave, mas, ao contrário, provaste o valor de tuas capacidades e esperaste na vontade de Deus em oração e penitência, para somente então agir com audácia e sem hesitação.

Pai Nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

Glorioso Santo Thomas More, imploro que defendas minha causa, confiante de que advogarás por mim diante do trono de Deus com o mesmo zelo e diligência que assinalaram tua vida na terra. Se for da vontade de Deus, concede-me o favor que te peço, ou seja, _______.

V. Roga por nós, ó Bendito Santo Thomas More.

R. Para que te sigamos fielmente no árduo caminho que conduz à porta estreita da vida eterna.

 

Segundo dia

Caríssimo Santo Thomas More, em tua vida terrena, foste modelo de diligência. Fugiste à procrastinação, aplicaste-te com fervor aos estudos e não poupaste esforços para alcançar a maestria em tuas aptidões.

Por meio de tuas orações e intercessão, concede-me a virtude da diligência e persistência ao me preparar para todo e qualquer projeto.

Pai Nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

Glorioso Santo Thomas More, imploro que defendas minha causa, confiante de que advogarás por mim diante do trono de Deus com o mesmo zelo e diligência que assinalaram tua vida na terra. Se for da vontade de Deus, concede-me o favor que te peço, ou seja, _______.

V. Roga por nós, ó Bendito Santo Thomas More.

R. Para que te sigamos fielmente no árduo caminho que conduz à porta estreita da vida eterna.

 

Terceiro dia

Caríssimo Santo Thomas More, em tua vida terrena, foste modelo de laboriosidade. Tu te dedicaste de todo o coração a tudo quanto fizeste, encontrando alegria até mesmo nos mais graves empreedimentos.

Por meio de tuas orações e intercessão, concede-me a graça de ter sempre uma ocupação adequada, a graça de fazer com interesse tudo o que me convém e a fortaleza de sempre buscar a excelência naquelas tarefas que Deus me confiar.

Pai Nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

Glorioso Santo Thomas More, imploro que defendas minha causa, confiante de que advogarás por mim diante do trono de Deus com o mesmo zelo e diligência que assinalaram tua vida na terra. Se for da vontade de Deus, concede-me o favor que te peço, ou seja, _______.

V. Roga por nós, ó Bendito Santo Thomas More.

R. Para que te sigamos fielmente no árduo caminho que conduz à porta estreita da vida eterna.


Quarto dia

Caríssimo Santo Thomas More, em tua vida terrena, foste um advogado brilhante e um juiz justo e compassivo. Observaste os mínimos detalhes de teus deveres legais com a maior diligência, e foste infatigável em tua busca pela justiça temperada com a misericórdia.

Por meio de tuas orações e intercessão, concede-me a graça de vencer toda tentação à lassidão, toda arrogância e julgamento precipitado em meus deveres (legais).

Pai Nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

Glorioso Santo Thomas More, imploro que defendas minha causa, confiante de que advogarás por mim diante do trono de Deus com o mesmo zelo e diligência que assinalaram tua vida na terra. Se for da vontade de Deus, concede-me o favor que te peço, ou seja, _______.

V. Roga por nós, ó Bendito Santo Thomas More.

R. Para que te sigamos fielmente no árduo caminho que conduz à porta estreita da vida eterna.


Quinto dia

Caríssimo Santo Thomas More, em tua vida terrena, foste modelo de humildade. Nunca permitiste que o orgulho te levasse a aceitar tarefas acima de tuas capacidades; mesmo em meio à riqueza e honra terrenas, nunca te esqueceste de tua total dependência do Pai celeste.

Por meio de tuas orações e intercessão, concede-me a graça de crescer em humildade e a sabedoria de não superestimar minhas capacidades.

Pai Nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

Glorioso Santo Thomas More, imploro que defendas minha causa, confiante de que advogarás por mim diante do trono de Deus com o mesmo zelo e diligência que assinalaram tua vida na terra. Se for da vontade de Deus, concede-me o favor que te peço, ou seja, _______.

V. Roga por nós, ó Bendito Santo Thomas More.

R. Para que te sigamos fielmente no árduo caminho que conduz à porta estreita da vida eterna.

 

Sexto dia

Caríssimo Santo Thomas More, em tua vida terrena, foste esposo e pai exemplar. Foste dedicado e fiel a ambas as tuas esposas, além de provedor diligente e modelo de virtude para teus filhos.

Por meio de tuas orações e intercessão, concede-me a graça de um lar feliz, paz em minha família, e força para perseverar na castidade segundo meu estado de vida.

Pai Nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

Glorioso Santo Thomas More, imploro que defendas minha causa, confiante de que advogarás por mim diante do trono de Deus com o mesmo zelo e diligência que assinalaram tua vida na terra. Se for da vontade de Deus, concede-me o favor que te peço, ou seja, _______.

V. Roga por nós, ó Bendito Santo Thomas More.

R. Para que te sigamos fielmente no árduo caminho que conduz à porta estreita da vida eterna. 

 

Sétimo dia

Caríssimo Santo Thomas More, em tua vida terrena, foste modelo de fortaleza cristã. Padeceste luto, desgraças, pobreza, prisão e morte violenta, e, não obstante, suportaste tudo com a fortaleza e o bom ânimo que te fizeram conhecido ao longo da vida.

Por meio de tuas orações e intercessão, concede-me a graça de suportar todas as cruzes que Deus me enviar, com paciência e alegria.

Pai Nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

Glorioso Santo Thomas More, imploro que defendas minha causa, confiante de que advogarás por mim diante do trono de Deus com o mesmo zelo e diligência que assinalaram tua vida na terra. Se for da vontade de Deus, concede-me o favor que te peço, ou seja, _______.

V. Roga por nós, ó Bendito Santo Thomas More.

R. Para que te sigamos fielmente no árduo caminho que conduz à porta estreita da vida eterna.

 

Oitavo dia

Caríssimo Santo Thomas More, em tua vida terrena, foste filho leal de Deus e rebento inabalável da Igreja, sem jamais tirar os olhos da coroa por que lutaste. Mesmo diante da morte, confiaste a vitória em Deus, e Ele o recompensou com a palma do martírio.

Por meio de tuas orações e intercessão, concede-me e aos meus a graça da perseverança final e protege-nos da morte súbita e não cuidada, para que possamos um dia desfrutar da visão beatífica em tua gloriosa companhia.

Pai Nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

Glorioso Santo Thomas More, imploro que defendas minha causa, confiante de que advogarás por mim diante do trono de Deus com o mesmo zelo e diligência que assinalaram tua vida na terra. Se for da vontade de Deus, concede-me o favor que te peço, ou seja, _______.

V. Roga por nós, ó Bendito Santo Thomas More.

R. Para que te sigamos fielmente no árduo caminho que conduz à porta estreita da vida eterna.

 

Nono dia

Caríssimo Santo Thomas More, viveste a tua vida terrena preparando-te para a vida futura. Tudo o que suportaste te preparou não apenas para a glória que Deus haveria de te conceder no Céu, mas também para o teu ofício de padroeiro dos advogados, juízes e políticos, assim como o de fiel amigo de todos os que te invocam.

Por meio de tuas orações e intercessão, socorre-nos em todas as nossas necessidades, tanto as corporais como as espirituais, e a graça de seguir teus passos, até que por fim estejamos em segurança contigo nas mansões que o Pai tem-nos preparado no Céu.

Pai Nosso... Ave Maria... Glória ao Pai...

Glorioso Santo Thomas More, imploro que defendas minha causa, confiante de que advogarás por mim diante do trono de Deus com o mesmo zelo e diligência que assinalaram tua vida na terra. Se for da vontade de Deus, concede-me o favor que te peço, ou seja, _______.

V. Roga por nós, ó Bendito Santo Thomas More.

R. Para que te sigamos fielmente no árduo caminho que conduz à porta estreita da vida eterna.