segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Padre Paulo Ricardo - E o Capitalismo?

domingo, 9 de novembro de 2014

Dom Fulton Sheen - Filosofias em Luta

Excerto do livro Filosofias em Luta


"Neste ambiente de alheamento a Deus e descristianização do modo de pensar e de planejar, o julgamento e os atos dos homens foram compelidos a se tornarem materialista e unilaterais, a lutarem pela mera grandeza e expansão desenfreada de um acréscimo de bens ou de poder, numa corrida pela produção mais rápida, opulenta e perfeita, de todas as coisas que pareciam conduzir ao desenvolvimento e progresso materiais. Esses sintomas mesmo surgem em política, como a pretensão ilimitada ao expansionismo e à influência, sem atender a padrões morais; na vida econômica, manifestam-se pelo predomínio de gigantescos cartéis e trustes; na esfera social é a mesma aglomeração de populações desmedidas em cidades e nos distritos dominados pela indústria e pelo comércio, aglomeração acompanhada pelo completo desenraizamento das massas, que perderam padrões de vida, lar, trabalho, amor e ódio. Devido a esta nova concepção do pensamento e da vida, todas as noções da vida social ficaram imbuídas de características puramente mecânica."

SHEEN, Fulton J. Filosofias em luta. Trad. De Cypriano Amoroso Costa. Rio de Janeiro: Livraria Agir Editora, 1946, p. 51

quinta-feira, 6 de novembro de 2014

Oração do beato John Henry Newman pelos fiéis defuntos:

Ó Deus dos espíritos de toda a carne, ó Jesus, amante das almas, recomendamos a vós as almas de todos os vossos servos, que partiram com o sinal da fé e dormem o sono da paz. Nós vos suplicamos, ó Senhor e Salvador, que, assim como em vossa misericórdia para com eles vos tornastes homem, assim também apresseis o tempo e os admitais em vossa presença.

Lembrai-vos, Senhor, de que eles são criaturas vossas, feitas não por deuses estranhos, mas por Vós, o único Deus vivo e verdadeiro; pois não há outro Deus senão Vós e não há ninguém que possa igualar as vossas obras. Deixai que as suas almas se regozijem na vossa luz e não imputeis a elas as suas antigas iniquidades, que cometeram por causa da violência da paixão ou dos hábitos corruptos da sua natureza caída. Apesar de terem pecado, eles sempre acreditaram firmemente no Pai, Filho e Espírito Santo; e, antes de morrerem, reconciliaram-se convosco pela verdadeira contrição e pelos sacramentos da vossa Igreja.

Ó Senhor da graça, nós vos suplicamos: não vos lembreis, contra eles, dos pecados da sua juventude e das suas ignorâncias, mas, conforme a vossa grande misericórdia, estai-lhes atento em vossa glória celestial.

Que os céus se lhes abram e os anjos com eles se alegrem. Que possa o arcanjo São Miguel conduzi-los a Vós. Que possam os vossos santos anjos irem ao seu encontro e levá-los à cidade da Jerusalém celeste. Que possa São Pedro, a quem destes as chaves do reino dos céus, recebê-los. Que possa São Paulo, o vaso de eleição, lhes dar apoio. Que possa São João, o discípulo amado a quem foi dada a revelação dos segredos do céu, interceder por eles. Que todos os Santos Apóstolos, que receberam de Vós o poder de ligar e desligar, rezem por eles. Que todos os santos e eleitos de Deus, que neste mundo sofreram tormentos por vosso nome, lhes sejam amigos. Que, libertos da prisão inferior, sejam eles admitidos na glória do reino em que, com o Pai e o Espírito Santo, viveis e reinais como único Deus pelos séculos dos séculos.

Vinde em seu auxílio, vós todos, ó santos de Deus; ganhai-lhes a libertação do seu lugar de punição; ide ao seu encontro, todos vós, ó anjos; recebei essas almas santas e apresentai-as perante o Senhor.
Dai-lhes, Senhor, o descanso eterno e a luz perpétua brilhe sobre eles. Que descansem em paz. Amém.

domingo, 27 de julho de 2014

Escolas modernas - G. K. CHESTERTON



“O problema de muitas de nossas escolas modernas é que o Estado, uma vez controlado tão particularmente por uns poucos, permite que excentricidades e experimentos entrem diretamente nas salas de aula, sem jamais terem sido submetidos à apreciação do Parlamento, dos pubs, da igreja, das praças públicas. Obviamente, às pessoas mais jovens dever-se-ia ensinar as coisas mais velhas, as verdades seguras e experimentadas que se ensinam primeiro aos bebês. Mas na escola de hoje o bebê tem de se submeter a um sistema que é ainda mais jovem do que ele próprio.” 

G. K. Chesterton, “O que há de errado com o mundo”, Editora Ecclesiae.

quarta-feira, 23 de abril de 2014

O imbecil juvenil

O imbecil juvenil 
Olavo de Carvalho
Jornal da Tarde, São Paulo, 3 abr. 1998


Disponível no site: http://www.olavodecarvalho.org/textos/juvenil.htm

        Já acreditei em muitas mentiras, mas há uma à qual sempre fui imune: aquela que celebra a juventude como uma época de rebeldia, de independência, de amor à liberdade. Não dei crédito a essa patacoada nem mesmo quando, jovem eu próprio, ela me lisonjeava. Bem ao contrário, desde cedo me impressionaram muito fundo, na conduta de meus companheiros de geração, o espírito de rebanho, o temor do isolamento, a subserviência à voz corrente, a ânsia de sentir-se iguais e aceitos pela maioria cínica e autoritária, a disposição de tudo ceder, de tudo prostituir em troca de uma vaguinha de neófito no grupo dos sujeitos bacanas.
        O jovem, é verdade, rebela-se muitas vezes contra pais e professores, mas é porque sabe que no fundo estão do seu lado e jamais revidarão suas agressões com força total. A luta contra os pais é um teatrinho, um jogo de cartas marcadas no qual um dos contendores luta para vencer e o outro para ajudá-lo a vencer.
        Muito diferente é a situação do jovem ante os da sua geração, que não têm para com ele as complacências do paternalismo. Longe de protegê-lo, essa massa barulhenta e cínica recebe o novato com desprezo e hostilidade que lhe mostram, desde logo, a necessidade de obedecer para não sucumbir. É dos companheiros de geração que ele obtém a primeira experiência de um confronto com o poder, sem a mediação daquela diferença de idade que dá direito a descontos e atenuações. É o reino dos mais fortes, dos mais descarados, que se afirma com toda a sua crueza sobre a fragilidade do recém-chegado, impondo-lhe provações e exigências antes de aceitá-lo como membro da horda. A quantos ritos, a quantos protocolos, a quantas humilhações não se submete o postulante, para escapar à perspectiva aterrorizante da rejeição, do isolamento. Para não ser devolvido, impotente e humilhado, aos braços da mãe, ele tem de ser aprovado num exame que lhe exige menos coragem do que flexibilidade, capacidade de amoldar-se aos caprichos da maioria - a supressão, em suma, da personalidade.
        É verdade que ele se submete a isso com prazer, com ânsia de apaixonado que tudo fará em troca de um sorriso condescendente. A massa de companheiros de geração representa, afinal, o mundo, o mundo grande no qual o adolescente, emergindo do pequeno mundo doméstico, pede ingresso. E o ingresso custa caro. O candidato deve, desde logo, aprender todo um vocabulário de palavras, de gestos, de olhares, todo um código de senhas e símbolos: a mínima falha expõe ao ridículo, e a regra do jogo é em geral implícita, devendo ser adivinhada antes de conhecida, macaqueada antes de adivinhada. O modo de aprendizado é sempre a imitação - literal, servil e sem questionamentos. O ingresso no mundo juvenil dispara a toda velocidade o motor de todos os desvarios humanos: o desejo miméticode que fala René Girard, onde o objeto não atrai por suas qualidades intrínsecas, mas por ser simultaneamente desejado por um outro, que Girard denomina o mediador.
      Não é de espantar que o rito de ingresso no grupo, custando tão alto investimento psicológico, termine por levar o jovem à completa exasperação impedindo-o, simultaneamente, de despejar seu ressentimento de volta sobre o grupo mesmo, objeto de amor que se sonega e por isto tem o dom de transfigurar cada impulso de rancor em novo investimento amoroso. Para onde, então, se voltará o rancor, senão para a direção menos perigosa? A família surge como o bode expiatório providencial de todos os fracassos do jovem no seu rito de passagem. Se ele não logra ser aceito no grupo, a última coisa que lhe há de ocorrer será atribuir a culpa de sua situação à fatuidade e ao cinismo dos que o rejeitam. Numa cruel inversão, a culpa de suas humilhações não será atribuída àqueles que se recusam a aceitá-lo como homem, mas àqueles que o aceitam como criança. A família, que tudo lhe deu, pagará pelas maldades da horda que tudo lhe exige.
        Eis a que se resume a famosa rebeldia do adolescente: amor ao mais forte que o despreza, desprezo pelo mais fraco que o ama.
        Todas as mutações se dão na penumbra, na zona indistinta entre o ser e o não-ser: o jovem, em trânsito entre o que já não é e o que não é ainda, é, por fatalidade, inconsciente de si, de sua situação, das autorias e das culpas de quanto se passa dentro e em torno dele. Seus julgamentos são quase sempre a inversão completa da realidade. Eis o motivo pelo qual a juventude, desde que a covardia dos adultos lhe deu autoridade para mandar e desmandar, esteve sempre na vanguarda de todos os erros e perversidade do século: nazismo, fascismo, comunismo, seitas pseudo-religiosas, consumo de drogas. São sempre os jovens que estão um passo à frente na direção do pior.
        Um mundo que confia seu futuro ao discernimento dos jovens é um mundo velho e cansado, que já não tem futuro algum.

sábado, 15 de março de 2014

O Pensamento de Jackson de Figueiredo

O Pensamento de Jackson de Figueiredo (1999)
Andre Stangl

Retirado do site: http://andrestangl.wordpress.com/2009/09/11/jackson-de-figueiredo/ 
VIDA E OBRA
O filósofo sergipano, Jackson de Figueiredo*, trilhou o caminho da polêmica, sua filosofia foi sua luta pela revitalização da fé. Nascido em 09 de Outubro de1891, estudou entre 1904 e 1908 no colégio protestante Americano e no Ateneu Sergipano. Em 1908, passa a estudar em Maceió no Liceu Alagoano e publica seu primeiro livro de poesia – “Bater de Asas”. Em 1909, já matriculado na Faculdade de Direito, passa a viver em Salvador. Nesta época envolve-se com o grupo estudantil Nova Cruzada que promove algumas reuniões literárias e alguns atos públicos, como sua famosa polêmica com a polícia no Teatro Politeama e uma tentativa de expulsão dos jesuítas portugueses. Também nesta época conhece o escritor baiano Xavier Marques, sobre quem, mais tarde, Jackson escreveria seu terceiro livro – “Xavier Marques” (1913). Antes, ainda publica mais um livro de poesias “Zíngaro” (1910) e em 1918 publica outro: “Crepúsculo Interior”, neste à influência boêmia de Baudelaire e Antero de Quental, soma-se a influência agônica de Nietzsche e Pascal. Influências estas, vindas, de sua amizade com Pedro Kilkerry, poeta que seria redescoberto na década de 70 pelos concretistas, irmãos Campos.
Conclui o curso de Direito em 1913 e no ano seguinte se muda para o Rio de Janeiro. Em 1915 escreve um ensaio sobre o poeta sergipano Garcia Rosa e conhece o filósofo cearense Farias Brito que marcará profundamente seu formação intelectual e espiritual, e, no ano seguinte casará com a cunhada deste. Em 1919 conhece Alceu Amoroso Lima (o Tristão de Athayde ou Dr. Alceu) com quem inicia intensa correspondência, nesta época integra-se na vida sacramental da Igreja.
Em 21 publica “Humilhados e Luminosos”, dedicado a seu amigo Kilkerry e edita a revista A Ordem, em seguida funda o Centro Dom Vital, estas duas ferramentas acentuam sua fase mais polêmica, seus artigos também são publicados na Imprensa, Gazeta de Notícias e O Jornal; o material depois será reunido e publicado nas coletâneas: Em Defesa de Sergipe (1918), Boa Imprensa (1919), Do Nacionalismo na Hora Presente (1921), Afirmações (1921), A Reação do Bom Senso (1922), Literatura Reacionária (1924) e A Coluna de Fogo (1925). Ainda publica dois estudos literários: Auta de Souza (1924) e Durval de Morais e os Poetas de Nossa Senhora (1925).
Morre em 4 de Novembro de 1928, afogado na Barra da Tijuca, na Gruta da Imprensa, pescando num domingo de sol maravilhoso, diante do filho e de um amigo. Deixa duas obras póstumas: Aevum (1932) que significa “o tempo dos anjos”, um romance semi-autobiográfico e Correspondências (1946) que reúne as cartas que escreveu a Alceu entre outros. Sua obra filosófica, propriamente dita, se resume a três livros: Algumas Reflexões Sôbre a Filosofia de Farias Brito (1916), A Questão Social na Filosofia de Farias Brito (1919), e, seu principal livro, Pascal e a Inquietação Moderna (1922).
FILOSOFIA E VIDA
O pensamento de Jackson e sua conversão ao catolicismo estão imbricados à sua juventude boêmia e poética, niilista e anarquista. Nesta época era a poesia que lhe servia de linguagem, e para seus pensamentos de então, o mundo parecia um triste caos. Em uma entrevista Alceu Amoroso da Lima, comenta:
“não saber exatamente a linha anarquista adotada por Jackson, mas conta que um amigo comum lhe disse certa ocasião que encontrou Jackson e este carregava um livro chamado The Unique Man and his Own, de Max Stirner, ‘que foi um anarquista violento’ (…) Jackson era portador de um nacionalismo intrínseco, violento, bravo…”[1].
Era a época do “mal-do-século”, Freud e Nietzsche; a rebordosa da culpa cristã importando-se e sofrendo pelo ‘porque’ das coisas. Era o choque entre o poder do indivíduo e a felicidade da coletividade:
“Quem me dera ser nuvem, quem me dera/Ser qualquer coisa, indiferente mesmo…/Ser pedra, pó ou flor da primavera,/Não cogitar do fim e andar a esmo…”[2].
No Brasil o desesperança elegeu o Materialismo do Positivismo e do Comunismo, preocupava a Jackson que o fim da transcendência matasse a esperança, pois o legado do cristianismo estava sufocado pela arte. Os modernistas ironizaram e relativizavam o Positivismo e o Catolicismo abrindo o diálogo com as tradições populares de origem africana e indígena: antropofagia e mestiçagem (Oswlad de Andrade, Mário de Andrade, Gilberto Freire, etc.). O Catolicismo brasileiro ainda estava enfraquecido após a nuvem negra do romantismo (Junqueira Freire, Álvares de Azevedo, Castro Alves, etc.). O niilismo nietzscheano era a única forma ocidental e racional de chegar a Deus, só que o matava para isso; a frase “Deus está morto”, fala de um Deus que existiu.
O romantismo niilista de Jackson negava o racionalismo, o paradoxo, o individualismo, o ego, o livre arbítrio. Após a conversão suas posições não mudam, mas a forma de expor seu pensamento muda; abraçando o dogma católico, Jackson continuava negando o egocentrismo de sua época, como diz no prefácio a “Cartas à Gente Nova” (1924), de Nestor Vítor:
“troquei toda veleiadde de construir por mim só ou com ajuda deste ou daquele grande espírito uma filosofia da ação. Preferi ser o humilde soldado que sou da Igreja Católica, e me sinto tão orgulhoso disto como se fora um rei”[3]
Jackson era antimodernista e contra o liberalismo, anti-democrático e hierárquico, converteu-se por pragmatismo, a ciência lhe parecia perigosa e a fé, para ele, não precisava de adornos humanos, a qualidade da moral está na ação e não na justificativa racional da ação. O Comunismo queria paz através da guerra, o Positivismo queria ordem através do progresso, o Catolicismo, para Jackson, deveria lutar (guerra) pela lei (ordem) divina onde a paz seria o supremo progresso. Jackson achava que “o mal-do século” era fruto da pretensão racional e a felicidade só seria encontrada quando a mente descansasse.
“não acredito numa ciência sobre a essência de Deus. Penso, como Jacobi, que o que imaginamos conhecer do infinito não tem ‘logicamnete’ nenhum valor”[4].
Segundo Guilhermo Francovivh, Jackson foi uma das mais fortes oposições ao intelectualismo no pensamento brasileiro. Podemos dizer que seu pragmatismo católico de inspiração pascalina e profundamente nacionalista, defendia a essência religiosa da alma brasileira da desilusão importada de alguns de nossos acadêmicos. Em “Algumas Reflexões Sobre a Filosofia de Farias Brito”, Jackson desafiava o pensamento relativista da época, de forma apaixonada e pouco metódica, mas mesmo assim erudita. Foi somente em “Pascal e a Inquietação Moderna” que teve o tempo suficiente para burilar sua crítica à modernidade:
“A liberdade humana tal como na obra de Pascal fica reduzida teoricamente a quase nada, mas esta mesma teoria reserva um cantinho de onde jorra a luz de uma outra realidade, amoral, cuja força toda reside no amor…”[5].
A força da argumentação de Jackson estava em demonstrar como o extremo da dúvida pode gerar a certeza tranquila da fé, ou seja da angústia de Pascal vem a força de sua esperança.
“Pascal é apontado como o avô gigante dos modernos individualistas. Mas é preciso não esquecer que ele, se o foi, pelo menos, deu ao individualismo uma solução digna do homem como ser moral, isto é: fazer-se consciente para negar-se a si mesmo, reconhecendo que é muito em face do universo, e nada diante de Deus. O individualismo será, assim, a demonstração por absurdo dos verdadeiros fins da nossa vida: conhecimento e caridade, de que a religião é a prática mais alta. O homem, queira ou não queira, é um escravo da lógica”[6].
Alceu Amaroso Lima foi provalvelmente o mais importante e conhecido intelectual da renovação católica, e, após a morte de Jackson assume a liderança do Centro Dom Vital. Ele sempre que falava de seu longo processo de conversão, citava as cartas que trocou com Jackson e o papel que elas tiveram no sentido de lhe provocar uma reação (depois foram publicadas como Correspondências). Alceu, que também foi um dos mais conhecidos críticos literários do país, era em tudo oposto a Jackson, carioca, praieiro, modernista e portanto “levado naturalmente a indiferença”; enquanto Jackson era nordestino, sertanejo e reacionário, “um homem do sim e do não, pronto a morrer por seus ideais”[7]. As cartas começaram superficiais, discutiam ‘politicagem’, mas logo ficou claro que precisavam ir além:
“então nossas cartas se voltaram para a razão de ser da vida, as origens do mundo, a existência ou não de Deus, o papel da Igreja, as posições políticas como consequência de posições filosóficas e as posições filosóficas como consequência de posições transcendentais, isto é, religiosas”[8].
Alceu considerava a conversão, de Jackson, violenta, diferente da sua que foi lenta; a de Jackson foi fruto da agonia:
“Só compreendo completamente meu cristianismo quando estou só. Principio por ter então uma grande pena de mim (….), e acabo por ter pena de todos nós, pobres homens, divididos, vaidosos da divisão, amantes do próprio orgulho e, todos, como dizia o velho Machado, todos afinal…. pontuais na sepultura….”[9].
A obra de Jackson, a primeira vista parece incoerente e de fato algumas contradições e exageros recheiam suas páginas, mas se na forma existem hesitações o mesmo não se pode dizer quanto ao alvo de suas críticas: o egoísmo moderno que em nome de uma fraca razão fecha os olhos e ignora o sofrimento alheio. Então porque, Jackson assume posições tão anti-revolucionarias, porque uma “coluna de fogo” que preservasse Brasil dos ‘destrutivos’ ideais revolucionários? Segundo Jackson, a mudança deveria ser nas consciências, pois em nada mudaria o mundo, se o reconhecimento do princípio gerador de tudo ainda fosse uma polêmica. A diferença entre aceitar a crença no dogma católico ou aceitar a crença científica, é o fundo moral sobre o qual se projetam nossas ações. O receio de Jackson quanto ao comunismo da época estava na confusão moral de seus adeptos, se olharmos prospectivamente a crítica de Gabeira nos anos 70 ao sectarismo dos militantes, ajuda nos a entender a posição de Jackson. De resto, se considerarmos que o Dr. Alceu, o principal continuador do trabalho ‘apostólico’ de Jackson, futuramente irá identificar-se com a Teologia da Libertação, assim, o próprio Jackson, tivesse sobrevivido, talvez também se juntasse a essa cruzada. Quem sabe?
BIBLIOGRAFIA
FIGUEIREDO, Jackson de. Trechos escolhidos. Rio de Janeiro: AGIR, 1958.
FRANCOVICH, G. Filósofos Brasileiros. Rio de Janeiro: Presença, 1979.
LIMA, Alceu Amoroso. Memorando dos 90. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984.
Notas
[1] LIMA, 1984:426
[2] FIGUEIREDO, 1958:10
[3] Ibid. p.6
[4] FRANCOVICH, 1979:80.
[5] FIGUEIREDO, 1958:45
[6] Ibid. 46
[7] LIMA, 1984:359
[8] Ibid. p. 360
[9] FIGUEIREDO, 1958:101
*Jackson era irmão de meu avó Rubens de Figueiredo.t

domingo, 9 de março de 2014

Jackson de Figueiredo por Agripino Grieco

"O fundador do Centro Dom Vital diferia desses cidadãos algo pendantes que fazem profissão de pensar, que deitam pensamento como outros deitam humorismo, em caráter permanente, de manhã à noite, que só tomam da pena dispostos a ser sublimes, a ser transcendentais. De nós para nós, mais que um doutrinador insolente, um moralista abstrato, dos que dão cabeçadas nas nuvens, achamo-lo sempre um historiador perspícuo das idéiais alheias. E Jackson provou existir muita afinidade eletiva na sua predileção por certos autores, sendo que, nele, a escolha de determinados assuntos já era em si uma opinião. No desejo de que a arte representasse cada vez mais a 'santificação da vida' e de que uma literatura impregnada de elementos criadores se sobrepusesse à literatura simplesmente anedótica ou sentimental, esse talento sem rasuras, dando-se a estudos enciclopédicos e achando que especialização é uma anquilose, parecia-nos, à maneira de Chales Maurras em França, um reacionário sincero e avesso a criar fantasmas políticos. Poucos como Jackson possuiram, no Brasil dos últimos tempos, o dom dessas frases-relâmpagos que, em meio à escuridão das idéias ambientes, fazem entrever cimos de montanhas." 

Agripino Grieco, Gente Nova do Brasil in FIGUEIREDO, Jackson de. Trechos escolhidos. Rio de Janeiro: AGIR, 1958. Fonte: http://jacksondefigueiredo.blogspot.com.br