terça-feira, 30 de agosto de 2011

Carta de Dom Bosco à Juventude

Dom Bosco escreve aos Jovens

''O demônio tem normalmente duas artimanhas principais para afastar da virtude os jovens.

A primeira consiste em persuadi-los de que o serviço de Deus exige uma vida triste sem nenhum divertimento nem prazer. Mas isto não é verdade, meus caros jovens. Eu vou lhes indicar um plano de vida cristã que poderá mantê-los alegres e contentes, fazendo-os conhecer ao mesmo tempo quais são os verdadeiros divertimentos e os verdadeiros prazeres, para que vocês possam exclamar com o santo profeta Davi: “Sirvamos ao Senhor na santa alegria''.

A segunda artimanha do demônio consiste em fazê-los conceber uma falsa esperança duma longa vida que permite converter-se na velhice ou na hora da morte. Prestem atenção, meus caros jovens, muitos se deixaram prender por esta mentira. Quem nos garante chegaremos à velhice? Se se tratasse de fazer um pacto com a morte e de esperar até então... Mas a vida e a morte estão entre as mãos de Deus que dispõe de tudo a seu bel-prazer.

E mesmo se Deus lhes concedesse uma longa vida, escutai, entretanto, sua advertência: “o caminho do homem começa na juventude, ele o segue na velhice até a morte”. Ou seja, se, jovens, começamos uma vida exemplar, seremos exemplares na idade adulta, nossa morte será santa e nos fará entrar na felicidade eterna.

Se, pelo contrário, os vícios começam a nos dominar desde a juventude, é muito provável que eles nos manterão em escravidão toda a nossa vida até a morte, triste prelúdio a uma eternidade terrível.

Para que esta infelicidade não lhes aconteça, eu lhes apresente um método vida alegre e fácil, mas que lhes bastará para se tornarem a consolação de seus pais, a honra de pátria de vocês, bom cidadãos da terra, em seguida felizes habitantes do céu...

Meus caros jovens, eu os amo de todo o meu coração e basta-me que vocês sejam para que eu os ame extraordinariamente. Eu lhes garanto que vocês encontrarão livros que lhes foram dirigidos por pessoas mais virtuosas e mais sábias que em muitos pontos, mas dificilmente vocês poderão encontrar algum que o ame mais que eu em Jesus Cristo e deseja mais a felicidade de vocês.

Conservem no coração o tesouro da virtude, porque possuindo-o vocês têm tudo, mas se o perderem, vocês se tornarão os homens mais infelizes do mundo. Que o Senhor esteja sempre com vocês e que Ele lhes conceda seguir os simples conselhos presentes, para que vocês possam aumentar a glória de Deus e obter a salvação da alma, fim supremo para o qual fomos criados. Que o Céu lhes dê longos anos de vida feliz e que o santo temor de Deus seja sempre a grande riqueza que os cumule de bens celestes aqui e por toda a eternidade.

Vivam contentes e que o Senhor esteja com vocês. Seu muito afeiçoado em Jesus Cristo''.

Dom Bosco, presbítero

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Pe. Paulo Ricardo fala sobre a Jornada Mundial da Juventude em Madrid

Homilia de Bento XVI na Missa de encerramento da JMJ 2011

Boletim da Santa Sé

Queridos jovens,

Com a celebração da Eucaristia, chegamos ao momento culminante desta Jornada Mundial da Juventude. Ao ver-vos aqui, vindos em grande número de todas as partes, o meu coração enche-se de alegria, pensando no afeto especial com que Jesus vos olhaSim, o Senhor vos quer bem e vos chama seus amigos (cf. Jo 15, 15). Ele vem ter convosco e deseja acompanhar-vos no vosso caminho, para vos abrir as portas duma vida plena e tornar-vos participantes da sua relação íntima com o Pai. Pela nossa parte, conscientes da grandeza do seu amor, desejamos corresponder, com toda a generosidade, a esta manifestação de predileção com o propósito de partilhar também com os demais a alegria que recebemos. Na atualidade, são certamente muitos os que se sentem atraídos pela figura de Cristo e desejam conhecê-Lo melhor. Pressentem que Ele é a resposta a muitas das suas inquietações pessoais. Mas quem é Ele realmente? Como é possível que alguém que viveu na terra há tantos anos tenha algo a ver comigo hoje?

No Evangelho que ouvimos (cf. Mt 16, 13-20), vemos representadas, de certo modo, duas formas diferentes de conhecer Cristo. O primeiro consistiria num conhecimento externo, caracterizado pela opinião corrente. À pergunta de Jesus: «Quem dizem os homens que é o Filho do Homem?», os discípulos respondem: «Uns dizem que é João Baptista; outros, que é Elias; e outros, que é Jeremias ou algum dos profetas». Isto é, considera-se Cristo como mais um personagem religioso junto aos que já são conhecidos. Depois, dirigindo-se pessoalmente aos discípulos, Jesus pergunta-lhes: «E vós, quem dizeis que Eu sou?». Pedro responde formulando a primeira confissão de fé: «Tu és o Messias, o Filho de Deus vivo». A fé vai mais longe que os simples dados empíricos ou históricos, e é capaz de apreender o mistério da pessoa de Cristo na sua profundidade.

A fé, porém, não é fruto do esforço do homem, da sua razão, mas é um dom de Deus: «És feliz, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que to revelou, mas o meu Pai que está no Céu». Tem a sua origem na iniciativa de Deus, que nos desvenda a sua intimidade e nos convida a participar da sua própria vida divina. A fé não se limita a proporcionar alguma informação sobre a identidade de Cristo, mas supõe uma relação pessoal com Ele, a adesão de toda a pessoa, com a sua inteligência, vontade e sentimentos, à manifestação que Deus faz de Si mesmo. Deste modo, a pergunta de Jesus: «E vós, quem dizeis que Eu sou?», no fundo está impelindo os discípulos a tomarem uma decisão pessoal em relação a Ele. Fé e seguimento de Cristo estão intimamente relacionados.

E, dado que supõe seguir o Mestre, a fé tem que se consolidar e crescer, tornar-se mais profunda e madura, à medida que se intensifica e fortalece a relação com Jesus, a intimidade com Ele. Também Pedro e os outros apóstolos tiveram que avançar por este caminho, até que o encontro com o Senhor ressuscitado lhes abriu os olhos para uma fé plena.

Queridos jovens, Cristo hoje também se dirige a vós com a mesma pergunta que fez aos apóstolos: «E vós, quem dizeis que Eu sou?» Respondei-Lhe com generosidade e coragem, como corresponde a um coração jovem como o vosso. Dizei-Lhe: Jesus, eu sei que Tu és o Filho de Deus que deste a tua vida por mim. Quero seguir-Te fielmente e deixar-me guiar pela tua palavra. Tu conheces-me e amas-me. Eu confio em Ti e coloco nas tuas mãos a minha vida inteira. Quero que sejas a força que me sustente, a alegria que nunca me abandona.

Na sua resposta à confissão de Pedro, Jesus fala da sua Igreja: «Também Eu te digo: Tu é Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja». Que significa isto? Jesus constrói a Igreja sobre a rocha da fé de Pedro, que confessa a divindade de Cristo.

Sim, a Igreja não é uma simples instituição humana, como outra qualquer, mas está intimamente unida a Deus. O próprio Cristo Se refere a ela como a «sua» Igreja. Não se pode separar Cristo da Igreja, tal como não se pode separar a cabeça do corpo (cf. 1 Cor 12, 12). A Igreja não vive de si mesma, mas do Senhor. Ele está presente no meio dela e dá-lhe vida, alimento e fortaleza.

Queridos jovens, permiti que, como Sucessor de Pedro, vos convide a fortalecer esta fé que nos tem sido transmitida desde os apóstolos, a colocar Cristo, Filho de Deus, no centro da vossa vida. Mas permiti também que vos recorde que seguir Jesus na fé é caminhar com Ele na comunhão da Igreja. Não se pode, sozinho, seguir Jesus. Quem cede à tentação de seguir «por conta sua» ou de viver a fé segundo a mentalidade individualista, que predomina na sociedade, corre o risco de nunca encontrar Jesus Cristo, ou de acabar seguindo uma imagem falsa d’Ele.

Ter fé é apoiar-se na fé dos teus irmãos, e fazer com que a tua fé sirva também de apoio para a fé de outros. Peço-vos, queridos amigos, que ameis a Igreja, que vos gerou na fé, que vos ajudou a conhecer melhor Cristo, que vos fez descobrir a beleza do Seu amor. Para o crescimento da vossa amizade com Cristo é fundamental reconhecer a importância da vossa feliz inserção nas paróquias, comunidades e movimentos, bem como a participação na Eucaristia de cada domingo, a recepção frequente do sacramento do perdão e o cultivo da oração e a meditação da Palavra de Deus.

E, desta amizade com Jesus, nascerá também o impulso que leva a dar testemunho da fé nos mais diversos ambientes, incluindo nos lugares onde prevalece a rejeição ou a indiferença. É impossível encontrar Cristo, e não O dar a conhecer aos outros. Por isso, não guardeis Cristo para vós mesmos. Comunicai aos outros a alegria da vossa fé. O mundo necessita do testemunho da vossa fé; necessita, sem dúvida, de Deus. Penso que a vossa presença aqui, jovens vindos dos cinco continentes, é uma prova maravilhosa da fecundidade do mandato de Cristo à Igreja: «Ide pelo mundo inteiro, proclamai o Evangelho a toda a criatura» (Mc 16, 15). Incumbe sobre vós também a tarefa extraordinária de ser discípulos e missionários de Cristo noutras terras e países onde há multidões de jovens que aspiram a coisas maiores e, vislumbrando em seus corações a possibilidade de valores mais autênticos, não se deixam seduzir pelas falsas promessas dum estilo de vida sem Deus.

Queridos jovens, rezo por vós com todo o afeto do meu coração. Encomendo-vos à Virgem Maria, para que Ela sempre vos acompanhe com a sua intercessão materna e vos ensine e fidelidade à Palavra de Deus. Peço-vos também que rezeis pelo Papa, para que, como Sucessor de Pedro, possa continuar confirmando na fé os seus irmãos. Que todos na Igreja, pastores e fiéis, nos aproximemos de dia para dia sempre mais do Senhor, para crescermos em santidade de vida e darmos assim um testemunho eficaz de que Jesus Cristo é verdadeiramente o Filho de Deus, o Salvador de todos os homens e a fonte viva da sua esperança. Amen.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Objeções à Caridade

Gilbert Keith Chesterton
The Illustrated London News, 8 de dezembro de 1906

Traduzido por Antonio Emilio Angueth de Araujo

Lamento ver que há um tipo de suposição universal na maioria dos jornais de que o cavalheiro que deu dinheiro às crianças e homens nas ruas fez algo inteiramente indefensável e absurdo. Quando interpretou a caridade como a obrigação de distribuir dinheiro pelas ruas, ele fez algo pelo que eu, por exemplo, esperava há muito tempo. Não vou tão longe a ponto de afirmar que ele estava certo; mas certamente penso que estava muito mais certo que todos os filantropos e organizadores de caridade que o desaprovam. Está tudo muito bem em dizer que os economistas alertam que a caridade casual faz mal. Os economistas são muito capazes de afirmar que comer e beber faz mal – e, de fato, pensando bem, comer e beber faz certamente mal. Fala-se em jogar dinheiro no mar. Fala-se em atira riquezas num poço sem fundo. Fala-se em derramar um bom vinho no esgoto. Mas pelo menos, em todos esses casos de jogar algo no abismo, a coisa, uma vez no abismo, não pode fazer mal. O dinheiro não pode subornar o mar; nem o vinho pode embebedar a tubulação. Fazemos, contudo, algo mais obscuro e mais imprudente quando atiramos vinho ou comida num abismo mais tenebroso que é dentro de nós mesmos.

Por que devo me preocupar se não sei se faço bem ou mal quando dou uma refeição a um mendigo? Não se faço bem ou mal se dou uma refeição a mim mesmo. A comida tal como a comemos nestas épocas civilizadas e com digestões civilizadas, a comida, neste sentido, contém as sementes tanto da morte quando da vida. Não me diga que não sei o que acontece com a moeda que dou àquele reconhecido mendigo, Esgotado da Silva. Não sei o que acontece com o sanduíche de presunto que dou àquele pária faminto: G.K. Chesterton. Não quero saber. Sei que, em certo sento, estamos derramando dons num universo sem fundo, num universo que usa os dons de seu próprio modo e com uma complexidade além de nosso controle ou mesmo de nossa imaginação.

Sem dúvida, em matéria de mendigos e caridade, eu sei o que não sei – não sei que uso será feito afinal do presente em dinheiro que dou a um homem pobre. Mas tampouco sei do uso que será feito do presente que dou a qualquer outro homem. Dar qualquer presente digno do nome é dar poder; dar poder é dar liberdade; dar liberdade é dar pecado em potencial. Se dou o presente mais decoroso e pio, ele se coloca além de meu poder por eu meramente tê-lo dado. Se dou uma Bíblia a um homem, ele pode lê-la de forma a justificar a poligamia. Muitos homens têm lido a Bíblia (os Mórmons, por exemplo) para justificar a poligamia. Se dou a um homem um copo de chocolate (o que seguramente nunca deveria fazer) ele pode obter desse copo de chocolate a quantidade exata de nutrientes e vigo que precisava para cometer um assassinato. Muitos homens, tenho certeza (embora não tenha estatísticas à mão) têm cometido assassinato sob o imediato revigoramento do chocolate. Se dou a um homem uma igreja, ele pode nela celebrar uma Missa Negra. Se dou a um homem um altar (o que parece improvável) ele pode usá-lo para sacrifício humano. E se isso é a lógica até desses casos em que o presente em si é algo comumente considerado inofensivo ou correto, a questão é extraordinariamente séria em relação aos presentes que as pessoas do mundo dão umas às outras. Se é possível que dinheiro ou bebida sejam mal-usados por indivíduos socialmente nossos inferiores, é quase certo que livros, roupas, móveis e obras de arte possam ser mal-usados e sejam mal-usados por nossos iguais.

Eis a peculiar torpeza da objeção à caridade casual. Não nos permitem supor que dinheiro seja uma boa coisa para aqueles que não o têm no mesmo sentido aproximado e geral que supomos que altos salários, quadros ou convites são coisas boas para aqueles que não os têm. Dizem-nos que é nossa responsabilidade considerar se a pequena esmola fará o mendigo mais bêbado ou mais ocioso. Mas nunca nos disseram ser nossa responsabilidade considerar se a ajuda a tal cavalheiro para conseguir-lhe um bom salário o fará mais bêbado ou mais ocioso. Não é nossa responsabilidade perguntar-nos se dar pérolas a uma senhora a fará mais vã. Não é nossa responsabilidade perguntar-nos se dar-lhe livros pedantes a fará mais pedante. Não se supõe que calculemos por meio de uma elaborada psicologia se dar um deslumbrante presente de casamento a um elegante casal de noivos os fará eticamente melhores ou piores do que são. Em todos esses casos nós, sendo pessoas de senso comum, exigimos o direito de dizer: “A forma de usar a coisa é problema deles; tenho razão em supor que, de acordo com os propósitos ordinários, livros são coisas boas, lindas jóias são coisas boas e um bom salário é uma coisa boa.” Mas o único caso em que não nos permitem argumentar assim é exatamente o caso de dar dinheiro aos muito pobres. Ou seja, o único caso em que não nos permitem tratar o dinheiro como algo bom em si mesmo é aquele em que realmente sabemos que ele é necessário.

Não sabemos nem mesmo se uma senhora decente deseja realmente uma pérola. Sabemos contudo que, em noventa e nove de cem casos, mesmo um falso mendigo deseja realmente dinheiro. Nossa ignorância sobre o que acontecerá com o dinheiro é simplesmente parte de nossa ignorância do que acontecerá com qualquer outra coisa, nossa ignorância do mundo em que vivemos. O que é realmente vil é o seguinte: que nossa ignorância, que nunca é invocada quando satisfazemos as frívolas necessidades dos frívolos, seja sempre imediata e violentamente invocada quando estamos, pelo menos uma vez, satisfazendo as palpáveis necessidades dos necessitados. Não desejo explorar mais profundamente este aspecto da questão; ele é muito sério para ser tratado neste lugar. Mas uma vez, quando o grande crime humano da história do homem foi cometido, o crime que obscureceu o sol no firmamento, o espírito que tinha a maior razão em reclamar, disse dos criminosos: “Eles não sabem o que fazem.” É, de fato, verdade que não sabemos o que fazemos. É-nos permitido apresentar essa desculpa quando cometemos um crime. Será que não nos é permitido apresentá-la quando fazemos uma gentileza?

Portanto, tenho uma simpatia pelo filantropo louco. Sei que quando ele jogou dinheiro pelas ruas, todas as instituições do mundo moderno lhe disseram que ele fazia mais mal do que bem. Todavia, sei também que cada uma dessas instituições lhe teria dito que ele fazia mais mal do que bem se ele tivesse dado dinheiro a qualquer das outras instituições. Há um ataque cabível a ser feito à caridade promíscua. Mas há exatamente o mesmo ataque a ser feito à caridade institucional. Sei do caso de um confuso milionário que perguntou a dois homens públicos de nosso tempo como ele poderia fazer o bem com seu dinheiro. O primeiro, depois de uma longa consideração de todos os aspectos, não tenho dúvida de que imbuído do mais elevado espírito filantrópico, aconselhou-o a ficar com seu dinheiro. O outro, depois de levar um mês para considerar a questão, escreveu-lhe para dizer que concebera uma maneira por meio da qual ele não faria mal com seu ouro, que era cobrir com ele o domo da Catedral de São Paulo.

Quando há tal desesperança e desamparo mesmo da caridade sistemática, é absurdo alertar para a desesperança e desamparo da caridade individual. Tenho alguma simpatia para com o home que quer emplastar com ouro o domo da Catedral de São Paulo. Mas tenho muito mais simpatia com o Sr. Yates, o filantropo louco de nossos dias, que quer consumar a antiga lenda e pavimentar com ouro as ruas de Londres. Que seus presentes causaram inveja, desordem e mesmo decepção é possivelmente verdade. Da mesma forma, a ausência de tais presentes causa inveja, desordem e decepção. Não defendo seriamente esse método no seu todo. Mas digo, contudo, que é dessa forma individual que a caridade será reformada. Nada será feito até que tenhamos percebido que caridade não é dar recompensa aos merecedores, mas felicidade aos infelizes.

Nos estado atual das coisas, temos apenas a escolha entre dar dinheiro a homens de quem nada sabemos e dar dinheiro a instituições das quais nada sabemos. Evidentemente, podemos saber que certa instituição é, no sentido formal e fútil, respeitável, que é solvente, que não é presidida por um vigarista com seus caminhões carregados e etiquetados “Venezuela”; mas isso não é o que queremos saber sobre uma instituição beneficente. Não queremos saber meramente se uma instituição beneficente é cautelosa ou sólida como um banco. Queremos saber se a instituição beneficente pode contar com a confiança, não somente do corpo, mas da alma dos homens. Queremos conhecer uma instituição beneficente que seja humana, abrangente, solidária com os homens livres, magnânima. Em resumo, queremos, por estranho que pareça, conhecer uma instituição de caridade que seja caridosa. E isso, em regra, nós não conhecemos. Essas são as coisas que levam o homem razoável a sentir um pouco de simpatia pelo cavalheiro que foi descrito pelos jornais como o “milionário louco”. Pesquisa subseqüente revelou, eu acho, que ele não era milionário. Uma pesquisa adicional e mais profunda revelará, eu acho, que ele não era assim tão louco.

Há uma observação que pode ser adicionada a essa divagação. Não sei se há métodos que possam testar se o recipiente da esmola é genuíno. Mas estou seguro de que o método ordinariamente adotado, especialmente por caridosas senhoras, é uma grande bobagem. Ouve-se constantemente que um homem faminto é uma fraude porque tão logo ele recebe o dinheiro ele “vai para um bar”. Esse precioso teste é constantemente adotado para provar que um homem com fome é um enganador. Ninguém parece ter o ordinário discernimento para lembrar que ir a um bar é exatamente o que alguém faria se fosse, não um enganador, mas um homem com fome. Ele vai lá, em primeiro lugar, porque lá é o único lugar em que se vende um pão com queijo por alguns reais. E se ele vai também para tomar algo estimulante, ele faz exatamente o que qualquer sadio bispo ou juiz faria se ficasse enfraquecido pela fome. Qualquer que seja o teste para mendigos que você empregar, não empregue este teste imbecil, que é universal entre os filantropos modernos.

Padre Paulo Ricardo - "Indulgências"

terça-feira, 19 de julho de 2011

Comercial a favor da vida

sábado, 16 de julho de 2011

Por que o namoro não é o tempo de viver a vida sexual?

Prof. Felipe Aquino
As coisas da vida somente são boas e nos fazem felizes se são usadas dentro de sua finalidade. Você não pode, por exemplo, usar o seu celular como um martelo!… Desvirtuando a sua finalidade, você provoca dano. Com o sexo se dá o mesmo; se for vivido fora do seu sentido, estraga tudo. Qual o sentido do sexo? O sexo, no plano de Deus, tem duas dimensões, finalidades: “unitiva” e “procriativa”; elas se completam. Deus fez do casal humano “a nascente da vida” (Paulo VI); e assim deu ao homem a honra, a glória e a missão de gerar e educar os filhos. Nenhuma outra missão é mais nobre do que esta.

Se é belo construir casas, carros, aviões …, mais belo ainda é gerar é educar um ser humano, imagem e semelhança de Deus. Nada se compara à missão de ser pai e mãe. Na aurora da humanidade Deus disse ao casal: “multiplicai-vos”. “A dualidade dos sexos foi querida por Deus, para que o homem e a mulher, juntos, fossem a imagem de Deus” ( Paulo VI).
É através da atividade sexual que o casal se multiplica e se une profundamente; isto é um desígnio de Deus. O ato sexual é o ato “fundante” da geração do filho, porque é por ele que a doação amorosa do casal acontece. É por isso que a Igreja não aceita outra maneira de gerar a vida humana. A geração de um filho tem de ser um ato de amor dos pais; por isso a fecundação não pode ser passada para as mãos dos médicos e bioquímicos.
Por outro lado, a relação sexual une o casal. Há muitas maneiras de se manifestar o amor: um gesto atencioso, uma palavra carinhosa, um presente, uma flor, um telefonema…, mas a mais forte manifestação de amor entre o casal, é o ato sexual. É a “liturgia” do amor conjugal. Ali cada um não apenas dá presentes ao outro, nem só palavras, mas “se dá” ao outro física e espiritualmente. É a expressão da “entrega da vida”.
Ora, você só pode entregar a sua intimidade profunda a alguém que o ama e que tem um “compromisso de vida” com você para sempre!
Qual é a diferença entre o sexo no casamento, realizado com amor e por amor, e a prostituição? É o amor baseado num compromisso de vida para sempre. Se você tirar o amor, o sexo se transforma em prostituição, comércio.
No plano de Deus o sexo é diferente, é manifestação do amor conjugal; é a “marca” na alma, de duas pessoas que se uniram para sempre, na dor e na alegria, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza; é uma verdadeira liturgia desse amor, cujo fruto será o filho do casal. Cada um é “responsável pelo outro” até a morte, em todas as circunstâncias fáceis e difíceis da vida. Sem este “compromisso de vida” o ato sexual não tem sentido, e se torna vazio e perigoso.
Na fusão dos corpos se celebra profundamente o amor de um pelo outro: a compreensão recíproca, a paciência exercida, o perdão dado, o diálogo mantido, as vitórias conquistadas, as lágrimas derramadas… é a “festa do amor conjugal”. Por isso é o ato fundante da vida.
O ato sexual vai muito além de um mero ato físico; a união dos corpos sinaliza a “união dos corações” e dos espíritos pelo amor. Por isso não pode ser um ato improvisado, um mero momento de prazer ou de celebração emotiva; é muito mais, é a celebração de uma vida vivida a dois para sempre, na renúncia e na alegria.
Nesta “festa” do amor conjugal, o casal se une fortemente, e no ápice do seu prazer, Deus quis que o filho fosse gerado. Assim, ele não é apenas carne e sangue dos seus pais, mas “amor do seu amor”.
É por isso que a Igreja ensina que o ato sexual, para não ser desvirtuado, deve sempre estar aberto à geração da vida, sem que isto seja impedido por meios artificiais.
Ora, se o ato sexual gera a vida de um novo ser humano, ele precisa ser acolhido em um lar pelos seus pais. É um direito da criança que vem a este mundo. Nem o namoro, nem o noivado oferece ainda uma família sólida e estável para o filho. Não existe ainda um compromisso “ até que a morte os separe”.
Quantos rapazes engravidaram a namorada, e tiveram de mudar totalmente o rumo de suas vidas! Às vezes são obrigados a deixar os estudos para trabalhar; vão morar na casa dos pais … sem poderem constituir uma família como convém.
É por isso que o sexo não deve ser vivido no namoro e no noivado. Ao contrário do que acontece hoje comumente, a última entrega ao outro deveria ser a do próprio corpo, só depois que os corações e as vidas estivessem unidas e compromissadas por uma “aliança” definitiva. Isto está longe de acontecer ainda no namoro que é apenas um tempo de escolha.
Se você apanhar e comer uma maçã ainda verde, ela vai fazer mal a você, e se estragará. Se você viver a vida sexual antes do casamento, você terá problemas e não alegrias. E poderá ferir a outra pessoa. Além do mais, quando o namoro termina, as marcas que o sexo deixou ficam no corpo da mulher para sempre. Para o rapaz tudo é mais fácil.
Então, como é que você quer exigir da sua namorada o seu corpo, se você não têm um compromisso de vida assumido com ela, para sempre? Não é justo e nem lícito exigir o corpo de uma mulher antes de colocar uma aliança – prova de amor e de fidelidade – na sua mão esquerda.
São Paulo há dois mil anos já ensinava aos Coríntios: “A mulher não pode dispor do seu corpo: ele pertence ao seu marido. E também o marido não pode dispor do seu corpo: ele pertence à sua esposa” (1 Cor 7,4). O Apóstolo não diz que o corpo da namorada pertence ao namorado, e nem que o corpo da noiva pertence ao noivo.
As conseqüências do sexo vivido fora do casamento são terríveis: mães e pais solteiros, despreparados; filhos abandonados, ou criados pelos avós, ou em orfanatos. Muitos desses se tornam ás vezes abandonados e delinqüentes que cada vez mais enchem as nossas ruas, buscando nas drogas e no crime a compensação de suas dores. Quantos abortos são cometidos porque busca-se apenas egoisticamente o prazer do sexo, e depois elimina-se o fruto, a criança! Só no Brasil são 4 milhões por ano. Quatro milhões de crianças assassinadas pelos próprios pais!
As doenças venéreas são outro flagelo do sexo fora do casamento. Ainda hoje convivemos com os horrores da sífilis, blenorragia, cancro, sem falar do flagelo da AIDS. Por causa dessa desvalorização da vida sexual, e da sua vivência de modo irresponsável e sem compromisso, assistimos hoje esse triste espetáculo de milhões de meninas adolescentes de 12 a 15 anos, grávidas.
A nossa sociedade é perversa e irresponsável. Incita o jovem a viver o sexo de maneira precoce e sem compromissos, e depois fica apavorada com a tristeza das meninas grávidas. Isto é fruto da destruição da família, do chamado “amor livre”, e do comércio vergonhoso que se faz do sexo através da televisão, dos filmes eróticos, das revistas pornográficas e, agora, até através do telefone e da internet.
E o que se oferece agora, a essas pobres meninas, é o veneno da Pílula do Dia Seguinte, uma bomba hormonal abortiva, com uma carga 10 vezes maior que a pílula anticoncepcional comum. É a promoção pública da depravação sexual e destruição da família. Veja jovem, quanta tristeza causa o sexo fora e antes do casamento. Além disso, a jovem, na sua psicologia feminina, não esquece os menores detalhes da sua vida amorosa. Ela guarda a data do primeiro encontro, o primeiro presente, etc…; será que ela vai esquecer a primeira relação sexual? Esta primeira relação deve acontecer num ambiente preparado, na lua de mel, onde a segurança do casamento a sustenta.
O namoro é o tempo de conhecer o coração do outro, e não o seu corpo; é o momento de explorar a sua alma, e não o seu físico.
Um casal de namorados que souber aguardar a hora do casamento para viver a vida sexual, é um casal que exercitou o autocontrole das paixões e saberá ser fiel um ao outro na vida conjugal. Eu sei que o mundo lhe diz exatamente o contrário, pois ele não quer “entrar pela porta estreita” (Mt 7,14), mas que conduz à vida.
Peço que você faça esta experiência: veja quais são as famílias bem constituídas que você conhece; veja quais são os casamentos que estão estáveis, e verifique sob que bases eles foram construídos. Você verá que nasceram de casais de namorados que se respeitaram e não brincaram com a vida do outro. Eu vivi assim; não tivemos vida sexual até o nosso casamento; somos casados há 36 anos e felizes, com os nossos cinco filhos e seis netos.
Do livro “Namoro” – Prof. Felipe Aquino – www.cleofas.com.br

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