terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

Carta de Jackson a Alceu Amoroso

Cartas de ontem e de hoje

Aproveitamos com muito prazer a colaboração do Sr. Abib Netto, de Mogi das Cruzes, que nos envia uma carta de Jackson de Figueiredo a Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde). Embora as cartas de ambos já hajam sido publicadas pela Editora Agir sob o título “Correspondências”, muitos leitores talvez não as conheçam, - e a de hoje é uma interessante amostra, marcando um momento decisivo na vida do fundador da nossa Revista.

Rio, 22/23-2-28

Querido Alceu!
           
Já aqui estou , de volta do retiro em Friburgo. Mais contente com Deus, mais descontente comigo, mais tranqüilo com a consciência, mais desconfiado do coração.
           
Enfim, está é a verdade: não noção vital do que é a Igreja (e até do que vale a sua força meramente discursiva) sem mergulhar-se num retiro. E depois, como não se lucra na perda de ilusões sobre nós mesmos! Porque não é brinquedo debruçar-se a gente durante três dias e três noites sobre a própria miséria interior.

Eu, pelo menos, ganhei isto: a certeza, desta vez, de que só do sobrenatural posso esperar solução do meu caso psicológico – pobre estragado por tantas perversidades do mundo. De mim mesmo é impossível. O mais que eu próprio poderei fazer em bem de mim mesmo é manter-me, como até agora, em atitude agressiva contra tudo quanto, em mim, me pareça amável, delicado, anuançado, propriamente lírico.

            Entreguei o seu livro ao velho Madureira, figura de santo.
            Com o Franca conversei muito sobre você.
            Estamos, pois, de novo, face a face.
            Adeus, meu querido Alceu!
            Um abraço do seu velho,
            Jackson

CARTA de Jackson de Figueiredo a Alceu Amoroso Lima. A Ordem, Rio de janeiro, v. 32, n. 48, p. 243, jul./dez. 1952

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

BBB 11 – o que fazer?

[Há muito tempo reflito sobre o BBB e o mal que ele vem gerando nos jovens e adultos que o assistem. Este programa é imoral. Os cristão não devem assistir e dar audiência sob o risco de estarem colaborando para a descristianização de desmoralização da nossa sociedade. Infelizmente é comum famílias inteiras assistirem esse jogo que tem como objetivo explícito mostrar o homem em seu mais baixo grau de depravação. É um jogo arquitetado para mostrar homens e mulheres embreagados e se pegando sem o menor pudor. Além de ser um jogo em que a busca pelo prêmio, ou seja, a fama e o dinheiro, é o fim dos que dele participam e, neste caso, a máxima "o fim justifica os meios" é aplicado em seu mais perfeito grau. Católicos não colaborem para a descristianização e desmoralização de nossa sociedade. Vocês serão cobrados por compactuarem com isso! Não assista BBB! Anacleto González nos adiantou: "Por toda parte se veem católicos degenerados rendendo homenagem de adoração a Deus com a inteligência, mas escarnecendo e pisoteando com seus atos, o que são uma contradição vivente das doutrinas que professam. E são estes mesmo que se espantam de que se persiga a Igreja, de que se odeie a Cristo, de que se blasfemem e de que a impiedade o inunde todo um rio imenso que transborda; pois tenham claro que as gerações, por cima do influxo das ideias, se formam com o contato e exemplo dos demais, portanto, se os católicos muito longe de viver sua fé e de observá-la no máximo possível em seus atos continuam como até agora trabalhando em oposição mais ou menos aberta com sua doutrinas e seu critério, seguindo sendo responsáveis da depravação profunda que trava nossa sociedade e que é obra das más ideias e dos exemplos corruptores." (Os católicos de hoje)] Amigo da Cruz Confira o artigo abaixo. Ele reafirma nossas convicções.
-----
Alguns pensam que o cristianismo não se deve ocupar de temas cotidianos. Para estes, deve-se refletir apenas em temas eternos, espirituais. Esquecem que o Senhor Jesus é Senhor do Tempo de da Eternidade; do Ontem e do Hoje. Não há aspecto da vida humana que escape do Senhorio de Cristo. Por este motivo, não se pode perder de vista o que acontece nos meios de comunicação. E o que os meios de comunicação estão veiculando?

Reprodução
O Brasil está discutindo a Lei 8029? O Congresso analisa a possibilidade de os cidadãos brasileiros darem a seus filhos a educação que eles acharem melhor, inclusive em suas próprias residências? A reforma tributária está em paula nos telejornais? E a diminuição dos impostos, o debate está sendo estimulado pelas televisões brasileiras? Não. Estamos  iniciando o ano com os mesmos problemas. As questões fundamentais, que deveriam ser a pauta do dia de todos os jornais, deveriam ser discutidas nas esquinas e padarias, todas elas darão lugar a infame prática de “bisbilhotar” a vida alheia, como se isso fosse importante para o Brasil ou para cada um em particular.
A mentira, a sensualidade, a dissimulação, a mediocridade, a irreflexão, a traição, a alienação política, superficialidade moral, a pequenez cultural e outras atitudes deste calibre serão veiculadas nos jornais e televisores de todo Brasil. As famílias brasileiras (infelizmente) vão torcer para que romances irresponsáveis aconteçam, para que tímidos sejam “eliminados”, para que velhos e gordos passem vergonha.
A continuidade deste Reality Show no Brasil demonstrou que os seus idealizadores não estão realmente preocupados com os temas nacionais. Aliás, o diretor do Big Brother Brasil, Boninho, já deu testemunho de sua moralidade e comprometimento com os cidadãos brasileiros. Assim, esperar que a Globo compreenda que este tipo de programa não melhora o país, nem os cidadãos, que ele veicula a imoralidade e a perversão social é esperar demais. Portanto, o caminho deve ser outro.
Se os cidadãos brasileiros desejam uma nação melhor, meios de comunicação mais dignos, devem agir de algum modo. Duas práticas que podem servir para alertar a TV Globo de que o caminho desses programas está equivocado:
1. Não assistir ao programa. Desligar a TV ou, o que é melhor, assistir a outro programa no horário é uma ação que impacta fortemente a emissora. A audiência é o objetivo destes programas, pois retornam publicidade. Ora, se a audiência está baixa e perdendo para outros programas, a emissora certamente repensa a continuação da atração.
2. Não comprar produtos que financiam o programa. Outra prática é boicotar os produtos que financiam o programa. Obviamente, se o objetivo é publicidade e se não há empresas interessadas na compra do horário de TV, o programa fica inviável. Abaixo há a lista – que será atualizada – das empresas que patrocinam o programa
Sei que caminhamos para a entropia. De fato, não é possível o Paraíso na Terra. Mas também não é necessário viver no Inferno, não é? Se aos cristãos é vedada a esperança de um mundo paradisíaco, pois seria a aceitação de uma vida sem Deus, igualmente é vedada a posição que aceita o pecado como condição ordinária da vida humana. O pecado deve ser vencido por nós, pois já foi vencido por Jesus. Façamos, portanto, o que podemos para que o erro não se propague por nossas ações ou omissões.


Anunciantes






quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Jackson

Jackson

Hamilton Nogueira*

Jackson de Figueiredo.  A Ordem,
Rio de Janeiro, v. 40, n. 5,
p. 323-324. nov. 1948.
Vinte anos passados não arrefeceram a lembrança viva do amigo, sempre presente no nosso espírito, neste ou naquele momento da nossa vida. Parece-nos, ao contemplar o seu retrato, que o seu olhar curioso, que tinha a expressão de ver mínimos detalhes, da nossa atividade, no plano do espírito, da nossa fidelidade à grande obra de renascimento religioso, detestavelmente, um dos grandes paladinos, durante dez anos de intenso trabalho intelectual.

Ele e Wagner Dutra foram duas criaturas predestinadas a fazer-nos pensar, a todo instante, no sentido eterno da vida. Jackson, despertando em cada um de nós o gosto pelos debates das idéias, mostrando-nos a grandeza do Catolicismo e tirando-nos do nosso indiferentismo; Wagner, pela ação de presença, pela sua bondade, pelo seu dom de adivinhar o sofrimento e as angústias do amigo.

Jackson morreu aos 37 anos. Somos hoje muito mais velhos, e no entanto, ele é que continua a ser nosso mestre, tão grande foi sua experiência, tão agudo o seu conhecimento dos homens, tão penetrante o seu julgamento.

Relendo, agora, a sua admirável correspondência, sentimos a profundeza do seu espírito ao pressentir o papel que iriam representar no mundo contemporâneo as figuras de Maritain e de Berdiaeff, cuja influência, há vinte anos, limitava-se a um círculo ainda limitado.

Era um profundo conhecedor da realidade brasileira, quer sob aspecto político, quer sob o aspecto religioso, representando a sua atuação de jornalista o bom senso de uma das inteligências mais lúcidas que passaram pelo cenário intelectual do Brasil.

Este ano, como nos anos anteriores, estão presentes todos os seus amigos, para manifestar toda a sua gratidão àquele que foi um dos guias da formação espiritual de cada um. 

*NOGUEIRA, Hamilton. Jackson.  A Ordem, Rio de Janeiro, v. 40, n. 5, p. 323-324. nov. 1948.

Download do PDF

Pdf sobre Jackson de Figueiredo

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Jackson, humanista integral

Por Silvio Elia*

Quando das comemorações na primeira década da morte do grande brasileiro fui honrado com um convite para participar do número desta revista [A Ordem] ao mesmo dedicado, e não pude imediatamente aceder.

As minhas dificuldades não eram de tempo, nem de inspiração, mas de preparo.

Foi a doze anos atrás que me surgiu aos olhos, pela primeira vez, o nome de Jackson de Figueiredo. Cursava eu o ginásio e já me ia afeiçoando com os nomes de nossos mais notáveis homens de letras, pois entremeava o estudo nos compêndios com leitura de jornais e revistas. Conhecia-os, portanto, através das crônicas de imprensa.

Lembro-me perfeitamente a surpresa que me causou a notícia da morte de um Jackson. É que o jornal a dera com grandes louvores à inteligência e à personalidade do morto. Tive então a impressão – mais tarde confirmada - que se tratava de um vulto singular, e admirei-me bastante de nunca lhe haver lido o nome em qualquer outro periódico.

Todavia, Jackson durante ainda algum tempo continuou a ser para mim um desconhecido. Só quando vim a me sentir atraído pelos escritos de Tristão de Atayde, então em plena campanha de combate ao mofado cientismo de tantos soi-disant valores da nossa intelectualidade, é que reencontrei o seu nome. Percebi que ele era agitado como a bandeira de luta e conseguia reunir em torno a si temperamentos os mais diversos.

Nessa época, iniciando o curso jurídico, eu me sentia revoltado contra o ambiente bolchevizado da nossa Faculdade, em que professores panfletários inoculavam vírus dissolventes nas inteligências jovens que acorriam a suas aulas. Em nome da libertação do proletariado, negava-se Deus (que atualmente os comunistas se apressam em “respeitar”...), solopavam-se as bases da família, favorecia-se a libertação dos piores instintos. E não havia quem se levantasse contra tamanha dissolução que Tristão de Atayde, cujo livros se sucediam demolidores e restauradores.

Foi nessa ocasião que li alguns livros de Jackson. Confesso que muito pouco me interessou. Não que desconhecesse valor, mas neles não encontrei elementos com que satisfizesse a minha vontade de acertar com idéias definitivas e rechaçar as idolatrias demoníacas do marxismo internacional, ou nacional. Era cedo demais para eu compreender a posição do bravo sergipano.

Hoje se passaram alguns anos. Nesse breve espaço de tempo as condições do mundo se transformaram profundamente. O fascismo tornou-se de “defensor” em perseguidor da Igreja. O comunismo político procura uma aliança com as democracias e volta a incensar a lírica liberdade dos tempos burgueses. E as chamadas grandes democracias aproveitam-se dos erros crassos dos totalitarismos, para identificar a sua causa com a da cultura e, por isso, tentaram uma recomposição, bastante suspeita, com a Igreja.

Pois bem: no mundo novo de hoje, tão diferente do de há três anos, a personalidade de Jackson se vinca com o mesmo fulgor e a mesma atração dos tempos em que vivia entre os homens.

É esse admirável fenômeno que hoje se vai explicando. Jackson foi, essencialmente um anti-burguês. Foi um perturbador realmente, um homem que veio falar à avestruz da tempestade, exatamente quando o satisfeito animal melhor se julgava protegido pela asa...

Ora, o burguês é apenas um aspecto desprezível da natureza humana que triunfou num dado momento histórico. Ele, porém, está sempre ao nosso lado, chamando-nos, enleando-nos, convencendo-nos. Não podemos, nem devemos ceder um momento sequer. Para isso é preciso reagir sempre, reagir com violência, com âmago da nossa personalidade. Porque o burguês é o homem epidérmico, das ilusões fáceis e dos prazeres grosseiros.

Daí a luta de Jackson consigo mesmo, com o “seu” burguês. Daí a sua força sobre os bem intencionados, sobre todos aqueles que sinceramente procuravam a verdade.

Por isso os seus livros nada têm de sistemático, quase diríamos de harmonioso. Jackson nunca foi um fazedor de idéias. É muito fácil e distrai bastante os intelectuais burgueses a criação de sistemas. Não conheço melhor exemplo, no domínio da mediania intelectual, que a doutrina espírita, onde fantasias mentais são tão abundantes, quanto indemonstráveis e satisfazem comodamente a necessidade de uma explicação final do universo. Haverá coisa mais incômoda que o diabo e o fogo eterno?

Jackson não expõe idéias em seus livros, mas põem problemas. E quem ainda não os tiver sentido dentro de si, inútil buscá-los nas páginas de suas obras. O homem livresco é exatamente aquele que “conhece” os problemas e as soluções propostas, por haver encontrado expostos em algum trabalho, mas não os sentiu realmente em si. E por isso não os compreende. E Jackson ou é compreendido, ou abandonado. Não pode provocar admirações no puro intelectual, nem alegria entre os amáveis.

Essas razões que dele me distanciam, no primeiro encontro. Nessa época eu não percebera ainda o meu “burguês”. Estávamos talvez ainda um pouco identificados demais... e, com certeza, dele ainda não os despojamos suficientemente. Do ponto de vista intelectual, o que me seduzia era exatamente as idéias, e não as situações. Para mim as ideais governam o mundo e a consciência modelava a existência.

Por isso, dizia eu a princípio, sentir-me fraco demais para escrever sobre Jackson, quando a isso me aludiram.

Ao ler posteriormente o número de “A Ordem” em homenagem ao inquieto analista de de Maistre, bem como as reveladoras cartas que dirigiu a Alceu Amoroso Lima, verifiquei quão justo fora o meu temor. Não era eu que precisava falar dos outros de Jackson, mas precisamente quem precisava ouvir falar de Jackson. E de fato, os artigos de Amoroso Lima, Barreto Filho, Hamilton Nogueira nos apresentaram o verdadeiro Jackson, o apaixonado da “vida”, o diretor de consciências.

Jackson, pelo contrário, só se satisfazia com a solução total. Coisa alguma lhe interessava se não se satisfazia com a solução total. Coisa alguma lhe interessava se não fosse apreciada “sub ratione aeternitatis”. Os objetos mais queridos pela beleza, pela graça ou pela riqueza, ele os abandonava sem saudade, nem tinha inveja de que os possuía. A si próprio, a que tanto amava, a ponto de ser tentado a constituir-se em chave do universo, desprezava enquanto ser contingente e votado ao desaparecimento. Só a alma, a salvação da alma o orientava nas suas decisões.

E nesse sentido é que Jackson era homem de ação. Não ainda “de ação” na algaravia ianque de “ativista”. Mas de ação real, isto é, incapaz de se mover sem se para deixar a marca indelével de sua passagem.

Nem se pode dizer que Jackson só pensava para agir. Isso diria um comteano, ou qualquer outro calinada. Para Jackson, o pensamento já era a própria ação, pensar era agir, era se identificar com uma situação e compreendê-la e, portanto, resolvê-la.

Essas pequeninas reflexões e ainda outras me vinham à mente ao perpassar a extraordinária correspondência do autor do “Aevum”. E eu pude então entender porque não me aproximara de Jackson, quando estudante de direito. A minha inveterada tendência para tudo resolver na tela das idéias puras, o meu semi-burguesismo mesmo me afastaram desse perturbador, desse inquieto contagioso, que não deixava incólume alma alguma que resvalasse pelo campo de suas infatigáveis análises.

Só a lição da vida, só as situações que ela nos cria, só a necessidade de vencê-las, isto é, de assimilá-las a nós sem nos deturpar, nos pode por em face com certas questões fundamentais, que encontramos em Jackson de Figueiredo.

Doze anos passados, a sua presença é uma realidade. Jackson de foi talvez a mais forte personalidade da história do Brasil independente. Ele é uma revelação de Deus e da Terra e um sinal de que no Brasil nada se fará em contrário à corrente cristã e ocidental, que ele veio encarnar.

*ELIA, Silvio. Jackson, humanista integral. A Ordem, Rio de Janeiro, v. 21, n. 2, 167-171, fev. 1941.


Baixe PDF aqui

Prefácio da obra São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino, de G.K. Chesterton.

Prefácio de  Joseph F. Girzone

É divertido observar uma criança brincando. As crianças vivem em seu mundinho próprio e o vêem como algo sério, dotado de muito sentido. Sorrimos para elas; As crianças conseguem aceitar nossos sorrisos. Se zombamos delas, porém, elas fogem de nós e não hesitam em se esconder. Como adultos, há muito perdemos a chave que abre as portas da beleza desse mundo infantil. Podemos observá-lo à distância, sentir a alegria e a atmosfera de aventura que fluem tão espontaneamente da imaginação da criança, mas já não podemos entrar nesse mundo. Nós o perdemos para sempre. Já estivemos nele um dia, mas, ao longo do caminho da vida, perdemos a chave para abrir as portas desse mundo.
Poderíamos ser tentados a considerar o mundo da criança como um mundo de faz-de-conta. Mas seria um erro. É faz-de-conta para nós, que descobrimos este outro mundo que não ousamos chamar de faz-de-conta. O mundo infantil assim como nosso mundo doentio para nós, nada tem de fantasia para a criança.
Quando examinamos a vida dos santos, deparamos esse mesmo fenômeno. A vida deles parece quase ficção, faz-de-conta, e não realidade. Dizemos que são sonhadores. Ou psicóticos. Atribuímos a eles uma série de nomes, pois somos incapazes de perceber o significado ou a relevância de suas ações para nosso mundo de faz-de-conta. Fazemos estátuas de São Francisco e rezamos sua Oração pela Paz. Nosso mundo assustado se apega desesperadamente à sua lembrança, numa frenética tentativa de proteger o meio ambiente da poluição; mas não o levamos a sério. Apenas o adotamos como sinal de estimação ou mascote, sem entender o verdadeiro sentido de sua vida.

Ler sobre a vida de Francisco nos relatos da maioria dos biógrafos é como ler uma série de episódios quase tão estranhos como os que vemos em Os caçadores da arca perdida ou num filme de James Bond. A história de Francisco é curiosa, mas não é para ser levada a sério,  e se – Deus não o permita! – um dos nossos filhos começasse a fazer algumas das coisas que ele fez, nós certamente levaríamos a criança aos gritos, não ao bispo, como fez o pai de Francisco, mas a um psiquiatra, algo desconhecido da época.

O notável gênio de G. K. Chesterton, nesta pequena biografia de São Francisco, reside em ter encontrado a chave para entrar no mundo aparentemente de faz-de-conta do santo, permitindo que o leitor compreendesse a lógica subjacente à resposta que Deus pôde dar a um homem que O levou a sério, tocando sua vida com uma magia proveniente de um outro mundo real.

Nesta pequena história, São Franscisco não é um sonhador. Ele via o mundo tal como era de fato em sua época, um mundo que, embora professasse a crença em Deus, zombava d’Ele na vida cotidiana. Francisco encontrou Deus e por acaso se apaixonou por Ele. Com isso, pode ver o mundo tal como Deus o via, passando a zombar desse mundo e de todo o absurdo que havia nele. Assim, pode aproveitar ao máximo o seu todo o absurdo que havia nele. Assim, pôde aproveitar ao máximo o seu papel de jongluer (malabarista) de Deus, procurando levar os filhos de Deus a compreender realmente o que significa ser filho de Deus. 

Não destruamos as coisas divinas ou as seculares

A revista “The Chesterton Review” de maio de 1992 republicou um ensaio de G. K. Chesterton chamado “As raízes do mundo” (The Roots of the World). Esse ensaio foi originalmente publicado no “The Daily News”, em Londres, no dia 17 de agosto de 1907. Nesse mesmo período Chesterton estava escrevendo sua obra “Ortodoxia” (Orthodoxy), que foi publicada em 1908.

O ensaio começa com uma espécie de parábola. Padre Ian Boyd CSB, em sua breve introdução ao texto na “The Chesterton Review”, observa que esse foi um ensaio muito famoso e que Chesterton costumava usar tais parábolas “como forma de ensinar verdades morais”. Suspeito que ele as usava também como um modo de ensinar as verdades metafísicas em que se baseiam as verdades morais.

Em suma, Chesterton discorria sobre a conexão existente em todo o universo, desde as coisas mais elevadas até as coisas mais inferiores. O que não podemos fazer é mudar Deus, mas, caso tentemos transformar Deus em algo que ele não é, acabaremos por mudar a nós mesmos ou a mudar o mundo. Isso quer dizer que a lógica da mudança de uma coisa irá, necessariamente, resultar na mudança de outra coisa no mundo. Se pensarmos Deus de modo incorreto, pensaremos incorretamente o homem.

A estória é um modo novo de narrar a queda do homem do Paraíso, descrita no livro do Gênese. Há um jardim onde cresce uma estranha flor em forma de estrela e um menininho que está proibido de arrancar as plantas. Ele pode tirar as flores, mas não arrancar as plantas pela raiz.

Naturalmente, o menino, um reflexo do jovem Agostinho, quer algo mais nesse mundo do que arrancar a flor com raiz e tudo. Os mais velhos dão a ele inúmeras razões, não muito boas, para não arrancar a planta. Mas o menino tem um motivo “bobo” para querer arrancar a planta pela raiz, independente de qualquer argumentação. Ele explica que “a verdade exige que eu deva arrancar a coisa pela raiz para ver como ela está crescendo”.

Os pais e professores do menino nunca lhe disseram o verdadeiro motivo dessa proibição, ou seja, o fato de que ao arrancar a planta pela raiz, ele “mataria a planta e nada é mais verdadeiro numa planta morta do que a planta viva”. Em outras palavras, teria ajudado muito se os pais dessem ao menino uma razão precisa para a proibição, mas mesmo que não o fizessem, a proibição permanecia. Já que a planta morta não iria revelar a verdade sobre si mesma, o menino arriscou-se ao castigo por violar a proibição e correu o risco de perder a própria verdade, que não poderia ser descoberta por outro método.

Parece que, numa noite escura, o menino se esgueirou pelo jardim e começou a arrancar a planta pela raiz. De repente, coisas estranhas começaram a acontecer. Primeiro, o menino não conseguia arrancar a planta. Mas enquanto puxava, a grande chaminé de sua casa caiu. Ele puxou novamente e o estábulo caiu. Gritos de agonia começaram a ser ouvidos. O próprio castelo onde morava ruiu. Esse caos pareceu atemorizar o menino, mas ele cuidou de não dizer nada sobre o estranho incidente com a flor. Ele ainda não queria obedecer a proibição.

O menino cresceu e decidiu tentar arrancar a planta novamente. Agora ele era um político e o governante local. Ele se cercou de um grupo de homens fortes e proclamou: “Vamos decifrar o mistério dessa erva daninha irracional”. Então, começou a puxar a planta com grande força. De repente, caíram a torre Eiffel, a muralha da China e a estátua da liberdade. “A Catedral de St. Paul matou todos os jornalistas na Fleet Street”. O governante lembrou-se da primeira experiência no jardim.

Nas várias tentativas, os homens fortes conseguiram derrubar metade dos prédios do país do governante, mas, ainda assim, não puderam arrancar as raízes da planta. Finalmente, o governante desistiu de seu projeto, ficando bastante frustrado. No entanto, chamou seus pastores e mestres. Ele os culpava por não lhe dizerem que não poderia tirar a raiz daquela planta, e que, caso tentasse, destruiria tudo ao seu redor. Tudo o que os sábios o disseram foi que não fizesse aquilo. Agora o governante via os resultados, mas não admitia sua responsabilidade.

Essa parábola, é claro, trata do cristianismo e das tentativas dos homens secularizados em se livrarem dele. Ao atacar a religião, os defensores do secularismo acabaram, não por eliminar a religião, mas conseguirar arrancar as raízes “da vinha e da figueira, de todos os jardins, de cada homem comum”. De certo modo há uma conexão entre religião e a vida do dia-a-dia.

Somos advertidos sobre a existência dessa relação e conseguimos obter algumas razões mal fundamentadas. Caso ponhamos em dúvida o erro ou acerto dessas razões, o que poderemos fazer é seguir adiante e tentar tirar as raízes da religião, acabando, nessa tentativa, por destruir o próprio coração da vida civilizada. Não pretendemos esse resultado, mas é o que acaba por acontecer. “Os secularistas não foram bem-sucedidos em destruir as coisas divinas, mas tiveram sucesso em destruir as coisas seculares”.

Os “inimigos da religião”, concluiu Chesterton, são como o menininho. Eles não podem deixá-la quieta. É uma espécie de fruto proibido, um desafio à autonomia deles. Eles vêem todas as proibições como meramente arbitrárias, como “algo violento”, não como algo razoável. Não podem acreditar que as desordens derivam das intromissões nas proibições solenes. “Eles diligentemente tentam estraçalhar a religião. Não podem arruinar a religião, mas conseguem destruir todo o resto”.

Mas, por que eles não conseguem destruir a religião? Os secularistas e os que se opõem à religião não podem tocar em seus axiomas, que são dogmas inteligíveis. Os axiomas permanecem como são, não importantdo o que aconteça no mundo. Ao não possuir as doutrinas da fé, eles necessariamente se comprometem com outras doutrinas. Defender que o homem não é feito à imagem de seu criador é tão dogmático quanto defender que ele o é.

Chesterton deu dois exemplos, o caso do pacifista e o do evolucionista. O pacifismo é uma doutrina sobre a coerção. O resultado disso é uma alternativa “intolerável e ridícula” onde “não devo culpar um rufião, nem elogiar o homem que o golpeia”. A teoria tem conseqüências estranhas.

Por causa das inúmeras gradações na natureza, sobre a qual está baseada a teoria evolucionista, não podemos, segundo ela, ser forçados a “negar a personalidade de Deus, pois um Deus pessoal também pode trabalhar com gradações, como de qualquer outro modo”. Então, permanece a teoria. No entanto, o que o evolucionista faz, se a teoria for levada ao pé da letra, não é negar a personalidade em Deus, mas negá-la, por exemplo, em João.

Se a evolução é verdadeira, João está contido nela. Ou seja, ele é ele mesmo, mas está constantemente “aparando as arestas”. Ele está, nesse exato momento, evoluindo e se transformando em algo diferente. Se tudo está em evolução, até nós mesmos, até mesmo o João, então, nessa mesma lógica, nós não somos realmente nós mesmos. O que por fim deve ser negada não é a personalidade em Deus, mas “a existência de um Sr. João individual”.

Se queremos que o João exista como João, então ele não deve estar, nem mesmo de leve, num processo de se transformar no Sr. Silva, ou em alguma espécie superior. A antiga religião quer que o João permaneça João. Se tentarmos arrancar as raízes dessa doutrina da religião, não terminaremos por eliminar a doutrina de que João é João, mas nos forçaremos a olhar para ele como “não-João”. No caso evolucionário, nessa lógica, o mundo está cheio de coisas, onde incluimos o João, que não são, realmente, elas mesmas.

Portanto não podemos, em verdade, destruir as coisas divinas, mas certamente podemos destruir as coisas humanas. Se observarmos as coisas humanas e seculares sendo destruídas, devemos começar a suspeitar de que estamos violando algumas proibições. Devemos suspeitar de que se arrancarmos determinada flor, iremos arrancar o mundo. Também não devemos esquecer de que as proibições estão, da mesma forma, enraizadas na verdade que o menininho estava buscando. A verdade é que ele não poderia conhecer a verdadeira realidade da flor se a matasse, arrancando-a do solo. A proibição teria salvado o mundo. A razão poderia ter salvado a flor.

Nas raízes do mundo repousa, incomodamente, a vontade que quer somente a sua própria verdade. As proibições nos dizem que há um mundo que nós, e o João, queremos, mesmo que não seja o mundo que estamos construindo. A flor já estava lá. João já era João. Os Mandamentos, as proibições, foram projetados para manter os dois. Mesmo se demolirmos todo o mundo, não acharemos nossa verdade, mas somente a Verdade. Há somente uma teoria, até onde sei, que permite João ser João. Essa teoria ainda é chamada cristianismo. Creio que esse é o sentido da parábola de Chesterton sobre as raízes do mundo.

Padre James V. Schall SJ
Tradução de Márcia Xavier de Brito

fonte: CIEEP

Receba nossas atualizações