quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Pdf sobre Jackson de Figueiredo

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Jackson, humanista integral

Por Silvio Elia*

Quando das comemorações na primeira década da morte do grande brasileiro fui honrado com um convite para participar do número desta revista [A Ordem] ao mesmo dedicado, e não pude imediatamente aceder.

As minhas dificuldades não eram de tempo, nem de inspiração, mas de preparo.

Foi a doze anos atrás que me surgiu aos olhos, pela primeira vez, o nome de Jackson de Figueiredo. Cursava eu o ginásio e já me ia afeiçoando com os nomes de nossos mais notáveis homens de letras, pois entremeava o estudo nos compêndios com leitura de jornais e revistas. Conhecia-os, portanto, através das crônicas de imprensa.

Lembro-me perfeitamente a surpresa que me causou a notícia da morte de um Jackson. É que o jornal a dera com grandes louvores à inteligência e à personalidade do morto. Tive então a impressão – mais tarde confirmada - que se tratava de um vulto singular, e admirei-me bastante de nunca lhe haver lido o nome em qualquer outro periódico.

Todavia, Jackson durante ainda algum tempo continuou a ser para mim um desconhecido. Só quando vim a me sentir atraído pelos escritos de Tristão de Atayde, então em plena campanha de combate ao mofado cientismo de tantos soi-disant valores da nossa intelectualidade, é que reencontrei o seu nome. Percebi que ele era agitado como a bandeira de luta e conseguia reunir em torno a si temperamentos os mais diversos.

Nessa época, iniciando o curso jurídico, eu me sentia revoltado contra o ambiente bolchevizado da nossa Faculdade, em que professores panfletários inoculavam vírus dissolventes nas inteligências jovens que acorriam a suas aulas. Em nome da libertação do proletariado, negava-se Deus (que atualmente os comunistas se apressam em “respeitar”...), solopavam-se as bases da família, favorecia-se a libertação dos piores instintos. E não havia quem se levantasse contra tamanha dissolução que Tristão de Atayde, cujo livros se sucediam demolidores e restauradores.

Foi nessa ocasião que li alguns livros de Jackson. Confesso que muito pouco me interessou. Não que desconhecesse valor, mas neles não encontrei elementos com que satisfizesse a minha vontade de acertar com idéias definitivas e rechaçar as idolatrias demoníacas do marxismo internacional, ou nacional. Era cedo demais para eu compreender a posição do bravo sergipano.

Hoje se passaram alguns anos. Nesse breve espaço de tempo as condições do mundo se transformaram profundamente. O fascismo tornou-se de “defensor” em perseguidor da Igreja. O comunismo político procura uma aliança com as democracias e volta a incensar a lírica liberdade dos tempos burgueses. E as chamadas grandes democracias aproveitam-se dos erros crassos dos totalitarismos, para identificar a sua causa com a da cultura e, por isso, tentaram uma recomposição, bastante suspeita, com a Igreja.

Pois bem: no mundo novo de hoje, tão diferente do de há três anos, a personalidade de Jackson se vinca com o mesmo fulgor e a mesma atração dos tempos em que vivia entre os homens.

É esse admirável fenômeno que hoje se vai explicando. Jackson foi, essencialmente um anti-burguês. Foi um perturbador realmente, um homem que veio falar à avestruz da tempestade, exatamente quando o satisfeito animal melhor se julgava protegido pela asa...

Ora, o burguês é apenas um aspecto desprezível da natureza humana que triunfou num dado momento histórico. Ele, porém, está sempre ao nosso lado, chamando-nos, enleando-nos, convencendo-nos. Não podemos, nem devemos ceder um momento sequer. Para isso é preciso reagir sempre, reagir com violência, com âmago da nossa personalidade. Porque o burguês é o homem epidérmico, das ilusões fáceis e dos prazeres grosseiros.

Daí a luta de Jackson consigo mesmo, com o “seu” burguês. Daí a sua força sobre os bem intencionados, sobre todos aqueles que sinceramente procuravam a verdade.

Por isso os seus livros nada têm de sistemático, quase diríamos de harmonioso. Jackson nunca foi um fazedor de idéias. É muito fácil e distrai bastante os intelectuais burgueses a criação de sistemas. Não conheço melhor exemplo, no domínio da mediania intelectual, que a doutrina espírita, onde fantasias mentais são tão abundantes, quanto indemonstráveis e satisfazem comodamente a necessidade de uma explicação final do universo. Haverá coisa mais incômoda que o diabo e o fogo eterno?

Jackson não expõe idéias em seus livros, mas põem problemas. E quem ainda não os tiver sentido dentro de si, inútil buscá-los nas páginas de suas obras. O homem livresco é exatamente aquele que “conhece” os problemas e as soluções propostas, por haver encontrado expostos em algum trabalho, mas não os sentiu realmente em si. E por isso não os compreende. E Jackson ou é compreendido, ou abandonado. Não pode provocar admirações no puro intelectual, nem alegria entre os amáveis.

Essas razões que dele me distanciam, no primeiro encontro. Nessa época eu não percebera ainda o meu “burguês”. Estávamos talvez ainda um pouco identificados demais... e, com certeza, dele ainda não os despojamos suficientemente. Do ponto de vista intelectual, o que me seduzia era exatamente as idéias, e não as situações. Para mim as ideais governam o mundo e a consciência modelava a existência.

Por isso, dizia eu a princípio, sentir-me fraco demais para escrever sobre Jackson, quando a isso me aludiram.

Ao ler posteriormente o número de “A Ordem” em homenagem ao inquieto analista de de Maistre, bem como as reveladoras cartas que dirigiu a Alceu Amoroso Lima, verifiquei quão justo fora o meu temor. Não era eu que precisava falar dos outros de Jackson, mas precisamente quem precisava ouvir falar de Jackson. E de fato, os artigos de Amoroso Lima, Barreto Filho, Hamilton Nogueira nos apresentaram o verdadeiro Jackson, o apaixonado da “vida”, o diretor de consciências.

Jackson, pelo contrário, só se satisfazia com a solução total. Coisa alguma lhe interessava se não se satisfazia com a solução total. Coisa alguma lhe interessava se não fosse apreciada “sub ratione aeternitatis”. Os objetos mais queridos pela beleza, pela graça ou pela riqueza, ele os abandonava sem saudade, nem tinha inveja de que os possuía. A si próprio, a que tanto amava, a ponto de ser tentado a constituir-se em chave do universo, desprezava enquanto ser contingente e votado ao desaparecimento. Só a alma, a salvação da alma o orientava nas suas decisões.

E nesse sentido é que Jackson era homem de ação. Não ainda “de ação” na algaravia ianque de “ativista”. Mas de ação real, isto é, incapaz de se mover sem se para deixar a marca indelével de sua passagem.

Nem se pode dizer que Jackson só pensava para agir. Isso diria um comteano, ou qualquer outro calinada. Para Jackson, o pensamento já era a própria ação, pensar era agir, era se identificar com uma situação e compreendê-la e, portanto, resolvê-la.

Essas pequeninas reflexões e ainda outras me vinham à mente ao perpassar a extraordinária correspondência do autor do “Aevum”. E eu pude então entender porque não me aproximara de Jackson, quando estudante de direito. A minha inveterada tendência para tudo resolver na tela das idéias puras, o meu semi-burguesismo mesmo me afastaram desse perturbador, desse inquieto contagioso, que não deixava incólume alma alguma que resvalasse pelo campo de suas infatigáveis análises.

Só a lição da vida, só as situações que ela nos cria, só a necessidade de vencê-las, isto é, de assimilá-las a nós sem nos deturpar, nos pode por em face com certas questões fundamentais, que encontramos em Jackson de Figueiredo.

Doze anos passados, a sua presença é uma realidade. Jackson de foi talvez a mais forte personalidade da história do Brasil independente. Ele é uma revelação de Deus e da Terra e um sinal de que no Brasil nada se fará em contrário à corrente cristã e ocidental, que ele veio encarnar.

*ELIA, Silvio. Jackson, humanista integral. A Ordem, Rio de Janeiro, v. 21, n. 2, 167-171, fev. 1941.


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Prefácio da obra São Francisco de Assis e São Tomás de Aquino, de G.K. Chesterton.

Prefácio de  Joseph F. Girzone

É divertido observar uma criança brincando. As crianças vivem em seu mundinho próprio e o vêem como algo sério, dotado de muito sentido. Sorrimos para elas; As crianças conseguem aceitar nossos sorrisos. Se zombamos delas, porém, elas fogem de nós e não hesitam em se esconder. Como adultos, há muito perdemos a chave que abre as portas da beleza desse mundo infantil. Podemos observá-lo à distância, sentir a alegria e a atmosfera de aventura que fluem tão espontaneamente da imaginação da criança, mas já não podemos entrar nesse mundo. Nós o perdemos para sempre. Já estivemos nele um dia, mas, ao longo do caminho da vida, perdemos a chave para abrir as portas desse mundo.
Poderíamos ser tentados a considerar o mundo da criança como um mundo de faz-de-conta. Mas seria um erro. É faz-de-conta para nós, que descobrimos este outro mundo que não ousamos chamar de faz-de-conta. O mundo infantil assim como nosso mundo doentio para nós, nada tem de fantasia para a criança.
Quando examinamos a vida dos santos, deparamos esse mesmo fenômeno. A vida deles parece quase ficção, faz-de-conta, e não realidade. Dizemos que são sonhadores. Ou psicóticos. Atribuímos a eles uma série de nomes, pois somos incapazes de perceber o significado ou a relevância de suas ações para nosso mundo de faz-de-conta. Fazemos estátuas de São Francisco e rezamos sua Oração pela Paz. Nosso mundo assustado se apega desesperadamente à sua lembrança, numa frenética tentativa de proteger o meio ambiente da poluição; mas não o levamos a sério. Apenas o adotamos como sinal de estimação ou mascote, sem entender o verdadeiro sentido de sua vida.

Ler sobre a vida de Francisco nos relatos da maioria dos biógrafos é como ler uma série de episódios quase tão estranhos como os que vemos em Os caçadores da arca perdida ou num filme de James Bond. A história de Francisco é curiosa, mas não é para ser levada a sério,  e se – Deus não o permita! – um dos nossos filhos começasse a fazer algumas das coisas que ele fez, nós certamente levaríamos a criança aos gritos, não ao bispo, como fez o pai de Francisco, mas a um psiquiatra, algo desconhecido da época.

O notável gênio de G. K. Chesterton, nesta pequena biografia de São Francisco, reside em ter encontrado a chave para entrar no mundo aparentemente de faz-de-conta do santo, permitindo que o leitor compreendesse a lógica subjacente à resposta que Deus pôde dar a um homem que O levou a sério, tocando sua vida com uma magia proveniente de um outro mundo real.

Nesta pequena história, São Franscisco não é um sonhador. Ele via o mundo tal como era de fato em sua época, um mundo que, embora professasse a crença em Deus, zombava d’Ele na vida cotidiana. Francisco encontrou Deus e por acaso se apaixonou por Ele. Com isso, pode ver o mundo tal como Deus o via, passando a zombar desse mundo e de todo o absurdo que havia nele. Assim, pode aproveitar ao máximo o seu todo o absurdo que havia nele. Assim, pôde aproveitar ao máximo o seu papel de jongluer (malabarista) de Deus, procurando levar os filhos de Deus a compreender realmente o que significa ser filho de Deus. 

Não destruamos as coisas divinas ou as seculares

A revista “The Chesterton Review” de maio de 1992 republicou um ensaio de G. K. Chesterton chamado “As raízes do mundo” (The Roots of the World). Esse ensaio foi originalmente publicado no “The Daily News”, em Londres, no dia 17 de agosto de 1907. Nesse mesmo período Chesterton estava escrevendo sua obra “Ortodoxia” (Orthodoxy), que foi publicada em 1908.

O ensaio começa com uma espécie de parábola. Padre Ian Boyd CSB, em sua breve introdução ao texto na “The Chesterton Review”, observa que esse foi um ensaio muito famoso e que Chesterton costumava usar tais parábolas “como forma de ensinar verdades morais”. Suspeito que ele as usava também como um modo de ensinar as verdades metafísicas em que se baseiam as verdades morais.

Em suma, Chesterton discorria sobre a conexão existente em todo o universo, desde as coisas mais elevadas até as coisas mais inferiores. O que não podemos fazer é mudar Deus, mas, caso tentemos transformar Deus em algo que ele não é, acabaremos por mudar a nós mesmos ou a mudar o mundo. Isso quer dizer que a lógica da mudança de uma coisa irá, necessariamente, resultar na mudança de outra coisa no mundo. Se pensarmos Deus de modo incorreto, pensaremos incorretamente o homem.

A estória é um modo novo de narrar a queda do homem do Paraíso, descrita no livro do Gênese. Há um jardim onde cresce uma estranha flor em forma de estrela e um menininho que está proibido de arrancar as plantas. Ele pode tirar as flores, mas não arrancar as plantas pela raiz.

Naturalmente, o menino, um reflexo do jovem Agostinho, quer algo mais nesse mundo do que arrancar a flor com raiz e tudo. Os mais velhos dão a ele inúmeras razões, não muito boas, para não arrancar a planta. Mas o menino tem um motivo “bobo” para querer arrancar a planta pela raiz, independente de qualquer argumentação. Ele explica que “a verdade exige que eu deva arrancar a coisa pela raiz para ver como ela está crescendo”.

Os pais e professores do menino nunca lhe disseram o verdadeiro motivo dessa proibição, ou seja, o fato de que ao arrancar a planta pela raiz, ele “mataria a planta e nada é mais verdadeiro numa planta morta do que a planta viva”. Em outras palavras, teria ajudado muito se os pais dessem ao menino uma razão precisa para a proibição, mas mesmo que não o fizessem, a proibição permanecia. Já que a planta morta não iria revelar a verdade sobre si mesma, o menino arriscou-se ao castigo por violar a proibição e correu o risco de perder a própria verdade, que não poderia ser descoberta por outro método.

Parece que, numa noite escura, o menino se esgueirou pelo jardim e começou a arrancar a planta pela raiz. De repente, coisas estranhas começaram a acontecer. Primeiro, o menino não conseguia arrancar a planta. Mas enquanto puxava, a grande chaminé de sua casa caiu. Ele puxou novamente e o estábulo caiu. Gritos de agonia começaram a ser ouvidos. O próprio castelo onde morava ruiu. Esse caos pareceu atemorizar o menino, mas ele cuidou de não dizer nada sobre o estranho incidente com a flor. Ele ainda não queria obedecer a proibição.

O menino cresceu e decidiu tentar arrancar a planta novamente. Agora ele era um político e o governante local. Ele se cercou de um grupo de homens fortes e proclamou: “Vamos decifrar o mistério dessa erva daninha irracional”. Então, começou a puxar a planta com grande força. De repente, caíram a torre Eiffel, a muralha da China e a estátua da liberdade. “A Catedral de St. Paul matou todos os jornalistas na Fleet Street”. O governante lembrou-se da primeira experiência no jardim.

Nas várias tentativas, os homens fortes conseguiram derrubar metade dos prédios do país do governante, mas, ainda assim, não puderam arrancar as raízes da planta. Finalmente, o governante desistiu de seu projeto, ficando bastante frustrado. No entanto, chamou seus pastores e mestres. Ele os culpava por não lhe dizerem que não poderia tirar a raiz daquela planta, e que, caso tentasse, destruiria tudo ao seu redor. Tudo o que os sábios o disseram foi que não fizesse aquilo. Agora o governante via os resultados, mas não admitia sua responsabilidade.

Essa parábola, é claro, trata do cristianismo e das tentativas dos homens secularizados em se livrarem dele. Ao atacar a religião, os defensores do secularismo acabaram, não por eliminar a religião, mas conseguirar arrancar as raízes “da vinha e da figueira, de todos os jardins, de cada homem comum”. De certo modo há uma conexão entre religião e a vida do dia-a-dia.

Somos advertidos sobre a existência dessa relação e conseguimos obter algumas razões mal fundamentadas. Caso ponhamos em dúvida o erro ou acerto dessas razões, o que poderemos fazer é seguir adiante e tentar tirar as raízes da religião, acabando, nessa tentativa, por destruir o próprio coração da vida civilizada. Não pretendemos esse resultado, mas é o que acaba por acontecer. “Os secularistas não foram bem-sucedidos em destruir as coisas divinas, mas tiveram sucesso em destruir as coisas seculares”.

Os “inimigos da religião”, concluiu Chesterton, são como o menininho. Eles não podem deixá-la quieta. É uma espécie de fruto proibido, um desafio à autonomia deles. Eles vêem todas as proibições como meramente arbitrárias, como “algo violento”, não como algo razoável. Não podem acreditar que as desordens derivam das intromissões nas proibições solenes. “Eles diligentemente tentam estraçalhar a religião. Não podem arruinar a religião, mas conseguem destruir todo o resto”.

Mas, por que eles não conseguem destruir a religião? Os secularistas e os que se opõem à religião não podem tocar em seus axiomas, que são dogmas inteligíveis. Os axiomas permanecem como são, não importantdo o que aconteça no mundo. Ao não possuir as doutrinas da fé, eles necessariamente se comprometem com outras doutrinas. Defender que o homem não é feito à imagem de seu criador é tão dogmático quanto defender que ele o é.

Chesterton deu dois exemplos, o caso do pacifista e o do evolucionista. O pacifismo é uma doutrina sobre a coerção. O resultado disso é uma alternativa “intolerável e ridícula” onde “não devo culpar um rufião, nem elogiar o homem que o golpeia”. A teoria tem conseqüências estranhas.

Por causa das inúmeras gradações na natureza, sobre a qual está baseada a teoria evolucionista, não podemos, segundo ela, ser forçados a “negar a personalidade de Deus, pois um Deus pessoal também pode trabalhar com gradações, como de qualquer outro modo”. Então, permanece a teoria. No entanto, o que o evolucionista faz, se a teoria for levada ao pé da letra, não é negar a personalidade em Deus, mas negá-la, por exemplo, em João.

Se a evolução é verdadeira, João está contido nela. Ou seja, ele é ele mesmo, mas está constantemente “aparando as arestas”. Ele está, nesse exato momento, evoluindo e se transformando em algo diferente. Se tudo está em evolução, até nós mesmos, até mesmo o João, então, nessa mesma lógica, nós não somos realmente nós mesmos. O que por fim deve ser negada não é a personalidade em Deus, mas “a existência de um Sr. João individual”.

Se queremos que o João exista como João, então ele não deve estar, nem mesmo de leve, num processo de se transformar no Sr. Silva, ou em alguma espécie superior. A antiga religião quer que o João permaneça João. Se tentarmos arrancar as raízes dessa doutrina da religião, não terminaremos por eliminar a doutrina de que João é João, mas nos forçaremos a olhar para ele como “não-João”. No caso evolucionário, nessa lógica, o mundo está cheio de coisas, onde incluimos o João, que não são, realmente, elas mesmas.

Portanto não podemos, em verdade, destruir as coisas divinas, mas certamente podemos destruir as coisas humanas. Se observarmos as coisas humanas e seculares sendo destruídas, devemos começar a suspeitar de que estamos violando algumas proibições. Devemos suspeitar de que se arrancarmos determinada flor, iremos arrancar o mundo. Também não devemos esquecer de que as proibições estão, da mesma forma, enraizadas na verdade que o menininho estava buscando. A verdade é que ele não poderia conhecer a verdadeira realidade da flor se a matasse, arrancando-a do solo. A proibição teria salvado o mundo. A razão poderia ter salvado a flor.

Nas raízes do mundo repousa, incomodamente, a vontade que quer somente a sua própria verdade. As proibições nos dizem que há um mundo que nós, e o João, queremos, mesmo que não seja o mundo que estamos construindo. A flor já estava lá. João já era João. Os Mandamentos, as proibições, foram projetados para manter os dois. Mesmo se demolirmos todo o mundo, não acharemos nossa verdade, mas somente a Verdade. Há somente uma teoria, até onde sei, que permite João ser João. Essa teoria ainda é chamada cristianismo. Creio que esse é o sentido da parábola de Chesterton sobre as raízes do mundo.

Padre James V. Schall SJ
Tradução de Márcia Xavier de Brito

fonte: CIEEP

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Atualidade de Jackson de Figueiredo

Atualidade de Jackson de Figueiredo

Hamilton Nogueira*


Há trinta anos, no dia 4 de novembro, falecia tragicamente Jackson de Figueiredo. Lembro-me ainda das palavras de D. Sebastião Leme ao tomar conhecimento da morte do seu grande amigo: “foi um herói cristão”.

Sim, Jackson de Figueiredo foi um herói cristão. Foi um herói ma sua árdua luta contra o farisaísmo católico, na sua renúncia ao conforto, na sua dedicação à causa que abraçou com entusiasmo – a recristianização da inteligência brasileira.

Para a realização do seu objetivo fundou esta revista [A Ordem] , em 1921, e no ano seguinte o Centro D. Vital.

Autodidata, escreveu aos vinte anos as suas “Reflexões sobre a Filosofia de Farias Brito”, obra única no Brasil pelo vigor de expressão e pela audácia do pensamento.
A importância desse livro de Jackson de Figueiredo foi assinalada na época em que foi publicado por Nestor Victor. O ilustre crítico paranaense pressentiu na confissão espiritualista do jovem escrito, o cristão autêntico que iria mais tarde iniciar no Brasil a renovação do pensamento católico.

Uma leitura meditada das obras de Jackson de Figueiredo mostra-nos a identidade das suas idéias com as idéias das correntes filosóficas mais atuais nesta hora incerta e amarga que o mundo atravessa.

Jackson foi, sem saber um dos precursores, no Brasil, da filosofia existencial. Não tendo conhecido Kierkegaard, a sua obra, no entanto, está no plano kierkegaardiano. Nela, sobretudo nas “Reflexões sobre Filosofia de Farias Brito” e em “Pascal e a Inquietação Moderna” verifica-se que o pensamento da vida é dominado pelo primado da vida realmente vivida.

No seu diário íntimo encontra-se esta expressão: “a vida é mais forte que a mais forte das filosofias”.

Daí, a atração que sentiu por Pascal, em cuja angústia ele via um símbolo do mundo moderno. Pascal e Farias Brito libertaram o pensamento do jovem sergipano da influência de Nietzsche, e mais tarde o seu encontro com o tomismo foi uma nova fonte de renascimento espiritual. Entretanto, o que mais o seduzia no Doutor Angélico era a nota de humana ternura que ressalta a cada momento na “Suma Teológica". Dos comentadores modernos de São Tomás o Padre Pierre Rosselot era o mais apreciado por ele. “O intelectualismo de S. Tomás“, do jovem jesuíta morto na guerra de 1914, era lido e relido por ele. Não se cansava de ler para os seus companheiros do Centro D. Vital esta página de Rousselot: “Le XVII e. siécle, qui n’a guère compris La metaphysique thomiste, apréciait davantage lês parties Morales de a Somme. Mais qui fera sentir à nos contemporains ce gout de ardent, cette tendresse grave, forte, presque infinie pour l’humanité, qui s’exhale de toutes lês pages Du Docteur angélique? Qui leur fera sentir que sous lês formues limpides, nettes concises, pleines de sens, palpite de um enthousiasme passioné pour ce qu’un autre penseur catholique appelait “La splendide nature humaine?” palpiter, c’est terme qui signifiat, de tensité extreme de l’amour sans rien suggérer d’inquiet, de qui eb voile La vivacitpe aux yeux i nattentifs. Onde se plaint quelquefois de be pás retrouver dans lês questions Morales de La Somme se qu’on pourrait appeles l’odeur humain de l’Ethique à Nicomaque. Auprès d’Aristote si concret, si vécu, realiste, l’on este tente de juger Saint Thomas pâle et abstrait. Mais à mesure qu’on se familiarise, L’on sent cette impression s’évanouir. Lês expressions lês plus courantes (bonun conversationis humanae, pax multitudines, recta civium ordinatio) s’illuminent dans Lensemble de La pensée thomiste, et ouvrent dês perpectives inteligibles infinies.”

No plano religioso Jackson de Figueiredo foi essencialmente um homem de ação, um soldado de Cristo. Repugnava-lhe o indiferentismo religioso, o catolicismo amorfo e sem vida. Daí seu entusiasmo por D. EME e por D. Vital. “Coluna de Fogo” e “Afirmações” expressam o seu horror à confusão ou a “extralimitação das coisas no mundo moral”, como costumava dizer. Havia necessidade de distinções e de definições. Como kierkegaard era uma “espécie de policial da eternidade.” O catolicismo, para ele é vida, e testemunho. Não suportava qualquer espécie de hipocrisia. Para ele, maior valor tinha um positivista convicto e sincero do que um católico fazendo concessões ao erro. Deixou-nos há trinta anos, em plena mocidade. Parece que foi ontem. Os seus olhos claros, que deixavam transparecer a luminosidade da sua grande alma, continuam a contemplar-nos.

A obra que iniciou foi continuada pelos seus amigos. A sua memória perdura em quantos o conheceram e amavam. As suas idéias e o seu exemplo fizeram crescer o rebanho do Senhor.


*NOGUEIRA, Hamilton. Atualidade de Jackson de Figueiredo. A Ordem, Rio de Janeiro, v. 60, n. 5, p. 337-339, nov. 1958.


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Ode a Jackson de Figueiredo


Jackson de FIgueiredo - revista A Ordem, vol. LVI, n. 5, 1956




ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO

Carlos Drummond de Andrade*
Belo Horizonte, 1929
Jackson
nem amigo nem inimigo,
nem mesmo (o que seria cômodo) espectador displicente na sua [poltrona

espiando teus gestos, tuas palavras e obras,
mas distante, extraordinariamente distante daquilo que foi a tua vida,
mais distante ainda dos mundos que explorastes, viajante inquieto, sem tempo para esgotá-los, e só te conhecendo bem depois que abriste os braços para morrer,
aqui estou, testemunha depondo.

Jackson,
os que te conheceram e te amaram
os que te conheceram e não te amaram
os que não tiveram tempo de te amar,
os que não cruzaram no teu destino, os que ignoram o teu nome, os que jamais saberão que exististes, estão todos um pouco mais pobres do que eram antes.

Uns perderam o amigo.
Outros , o inimigo, o grande e belo inimigo que orgulha.
Outros nada perderam, e é tão triste, tão doloroso não perder nada.
Como estes, eu me sinto pobre da pobreza de não ter sido dos teus Jackson,
e eu sinto verdadeiramente por todos aqueles que jamais suspeitarão disso.

Voltou o tempo dos prodígios.
Ainda há pescas maravilhosas, eu sei.
E os peixes que arrebatastes a um mar mais crespo que o de Tiberíades

Estão cantando a glória do Senhor.
Milhares de escamas, milhares de dorsos, de luzes, de almas
elevam um cântico tão puro que a terra se mistura com o céu
e nem se percebe o pescador que as ondas arrebatam,
que as ondas arrebatam violentamente, para depois se apaziguar, enquanto o corpo mergulha e os peixes cantam a glória do Senhor.

Agora sentimos que estás mais perto de nós,
Que por obscuros caminhos nós chegamos mais a ti,
(pouco importam as ondas e esta camada de terra que nos separa de tuas espécies em decomposição).

Muitas coisas nos ensinou a tua morte, que a tua boca não soubera exprimir e a tua pesca mais opulenta, Jackson, foi a de ti mesmo pelo oceano pesca terrível e prodigiosa de amor e redenção.

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Ode a Jackson de Figueiredo.  A Ordem, Rio de Janeiro, v. 9, n.4, p. 150-151, dez. 1929.


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Jackson, por Hamilton Nogueira


Jackson

Hamilton Nogueira


Vinte oito anos são passados, e não nos sai da memória aquele dia trágico em que, arrebatado pelas ondas, deixou um vazio entre os seus entes mais queridos – sua família e seus amigos. Morreu aos trinta e sete anos de idade, deixando uma obra inacabada. Moço ainda, era nosso orientador, e continua a ser, agora, quando, pela idade, poderia ser nosso filho.

Não conheço na história do pensamento brasileiro ninguém que aos vinte anos de idade, tivesse uma visão tão nítida do problema religioso do nosso tempo.

Uma análise da obra de Jackson de Figueiredo deverá ser feita no plano da realidade brasileira da época em que viveu, quando o indiferentismo religioso, a tibieza dos católicos, a indistinção dos valores espirituais, a “extralimitação das coisas”, eram os sinais visíveis de uma sociedade que perdera o sentido de um cristianismo de todas as concessões feitas pelo liberalismo religioso, mostrar que o catolicismo é essencialmente vida, testemunho, foram os objetivos de sua ação como jornalista e escritor.

 A sua fé como a de Dostoievski passou pelo “cadinho de todas as dúvidas”, e nas suas obras principais “Reflexões sobre a Filosofia de Farias Brito” e “Pascal e a Inquietação Moderna”, podemos acompanhar o seu drama dialético entre o humano e divino.

Não é uma dialética fria, no sentido do racionalismo hegeliano, é uma dialética existencial, profunda e dolorosamente vivida, em que a luz e as trevas se alternam, em que as dúvidas, as angústias e inquietações se mesclam com a esperança do conhecimento da verdade. O seu livro sobre Pascal resume a sua própria vida. No solitário de Port Royal encontrou um irmão mais velho que passava pelas inquietações e atingiu a plenitude da fé. “O que me proponho a demonstrar é, justamente, que, mais uma vez, a dúvida encaminhou para a fé. Pascal e a sua angústia são o elemento que mais vivamente agita a consciência contemporânea, sendo causa de primeira ordem não só da reação espiritualista que vai estrangulando o materialismo moderno, mas também da já notada renascença, senão católica de um a outro extremo, pelo menos, cristã, entre as camadas intelectuais superiores em todo Ocidente.” Jackson não conheceu Kierkegaard. Se o tivesse conhecido, teria sido no Brasil, um dos seus grandes interpretadores, tão profundas são as suas afinidades de ordem espiritual. A sua atitude em face do absoluto era idêntica à do filósofo dinarmaquês, atitude de “temor e tremor”. Para ele como para Kierkeggard o amor é o laço que une o temporal ao eterno. Jackson admitiria o “salto no absurdo” como admitiu a “aposta” de Pascal. E, certo, teria dado a leitores apressados da obra de Kierkeggard. Digo sempre que, quem não o conheceu, foi roubado na vida, tão rica era a sua alma, tão grande a sua generosidade, a sua assistência, então nobres as suas atitudes nesses momentos em que uma tomada de posição é exigida, não importando o risco a que se submete quem quer que tenha assumido compromisso. E porque assim procedeu, deixou discípulos e continuadores da sua obra. “A Ordem” e o “Centro Dom Vital”, suas criações, continuam o movimento que iniciou, movimento de compreensão, de apelo aos que estão nas fronteiras da verdade.

Numa carta a Leon loy dizia Pierree Termiér: “La glorie de La chrité est devenir”. Jackson possuía esse dom divino. Daí o seu segredo de pescador de almas, a força do seu apostolado.


NOGUEIRA, Hamilton. Jackson.  A Ordem, Rio de Janeiro, v. 56, n. 5, p. 286-287, nov. 1956.


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