terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Atualidade de Jackson de Figueiredo

Atualidade de Jackson de Figueiredo

Hamilton Nogueira*


Há trinta anos, no dia 4 de novembro, falecia tragicamente Jackson de Figueiredo. Lembro-me ainda das palavras de D. Sebastião Leme ao tomar conhecimento da morte do seu grande amigo: “foi um herói cristão”.

Sim, Jackson de Figueiredo foi um herói cristão. Foi um herói ma sua árdua luta contra o farisaísmo católico, na sua renúncia ao conforto, na sua dedicação à causa que abraçou com entusiasmo – a recristianização da inteligência brasileira.

Para a realização do seu objetivo fundou esta revista [A Ordem] , em 1921, e no ano seguinte o Centro D. Vital.

Autodidata, escreveu aos vinte anos as suas “Reflexões sobre a Filosofia de Farias Brito”, obra única no Brasil pelo vigor de expressão e pela audácia do pensamento.
A importância desse livro de Jackson de Figueiredo foi assinalada na época em que foi publicado por Nestor Victor. O ilustre crítico paranaense pressentiu na confissão espiritualista do jovem escrito, o cristão autêntico que iria mais tarde iniciar no Brasil a renovação do pensamento católico.

Uma leitura meditada das obras de Jackson de Figueiredo mostra-nos a identidade das suas idéias com as idéias das correntes filosóficas mais atuais nesta hora incerta e amarga que o mundo atravessa.

Jackson foi, sem saber um dos precursores, no Brasil, da filosofia existencial. Não tendo conhecido Kierkegaard, a sua obra, no entanto, está no plano kierkegaardiano. Nela, sobretudo nas “Reflexões sobre Filosofia de Farias Brito” e em “Pascal e a Inquietação Moderna” verifica-se que o pensamento da vida é dominado pelo primado da vida realmente vivida.

No seu diário íntimo encontra-se esta expressão: “a vida é mais forte que a mais forte das filosofias”.

Daí, a atração que sentiu por Pascal, em cuja angústia ele via um símbolo do mundo moderno. Pascal e Farias Brito libertaram o pensamento do jovem sergipano da influência de Nietzsche, e mais tarde o seu encontro com o tomismo foi uma nova fonte de renascimento espiritual. Entretanto, o que mais o seduzia no Doutor Angélico era a nota de humana ternura que ressalta a cada momento na “Suma Teológica". Dos comentadores modernos de São Tomás o Padre Pierre Rosselot era o mais apreciado por ele. “O intelectualismo de S. Tomás“, do jovem jesuíta morto na guerra de 1914, era lido e relido por ele. Não se cansava de ler para os seus companheiros do Centro D. Vital esta página de Rousselot: “Le XVII e. siécle, qui n’a guère compris La metaphysique thomiste, apréciait davantage lês parties Morales de a Somme. Mais qui fera sentir à nos contemporains ce gout de ardent, cette tendresse grave, forte, presque infinie pour l’humanité, qui s’exhale de toutes lês pages Du Docteur angélique? Qui leur fera sentir que sous lês formues limpides, nettes concises, pleines de sens, palpite de um enthousiasme passioné pour ce qu’un autre penseur catholique appelait “La splendide nature humaine?” palpiter, c’est terme qui signifiat, de tensité extreme de l’amour sans rien suggérer d’inquiet, de qui eb voile La vivacitpe aux yeux i nattentifs. Onde se plaint quelquefois de be pás retrouver dans lês questions Morales de La Somme se qu’on pourrait appeles l’odeur humain de l’Ethique à Nicomaque. Auprès d’Aristote si concret, si vécu, realiste, l’on este tente de juger Saint Thomas pâle et abstrait. Mais à mesure qu’on se familiarise, L’on sent cette impression s’évanouir. Lês expressions lês plus courantes (bonun conversationis humanae, pax multitudines, recta civium ordinatio) s’illuminent dans Lensemble de La pensée thomiste, et ouvrent dês perpectives inteligibles infinies.”

No plano religioso Jackson de Figueiredo foi essencialmente um homem de ação, um soldado de Cristo. Repugnava-lhe o indiferentismo religioso, o catolicismo amorfo e sem vida. Daí seu entusiasmo por D. EME e por D. Vital. “Coluna de Fogo” e “Afirmações” expressam o seu horror à confusão ou a “extralimitação das coisas no mundo moral”, como costumava dizer. Havia necessidade de distinções e de definições. Como kierkegaard era uma “espécie de policial da eternidade.” O catolicismo, para ele é vida, e testemunho. Não suportava qualquer espécie de hipocrisia. Para ele, maior valor tinha um positivista convicto e sincero do que um católico fazendo concessões ao erro. Deixou-nos há trinta anos, em plena mocidade. Parece que foi ontem. Os seus olhos claros, que deixavam transparecer a luminosidade da sua grande alma, continuam a contemplar-nos.

A obra que iniciou foi continuada pelos seus amigos. A sua memória perdura em quantos o conheceram e amavam. As suas idéias e o seu exemplo fizeram crescer o rebanho do Senhor.


*NOGUEIRA, Hamilton. Atualidade de Jackson de Figueiredo. A Ordem, Rio de Janeiro, v. 60, n. 5, p. 337-339, nov. 1958.


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Ode a Jackson de Figueiredo


Jackson de FIgueiredo - revista A Ordem, vol. LVI, n. 5, 1956




ODE A JACKSON DE FIGUEIREDO

Carlos Drummond de Andrade*
Belo Horizonte, 1929
Jackson
nem amigo nem inimigo,
nem mesmo (o que seria cômodo) espectador displicente na sua [poltrona

espiando teus gestos, tuas palavras e obras,
mas distante, extraordinariamente distante daquilo que foi a tua vida,
mais distante ainda dos mundos que explorastes, viajante inquieto, sem tempo para esgotá-los, e só te conhecendo bem depois que abriste os braços para morrer,
aqui estou, testemunha depondo.

Jackson,
os que te conheceram e te amaram
os que te conheceram e não te amaram
os que não tiveram tempo de te amar,
os que não cruzaram no teu destino, os que ignoram o teu nome, os que jamais saberão que exististes, estão todos um pouco mais pobres do que eram antes.

Uns perderam o amigo.
Outros , o inimigo, o grande e belo inimigo que orgulha.
Outros nada perderam, e é tão triste, tão doloroso não perder nada.
Como estes, eu me sinto pobre da pobreza de não ter sido dos teus Jackson,
e eu sinto verdadeiramente por todos aqueles que jamais suspeitarão disso.

Voltou o tempo dos prodígios.
Ainda há pescas maravilhosas, eu sei.
E os peixes que arrebatastes a um mar mais crespo que o de Tiberíades

Estão cantando a glória do Senhor.
Milhares de escamas, milhares de dorsos, de luzes, de almas
elevam um cântico tão puro que a terra se mistura com o céu
e nem se percebe o pescador que as ondas arrebatam,
que as ondas arrebatam violentamente, para depois se apaziguar, enquanto o corpo mergulha e os peixes cantam a glória do Senhor.

Agora sentimos que estás mais perto de nós,
Que por obscuros caminhos nós chegamos mais a ti,
(pouco importam as ondas e esta camada de terra que nos separa de tuas espécies em decomposição).

Muitas coisas nos ensinou a tua morte, que a tua boca não soubera exprimir e a tua pesca mais opulenta, Jackson, foi a de ti mesmo pelo oceano pesca terrível e prodigiosa de amor e redenção.

ANDRADE, Carlos Drummond de.  Ode a Jackson de Figueiredo.  A Ordem, Rio de Janeiro, v. 9, n.4, p. 150-151, dez. 1929.


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Jackson, por Hamilton Nogueira


Jackson

Hamilton Nogueira


Vinte oito anos são passados, e não nos sai da memória aquele dia trágico em que, arrebatado pelas ondas, deixou um vazio entre os seus entes mais queridos – sua família e seus amigos. Morreu aos trinta e sete anos de idade, deixando uma obra inacabada. Moço ainda, era nosso orientador, e continua a ser, agora, quando, pela idade, poderia ser nosso filho.

Não conheço na história do pensamento brasileiro ninguém que aos vinte anos de idade, tivesse uma visão tão nítida do problema religioso do nosso tempo.

Uma análise da obra de Jackson de Figueiredo deverá ser feita no plano da realidade brasileira da época em que viveu, quando o indiferentismo religioso, a tibieza dos católicos, a indistinção dos valores espirituais, a “extralimitação das coisas”, eram os sinais visíveis de uma sociedade que perdera o sentido de um cristianismo de todas as concessões feitas pelo liberalismo religioso, mostrar que o catolicismo é essencialmente vida, testemunho, foram os objetivos de sua ação como jornalista e escritor.

 A sua fé como a de Dostoievski passou pelo “cadinho de todas as dúvidas”, e nas suas obras principais “Reflexões sobre a Filosofia de Farias Brito” e “Pascal e a Inquietação Moderna”, podemos acompanhar o seu drama dialético entre o humano e divino.

Não é uma dialética fria, no sentido do racionalismo hegeliano, é uma dialética existencial, profunda e dolorosamente vivida, em que a luz e as trevas se alternam, em que as dúvidas, as angústias e inquietações se mesclam com a esperança do conhecimento da verdade. O seu livro sobre Pascal resume a sua própria vida. No solitário de Port Royal encontrou um irmão mais velho que passava pelas inquietações e atingiu a plenitude da fé. “O que me proponho a demonstrar é, justamente, que, mais uma vez, a dúvida encaminhou para a fé. Pascal e a sua angústia são o elemento que mais vivamente agita a consciência contemporânea, sendo causa de primeira ordem não só da reação espiritualista que vai estrangulando o materialismo moderno, mas também da já notada renascença, senão católica de um a outro extremo, pelo menos, cristã, entre as camadas intelectuais superiores em todo Ocidente.” Jackson não conheceu Kierkegaard. Se o tivesse conhecido, teria sido no Brasil, um dos seus grandes interpretadores, tão profundas são as suas afinidades de ordem espiritual. A sua atitude em face do absoluto era idêntica à do filósofo dinarmaquês, atitude de “temor e tremor”. Para ele como para Kierkeggard o amor é o laço que une o temporal ao eterno. Jackson admitiria o “salto no absurdo” como admitiu a “aposta” de Pascal. E, certo, teria dado a leitores apressados da obra de Kierkeggard. Digo sempre que, quem não o conheceu, foi roubado na vida, tão rica era a sua alma, tão grande a sua generosidade, a sua assistência, então nobres as suas atitudes nesses momentos em que uma tomada de posição é exigida, não importando o risco a que se submete quem quer que tenha assumido compromisso. E porque assim procedeu, deixou discípulos e continuadores da sua obra. “A Ordem” e o “Centro Dom Vital”, suas criações, continuam o movimento que iniciou, movimento de compreensão, de apelo aos que estão nas fronteiras da verdade.

Numa carta a Leon loy dizia Pierree Termiér: “La glorie de La chrité est devenir”. Jackson possuía esse dom divino. Daí o seu segredo de pescador de almas, a força do seu apostolado.


NOGUEIRA, Hamilton. Jackson.  A Ordem, Rio de Janeiro, v. 56, n. 5, p. 286-287, nov. 1956.


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segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

OUTRA QUESTÃO

OUTRA QUESTÃO

Por Anacleto González Flores
Editoriales de La Palavra 
28 de abril de 1918.

Se a doutrina católica responde satisfatoriamente o problema religioso e a questão moral, igualmente oferece uma solução para o problema político que está compreendido na questão social.

O liberalismo, aproxima deste ponto como aproxima dos demais, ensina que a liberdade corrigirá tudo e que os governos não devem jamais intervir nas relações entre os trabalhadores e patrão. Pelo contrário, o socialismo, que é a teoria mais absurda e tirânica que se pode imaginar, sustém que tudo deve ser absorvido pelo Estado como sucedeu em Esparta e que todas as energias devem ficar sob comando imediato e estrito dos governos. Como se vê, os ensinamentos do liberalismo não podem nem devem ser admitidos, tanto porque a reta razão ensina que os governos devem se empenhar em ajudar de um modo especial os mais débeis e em legislar para formá-los e defender-los, como porque os fatos com eloqüência incontrastável nos demonstram que as tendências liberais a respeito deste ponto fracassaram em todas as partes, e contribuíram poderosamente para colocar as classes trabalhadoras em uma situação ainda mais dolorosa e degradante que a dos escravos.

Além disso, basta lançar brevemente o olhar sobre a legislação dos países mais avançados, e ainda sobre a de nossa pátria para convencer-nos de que as exigências da realidade têm impulsionado muito fortemente a criação de um corpo de leis em que se faça menção especial aos assuntos do trabalho e se regula até onde é possível as relações entre patrão e os homens do trabalho. E assim é como o liberalismo, por mais que alguns ignorantes o professam, chega ao mais completo dos desastres.

Não pode ser admitida jamais a teoria dos socialistas, porque a missão dos governos não é outra que preencher as deficiências da iniciativa privada e nunca poderá demonstrar-se que a absorção da energia social por um só poder o grupo de homens seja indispensável para criar e manter o equilíbrio das sociedades.

Pelo contrário, seria de tão funesta conseqüência um regime assim, que, como o demonstram os grandes sociólogos, o estancamento viria inevitavelmente, as fontes principais de produção ficariam ceifadas posto que ao trabalho se lhe arrebataria o estímulo da propriedade privada e sobreviveria uma tirania que ninguém poderia tolerar.

A sociologia cristã, colocada diante destas duas teorias igualmente absurdas e que levam os povos ao desequilíbrio de um modo inexorável e fatal, ensina uma doutrina que se pode considerar um como um termo médio e que estabelece o princípio de que os governos não devem abster-se absolutamente de intervir nas questões do trabalho nem absorver tudo; senão que seguindo a tendência sabia da natureza devem exercer sua ação suplementar; mas claro, que pelo geral se lhe deixe a iniciativa privada o papel de procurar o equilíbrio e a harmonia nas relações entre classes trabalhadoras e o patrão, e que quando os particulares sejam insuficientes o Estado tome a ingerência que não fira nem menospreze os direitos e interesses dos associados.

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FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. p. 532-533.

A parábola do homem no buraco

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Lançado site sobre G.K.Chesterton

Com muita alegria e esperança informamos que está no ar o site www.chestertonbrasil.org/.

Nota dos editores:


Criamos este site com o objetivo de reunir e difundir o pensamento de Gilbert Keith Chesterton (1874-1936) no Brasil. Chesterton é um dos maiores pensadores católicos do século XX e, infelizmente, por diversos motivos, desconhecido em nossa Terra de Santa Cruz. Diante disso, e da inexistência de uma sociedade Chestertoniana no Brasil, resolvemos lançar a idéia de no futuro próximo termos uma Sociedade Chestertoniana Brasileira, como as Inglesas, Americanas, Argentina e Italiana.

Enquanto isso, desejamos lhe oferecer o que há de melhor sobre Chesterton prioritariamente em língua portuguesa. Reunimos neste site artigos, traduções, vídeos, áudios, frases e trechos de suas obras, imagens etc. com o intuito de possibilitar um contato com a vida e pensamento desse gênio.

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Frases de santos: São Felipe Neri

São Felipe Neri (Florença, 22 de julho de 1515 — 26 de maio de 1595)
"Guarde-se o moço da luxúria e o velho da avareza: e ambos serão Santos".

"Os que desejam avançar no caminho de Deus, sujeitem-se a um sábio confessor e obedeçam-lhe como a Deus".

"Quem quiser que lhe obedeçam muito, mande pouco".

"Quanto de amor pomos nas criaturas, tanto tiramos de Deus".

"Não tardes em bem obrar; porque a morte não tarda em vir".

"A tentação revelada ao diretor espiritual já é vencida pela metade".

"Não pode acontecer coisa mais gloriosa a um Cristão do que padecer por amor de Cristo".

"Quem não puder dedicar longo tempo a oração deve, pelo menos, elevar muitas vezes o seu coração a Deus".

"Neste mundo não há purgatório: ou é paraíso ou é um inferno. Os que suportam com paciência os sofrimentos desta vida gozam o paraíso. Quem assim não o faz, sofre o inferno".

“É possível restaurar as instituições com a santidade, e não restaurar a santidade com as instituições".

"Se quisermos nos dedicar inteiramente ao nosso próximo, não devemos reservar a nós mesmos nem tempo nem espaço".

"A devoção ao Santíssimo Sacramento e a devoção a Santíssima Virgem são, não o melhor, mas o único meio, para se conservar a pureza".

"Somente a Comunhão pode conservar puro um coração aos vinte anos! Não pode haver castidade sem Eucaristia".

"Com a oração pedimos mais graças a Deus; mas na Santa Missa obrigamos a Deus a no-las dar".

"Então, caro amigos, quando é que começaremos a amar a Deus?"


Retirado do livro Ensinamentos dos santos. Felipe Aquino. Editora Cleófas, 2003. 

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