domingo, 21 de novembro de 2010

Para que Cristo reine

Para que Cristo Reine

(Autoria de Anacleto González Flores.
Publicado no El plebiscito de los mártires)

Hoje se celebra em todo mundo católico a festa de Cristo Rei. Esta festa foi estabelecida para que Cristo volte a reinar na vida pública e social dos povos. Porque faz cerca de três séculos os abandeirados do laicismo vem trabalhando para suprimir Cristo da vida pública e social das nações. E por desgraça vão conseguindo muito, até o ponto de que as legislações, os governos e as instituições dos povos se abstêm de reconhecer a supremacia de Cristo.

De uma maneira especial em nosso país o laicismo tem alcançado fortes e grandes vitórias. Afastaram Cristo das leis, das escolas, dos parlamentos, das cátedras, da imprensa, da via pública, em uma palavra, de todos os pontos dominantes da vida pública e social. E hoje se trata de restabelecer o reinado público de Cristo, sobre os despojos do laicismo totalmente fracassado como sistema de vida, de política, de governo e de orientação para os povos.

O importante da festa de Cristo Rei não consiste somente em que se proclama - como se vai proclamar - Rei soberano da vida pública e social. Não, porque se a proclamação da realeza de Cristo é coisa soberanamente importante, mais importante ainda é que nós católicos entendamos nossas responsabilidades diante do reinado de Cristo.

Porque Cristo não necessita de nós para fundar seu reinado e para expandi-lo por todo o mundo; mas se não necessita de nós, nem de nossos esforços, sem dúvida, tem querido estabelecer seu reinado por meio de nossos esforços, de nossas lutas e de nossas batalhas. E isto temos que reforçá-lo hoje. Porque se nós católicos seguimos desorientados neste ponto corremos o perigo de que jamais se estabeleça o reinado de Cristo em nossa pátria.

Devemos, pois, ter entendido que Deus, que Cristo, pede, exige, quer que cada um de nós, na medida de suas forças, trabalhe veementemente para estabelecer o reinado de Cristo na vida pública. E isto não se conseguirá acastelado dentro de nossas Igrejas e dentro de nossos lares.
O reinado público de Cristo exige que nós católicos façamos sentir a ação de nosso pensamento, de nossa palavra, de nossa caneta, de nossos trabalhos de organização e propaganda. E isto se deve fazer na vida pública, em pleno sol, em plena via pública, até os quatros ventos e deve ser feito por todos.

Porque todos, absolutamente todos os católicos podemos e devemos fazer algo para restabelecer o reinado de Cristo; uns de uma forma, outros de outra; uns com seu talento, outros com seu esforço; mas todos devemos procurar desde hoje fazer algo sério, constante e coordenado para que o restabelecimento público de Cristo.

Hoje o proclamamos Rei, o reconhecemos como Rei; mas necessitamos jurar que deixaremos nossas velhas atitudes de múmias de sacristia e de enterrados vivos em nossos lares; a partir deste dia glorioso faremos com que todas as forças católicas desemboquem na via pública para que Cristo reine na imprensa, no livro, na escola, nas organizações, nas instituições, em uma palavra: na metade do coração do povo e na metade de todas as correntes de nossa vida pública e social.

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Transcrito e traduzido do livro:
FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. p. 332-333.

sábado, 20 de novembro de 2010

Chesterton e o seu livro sobre S. Francisco de Assis

(Por  Olívio Montenegro, Recife, 1930 
Publicado na revista A Ordem de 1955.)


Fixar fortemente as realidades dignas de serem compreendidas, é faculdade em Chesterton de mais relevo. E esta faculdade é uma das raras, por isso mesmo que é uma das mais simples, das que sofrem menos o contato da imaginação e o contato das ideias puras. Mas muita gente que admira Chesterton, eu noto que admira dentro desse ar meio divertido, meio cético, que em geral tomam as pessoas grandes quando  estão diante de crianças de espírito. E em que acham muita graça, mas que não julgam tomá-las a sério. Porque Chesterton ainda é um puro paradoxal para muita gente. Um diletante.

Entretanto um escritor seríssimo. O menos paradoxal dos escritores. Destes que repelem por instinto tudo o que não cheira à realidade e à vida. Tudo o que é convenção e artifício entre os homens. O único paradoxo que à conta de Chesterton eu descubro é ver quanto ele é um autor pouco popular justamente pela única qualidade que o devia fazer o mais lido dos autores – o senso comum. E o seu difere muito do bom senso. O bom senso como um saber ver praticamente, com oportunidade, com oportunidade e razão.

E o senso comum como um saber ver realmente, com veracidade e intuição. Mas é que, em verdade, o senso comum não populariza ninguém por isso mesmo que ele é o mais estranho do que parece à nossa vida ordinária. E outra coisa não nos insinua Chesterton em seu livro sobre S. Francisco de Assis, quando diz que a vida ordinária é mais cheia de imaginação do que a vida contemplativa. Mais artificial e menos pura.

A cada passo a imaginação está a substituir e a obscurecer no homem comum os melhores trechos da vida. Poderíamos dizer: os mais arquitetônicos, os de contorno mais plásticos e incisivo. Daí a impressão sem unidade e sem sentido que a vida deixa a muita gente. As suas largas sombras de mistério. Este constante e desesperado esforço na ponta dos pés para ver através de obstáculos que tampam a vista.

É preciso uma candura quase como a das crianças para ver com simplicidade, e justo. Agora quando a essa candura da primeira idade vem se juntar o senso crítico do homem feito, então apanhar-se todo o sentido de realidade que tem a obra de um escritor como Chesterton. Sentido de realidade e não paradoxo. E compreende-se que sejam os contos de fada os que mais interessem e o deleitem e o convençam. they seem to me to be the entirely reasonable thing. They are not fantasies: compared with them other things are phantastic. Fairyland is nothing, but the sunny country of common sense”. É uma citação do seu livro de polêmica “Orthodoxy”. Ao mesmo tempo livro de forte exegese, de aguda, extraordinária interpretação religiosa. E que um sopro de vida introspectiva acende, numa página e noutra, um interesse dramático. Aliás , uma vez bem fixado, não há escritor que dê mais ao vivo o sentimento do pitoresco do que Chesterton. Um pitoresco que Gilberto Freyre me definiu uma vez a “preto e branco”. Deixo aos íntimos de leituras de Chesterton que avaliem o fino e forte dessa definição.

Mas foi para falar do livro sobre S. Francisco de Assis que comecei a escrever sobre Chesterton. Desta biografia sobre S. Francisco de Assis, e que não tem nenhum sinal de parentesco com outros estudos de biografia como eles são feitos todos os dias. Uma biografia que não é simplesmente a vida exterior de um santo! O seu retrato. E em geral as biografias são unicamente um retrato. Uma imagem que ensombra, empalidece, dissipa todas as outras imagens da vida. Por isto o ar de fantástico, inverossímel de quase todas essas biografias. Não nos dão o invisível, e o que se agita de todos os lados em torno de uma vida. É uma vida como a dos teatros que elas nos dão; artificialmente cerrada entre os decoros da cena.

O trabalho de Chesterton constitui porém quase que uma inovação nesta matéria. Ele disse que para descrever um homem era preciso muitas vezes descrever um mundo. E não foi que para nos dar a vida de S. Francisco, ele nos retratou quase toda a idade média, a idade média desde o período do Troubadours, desde o IX século até as cruzadas? Deu-nos toda época heróica da idade média. E na história da vida de S. Francisco de Assis, este estudo da idade média, não entra como uma decoração, como um fundo de quadro, mas como um elemento de vida, como uma ambiente, o único ambiente em que se podia refletir a alma deste santo. Este santo de que tínhamos muito retratos, mas não o retrato de sua vida interior. Tinhamos a sua fisionomia, mas não tínhamos a sua alma. Tínhamos seu corpo macerado e nu, o céu cilício e a sua barba afilada, tínhamos o seu ascetismo implacável, a miséria enfim, do seu corpo. Da robustez e da saúde da sua alma tínhamos muito pouco, ou quase nada. Do que havia de saúde e de fortemente jovial, e sonoramente alegre, e poeticamente heróico; do que havia de claro e ardente na alma deste santo ninguém nos deu mais ao vivo do que Gilbert K. Chesterton.

Nas biografias de S. Francisco de Assis, como nas de todos os santos, é comum passar-se por cima do homem para se chegar ao santo. Chesterton porém nos dá esta novidade encantadora: de chagar ao santo muito naturalmente pelo homem. É uma biografia que é ao mesmo tempo uma lição cristã. Que é ao mesmo tempo uma aplicação da doutrina do Evangelho. O homem à semelhança de Deus. E mais – ele não diminui o meio para servir o homem. Chesterton coloca S. Franscisco no seu verdadeiro meio, aliás o único quadro da vida em que a individualidade do grande santo podia chegar à sua maior plenitude de força e de beleza moral. A sua visão psicológica do homem tem a mesma penetração que a sua visão histórica do meio. A mesma força e a mesma precisão. S. Francisco ganha como significação de símbolo. O símbolo da idade média. Esta idade média de que Chesterton nos oferece a mais viva e a mais duradoura imagem que é possível se oferecer de uma época; época que também sofreu e continua a sofrer o martírio e a crucificação por que passaram os seus santos. O martírio e a crucificação dos que vão revistar com olho insensível e profano. Com olho e faro de abutre. A idade média marcou uma das idades mais românticas da história (romântica, não sentimental), mas foi também uma das mais práticas. Este senso de prático da idade média descobriu-o o olhar reto e simples de Chesterton, um senso prático que não tem nenhuma relação com o senso egoísta e desumano da vida moderna. Um senso prático que era ao mesmo tempo um senso de fraternidade e de comunhão humana.

E de que as corporações, corporações de toda a espécie e ligadas a toda a atividade são o seu tipo mais aperfeiçoado. Senso prático que não repelia mas colaborava com o sentido heróico da vida. O seu sentido espiritual. Esta fazer da vida medieval o homem moderno não a descobre facilmente. Ou melhor, não a apanha do primeiro golpe. Esta comovida agitação diante da vida. O poder de estar na vida como numa aventura.

A vida para o homem do nosso século é apenas uma luta (struggle for life). Na idade média (séculos XII e XIII) a vida porém foi sempre alguma coisa mais de que uma luta; do que a luta pela luta, a força pela força, do espírito moderno. Foi antes uma conquista, que é o drama na luta. E não é uma relação que sente mais voluptosamente, e mais fundo: uma relação de amor, poderíamos dizer. E é este traço da idade média que não poderia passar fora do golpe de raio da visão de Chesterton – este sentimento poético da vida que nos séculos XII e XIII, se conserva com uma força inesgotável através de toda a luz branca do seu misticismo.

Aliás, toda a inquietação espiritual de que se ressentem o pensamento e a ação  do homem medieval, nesse amor à vida é onde tem a sua principal raiz. No sempre esperto e aguçado desejo de fraternização e intimidade com os seres e as coisas do Universo.

A arte dos “troubadours” tão cheia de febre, e tão cheia de luz, tão intensa e tão transparente ao mesmo tempo, é a imagem mais concentrada desse sentimento amorosos do homem em face das coisas da terra, do seu interesse a um tempo positivo e lírico, sensual e cristão por todas as formas de Natureza. S. Francisco de Assis tinha como ninguém uma alma de “troubadour”. Em S. Francisco de Assis tinha como nenhum homem este impulso cordial pela vida da Natureza e seu colorido, a sua força, o imperscrutável mistério das suas criações, assumiu um relevo mais dramático. A grande poesia de S. Francisco não está tanto nos seus versos, nos seus cantos ao Sol, está na sua vida mesmo, na sua ação, e nas suas obras. A harmonia, a grande harmonia que havia de dominar a sensibilidade desse santo, não foi naturalmente a harmonia da idéia, e antes a harmonia do Universo. A vida para ele tinha um ritmo maior do que todos os outros ritmos que podem nascer do sentimento ou da idéia. Para S. Francisco de Assis a vida na terra nunca lhe soube a aprovação. Nada de provação a vida para o grande asceta, o grande esfaimado de jejuns; esse voluptuoso de penitências e de martírio. Apenas uma lição. Apenas uma lição de profundas e íntimas experiências, é o que ela foi cá para o bom S. Francisco de Assis. Ou mais simplesmente – um campo de constantes e venturosas descobertas.

Não pode nada haver que no homem concentre mais sensação de vida, e interiormente nos intensifique e desenvolva mais do que uma descoberta. É como um novo sentido que nascesse em nós. Pois S. Francisco, e é Chesterton ele mesmo quem no-lo revela, era justamente este homem para quem não havia o mistério puro. O mistério sumia-se diante dos olhos do seu espírito como a treva com a luz.

Não se cita na história exemplo de uma visão arquitetural da vida, mais permanente, nem mais lúcida e instantânea.

Uma visão a ferir sempre os efeitos gerais que não são os efeitos em massa de uma floresta, mas são os efeitos em articulação, em corpo, de um monumento, de uma catedral. Porque é uma diferença que vale a pena marcar, a diferença entre uma visão em globo, e uma visão integral, das coisas. S. Franscisco possuía justamente essa visão integral, que não sacrifica a parte ao todo, mas que os distingue com uma acuidade infalível.

O que mais espanta em S. Francisco de Assis, o que mais espanta no retrato a carvão que Chesterton nos dá desse santo, é a inalterável unidade que se percebe entre a sua vida interior e a sua vida exterior. É a esquisita fidelidade do seu gesto ao seu sentimento. A sinceridade absurda das suas atitudes, ou melhor a coerência, a irreprimível lógica da sua ação. O seu amor às vezes, aos bichos, aos elementos como o Sol e Água, tudo irmãos, porque tudo emanado do mesmo Poder e da mesma Vontade, tem uma cor de inteligência sobrenatural. Essa profusão de humanitarismo na vida de S. Francisco de Assis, talvez dentro do prejuízo do espírito moderno viesse a ter uma expansão medíocre. Na idade média, porém, ela produziu a Ordem dos Menores, essa Ordem que, diz Chesterton, “foi da natureza de um tremor de terra ou de uma irrupção vulcânica: explosão que lançou fora com uma energia dinâmica as forças acumuladas desde dez séculos, na fortaleza ou no arsenal do mosteiro, e dispersou todas as suas riquezas em todos os pontos da terra”.

De S. Francisco de Assis poderia se dizer (se grau houvesse para santidade) que  foi o maior santo da idade média, pelo menos num sentido: de que foi quem melhor a exprimiu nos seus ideias de justiça, e na sua ânsia de Deus.

Assim é que certas ordens da idade média parecem uma criação pura de S. Francisco de Assis, como essa ordem dos Cavaleiros, por exemplo. Essa ordem de homens devotados exclusivamente ao serviço dos fracos e dos humildes, e dos pobres e dos aleijados é todo um poema em ação, em vida. É a maior confluência que se pode imaginar da poesia, na força. A ordem dos cavaleiros a serviço de todos os oprimidos e inválidos, é uma como antecipação em ponto inferior da ordem dos Menores. Há um tão forte de família entre as duas ordens, que ninguém diria nascidas tão distantes uma da outra. O que a ordem dos Cavaleiros procurou fazer pela vida terrestre dos pobres. É lírico tudo isso, mas grande como a vida mesma.
            
Autoria de Olívio Montenegro, Recife, 1930,
Retirado da revista A Ordem, vol. LIV, n. 1, 1955.

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

O mártir é a testemunha mais genuína da verdade

(Imagem retrata a forma como os cristão eram martirizado em Roma no início nos séculos I e II)

"...o mártir é a testemunha mais genuína da verdade da existência. Ele sabe que, no seu encontro com Jesus Cristo, alcançou a verdade a respeito da sua vida, e nada nem ninguém poderá jamais arrancar-lhe esta certeza. Nem o sofrimento, nem a morte violenta poderão fazê-lo retroceder da adesão à verdade que descobriu no encontro com Cristo. Por isso mesmo é que, até agora, o testemunho dos mártires atrai, gera consenso, é escutado e seguido. Esta é a razão pela qual se tem confiança na sua palavra: descobre-se neles a evidência dum amor que não precisa de longas demonstrações para ser convincente, porque fala daquilo que cada um, no mais fundo de si mesmo, já sente como verdadeiro e que há tanto tempo procurava. Em resumo, o mártir provoca em nós uma profunda confiança, porque diz aquilo que já sentimos e torna evidente aquilo que nós mesmos queríamos ter a força de dizer."

Carta Encíclica Fides et Ratio, nº 32, por João Paulo II)

sábado, 13 de novembro de 2010

Fazer, Fazer e fazer

(Autoria de Anacleto González Flores.
Publicado El plebiscito de los mártires

Até agora, todos ou quase todos os católicos não temos feito outra coisa que pedir a Deus que Ele faça, trabalhe, realize, que somente Ele faça algo ou tudo pela Igreja em nossa Pátria. E por isto, todos ou quase todos os católicos não temos feito outra coisa, em nossa Pátria, que rezar, submergimos em êxtases, ficarmos  dentro de nossas Igrejas de joelhos na espera que Deus, e somente Ele, faça tudo.

Sua santidade Pio XI veio nos dizer, clara e terminantemente, que temos estado em um gravíssimo erro, ao esperarmos tudo exclusivamente da ação de Deus e ao abstermos de fazer algo pela vitória da causa d’Ele e de sua Igreja. Por isto, em sua mais recente Carta Apostólica, disse que se necessita da ação católica e, portanto, a ação de todos os católicos. Uma ação que, é claro, conte com Deus como fonte e autor fundamental de todo bem; mas uma ação que, a parte de contar com Deus, consista que cada católico, além de rezar, além de orar, além de vivenciar as cerimônias essenciais do culto, desenvolva esforços enérgicos, organizados e constantes para restabelecer a ordem cristã nos espíritos e nas consciências. 

Chegou o momento de fazer algo, de fazer mesmo e isso é preciso que todos entendam. Não somente que Deus faça, se não que cada católico faça algo pela vitória da causa de d’Ele. Por isto nestes momentos angustiosos de prova e nos instantes em ela desaparecer, e em todo momento, o lema de todo católico seja este: fazer, fazer e fazer.

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Traduzido do espanhol. FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. p. 544-545.

Carta de Chesterton para sua mãe Marie Louise

A carta que Chesterton escreveu para sua mãe Marie Louse, e que traduzimos abaixo direto do espanhol, foi motivada pelo fato sua mãe não ver com bons olhos a ida de seu filho a casa de Frances Blogg, bairro que considerava de loucos nada respeitáveis. Alem do mais, ela desejava como nora a Arnnie Firmin jovem ruiva amiga da família. Chesterton escreve esta carta por pressão de Frances que desejava que a mãe dele soubesse quanto antes de seu namoro com ela. No entanto, por timidez ou dificuldade em lidar com as palavras certas ao falar, coisa que não surpreenderia, pois na carta ele demonstra certa confusão em suas idéias, prefere escrever para sua mãe que estava bem diante dele. Só o amor poderia fazer com que esse gingante da lógica e rigor literário se perdesse em seus jogos de palavras. (Amigo da Cruz).

                                                       (Chesterton e Frances Blogg)


Agosto de 1898

"Minha queridíssima mãe:
Talvez pense que esse modo de proceder seja exageradamente excêntrico. Pois está sentada diante de mim e falando sobre Mrs. Beline. Mas decidi dirigir-me a ti desta maneira porque penso que talvez deseje refletir sobre assunto antes de dar-me uma resposta oral ou escrita.
Tratarei de explicar sobre uma situação, na qual acredito ter feito o certo, ainda que não esteja absolutamente seguro, e te pedir sua opinião sobre a mesma. Era algo complicado, e insisto que não poderia ter feito de outro jeito; mas ainda que fosse o maior tonto dos três reinos e tivesse me metido em uma confusão, há uma pessoa que recorreria sempre porque confio nela. As mães conhecem melhor que os demais as estupidez de seus filhos, e isto é verdadeiro em seu caso. Nunca me envergonhei disso, ao contrário, me alegro porque isso me passa segurança. É mais fácil escrever isso que dizer, mas você sabe que o que digo é verdade.
Não posso dizer o quanto ansioso estou de que compreendas que me comporto assim pensando sempre em sua possível reação a esta carta. Espero que me compreenda.
Faz oito anos que fizeste uma observação. Verás nisto que, ainda que nós ríssemos de tuas ‘observações’, nos recordaríamos delas. A observação se referia à hipotética jovens de que eu haveria de me apaixonar e concretizou nesta frase: “Se é boa não me importo quem seja.”
Não se quantas vezes repeti essas palavras nos últimos três dias, quando tomei a decisão de escrever esta carta.
Não te assuste, nem pense que ocorreu algo sensacional e definitivo. Não estou casado, querida mãe, nem comprometido. Quero seu conselho antes de suas deliberações. E se me permite te contarei brevemente a história.
É, segundo creio, a pessoa mais sagaz em dar-se conta das coisas, e conseqüentemente imagino que não pensas que vou todos os domingos a Bedford Park para contemplar a paisagem. Não me estranharia que já soubesse tanto sobre o assunto que eu possa te explicar agora. Bastará que te diga (pois nenhum de nós dois somos comunicativos, e esta carta na tem nada a ver com as de Mrz. Ratcliffe) que a primeira etapa de minha relação com os Blogg, enquanto líamos, conversava e gozávamos juntos a vida ao passo que descobríamos grandes afinidades em todos os terrenos; e que posteriormente descobri, tão emocionado e cheio dolorosas responsabilidades, de que não era mais platonismo o que dominava por completo o panorama. Nisto estamos agora. Ninguém sabe, exceto sua família e tu.
Queridíssima mãe, estou seguro de que ao menos não verá com desagrado. Realmente nos amamos mais do que ambos saberíamos expressar. Evito nesta carta qualquer sentimentalismo, porque sei que não gosta desse tipo de manifestação. Mas o amor é algo muito distinto do sentimentalismo, e creio que não irá rir de mim. Não direi que estou seguro de que Frances te agradará, porque é o que todos os jovens dizem a suas mães, ainda que estas, como é natural, não acreditem. Alem do mais estou convencido que ficaria mais satisfeito que descobrisse por ti mesma. Na realidade é, como certeza, o tipo de mulher que te agrada, que se pode chamar, segundo creio, ‘mulher das mulheres’, com bom humor, pouca lógica e muita simpatia, e não está contaminada por nenhum excesso ofensivo de saúde física.
Não tenho mais que dizer; exceto que tu e ela ocuparam meu espírito por completo durante a última semana, como tem notado por minha abstração, e que ela me pediu por carta que te transmitisse esta mensagem: ‘Por favor, diga logo a tua mãe; diga que não sou tão tonta como para que possa esperar que eu seja suficientemente boa para ti, mas que de verdade procurarei ser’."
Aspiração que me obriga sorrir.
Neste momento se aproxima como uma taça de chocolate. Obrigado.
Teu afetuosísimo filho,
Gilbert.

Trecho retirado do livro. 

Está claro que Chesterton vacila de propósito ao afirmar que não há todavia compromisso formal, mas se trata de uma licença admissível de quem está tocando o céu com as mãos desde a cena de St. James Park. Alem do mais, nem sequer repara na contradição entre a suposta ausência de compromisso com a mensagem que Frances deseja que ele transmita sua mãe. Não cabe dúvida de que nessa tarde se pode ver que o homem está meio perdido tanto na lógica como na precisão literária. Não é difícil imaginar o sorriso de sua Marie Louse quando leu a noite pela segunda ou terceira vez a carta dada em mãos pelo seu filho.


Traduzido do livro: Chesterton: um escrito para todos los tiempos, autoria de Luis Ignácio Seco, publicado pela editora La Palabra, 1998. Pág. 104-106.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Sobre os santos

"Os santos são antes de tudo homens; a santidade, que é de ordem sobrenatural, se apóia na ordem natural. O homem é o único ser da criação que pode ser santo, no entanto, não existem dois santos iguais porque cada um particulariza sua santidade segundo os dons recebidos."

Retirado do livro: San Francisco de Asís, G.k. Chesterton.  Livro completo disponível aqui.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

G. K. CHESTERTON, BEATO?


Paolo Gulisano explica as virtudes do escritor britânico



Por Antonio Gaspari 
ROMA, quarta-feira, 15 de julho de 2009 (ZENIT.org).- Gilbert Keith Chesterton, o escritor inglês inventor da figura do célebre padre-investigador Pe. Brown, e e autor de numerosos textos de narrativa e ensaios apologéticos, poderá ser beato.
Após a apresentação desta proposta às autoridades eclesiásticas, ZENIT entrevistou Paolo Gulisano, vice-presidente da Sociedade Chestertoniana Italiana e autor da primeira biografia em italiano do grande escritor: “Chesterton e Belloc – Apologia e profecia” (Chesterton & Belloc – apologia e profezia, Editora Ancora). 
– Quem promove o pedido de beatificação? 
– Gulisano: Quem propôs a beatificação de Gilbert Keith Chesterton foi a Associação cultural a ele dedicada, a Chesterton Society, fundada na Inglaterra em 1974 (por ocasião do centenário do nascimento do grande escritor) com o fim de difundir o conhecimento da obra, o pensamento e a figura deste extraordinário personagem. Há anos, se fala de uma possível causa de beatificação, e há poucos dias, durante um congresso internacional, organizado em Oxford, sobre o tema “A santidade de G. K. Chesterton”, no qual participaram os maiores expoentes no campo dos estudos chestertonianos, se decidiu sustentar esta proposta.
– Por que é beato? 
– Gulisano: Muitos consideram que há uma clara evidência da santidade de Chesterton: os testemunhos sobre ele falam de uma pessoa de grande bondade e humildade, um homem sem inimigos, que propunha a fé sem rebaixar-se mas também sem confrontos, defensor da Verdade e da Caridade. Sua grandeza está também no fato de que soube apresentar o cristianismo a um público muito amplo, de cristãos e de leigos. Seus livros, desde Ortodoxia São Francisco de Assis, desde Padre Brown A esfera e a cruz, são brilhantes apresentações da fé cristã, testemunhada com claridade e valor frente ao mundo.
Segundo as antigas categorias da Igreja, poderíamos definir Chesterton como um “confessor da fé”. Não foi só um apologista, mas também uma espécie de profeta que percebeu com grande antecipação o caráter dramático de questões da modernidade como a eugenia. O dominicano inglês Aidan Nichols sustenta que se deve olhar para Chesterton nada menos que como possível “padre da Igreja” do século XX. 
– Quais são as virtudes heróicas? 
– Gulisano: Fé, esperança e caridade: estas foram as virtudes fundamentais de Chesterton. Também era inocente, simples, profundamente humilde. Ainda tendo experimentado pessoalmente a dor, era um cantor da alegria cristã. A obra de Chesterton é uma espécie de remédio para a alma, mais precisamente, pode ser definida como um antídoto. O próprio escritor havia usado a metáfora do antídoto para definir o efeito da santidade sobre o mundo: o santo tem o objetivo de ser sinal de contradição e de restituir sanidade mental a um mundo enloquecido.
– Qual é a contribuição cultural, literária, moral e de fé que Chesterton deixou à sociedade britânica e à cristã?
– Gulisano: Quando soube a notícia da morte do grande escritor, o Papa Pio XI mandou, por meio do secretário de Estado, cardeal Eugenio Pacelli, um telegrama de pêsames, no qual lamentava a perda de “um devoto filho da Santa Igreja, defensor rico de dons da fé católica”. Era a segunda vez na história que um pontífice atribuía a um inglês a qualificação de “defensor da fé”. Talvez a Secretaria de Estado não se deu conta do irônico paralelismo, que teria feito Gilbert estourar em suas gargalhadas proverbiais, pois o outro inglês havia sido Enrique VIII, o homem que inferiu à Igreja da Inglaterra a mais grave e profunda ferida. Chesterton aproximou a Inglaterra e também o mundo de Deus, da fé e da razão. 
– Qual é sua avaliação sobre todo assunto?
– Gulisano: A leitura de Chesterton, seja das novelas ou dos ensaios, deixa sempre no leitor uma grande serenidade e um sentimento de esperança que deriva não certamente de uma visão da vida imatura e mundanamente otimista (que é na realidade o mais distante do pensamento de Chesterton, que denuncia detalhadamente todas as aberrações da modernidade) mas da concepção cristã, viril fortaleza da experiência religiosa. 
A proposta de Chesterton é a de levar a sério a realidade em sua integridade, começando pela realidade interior do homem e de dispor confiadamente o intelecto – ou seja, o sentido comum – em sua original sanidade, purificado de toda incrustação ideológica. 
Raramente se lêem páginas nas quais se fala de fé, de conversão, de doutrina, tão claras e incisivas quanto privadas de todo excesso sentimentalista ou moralista. Isto deriva da atenta leitura da realidade de Chesterton, que sabe que a consequência mais mortífera da descristianização não foi o gravíssimo extravio ético, mas o extravio da razão, sintetizado neste juízo seu: “O mundo moderno sofreu uma queda mental muito mais consciente que a queda moral”. 
Frente a este cenário, Chesterton elege o catolicismo, e afirma que existem ao menos dez mil razões para justificar esta eleição, todas válidas e muito fundadas mas relegadas a uma única razão: que o catolicismo é verdadeiro, a responsabilidade e a tarefa da Igreja consistem portanto nisto: no valor de crer, em primeiro lugar, e portanto denunciar as vias que conduzem ao nada ou à destruição, a um muro cego ou a um preconceito. Uma obra indubitavelmente santa, e a santidade de Gilbert Chesterton, que espero a Igreja possa reconhecer, brilha e resplandece ante o mundo. 

Fonte: ZENIT.org

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