segunda-feira, 28 de junho de 2010

Ler pouco - "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges.
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CAPITULO VII - A preparação do trabalho

A. – A LEITURA
I – Ler pouco.

Trabalhar significa aprender e significa produzir: em ambos os sentidos, o trabalho requer longa preparação, porque produzir é um resultado, e só aprende, em matéria árdua e complexa, quem primeiro atravessou o simples e o fácil: "devemos correr para o mar por meio dos regatos, e não de repente" diz S.Tomás.

Ora, a leitura é o meio universal para aprender, e é a preparação próxima ou remota para toda a produção. Nunca pensamos isoladamente: pensamos em sociedade, em colaboração imensa; trabalhamos com os trabalhadores do passado e do presente. Graças à leitura, pode compararse o mundo intelectual a uma sala de redacção ou repartição de negócios, onde cada qual encontra no vizinho a sugestão, o auxílio, a critica, a informação, o ânimo de que carece.

Portanto, saber ler e utilizar as leituras, é necessidade primordial que o homem de estudo não deve esquecer. Primeira regra: lede pouco. Em 1921, no jornal Le Temps, Paulo Souday que, pelo visto, se queria vingar de mim nalguma coisa, agarrou-se a este preceito: "lede pouco", e pretendeu descobrir nele laivos de ignorantismo. O leitor, se leu o jornal, sabe o valor daquela crítica e, sem dúvida, Paulo Souday também o sabia.

Eu não aconselho a restringir parvamente a leitura: tudo quanto fica dito protesta contra semelhante interpretação. Queremos formar um espírito largo, praticar a ciência comparada, manter o horizonte aberto diante de nós, o que não se consegue sem muita leitura. Mas muito e pouco só se opõem no mesmo terreno. Aqui, é preciso muito absolutamente, porque a obra é vasta; mas pouco em relação ao dilúvio de escritos de que a mais insignificante especialidade sobrecarrega hoje bibliotecas e as almas.

Proscrevemos, sim, a paixão de ler, a ânsia, a intoxicação por excesso de nutrição espiritual, a preguiça disfarçada que prefere ao esforço a frequentação fácil. A paixão da leitura, de que tantos se prezam como de preciosa qualidade intelectual, é tara, é paixão em tudo semelhante às demais paixões que absorvem e perturbam a alma, retalhando-a de correntes confusas que lhe esgotam as energias.

Leia-se com inteligência, não com paixão. Vamos aos livros como a dona de casa vai à praça, depois de cumpridas as ocupações quotidianas de acordo com as leis da higiene e da boa administração. A dona de casa não vai à praça com o mesmo intuito com que vai à noite ao cinema. O mesmo sucede com a leitura: é questão, não de gozar e de se embriagar, mais de governar e administrar bem a casa.

A leitura desordenada não alimenta, entorpece o espírito, torna-o incapaz de reflexão e concentração e, por conseguinte, de produção; exterioriza-o no seu interior, se assim se pode dizer, e escraviza-o às imagens mentais, ao fluxo e refluxo das ideias que ele se limita a contemplar na atitude de simples espectador. É embriaguez que desafina a inteligência e permite seguir a passo os pensamentos alheios e deixar-se levar por palavras, por comentários, por capítulos, Por tomos. A série de excitações assim provocadas arruina as energias, como a constante vibração estraga o aço. Não esperemos trabalho verdadeiro de quem cansou os olhos e as meninges a devorar livros; esse encontra-se, espiritualmente, em estado de cefalalgia, ao passo que o trabalhador, senhor de si, lê com calma e suavidade somente o que quer reter, só retém o que deve servir, organiza o cérebro e não o maltrata com indigestões absurdas.

Ide antes dar um passeio, ler no livro imenso da natureza, respirar o ar fresco, distrair-vos. Depois da actividade tomada voluntariamente, organizai a distracção voluntária, em vez de vos entregardes a um automatismo que de intelectual só tem a matéria, mas que em si é tão banal como o escorregar por uma encosta ou o escalar uma montanha.

Fala-se da necessidade de estar 'ao corrente', e decerto um intelectual não pode ignorar o género humano, menos ainda desinteressar-se do que se escreve na esfera da sua especialidade; cuidado, porém, não vá a 'corrente' arrastar todas as disponibilidades laboriosas e, em vez de vos levar para diante, imobilizar-vos. Para avançar, é preciso remar; nenhuma corrente, por si só, vos conduzirá aonde quereis chegar. Abri, por vós próprios, o caminho, e não enveredeis por todas as sendas que se vos oferecem.

A restrição deve afectar sobretudo as leituras menos substanciais e menos sérias. Não falemos do veneno dos romances. Um ou outro de quando em quando por distracção e para não perder de vista alguma glória literária; mas que seja pura concessão porque a maior parte dos romances abalam e não repousam, agitam e desorientam os pensamentos.

Quanto aos jornais, defendei-vos deles tanto mais energicamente quanto mais constantes e indiscretos são os seus ataques. Convém saber o que os jornais contêm; mas é tão reduzido o conteúdo! E seria tão fácil informar-se dele, sem necessidade de se instalar em intermináveis sessões da preguiça! Em todo o caso, há horas mais adaptadas para a corrida às notícias do que a hora do trabalho. O trabalhador consciencioso deveria contentar-se com a crónica semanal ou bimensal duma Revista, e recorrer aos jornais só quando lhe apontem algum artigo notável ou acontecimento grave.

Em resumo: podendo recolher-vos, ponde de parte a leitura; lede unicamente, excepto nos momentos de distracção, o que respeita ao fim em vista, e lede pouco, para não devorar o silêncio.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Catequese do Papa: São Tomás, mestre de vida também agora

Intervenção na audiência geral de hoje
CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 23 de junho de 2010 (ZENIT.org) - Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.

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Queridos irmãos e irmãs:

Hoje eu gostaria de completar, com uma terceira parte, minhas catequeses sobre São Tomás de Aquino. Apesar dos mais de 700 anos de distância da sua morte, podemos aprender muito dele; isso foi recordado também pelo meu predecessor, o Papa Paulo VI, quem, em um discurso pronunciado em Fossanova, no dia 14 de setembro de 1974, por ocasião do 7º centenário da morte de São Tomás, perguntava-se: "Mestre Tomás, o que você pode nos ensinar?". E respondia assim: "A confiança na verdade do pensamento religioso católico, como ele defendeu, expôs, abriu à capacidade cognoscitiva da mente humana" (Ensinamentos de Paulo VI, XII[1974], p. 833-834). E, no mesmo dia, em Aquino, referindo-se sempre a São Tomás, afirmava: "Todos nós, que somos filhos fiéis da Igreja, podemos e devemos, ao menos em alguma medida, ser seus discípulos" (ibid., p. 836).

Participemos, também nós, da escola da São Tomás e da sua obra prima, a Summa Theologiae. Esta ficou incompleta e, contudo, é uma obra monumental: contém 512 questões e 2669 artigos. Trata-se de um raciocínio compacto, no qual a aplicação da inteligência humana aos mistérios da fé procede com clareza e profundidade, concatenando perguntas e respostas, nas quais São Tomás aprofunda o ensinamento que vem da Sagrada Escritura e dos Padres da Igreja, sobretudo de Santo Agostinho. Nesta reflexão, no encontro com verdadeiras perguntas da sua época, que frequentemente são perguntas nossas também, São Tomás, utilizando o método e o pensamento dos filósofos antigos, em particular Aristóteles, chega assim a formulações precisas, lúcidas e pertinentes das verdades de fé, nas quais a verdade é dom da fé, resplandece e se torna acessível a nós, à nossa reflexão. Este esforço, no entanto, da mente humana - recorda o Aquinate com sua própria vida - está sempre iluminado pela oração, pela luz que vem do alto. Só quem vive com Deus e com os mistérios pode também compreender o que dizem.

Na Summa de teologia, São Tomás parte do fato de que existem três formas diferentes do ser e da essência de Deus: Deus existe em si mesmo, é o princípio e fim de todas as coisas, razão pela qual as criaturas procedem e dependem d'Ele; depois, Deus está presente através da sua graça na vida e na atividade do cristão, dos santos; finalmente, Deus está presente de modo totalmente especial na pessoa de Cristo, unido aqui realmente com o homem Jesus e operante nos sacramentos, que brotam da sua obra redentora. Por isso, a estrutura dessa monumental obra (cf. Jean-Pierre Torrell, La "Summa" di San Tommaso, Milano 2003, p. 29-75), uma busca com "olhar teológico" da plenitude de Deus (cf. Summa Theologiae, Ia, q. 1, a. 7), está articulada em três partes e ilustrada pelo próprio Doctor Communis - São Tomás - com estas palavras: "O principal fim da sagrada doutrina é o de dar a conhecer Deus e não somente em si mesmo, mas também enquanto princípio e fim das coisas, especialmente da criatura racional. Na tentativa de expor esta doutrina, trataremos, em primeiro lugar, de Deus; em segundo lugar, do movimento da criatura até Deus; e em terceiro lugar, de Cristo, o qual, enquanto homem, é para nós caminho para ir a Deus" (ibid., I, q. 2). É um círculo: Deus em si mesmo, que sai de si mesmo e nos conduz pela mão, de modo que, com Cristo, voltamos a Deus, estamos unidos a Deus e Deus será tudo em todos.

A primeira parte da Summa Theologiae indaga, portanto, sobre Deus em si mesmo, sobre o mistério da Trindade e sobre a atividade criadora de Deus. Nesta parte, encontramos também uma profunda reflexão sobre a realidade autêntica do ser humano enquanto que saiu das mãos criadoras de Deus, fruto do seu amor. Por um lado, somos um ser criado, dependente, não procedemos de nós mesmos; por outro, temos uma verdadeira autonomia, de modo que somos não só algo aparente - como dizem alguns filósofos platônicos -, mas uma realidade querida por Deus como tal e com valor em si mesma.

Na segunda parte, São Tomás considera o homem, conduzido pela graça, em sua aspiração a conhecer e amar a Deus para ser feliz no tempo e na eternidade. Em primeiro lugar, o autor apresenta os princípios teológicos do agir moral, estudando como, na livre escolha do homem de realizar atos bons, integram-se a razão, a vontade e as paixões, às quais se une a força que a graça de Deus dá através das virtudes e dons do Espírito Santo, como também a ajuda que é oferecida pela lei moral. Portanto, o ser humano é um ser dinâmico que busca a si mesmo, tenta ser ele mesmo e procura, neste sentido, realizar atos que o constroem, o tornam verdadeiramente homem; e aqui entra a lei moral, entra a graça e a própria razão, a vontade e as paixões. Sobre este fundamento, São Tomás delineia a fisionomia do homem que vive segundo o Espírito e que se converte, assim, em um ícone de Deus. Aqui, o Aquinate se detém a estudar as três virtudes teologais - fé, esperança e caridade -, seguidas pelo agudo exame de mais de cinquenta virtudes morais, organizadas em torno das quatro virtudes cardeais - prudência, justiça, fortaleza e temperança. Termina depois com a reflexão sobre as diversas vocações na Igreja.

Na terceira parte da Summa, São Tomás estuda o mistério de Cristo - o caminho e a verdade - por meio do qual podemos voltar a unir-nos a Deus Pai. Nesta seção, escreve páginas até agora não superadas sobre o mistério da Encarnação e da Paixão de Jesus, acrescentando depois um amplo tratado sobre os sete sacramentos, porque neles o Verbo divino encarnado estende os benefícios da Encarnação para a nossa salvação, para o nosso caminho de fé rumo a Deus e à vida eterna, permanece materialmente quase presente com as realidades da criação, nos toca assim no mais íntimo.

Falando dos sacramentos, São Tomás se detém de modo particular no mistério da Eucaristia, pelo qual teve uma grandíssima devoção, até o ponto de que, segundo seus antigos biógrafos, costumava aproximar sua cabeça do tabernáculo, como para ouvir pulsar o Coração divino e humano de Jesus. Em uma obra sua de comentário à Escritura, São Tomás nos ajuda a entender a excelência do sacramento da Eucaristia, quando escreve: "Sendo a Eucaristia o sacramento da Paixão do nosso Senhor, contém em si Jesus Cristo que sofreu por nós. Portanto, tudo o que é efeito da Paixão do nosso Senhor, é também efeito deste sacramento, não sendo este outra coisa a não ser a aplicação em nós da Paixão do Senhor" (In Ioannem, c.6, lect. 6, n. 963). Compreendemos bem por que São Tomás e outros santos celebravam a Santa Missa derramando lágrimas de compaixão pelo Senhor, que se oferece em sacrifício por nós, lágrimas de alegria e gratidão.

Queridos irmãos e irmãs: na escola dos santos, enamoremo-nos deste sacramento! Participemos da Santa Missa com recolhimento, para obter seus frutos espirituais! Alimentemo-nos do Corpo e do Sangue do Senhor, para ser incessantemente alimentados pela graça divina! Entretenhamo-nos com prazer e com frequência, de igual para igual, em companhia do Santíssimo Sacramento!

O que São Tomás ilustrou com rigor científico em suas obras teológicas maiores, como na Summa Theologiae, também a Summa contra Gentiles, ele expôs também em sua pregação, dirigida aos estudantes e aos fiéis. Em 1273, um ano antes da sua morte, durante toda a Quaresma, pregou na igreja de São Domingos o Maior, em Nápoles. O conteúdo desses sermões foi recolhido e conservado: são os Opúsculos, nos quais explica o Símbolo dos Apóstolos, interpreta a oração do Pai Nosso, ilustra o Decálogo e comenta a Ave Maria. O conteúdo da pregação do Doctor Angelicus corresponde quase totalmente à estrutura do Catecismo da Igreja Católica. De fato, na catequese e na pregação, em uma época como a nossa, de renovado compromisso pela evangelização, não deveriam faltar nunca estes temas fundamentais: o que nós cremos, e aí etá o Símbolo da Fé; o que nós oramos, e aí está o Pai Nosso e a Ave Maria; o que nós vivemos como nos ensina a Revelação Bíblica, e aí está a lei do amor a Deus e ao próximo e os Dez Mandamentos, como explicação desse mandato do amor.

Eu gostaria de propor um exemplo do conteúdo, simples, essencial e convincente, do ensinamento de São Tomás. Em seu Opúsculo sobre o Símbolo dos Apóstolos, ele explica o valor da fé. Por meio dela, diz, a alma se une a Deus e se produz uma espécie de gérmen da vida eterna; a vida recebe uma orientação segura e nós superamos agilmente as tentações. A quem objeta que a fé é uma necedade, porque faz cair em algo que não cai sob a experiência dos sentidos, São Tomás oferece uma resposta muito articulada e recorda que esta é uma dúvida inconsistente, porque a inteligência humana é limitada e não pode conhecer tudo. Somente se pudéssemos conhecer perfeitamente todas as coisas visíveis e invisíveis, então seria uma autêntica necedade aceitar as verdades por pura fé. No demais, é impossível viver, observa São Tomás, sem confiar na experiência dos demais, lá onde não chega o conhecimento pessoal. É razoável, portanto, ter Deus que se revela e no testemunho dos Apóstolos: estes eram poucos, simples e pobres, aflitos por causa da crucifixão do seu Mestre; e, no entanto, muitas pessoas sábias, nobres e ricas se converteram à escuta da sua pregação. Trata-se, de fato, de um fenômeno historicamente prodigioso, ao qual dificilmente se pode dar outra resposta razoável, a não ser a do encontro dos Apóstolos com o Senhor ressuscitado.

Comentando o artigo do Símbolo sobre a encarnação do Verbo divino, São Tomás faz algumas considerações. Afirma que a fé cristã, considerando o mistério da Encarnação, chega a reforçar-se; a esperança se eleva mais confiada ao pensamento de que o Filho de Deus veio entre nós, como um de nós, para comunicar aos homens sua própria divindade; a caridade se reaviva, porque não existe sinal mais evidente do amor de Deus por nós que ver o Criador do universo tornar-se criatura, um de nós. Finalmente, considerando o mistério da Encarnação de Deus, sentimos inflamar-se nosso desejo de alcançar Cristo na glória. Dando um simples, mas eficaz exemplo, São Tomás observa: "Se o irmão de um rei estivesse longe, certamente ansiaria poder viver perto dele. Pois bem, Cristo é nosso irmão: devemos, portanto, desejar sua companhia, ser um só coração com Ele" (Opúsculos teológico-espirituais, Roma 1976, p. 64).

Apresentando a oração do Pai Nosso, São Tomás mostra que esta é em si perfeita, tendo as cinco características que uma oração bem feita deveria ter: abandono confiado e tranquilo; conveniência do seu conteúdo, porque - observa São Tomás - "é muito difícil saber exatamente o que é oportuno pedir ou não, desde o momento em que temos dificuldade frente à seleção dos desejos" (ibid., p. 120); e, depois, ordem apropriada das petições, fervor de caridade e sinceridade da humildade.

São Tomás foi, como todos os santos, um grande devoto de Nossa Senhora. Ele a definiu com um apelativo estupendo: Triclinium totius Trinitatis, triclínio, isto é, lugar onde a Trindade encontra seu repouso, porque, pela Encarnação, em nenhuma criatura, como n'Ela, as três divinas pessoas inabitam e encontram delícia e alegria em viver em sua alma cheia de graça. Por sua intercessão, podemos obter toda ajuda.

Com uma oração, que tradicionalmente se atribui a São Tomás e que, em todo caso, reflete os elementos da sua profunda devoção mariana, também nós dizemos: "Ó beatíssima e dulcíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, (...) confio ao vosso coração misericordioso toda a minha vida (...). Alcançai, dulcíssima Senhora minha, caridade verdadeira, com a que possa amar com todo o coração vosso santíssimo Filho e a vós, depois d'Ele, sobre todas as coisas, e ao próximo em Deus e por Deus".

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:

Esta é a terceira catequese que dedico a São Tomás de Aquino, de quem todos nós - como dizia o Papa Paulo VI - podemos e devemos ser discípulos. A obra-prima do Doutor Angélico é a Summa Theologiae, dividida em três partes: na primeira, trata de Deus; na segunda, ocupa-se do movimento da criatura para Deus; e na última, fala de Cristo, o qual, enquanto homem, é o caminho para chegarmos a Deus. Aquilo que São Tomás ilustrou, com rigor científico, nas suas obras teológicas maiores, anunciou-o pregando aos estudantes e aos fiéis. Explicava-lhes o Credo, ou seja, o que acreditamos; mas também o Pai-nosso e a Ave-Maria, isto é, o que rezamos; e ainda os Dez Mandamentos, a vida que a Revelação bíblica nos pede marcada pelo amor de Deus e do próximo.

Amados peregrinos língua portuguesa, que viestes junto do túmulo de São Pedro renovar a vossa profissão de fé eclesial, reconhecendo e adorando o Deus Uno e Trino, que vos escolheu para seu Povo Santo. Para todos vós, particularmente para o grupo brasileiro de Piracicaba, a minha saudação agradecida, com votos de abundantes dons de graça e paz divina, que imploro para vós e vossos queridos com a minha bênção apostólica.

[Tradução: Aline Banchieri

©Libreria Editrice Vaticana]

terça-feira, 22 de junho de 2010

Capítulo do livro "A vida intelectual" de A.D. Sertillanges

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges, disponível gratuitamente para downloads aqui.
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CAPÍTULO V - O campo do trabalho
I – A ciência comparada.


É difícil dar um conselho determinado sobre o que convém aprender, e menos ainda sobre a dosagem dos elementos admitidos num plano de trabalho. S. Tomás não fala disso nos Dezesseis Preceitos. É questão de vocação pessoal, em correlação com o fim a alcançar.

Contudo, é possível dar breves indicações que sirvam de ponto de partida a úteis reflexões. Não tomamos a questão na sua origem primeira; falamos para pessoas que já ultrapassaram a idade escolar e se propõem organizar ou completar estudos profundos.

Vêm aqui a propósito as interessantes observações do P. Gratry sobre a Ciência Comparada. A maneira como as desenvolve será talvez um pouco antiquada, no entanto merecem ser seriamente ponderadas pelos intelectuais de nossos dias.

Entendemos por ciência comparada o alargamento das especialidades pela aproximação das disciplinas conexas e a subordinação das mesmas e do seu conjunto à filosofia geral e à teologia.

Embora cultivemos uma especialidade, não é prudente, nem fecundo, confinar-nos nela exclusivamente.

Equivaleria a pôr antolhos. Nenhuma ciência se basta a si mesma; nenhuma disciplina, encarada em si só, é luz suficiente para iluminar os seus caminhos. Isolada, mirra-se, emagrece, estiola-se e, na primeira ocasião, extravia-se.

A cultura parcial é sempre indigente e precária. O espírito ressente-se disso continuamente; a falta de liberdades de movimentos e de segurança de visão paralisa os gestos.

Podemos asseverar sem paradoxo que cada ciência, profunda, daria as demais ciências, as ciências a poesia, a poesia e as ciências a moral, depois a política e a própria religião no que esta possui de humana. Tudo está em tudo: divisões só as operam a abstração. Abstrair não é mentir, reza o provérbio: abstrair non est mentiri, contanto que a abstração, que distingue, isola e concentra a sua luz num ponto, não separe do objeto de estudo o que dele depende mais ou menos diretamente. Privar, assim, de comunicações um objeto seria falseá-lo, porque os seus vínculos fazem parte dele.

Será possível estudar uma peça de relógio, sem pensar na peça vizinha? Ou estudar um órgão, sem tomar em conta o organismo? Do mesmo modo, é impossível avançar em física ou em química sem a matemática, em astronomia sem a mecânica e sem a geologia, em moral sem a psicologia, em psicologia sem as ciências naturais, em coisa alguma sem a história. Todas as ciências são interpendentes; as suas luzes cruzam-se, e qualquer tratado inteligente de uma delas implica mais ou menos as outras.

Por conseguinte, se quiserdes alcançar um espírito aberto, claro, verdadeiramente forte, começais por desconfiar da especialidade. Lançai as bases segundo a altura do edifício que quereis construir; os trabalhos de escavação serão tanto mais largos quanto mais fundo pretendeis chegar. O saber não é torre nem poço, é habitação humana. Um especialista, se não for homem, é manga de alpaca, a sua esplêndida ignorância torna-o, transviado entre os humanos; é um inadaptado, um anormal, um louco. Livre-se o intelectual católico de copiar semelhante modelo. Acima de tudo será homem, pois pertence, por vocação, ao gênero humano; pisará o solo com pé firme, com a sua base de sustentação, e não saltitando sobre as pontas dos pés.

O saber tentou sondar a noite em todos os sentidos; nela mergulham os sábios, a mão para apanhar estrelas, desenvolvendo nobre esforço que não deixa indiferente nenhum pensador autêntico. Seguir até certo ponto as explorações de certos investigadores é, para vós, obrigação que no fim se resolve em capacidade decuplada para as vossas próprias pesquisas.

Quando chegardes à especialidade, depois de ter experimentado muita cultura, amplificado o olhar e compreendido o sentimento das ligações pelas profundidades, sereis homens diferentes daqueles que se confinam em estreita disciplina.

O cultivo exclusivo de qualquer ciência apresenta igualmente perigos que ninguém de bom senso desconhece. O estudo isolado das matemáticas falseia o juízo, habituando-o a um rigor que nenhuma outra ciência, e menos ainda a vida real comporta. A complexidade da física e da química causa fastio e apouca o espírito. A fisiologia conduz facilmente ao materialismo, a astronomia corre o perigo de habituar à divagação, a geologia converte-vos em galgos que tudo farejam, a literatura torna-vos balofos, a filosofia incha, a teologia expõe-vos ao falso sublime e ao orgulho doutoral. Precisais passar de um espírito a outro, a fim de corrigi-los um pelo outro; precisais de variar as culturas para não cansar o solo.

Não julgueis que, pelo fato de prosseguir até certo ponto o estudo comparado, ficareis sobrecarregados ou impedidos de vos dedicar com afinco a uma especialidade, porque a luz, que dessa comparação irradia, facilitará a visão das coisas, e o espírito, ganhando em amplidão, será mais apto para receber sem se prejudicar.

Quem se instala no centro das ideias fica depois com o caminho desembaraçado para seguir em qualquer direção. E que melhor acesso ao centro do que tentar diferentes vias, que, à maneira dos raios dum circulo, dão o sentimento dum encontro e duma encruzilhada comum?
Conheço um lingüista que, no espaço de quinze dias, consegue deslindar uma língua nova. Porquê? – porque sabem muitas outras. Num relance, o espírito abarca o novo idioma, os seus caracteres fundamentais, a sua constituição. As ciências são as diversas línguas em que o homem balbucia penosamente a natureza inefável; decifrar muitas delas é favorecer cada uma, porque afinal todas são uma só coisa.

Demais a mais, despertos o instinto poderoso e o entusiasmo em todo o homem bem dotado por esta maneira de viajar através das ciências e de explorar estes magníficos domínios, como se visitam alternadamente os fiordes da Noruega, o Corno de Ouro, os hipogeus do Egipto, as pampas da América e os palácios chineses, este ardor épico, capaz de empolgar uma inteligência ao contacto das grandezas do espírito, comunica ao estudo inspiração e facilidade surpreendentes.

Um rabino, a quem censuravam de sobrecarregar a lei, respondeu: <>. Esse sim tinha zelo, o zelo que, no domínio das capacidades espirituais, corresponde ao calor que dilata os corpos. Uma taça, ao sol, tem maior capacidade do que à sombra. Um espírito deslumbrado perante o espetáculo da verdade, e por ele desdobrado como arco-íris, toma-se capaz de adquirir sem fadiga, com alegria, conhecimentos que enervariam o triste cultor duma única ciência.

Os grandes homens foram sempre mais ou menos universais; sobressaindo numa parte, nas outras foram pelo menos curiosos, freqüentemente sábios, às vezes até especialistas. Não conseguireis confinar num só ramo do saber homens da envergadura de Aristóteles, Bacon, Leonardo de Vinci, Leibniz ou Goethe. Henrique Poincaré, na Academia das Ciências, espantava os colegas das outras secções, pelas suas concepções geniais: consultá-lo era colocar-se imediatamente no centro do saber, ponto onde todas as ciências se identificam. Não alimentais semelhantes pretensões? Embora! O que as grandes sumidades praticaram permanece sempre como indicação fecunda para os demais. Traçai um plano amplo, que se vá reduzindo pouco a pouco pelo que diz respeito ao tempo consagrado a cada estudo secundário, e não quanto à largueza de vistas nem ao espírito de trabalho. Escolhei acertadamente os conselheiros. Um só entre mil para o conjunto, outros para cada parte, se preciso for. Reparti o tempo, regulai a sucessão das culturas, nunca procedendo ao acaso.

Em cada coisa, ide direitos ao essencial, não vos deixando enredar nas minúcias: não é por estas que se empunham as ciências; é muitas vezes pelo pormenor mas pelo pormenor característico, isto é, pelo fundo.

Mas, para vos orientardes neste domínio, precisais de penetrar no que ainda falta dizer. Assim como nenhuma ciência particular se basta a si própria, assim também o conjunto das ciências, se não sustenta sem a rainha das ciências – a filosofia(1) –, nem o conjunto dos conhecimentos humanos sem a sabedoria derivada da ciência divina – a teologia. O P. Gratry exprimiu, sobre este ponto, verdades capitais, e S. Tomás, indo mais além, assinalou o lugar e a dignidade destas duas rainhas do duplo reino(2). As ciências, sem a filosofia, desclassificam-se e desorientam-se. As ciências e a filosofia, sem a teologia, desclassificam-se mais ainda, visto repudiarem uma coroa celeste; e desorientam-se mais irremediavelmente, porque a terra sem o céu não encontra a sua órbita, nem as influências que lhe dão fecundidade.

Hoje que a filosofia esmoreceu, as ciências rebaixam-se e dispersam-se; hoje que se ignora a teologia, a filosofia é estéril, não conclui coisa alguma, faz crítica e faz história sem bússola; é sectária e muitas vezes destruidora, nunca tranquiliza nem ilumina; não ensina. E os seus mestres, que têm a dupla desgraça de ignorar e de ignorar que ignoram, consideram a teologia uma coisa do outro mundo.

Sim, a teologia pertence ao outro mundo, quanto ao objecto; mas o outro mundo governa este, continua-o em todos os sentidos, para trás, para diante e para cima, e portanto não é de espantar que o ilumine.

O melhor que pode fazer um intelectual católico, que pertence ao seu tempo, é trabalhar, pela parte que lhe toca, em nos restituir a ordem de que carecemos. O de que o nosso tempo precisa, do ponto de vista doutrinal não é a dose de saber, é a harmonia do saber, harmonia que só se obtém por um apelo aos primeiros princípios(3).

A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas, e como o espírito só se instrui verdadeiramente pela investigação das casualidades, a ordem do espírito deve corresponder à ordem das causas. Portanto, existindo um Ser primeiro e uma Causa primeira, é lá que se completa e ilumina ultimamente o saber. Primeiramente como filósofo, por meio da razão, em seguida como teólogo, utilizando a luz que vem do alto, o homem de verdade deve centrar a sua investigação naquilo que é ponto de partida, regra e fim a título primeiro, naquilo que é
tudo para tudo e para todos.

Em toda a espécie de objetos e disciplinas, só reina a ordem, no momento em que os princípios, dispostos hierarquicamente até ao princípio primeiro, desempenham o papel de princípios, de chefes, como num exército, como numa casa ordenada, como num povo.

Repudiamos hoje os primeiros princípios; mas, por isso, o saber desarticulou-se. Possuímos farrapos, magníficos ouropéis, não possuímos vestidos; possuímos excelentes capítulos, não temos livro completo, não temos Bíblia.

As Bíblias do saber foram outrora as Sumas: faltam-nos hoje as Sumas, e ninguém entre nós seria capaz de compor uma. Tudo é caótico. Mas, se ainda é cedo para redigir uma Suma coletiva, pelo menos cada homem que pensa e que deseja verdadeiramente saber, pode tentar constituir a sua Suma pessoal, isto é, pôr ordem nos conhecimentos, invocando os princípios desta ordem, ou seja, filosofando e coroando a sua filosofia por uma teologia sumária, mas profunda.

Os sábios cristãos, desde o princípio até ao fim do século XVII, foram todos teólogos, e os sábios, cristãos ou não, até ao século XIX, foram todos filósofos. Depois, o saber baixou; alastrou em superfície e perdeu em altura, e portanto também em profundidade, porque a terceira dimensão tem dois sentidos que se correspondem. Que o católico, cônscio desta aberração e das suas conseqüências, saiba fazer-lhes frente; intelectual ou desejoso de o ser, aspire à intelectualidade completa, em todas as suas dimensões.

Não se lhe tira a seiva, pelo contrário dár-se-lhe um curso glorioso. Em razão deste novo impulso comunicado ao saber, deste apelo dos dados humanos a uma colaboração celeste, todos os conhecimentos são vivificados e todas as ciências alargadas. A unidade da fé dá ao trabalho intelectual o caráter de cooperação imensa. É a obra coletiva dos humanos unidos em Deus. Por isso a ciência cristã, tal qual é e muito mais ainda quando se escrever a Suma dos tempos modernos, ultrapassará em amplidão e inspiração os monumentos da antiguidade e do neo-paganismo. As enciclopédias estarão para ela como Babel para as catedrais.

Quem busca a verdade não tem o direito de ignorar tão rico tesouro. É de esperar que a próxima geração, carrilada por esta que tão notoriamente ultrapassa as precedentes, se aproxime muito naturalmente e sem respeito humano da ciência das ciências, do cântico dos cânticos do saber, da teologia inspiradora, e encontre nela a maturação e a elevação, o lirismo potente e calmo, expressão completa da vida do espírito.

Não custa penetrar no campo da teologia, nem o seu estudo exige muito tempo, a não ser, é claro, que se tome como objecto de especialidade. Dedicai-lhe quatro horas por semana, durante cinco ou seis anos; é o suficiente; depois só tereis de conservar o aprendido. Sobretudo, porém, não vos fieis em falsos mestres. Tomareis, logo de entrada, S. Tomás de Aquino. Estudai a Suma, mas antes disso aprendereis os dogmas basilares da fé. Tende à mão o Catecismo do Concílio de Trento, esplêndido resumo da doutrina teológica(4).

Possuí plenamente este manual e continuai, dia a dia, em companhia de S. Tomás, o desenvolvimento racional da ciência divina. A princípio, o texto parecer-vos-á seco e abstruso; pouco a pouco, brilharão as luzes dominadoras; as primeiras dificuldades vencidas terão como recompense novas vitórias; aprendereis a língua da terra, e, ao fim de algum tempo, circulais por lá como em vossa casa, com a impressão de que residis numa sublime habitação.

Estudai, é claro, em latim! As traduções da Suma, muitas vezes traiçoeiras, são sempre insuficientes. Quem se deixasse acobardar perante o esforço de aprender uma língua que um espírito ordinário consegue dominar em dois meses, não mereceria que nos preocupássemos com a sua formação(5). Falamos para entusiastas: se querem penetrar na <>, dêem-se ao trabalho de procurar a chave dela.

Ser-vos-ia útil alguma obra de introdução, que vos fizesse pressentir o conteúdo de S. Tomás e servisse de prelibação. Todavia, não pareis aí; tomai a mão que se vos estende para vos pôr em movimento(6).

Por outro lado, um repetidor de espírito aberto e bem informado prestar-vos-ia valioso auxílio, diria até indispensável. Iniciar-vos-ia paulatinamente no vocabulário técnico do tomismo, poupar-vos-ia hesitações e quiproquós, esclareceria um texto por outro texto, assinalaria as pistas e defenderia os passos dos precipícios. No entanto, persuadido como estou do mal que fazem amigos inábeis, da desilusão e escândalo provocado por comentários estúpidos, recomendo-vos que prefirais a solidão a um concurso pouco inteligente. Esforçai-vos por quebrar a noz; magoareis as mãos, mas acabareis de a partir, e então será o próprio S. Tomás quem instrui o seu discípulo.

Para esse fim, consultai cuidadosamente, a propósito de cada artigo, as passagens diferentes a que as edições costumam remeter; consultai o Index tertius, esse tesouro, imperfeito, mas ainda assim tesouro; comparai; estudai de sorte que os documentos se completem e comentem mutuamente, e depois redigi o artigo estudado. Excelente ginástica que dá maleabilidade, amplidão e vigor ao espírito, e o torna preciso, inimigo do sofisma e do pouco mais ou menos, e ao mesmo tempo o enriquece de noções claras, profundas, bem encadeadas, sempre ligadas aos princípios primeiros, constituindo, pela sua coadunação, uma forte síntese.


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(1) É curioso que, na hora atual, a própria ciência convida o sábio a elucidar problemas que até aqui dependiam da filosofia: casualidade, determinismo, probabilidade, contínuo e descontínuo, espaço, tempo, etc. Logicamente, o sábio, nesses casos, deveria recorrer ao filósofo; mas este, as mais das vezes, retrai-se, fecha-se nos seus antigos quadros, e o sábio vê-se então obrigado a filosofar por si próprio, e fá-lo sem experiência e muito frequentemente de través.

(2) Cf. sobretudo, Suma Teologica, toda a Questão I; Comentário ao De Trinitate, de Boécio, Questão II, art. 2; Contra Gentes. liv. I, cap. I.

(3) Escreveu Carlos Dunan: <>. Les Deux idéalismes, Paris, Alcan, 1911, P. 182.

( 4) A título de auxiliar, seja-me permitido indicar o Catecismo dos Incrédulos, publicado com o fim de facilitar aos nossos contemporâneos a compreensão da doutrina cristã c das suas bases.

( 5) Não se julgue que o Autor possui um segredo para ensinar o latim em dois meses! Não se trata do latim clássico, mas do latim empregado por S. Tomás. O vocabulário tomista é tão reduzido, as construções sempre as mesmas e tão alheias ao que torna difícil o latim, que só um preguiçoso recuará diante da conquista deste tesouro.

( 6) Cf. o livro elementar de J. Maritain, Éléments de Philosophie, Paris, Téqui, 1920. Para estudo mais profundo: A.D. Sertillanges, Saint Thomás d'Aquin, 2 vols. [Coll. <>], Paris, Alcan, 1910.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Catequese do Papa: Tomás de Aquino, defensor da razão humana

Intervenção na audiência geral de hoje
CIDADE DO VATICANO, quarta-feira, 16 de junho de 2010 (ZENIT.org).- Apresentamos, a seguir, a catequese dirigida pelo Papa aos grupos de peregrinos do mundo inteiro, reunidos na Praça de São Pedro para a audiência geral.

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Queridos irmãos e irmãs:

Hoje eu gostaria de continuar a apresentação de São Tomás de Aquino, um teólogo de tal valor que o estudo do seu pensamento foi explicitamente recomendado pelo Concílio Vaticano II em dois documentos, o decreto Optatam totius, sobre a formação para o sacerdócio, e a declaração Gravissimum educationis, que trata sobre a educação cristã. No demais, já em 1880, o Papa Leão XIII, grande admirador seu e promotor de estudos tomistas, quis declarar São Tomás como padroeiro das escolas e das universidades católicas.

O principal motivo desse apreço reside não somente no conteúdo do seu ensinamento, mas também no método adotado por ele, sobretudo a nova síntese e distinção entre filosofia e teologia. Os Padres da Igreja se encontravam diante de diversas filosofias de tipo platônico, nas quais se apresentava uma visão completa do mundo e da vida, incluindo a questão de Deus e da religião. Na confrontação com estas ideologias, eles mesmos haviam elaborado uma visão completa da realidade, partindo da fé e usando elementos do platonismo, para responder a questões essenciais dos homens. Esta visão, baseada na revelação bíblica e elaborada com um platonismo corrigido à luz da fé, eles chamam de "nossa filosofia".

A palavra "filosofia" não era, portanto, expressão de um sistema puramente racional e, como tal, diferente da fé, mas indicava uma visão completa da realidade, construída à luz da fé, mas feita e pensada pela razão; uma visão que, certamente, ia muito além das capacidades próprias da razão, mas que, como tal, era também satisfatória para ela. Para São Tomás, o encontro com a filosofia pré-cristã de Aristóteles (que morreu por volta de 322 a.C.) abria uma perspectiva nova. A filosofia aristotélica era, obviamente, uma filosofia elaborada sem conhecimento do Antigo e do Novo Testamentos, uma explicação do mundo sem revelação, pela simples razão. E esta racionalidade conseguinte era convincente. Assim, a velha forma da "nossa filosofia" dos Padres já não funcionava. A relação entre filosofia e teologia, entre fé e razão, precisava ser repensada.

Existia uma "filosofia" completa e convincente em si mesma, uma racionalidade que precedia a fé e depois a "teologia", um pensar com a fé na fé. A questão urgente era esta: o mundo da racionalidade, a filosofia pensada sem Cristo e o mundo da fé são compatíveis? Ou se excluem? Não faltavam elementos que afirmavam a incompatibilidade entre os dois mundos, mas São Tomás estava firmemente convencido da sua compatibilidade; mais ainda, estava convencido de que a filosofia elaborada sem conhecimento de Cristo quase esperava a luz de Jesus para ser completa. Esta foi a grande "surpresa" de São Tomás, que determinou seu caminho de pensador. Mostrar essa independência entre filosofia e teologia e, ao mesmo tempo, sua recíproca racionalidade, foi a missão histórica do grande mestre. E assim se entende que, no século XIX, quando se declarava fortemente a incompatibilidade entre razão moderna e fé, o Papa Leão XIII indicasse São Tomás como guia no diálogo entre uma e outra. Em seu trabalho teológico, São Tomás supõe e concretiza essa racionalidade. A fé consolida, integra e ilumina o patrimônio de verdade que a razão humana adquire. A confiança que São Tomás outorga a estes dois instrumentos do conhecimento - a fé e a razão - pode ser reconduzida à convicção de que ambas procedem de uma única fonte de verdade, o Logos divino, que opera tanto no âmbito da criação como no da redenção.

Junto com o acordo entre razão e fé, deve-se reconhecer, por outro lado, que estas se valem de procedimentos cognoscitivos diferentes. A razão acolhe uma verdade em virtude da sua evidência intrínseca, mediata ou imediata; a fé, no entanto, aceita uma verdade com base na autoridade da Palavra de Deus que se revela. São Tomás escreve no começo da sua Summa Theologiae: "Cumpre saber que há dois gêneros de ciências. Umas partem de princípios conhecidos à luz natural do intelecto, como a aritmética, a geometria e semelhantes. Outras provêm de princípios conhecidos por ciência superior: como a perspectiva, de princípios explicados na geometria, e a música, de princípios aritméticos. E deste modo é ciência a doutrina sagrada, pois deriva de princípios conhecidos à luz duma ciência superior, a saber: a de Deus e dos santos" (I, q. 1, a. 2).

Esta distinção assegura a autonomia tanto das ciências humanas como das ciências teológicas. Esta, no entanto, não equivale à separação, e sim implica em uma colaboração recíproca e vantajosa. A fé, de fato, protege a razão de toda tentação de desconfiança em suas próprias capacidades, estimula-a a abrir-se a horizontes cada vez mais amplos, tem viva nela a busca dos fundamentos e, quando a própria razão se aplica à esfera sobrenatural da relação entre Deus e o homem, enriquece seu trabalho. Segundo São Tomás, por exemplo, a razão humana pode com certeza chegar à afirmação da existência de um só Deus, mas somente a fé, que acolhe a Revelação divina, é capaz de chegar ao mistério do amor de Deus uno e trino.

Por outro lado, não é somente a fé que ajuda a razão. Também a razão, com seus meios, pode fazer algo importante pela fé, prestando-lhe um triplo serviço que São Tomás resume no prólogo do seu comentário ao De Trinitate, de Boécio: "Demonstrar os fundamentos da fé: explicar mediante similitudes as verdades da fé; rejeitar as objeções que se levantam contra a fé" (q. 2, a. 2). Toda a história da teologia é, no fundo, o exercício deste empenho da inteligência, que mostra a inteligibilidade da fé, sua articulação e harmonia internas, sua racionabilidade e sua capacidade de promover o bem do homem. A correção dos raciocínios teológicos e seu significado cognoscitivo real se baseiam no valor da linguagem teológica, que é, segundo São Tomás, principalmente uma linguagem analógica. A distância entre Deus, o Criador, o ser de suas criaturas é infinita; a dissimilitude é sempre maior que a similitude (cf. DS 806). Apesar disso, em toda a diferença entre Criador e criatura, existe uma analogia entre o ser do criado e o ser do Criador, que nos permite falar com palavras humanas sobre Deus.

São Tomás fundou a doutrina da analogia, além das suas argumentações profundamente filosóficas, também no fato de que, com a Revelação, o próprio Deus nos falou e nos autorizou a falar d'Ele. Considero importante recordar esta doutrina. Ela, de fato, nos ajuda a superar algumas objeções do ateísmo contemporâneo, que nega que a linguagem religiosa esteja provista de um significado objetivo e sustenta, no entanto, que tem um valor subjetivo ou simplesmente emotivo. Esta objeção nasce do fato de que o pensamento positivista está convencido de que o homem não conhece o ser, mas somente as funções experimentais da realidade. Com São Tomás e com a grande tradição filosófica, nós estamos convencidos de que, na verdade, o homem não conhece somente as funções, objeto das ciências naturais, mas conhece algo do próprio ser - por exemplo, conhece a pessoa, o "tu" do outro, e não somente o aspecto físico e biológico do seu ser.

À luz deste ensinamento de São Tomás, a teologia afirma que, ainda sendo limitada, a linguagem religiosa está dotada de sentido - porque tocamos o ser -, como uma flecha que se dirige à realidade que significa. Este acordo fundamental entre razão humana e fé cristã é visto em outro princípio fundamental do pensamento do Aquinate: a graça divina não anula, mas sim supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Esta última, de fato, inclusive depois do pecado, não está completamente corrompida, mas ferida e enfraquecida. A graça, dada por Deus e comunicada por meio do mistério do Verbo encarnado, é um dom absolutamente gratuito, com o qual a natureza é curada, potenciada e ajudada a buscar o desejo inato no coração de cada homem e de cada mulher: a felicidade. Todas as faculdades do ser humano são purificadas, transformadas e elevadas pela graça divina.

Uma importante aplicação desta relação entre a natureza e a graça é descoberta na teologia moral de São Tomás de Aquino, que é de grande atualidade. No centro do seu ensinamento neste campo, ele coloca a lei nova, que é a lei do Espírito Santo. Com um olhar profundamente evangélico, insiste no fato de que esta lei é a graça do Espírito Santo dada àqueles que creem em Cristo. A esta graça se une o ensinamento escrito e oral das verdades doutrinais e morais, transmitidas pela Igreja. São Tomás, sublinhando o papel fundamental, na vida moral, da ação do Espírito Santo, da Graça, da qual brotam as virtudes teologais e morais, ajuda a compreender que todo cristão pode alcançar as altas perspectivas do "Sermão da Montanha" se viver uma relação autêntica de fé em Cristo, se se abrir à ação do seu Santo Espírito. Mas - acrescenta o Aquinate -, "ainda que a graça seja mais eficaz que a natureza, contudo, a natureza é mais essencial para o homem" (Summa Theologiae, Ia, q. 29, a. 3); por isso, na perspectiva moral cristã, há um lugar para a razão, a qual é capaz de discernir a lei moral natural. A razão pode reconhecê-la considerando o que é bom fazer e o que é bom evitar para alcançar essa felicidade que está no coração de cada um e que implica também em uma responsabilidade com relação aos demais e, por conseguinte, à busca do bem comum. Em outras palavras, as virtudes do homem, teologais e morais, estão arraigadas na natureza humana. A graça divina acompanha, sustenta e conduz o compromisso ético, mas, em si mesmos, segundo São Tomás, todos os homens, crentes ou não, estão chamados a reconhecer as exigências da natureza humana expressas na lei natural e a inspirar-se nela na formulação de leis positivas, isto é, as formuladas pelas autoridades civis e políticas para regular a convivência humana.

Quando a lei natural e a responsabilidade que esta implica se negam, abre-se dramaticamente o caminho ao relativismo ético no âmbito individual e ao totalitarismo do Estado no âmbito político. A defesa dos direitos universais do homem e a afirmação do valor absoluto da dignidade da pessoa postulam um fundamento. Não é precisamente a lei natural este fundamento, com os valores não-negociáveis que ela indica? O venerável João Paulo II escrevia em sua encíclica Evangelium vitae palavras que continuam sendo de grande atualidade: "Para bem do futuro da sociedade e do progresso de uma sã democracia, urge, pois, redescobrir a existência de valores humanos e morais essenciais e congênitos, que derivam da própria verdade do ser humano, e exprimem e tutelam a dignidade da pessoa: valores que nenhum indivíduo, nenhuma maioria e nenhum Estado poderá jamais criar, modificar ou destruir, mas apenas os deverá reconhecer, respeitar e promover" (n. 71).

Em conclusão, Tomás nos propõe um conceito da razão humana amplo e confiado: amplo porque não está limitado aos espaços da chamada razão empírico-científica, mas aberto a todo o ser e, portanto, também às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano; e confiado porque a razão humana, sobretudo quando acolhe as inspirações da fé cristã, promove uma civilização que reconhece a dignidade da pessoa, a intangibilidade dos seus direitos e a força dos seus deveres. Não surpreende que a doutrina sobre a dignidade da pessoa, fundamental para o reconhecimento da inviolabilidade dos direitos do homem, tenha amadurecido em ambientes de pensamento que recolheram a herança de São Tomás de Aquino, que tinha um conceito altíssimo da criatura humana. Ele a definiu, com sua linguagem rigorosamente filosófica, como "o mais perfeito que existe em toda a natureza, isto é, um sujeito subsistente em uma natureza racional" (Summa Theologiae, Ia, q. 29, a. 3).

A profundidade do pensamento de São Tomás de Aquino brota - não nos esqueçamos disso jamais - da sua fé viva e da sua piedade fervorosa, que ele expressava em orações inspiradas, como esta, na qual pede a Deus: "Concedei-me, eu vos peço, uma vontade que vos busque, uma sabedoria que vos encontre, uma vida que vos agrade, uma perseverança que vos espere com confiança e uma confiança que no final chegue a possuir-te".

[No final da audiência, o Papa cumprimentou os peregrinos em vários idiomas. Em português, disse:]

Queridos irmãos e irmãs:
A confiança que São Tomás de Aquino deposita nos dois instrumentos do nosso conhecimento - a fé e a razão -, assenta na convicção de que ambas provêm da mesma e única fonte da verdade, o Verbo divino, que age tanto no âmbito da criação como no da redenção. Este acordo fundamental entre razão humana e fé cristã transparece ainda noutro princípio basilar do seu pensamento: a Graça divina não anula, mas supõe e aperfeiçoa a natureza humana. Esta, com o pecado, não ficou totalmente corrompida, mas apenas ferida e debilitada. Com a Graça, a natureza é curada, fortalecida e ajudada a alcançar a felicidade, que é o anseio natural de toda a pessoa humana. São Tomás propõe-nos um conceito amplo da razão humana, porque não se limita aos espaços da chamada razão empírico-científica, mas abre-se a todo o ser e às questões fundamentais e irrenunciáveis do viver humano.

Saúdo cordialmente todos os peregrinos lusófonos, em particular os brasileiros da paróquia São Vicente Mártir de Porto Alegre e os irmãos da Misericórdia de Maringá, como também os professores e alunos portugueses do Centro Cultural Sénior de Braga, para todos implorando uma vontade que procure a Deus, uma sabedoria que O encontre, uma vida que Lhe agrade, uma perseverança que por Ele espere e a confiança de chegar a possuí-Lo. São os meus votos e também a minha bênção.

[Tradução: Aline Banchieri

©Libreria Editrice Vaticana]

domingo, 13 de junho de 2010

Os Católicos de hoje

Os Católicos de hoje
5 de maio de 1918

Se fosse necessário traçar um quadro que revelasse mais ou menos a fisionomia dos católicos de nossos dias, nos veríamos obrigados a dizer que são gentes que, em sua maioria, tem se despojado do elemento essencial da vida cristã, para ficarem com apenas algumas manifestações externas, que quase sempre se cumpre por rotina que por outra coisa. Se assiste o santo sacrifício da Missa mais pelo fato de ser um costume longamente enraizado; e, se confessa ou comunga é para não contrariar abertamente a mãe ou a esposa. Fora desses atos religiosos que nada valem pelo estado de espirito com que se praticam, não se faz outra coisa que divertir-se, dedicar, sobretudo os dias destinados a Deus, à procura de maiores deleites.

É assim que muitos católicos de hoje levam uma vida pagã; Este estão fechando o ouvido ao que há de fundamental no catolicismo que é o amor de Deus e o amor ao próximo, para ficarem com algumas partes que, por carecer do substancial, não tem valor, nem significação alguma. Ser católico, é ser discípulo daquele que passou pelo mundo fazendo o bem e consagrando todos os instantes de sua vida mortal a amar a Deus e a ajudar os demais. Isto é ser católico não só de palavra senão de verdade, de fato isto é o religioso cumprimento de nossa missão como homens cristãos.

Constatamos que se os católicos de hoje querem merecer este nome devem começar por deixar de fazer os grandes males que estão fazendo com seu exemplo, porque, se o exemplo dos ímpios e dos inimigos da verdade é demolidor, com maior razão será dos que se dizem filhos fiéis da Igreja, e são, sem dúvida, em seus atos, modelos de corrupção e de iniquidade. É muito comum encontrarmos pessoas que se dizem católicos fiéis, mas só de palavra, pois na primeira oportunidade os vemos entrando em um cinema que corrompe as almas ou frequentando alguns bailes e seguindo ostentando a falta de pudor apesar das exortações dos sacerdotes; além de usar trajes que não revelam outra coisa se não o debilitamento do sentido moral e grande falta de respeito a honestidade natural.

Por toda parte se veem católicos degenerados rendendo homenagem de adoração a Deus com a inteligência, mas escarnecendo e pisoteando com seus atos, o que são uma contradição vivente das doutrinas que professam. E são estes mesmo que se espantam de que se persiga a Igreja, de que se odeie a Cristo, de que se blasfemem e de que a impiedade o inunde todo um rio imenso que transborda; pois tenham claro que as gerações, por cima do influxo das ideias, se formam com o contato e exemplo dos demais, portanto, se os católicos muito longe de viver sua fé e de observá-la no máximo possível em seus atos continuam como até agora trabalhando em oposição mais ou menos aberta com sua doutrinas e seu critério, seguindo sendo responsáveis da depravação profunda que trava nossa sociedade e que é obra das más ideias e dos exemplos corruptores.

Por agora, já que a desmoralização é tão grande, convém fazer esforços decididos por abster-se de um mal para não contribuir com uma conduta corruptora para a degeneração das massas. Comecemos por não darmos o exemplo vergonhoso de viver um vida pagã; ter valor suficiente para não ir a lugares onde se escarnecem a moral e se depravam os costumes; preocupe-se com que suas roupas e suas relações reflitam a doutrina salvadora do cristianismo se não quiser ser um dos responsáveis pelo decaimento da sociedade.

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Transcrito e traduzido do livro:
FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. p. 533-534.

sábado, 12 de junho de 2010

Chesterton e os historiadores

“Os historiadores sérios vão deixando de lado a ideia absurda de a Igreja medieval ter perseguido todos os homens de ciência como feiticeiros, o que está muito próximo de ser o contrário da verdade. Se o mundo algumas vezes os perseguiu como a feiticeiros, outras vezes, de maneira oposta, os seguiu por feiticeiros. Só a Igreja os considerava, real e unicamente, homens de ciência. Muitos clérigos investigadores foram acusados de magia por fabricar lentes e espelhos; acusavam-nos os seus vizinhos rudes e rústicos, e naturalmente teriam sido acusados igualmente se os vizinhos fossem pagãos, puritanos ou adventistas do sétimo dia. Mas até neste caso eles teriam mais sorte em ser julgados pelo papado do que se fossem simplesmente linchados pelos leigos”


CHESTERTON, G.K. Santo Tomás de Aquino: biografia. Tradução de Carlos Ancêde Nougué. São Paulo: Ltr, 2003. p. 64-65.

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