terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O estudante pobre

Sinto-me sempre comovido quando vejo a luta quase sobre-humana que alguns jovens têm de sustentar para poderem continuar seus estudos. Lembro-me de um cujos pais, pobríssimos, viviam no campo e eram incapazes de o auxiliar eficazmente neste ponto. O rapaz aprendia bem; era muito aplicado. Levantava-se cedo para ter tempo de fazer os seus exercícios escolares e de ensinar ainda um colega mais novo. Nunca tomava o pequeno almoço e, ao meio-dia, tomava a refeição em casa de uma família que tinha dó dele. Trazia a comida remendada. No Inverno, não tinha aquecimento no quarto. Era seu companheiro de carteira um estudante elegante e perfumado. Este tinha uma gola de pele no casaco de Inverno, e, durante o recreio das dez horas, comia, com fastio, indolentemente, sentado num canapé, um pãozinho com presunto e manteiga. O meu pobre amiguinho via-o fazer isto quase com as lágrimas nos olhos. "Meus Deus, meu Deus, porque tenho eu de lutar tão amargamente" - dizia ele. Escuta-me, meu filho: se és um destes estudantes pobres, desejaria consolar-te. A pobreza não é vergonha. Além disso, os anos de estudo passados na luta têm um imenso valor educativo. O teu colega rico, que cresce no bem-estar, gastará facilmente o tempo precioso da juventude, que não mais voltará, em divertimentos, prazeres, distrações contínuas - em desportes levados ao excesso, o que seria ainda o menor mal. Para ele, o liceu perturba as suas habituais distrações, ao passo que para o pobre o estudo é um prazer, um conforto, uma consolação - a esperança de um futuro melhor. Conheço muitos rapazes para quem a falta de ideias sérias e a ausência de gosto pelo trabalho são justamente motivadas por um expressivo bem-estar. Rodeados de amigos igualmente levianos, perdem o tempo a jogar partidas de bilhar, a passear nas ruas elegantes, a dançar, a fazer flirt. Oh! não quero negar que a pobreza pode dar-nos muitos momentos amargos, pode cortar as asas a muitos talentos! Mas estou igualmente certo de que é maio o número de talentos e de caracteres que naufragaram no bem-estar. O jovem muito rico não sente razão alguma para trabalhar. Inversamente, para o pobre o mundo é como que um grande armazém, onde, graças ao seu trabalho, ele poderá comprar o que quiser. Chegado à idade madura, se, pelo seu trabalho conseguiu uma boa posição, saberá então apreciar quanto deve às privações da juventude.

O jovem rico - mesmo quando bem intencionado - nos seus estudos só procura um diploma; o estudante pobre adquire, além disso, sofrendo fome e frio no decurso dos anos do liceu, confiança em si mesmo, firmeza, prontidão nas decisões, e a faculdade de se dominar em todas as situações. Muitos talentos se perdem, sem dúvida, no alforge da pobreza, mas perdem-se muitos mais ainda no bem-estar que a riqueza traz.

"Os deuses vendem todas as suas mercadorias pela moeda do trabalho" - diz um provérbio grego. André Carnégie, conhecido milionário, dá-nos uma boa lista de grandes industriais americanos que começaram a sua vida como simples operários ou caixeiros sem capital: Wanamaker, Claflin, Lord, Field, Barr, Rockefeller, Gould, Seligmam, Wilson, etc. Garfield que, mais tardem veio a ser presidente dos Estados Unidos, era tão pobre na sua juventude que, na idade de 16 anos, quando resolveu embarcar, teve de apresentar-se como ceifeiro a um pequeno lavrador para ganhar dinheiro para a viagem. O lavrador recusou-se a aceitá-lo, dizendo que para aquele trabalho precisava de homens, não de moços.

"E se o moço puder fazer trabalho de homem, não valerá tanto como ele?" - perguntou-lhe Garfield em tom respeitoso, mas firme. A resposta agradou tanto ao patrão que imediatamente contratou o rapaz.

No dia seguinte, o patrão mandou-o ceifar com quatro homens em pleno vigor da idade, os quais, depois de terem troçado do novo ceifeiro, pegaram com ardor no trabalho, supondo que o jovem companheiro depressa perderia o fôlego. Enganaram-se. Este acompanhou-os tão bem que os quatro, ao meio-dia, já desejavam bem o repouso. As mãos de Garfield estavam cheias de "borregas" (ampolas), mas não se queixava. Depois do jantar, pediu aos companheiros que o deixassem dirigir o trabalho: queria mostrar ao patrão que sabia trabalhar como um homem. Os ceifeiros consentiram nisso, mas em breve se arrependeram, porque Garfield conduziu o trabalho com ardor tal que os quatro homens, que não queriam ficar atrás, quando chegou a tarde, estavam exaustos. De seu lado, Garfield não parecia muito fatigado; e quando os outros se foram deitar, pediu ainda ao patrão uma candeia. - "Para que?" - perguntou o patrão admirado. - "Ainda queria estudar um pouco - respondeu Garfield - porque, durante o dia, não tive tempo".

- "Mas, meu rapaz, tu hoje trabalhaste por três, tens necessidade de repouso. Ora dize-me lá como te chamas?" - "Chamo-me James Abraham Garfield" - respondeu-lhe pegando na candeia. Foi para o quarto e estudou durante boa parte da noite. Este pobre estudante veio a ser Presidente dos Estados Unidos!

Poderia escrever-te páginas e páginas de histórias semelhantes a esta. A vida é cheia de exemplos animadores.

-------------------------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

Valerá a pena mentir?

"Dize-me: valerá a pena mentir?" - perguntei, um dia, a um estudante. - "Não!" - respondeu-me com firmeza. - "E então porque? - Porque, cedo ou tarde, a mentira é descoberta, e, então, adeus honra!".

Isto é ainda um argumento. Não poderemos imaginar uma situação mais vergonhosa que a de um jovem que até agora era rodeado de consideração e respeito, em cuja palavra se acreditava, e que acaba de ser apanhado em flagrante delito de mentira. É muito verdade que, cedo ou tarde, todo o mentiroso é conhecido por tal.

"Bom! - diz um outro - não se minta, se se é um poltrão! Mas, quando se é inteligente, pode-se bem mentir. Quando previamente se pensou no que se há-de responder a tal ou a tal pergunta que poderá vir a ser-nos feita, o triunfo é certo".

Admitamos que isso aconteça uma vez. Isso não acontecerá sempre, nem por muito tempo, crê-me. "Embora o burro se esconda detrás da porta, ficam-lhe sempre as orelhas de fora" - diz um provérbio. É em vão que um outro adágio latino adverte o mentiroso de ter uma boa memória - "mendacem oportet esse memorem" - cedo ou tarde, o mentiroso enrolar-se-á em suas contradições; ser-lhe-á preciso cobrir uma mentira com outra mentira para que a primeira fique pouco verídica; a segunda mentira chamará uma terceira, esta uma quarta, e assim por diante. Aquele que abandona o caminho da verdade depressa se encontra em terreno alagadiço e nele se atola cada vez mais. A partir do dia seguinte, esqueceu o objetivo da mentira da véspera, e, em breve, é a vergonha e a desonra. A mentira é um monstro gerado pela língua; e os monstros de nascença nunca têm longa vida.

Mas suponhamos que a mentira fica oculta. Há pessoas suficientemente hábeis para não se deixarem apanhar. Reflete ainda um pouco no que haverá de seguir-se. É próprio do jovem sério e ponderado ver, não somente os resultados imediatos de suas ações, mas também pesar-lhes os efeitos mais afastados.

O mentiroso não foi, então, descoberto. Mas, quando está só em casa, a voz flagrante do remorso fala-lhe do fundo da consciência: "Não tens caráter. Ninguém se pode fiar em ti"! E esta voz que o acusa faz-lhe passar momentos amargos.

- Sim, meu filho, desgraçado daquele que se deixa ir para a mentira! A mentira vem das profundezas obscuras onde o diabo tem a sua morada, e é por isso que ela ensombra a alma, é por isso que ensombra até o rosto do mentiroso. Este tem grande medo de ser traído pelo olhar. Lê somente a queixa d'Efigênio:

Maldita a mentira! Ela não alivia,

Como o fazem as palavras de verdade:

Sua asa negra o coração asfixia!

(Goethe)

Modernamente, os médicos não receitam já tão frequentemente como outrora venenos para curar, porque sabem que, se os venenos curam certas doenças, podem causar outras muito mais graves, que as que curaram.

É exatamente o caso da mentira. Na ocasião, parece ter-nos livrado de um dissabor; mas o seu efeito desastroso não tarda a fazer-se sentir sob vários aspectos.

Chegasse-se embora a abafar a voz da consciência; um dia virá - o do último Juízo - em que Deus Eterno (a quem o mais hábil mentiroso não saberá nunca enganar!) porá em plena luz todas as mentiras, todas as hipocrisias e todas as manhas da terra. "Os lábios mentirosos causam horror ao Senhor" - diz a Sagrada Escritura (Provérbios XII, 22). Deus é a mesma Verdade; a cada mentira nós renegamos, nós desfiguramos a semelhança da nossa alma com Ele. Diz-se que a raposa, caída em armadilha, rói o próprio pé ou a cauda para se salvar. Aquele que tenta preservar-se de um mal pela mentira faz muito pior: rói a sua honra, o seu caráter.

É uma covardia mentir! É heroísmo ficar, a todo o custo, fiel à verdade!

Conseguiste alguma vez tirar proveito de uma mentira? Pagaste-o demasiado caro. - Chegaste a evitar um mal qualquer por uma mentira? Caíste num mal muito maior. - Com uma mentira ganhaste o respeito dos outros? A teus próprios olhos perdeste a honra.
----------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

Por que mentir?

É certo serem muitos rapazes que mentem. - E por que? Muitas vezes por medo... Fizeram alguma coisa que lhes era proibido, receiam ser punidos. É tontice querer apagar uma falta cometendo outra. Muitas vezes a sua "falta" não era mais que um descuido: partiram um copo, entornaram a chávena do café... e agora não dizem a verdade para não serem repreendidos. Assemelham-se àquele que, para apagar uma mancha de lama na roupa branca, se espojasse num atoleiro!

Seria mais ajuizado raciocinar assim: "é verdade que cometi uma falta, e que, se a confessar, serei repreendido. Mas, depois? Amanhã a repreensão estará esquecida e eu estarei contente por ter sido franco e honesto. Se, ao contrário, eu consigo, pela mentira, evitar a repreensão, esta mentira fará em minha alma uma ferida profunda com a qual sofrerei por muito tempo porque tirou a paz do meu coração. Gosto mais de confessar francamente a minha falta: "Mãezinha, fui muito descuidado, fui grosseiro, cometi uma leviandade; esforçar-me-ei por não a repetir, mas castigue-me como entender!" Vês? Ficou assim salva a honorabilidade; e estou persuadido de que, depois de semelhante confissão, não haverá castigo. Mas se o houvesse? Então dirias: "Prefiro sofrer pela justiça a fazer sofrer a justiça por culpa minha"!

Outros há que mentem por covardia. Entre jovens fala-se, por exemplo, de religião, de princípios morais, de ideal; alguns começam a troçar disso. Seria o momento de se pôr abertamente do lado de Deus, da Igreja; não se atreve com receio de olhares irônicos, - prefere-se mentir. É covardia!

Há-os que mentem por inveja. Louva-se em sua presença um dos seus colegas? - "Oh! ele não é o que diz! Tem tal defeito!" - dizem, caluniando-o.

- Para se procurar obter vantagens: "Não foi um 'gol', não é verdade, a bola não tocou!"

- Por fidelidade mal compreendida, quando, por exemplo, se quer ajudar um amigo a sair de embaraços. - Para se gabar: - "Oh! se visses o esplêndido automóvel que tínhamos neste Verão!" ou ainda: "Que maravilhosas aventuras eu tive!" - quando é certo que nada ou quase nada disso era verdade.

- Na aula, mente-se recitando uma lição que um companheiro sopra ao lado, ou copiando o exercício de outro, porque então faz-se figura com alguma coisa que não nos pertence. Nestas ocasiões, o jovem de caráter firme responde à tentação: "Sou demasiado orgulhoso para tentar elevar-me servindo-me de meios indignos".

Tenho já visto mentir por simples leviandade. Esses não mentem no sentido estrito da palavra; mas a sua leviandade acarreta-lhes, por vezes, surpresas muito desagradáveis. Não pode a gente fiar-se neles, porque têm o hábito de ser imprecisos e de brincar com as palavras. A este respeito, volta a ler o capítulo precedente. Tem ainda, meu filho, cuidado com isto: não é raro que um jovem de caráter reto se abstenha sempre de grandes mentiras, mas se permita dizê-las pequenas, por vezes; também isto prejudica o caráter. Um jovem digno nunca dirá: "Não era eu!" quando era ele; mas acontecer-lhe-á dizer: "Fui algumas vezes com tal companheiro", quando deveria dizer: "Irei, se puder". - Tu não faças assim, meu filho!

Tudo o que é contrário à verdade e à retidão é uma mentira. Pode-se ainda mentir não somente por palavras, mas também pelo silêncio de circunstância, por uma conduta hipócrita, etc.

Um homem com quem nunca se sabe onde se está, que não diz senão metade do que pensa, que está sempre a recorrer a subterfúgios, mente da mesma maneira que se sustentasse conscientemente uma coisa errônea.

Já vês, meu filho, como a mentira é uma floresta virgem!
---------------------------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

Nunca mentir!

Nunca mentir! Aqui está um importante dever que exige muita firmeza. - De todas as criaturas, só o homem recebeu o dom da palavra. O papagaio sabe imitar as palavras humanas, mas só o homem é capaz de criá-las.

Não sentes já a responsabilidade que esta faculdade excepcional acarreta ao homem? Porque, se a palavra é um direito exclusivo seu, é também seu dever usar dele convenientemente. "Em verdade vos digo, no último juízo, os homens darão conta de cada palavra inútil que tiverem pronunciado" - declarou Jesus Cristo (Mat. XII, 36). E Nosso Senhor não se contentou com ensinar esta verdade - deu Ele mesmo o exemplo. Lendo os Evangelhos, não podes deixar de notar a ponderação, a dignidade e a nobreza das palavras que saíam de Seus lábios.

O animal urra, berra, pia, - mas não fala. A sua voz é um fruto sem caroço. A palavra humana, essa, tem caroço, alguma coisa que faz mal ou bem, que estraga ou repara, que ofende ou causa agrado - e é isto o que dá à palavra pronunciada enorme responsabilidade.

Aquele que não reflete antes de falar está muito longe de ser um caráter. O ideal da educação cristã é formar um jovem que sabe ser delicado sem lisonja, franco sem grosseria, modesto sem ser desajeitado, dedicado sem inconstância, e fiel a seus princípios sem ofender outrem. O sol executa o seu curso celeste com um brilho sem mancha e uma regularidade sem mistério; o rosto dos homens alegra-se ao voltar-se para ele, e nele bebe força, alegria e vida. O justo é um sol vivificador da sociedade; faz-nos bem ver que assim é, e podemos sempre estar seguros de que não sofreremos decepção.

Não poderá dirigir-se a um jovem melhor louvor do que dizer dele: "tem plena consciência da responsabilidade de suas palavras. Nunca brinca com a língua. Podemos sempre fiar-nos no que ele diz! Fala sempre com delicadeza, e nunca se afasta da verdade!".
----------------------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

Obedecer sem murmurar

Um outro meio de educação do caráter é a obediência... É preciso obedecer quando se é novo. Mas, refletindo bem, agora que o teu espírito começa a amadurecer, verás que a obediência é a base indispensável da tua liberdade e de toda a vida social.

É lindo ver um grupo de escoteiros ou de filiados da Mocidade Portuguesa marchando com garbo e que, a uma palavra do comandante, ficam repentinamente pregados ao solo! E o que é que nos dá esta impressão agradável, senão a sua obediência perfeita?

E porque é necessário que obedeças? Em primeiro lugar, porque não és um ser independente.

"O que? Eu não sou independente? De quem, ou de que é que eu dependo?"

- Dependes, meu amigo, de uma multidão de pessoas e de coisas. Estás longe de ser o centro do mundo, e não podes viver como se não tivesses necessidade de ninguém. Queres saber quem poderia viver independentemente de tudo, sem se preocupar com alguém ou com o que quer que fosse? Aquele e só aquele que se desse a si mesmo a vida, que se metesse no berço e se alimentasse por si mesmo, que talhasse a sua estatura, que não tivesse necessidade de bem algum terrestre, que, ao morrer, se deitasse a sua estatura, que não tivesse necessidade de bem algum terrestre, que, ao morrer, se deitasse ele mesmo no caixão, cavasse a própria sepultura e se enterrasse a si próprio. - Ris-te? Dizes que tal homem não existe? Tens toda a razão. Acabas, pois, de verificar que não se encontra na terra um homem perfeitamente independente.

Além disso, é preciso obedecer porque é a obediência que nos torna perfeitamente livres. - "Não será antes a desobediência?" - pensarás. Não, meu amigo. A desobediência abre as portas aos excessos e à licença. Observa o cavalo que, rebentando os arreios e quebrando as rédeas, se precipita em corrida veloz. É livre? Não. Não sabe para onde vai. Pode matar-se.

É necessário ainda obedecer pra aprender a mandar. - A vontade humana não se inclina de bom grado senão diante de uma forte personalidade; e quanto mais te submeteres de bom grado à legítima vontade dos outros, mais força ganhará a tua alma. O caminho que conduz à liberdade espiritual tem a palavra "obediência" à maneira de tabuleta.

"A minha alma era completamente livre quando eu obedecia" - faz dizer Goethe ao seu Efigênio (V, 3). A obediência é um excelente meio de fortalecer a vontade. Bem sabes que aqueles que te mandam - teus pais e professores - o fazem para teu bem, e não na intenção de te humilhar ou te fazer desesperar. Tens de reconhecer que um estudante de catorze ou dezesseis anos não pode ter uma experiência e um raciocínio tão seguros como o seu pai de quarenta ou cinquenta anos. Por consequência, se teus pais ou os teus professores te ordenarem qualquer coisa, fá-la imediatamente, sem murmurações e sem desgosto - ainda que te pareça que, desta vez, são duros a teu respeito. Lembra-te que és ainda muito leviano e inexperiente, que tens ainda grandes dificuldades em te subtrair a influências exteriores enganadoras e aos cegos impulsos de teus sentidos. Ainda nunca ouvi alguém, chegado à idade de homem, lamentar-se da severidade de seus pais durante a sua infância. Mas conheço muitos que, mais tarde, lamentaram amargamente não lhes terem obedecido melhor quando eram crianças.

Sei que tu, meu querido filho, és obediente.

Sê-o sempre - não porque é necessário, mas porque tu o queres, porque sabes que é para teu bem. Exercita-te em querer fazer o que deves fazer; isto te aproveitará duplamente. Repete muitas vezes a oração sublime de Santo Agostinho: "Senhor, permiti que eu faça a vossa vontade, e depois mandai o que quiserdes".
------------------------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

Sofrer sem se queixar

A vida humana é uma série ininterrupta de alegrias e tristezas que alternadamente se sucedem; e, para muitos de nós, os dias sombrios são mais numerosos que os de bom sol. Quem diz viver, diz sofrer.

Na vida de um jovem há já dificuldade, provações mais ou menos duras, insucessos, mal-entendidos, doenças, sofrimentos físicos e morais. E onde melhor se revela o caráter é precisamente em suportar os golpes que o ferem: Sustine!

Muitas vezes, os indigentes olham os ricos com inveja, e os estudantes pobres invejam os seus colegas mais afortunados. Parecem não acreditar que cada um de nós tem, sobre a terra, o seu quinhão de aflições - de uma maneira ou de outra.

Há homens que cerram furiosamente a mão e que blasfemam contra a sua sorte no tempo de sofrimento: são almas grosseiras. Outros há que, de cabeça baixa e morte na alma, choram o seu destino com impotente resignação: são almas fracas. E há-os ainda que, sofrendo embora nas horas de provação ou de doença, chorando a morte de um ente querido, sabem que o sofrimento virilmente suportado é o fogo que dá ao aço do caráter a mais bela têmpera. Pode-se ser pobre e feliz, rico e infeliz ao mesmo tempo. Pode ser-se feliz com um corpo doente, e infeliz com uma saúde de ferro. Pode ser-se cego e feliz, ao mesmo tempo, como melancólico com olhos de águia. Tudo depende da maneira como nós deixamos o sofrimento operar em nossa alma. Utiliza-o então, meu filho, na educação d teu caráter. Lembra-te sempre de que uma dor suportada pacientemente aumenta o valor de um homem, que aquele que se faz pequeno cresce, que aquele que sabe humilhar-se se eleva, que a cólera dominada torna mais forte; numa palavra, que o sofrimento suportado com Deus torna a alma mais pura e o caráter mais nobre.

Um quadro tem sempre luz e sombras. O talento do artista consiste precisamente em harmonizar estes dois contrastes e fazer sair deles a beleza. - Deus, que é o nosso Pai celeste, conhece as nossas dificuldades. Foi Ele que permitiu que tal infortúnio nos viesse. Tal infortúnio faz, portanto, parte dos seus desígnios a nosso respeito. Qual é este desígnio? Como o poderíamos nós conhecer com o nosso pobre cérebro humano? Punir-nos-á pelos nossos pecados passados? Quererá tornar-nos mais fortes em vista do futuro? Purificar-nos? tornar-nos mais sérios? Quererá dar-nos ocasião de fazermos provisão de merecimentos? Não o sabemos. Mas uma coisa sabemos nós: é que a nossa alma deve sair mais pura, mais profunda, mais grave, melhor, numa palavra, do fogo do sofrimento. A nossa oração, nesses dias sombrios, deve ser esta:

Senhor, seja feita a vossa Vontade,
No bom tempo como na tempestade!
Vossa Vontade se faça, Senhor,
Na alegria ou quando chega a dor!
Senhor, vossa vontade seja feita:
Vós sabeis o porquê - minh'alma aceita-a!

O sofrimento suportado sem se queixar é um excelente meio de desenvolver o caráter e fortalecer a vontade. É natural que o homem procure livrar-se do sofrimento. Mas, se não o consegue, mau é que procure aliviar-se, lamentando-se e chorando... Procura tu, com todas as tuas forças, resignar-te naquilo que não puderes mudar, pôr em paz a tua alma, e terás feito muito para fortificares a vontade. A alma de vontade fraca deixa-se reduzir a pó sob o camartelo do sofrimento. Inversamente, o caráter viril, lançará, talvez, chispas, mas, tal como o aço, torna-se depois mais resistente. "Pode mostrar-se tanto heroísmo no leito da dor, como no campo de batalha" - disse Séneca. Isto significa que o sofrimento é a melhor escola do caráter. Se te encontrares a braços com a contrariedade, lembra-te das palavras do barão J. Eötvös: "As provações da vida não têm o poder de abater aquele que sabe, no meio de atrozes torturas, guardar a confiança na Providência". Do fundo da tua alma roga com aquele grande cristão: "Dai, Senhor, aos outros, caminhos planos, nos quais se pode caminhar muito tempo sem fadiga. Dai-lhes os bens que eles mais desejam. Para mim, peço-vos uma senda pedregosa e áspera, com bom aspecto todavia, que me conduza sempre mais resoluto, e que eu possa seguir com a convicção de que não me perderei". (Eötvös)

Se os Romanos diziam que "é uma virtude romana fazer grandes coisas": "fortia agere romanum est" - acrescenta-lhe tu que "é uma virtude cristã sofrer muito" "- fortia pati christianum est".

Pensa um pouco na tristeza sem nome, no negro pessimismo, na melancolia indizível, que inundavam, no tempo do paganismo, as almas mais nobres. Hoje não encontro um único ser que não preferisse a morte a tal existência. Os gozos desregrados dos sentidos davam-lhes o desgosto do mundo; e, no entanto, não tinham outros desejos senão esses. Somente um ou dois tiveram como que um pressentimento do Cristianismo, o que os elevou às mais puras regiões.

Quando estão na adversidade, o pagão e o descrente não sabem senão ranger os dentes; ao passo que o cristão suporta a dor pacientemente, e não com o cego fatalismo daqueles. Sem dúvida, o Cristianismo não pode fazer desaparecer do mundo a miséria, o sofrimento e as múltiplas tentações que conduzem ao pecado, mas sabe, ao menos, dar-lhes explicação, justificar os desígnios de Deus.

Acaso, sofres tu muito, meu filho? És pobre e doente? Teus pais estão na miséria? Suportas duras provações? Pergunta-te onde quererá Deus chegar. Talvez te esteja punindo dos teus pecados passados! Talvez Ele queira amadurecer a tua alma para uma vida mais fervorosa, temperar a tua alma como o fogo tempera o aço! Talvez ainda Ele queira aumentar os teus merecimentos para a vida eterna! Talvez te conduza através da existência como o guia da montanha conduz o viandante! - "Porque escolhes estas veredas escarpadas, pedregosas e incômodas?" - pergunta este. - "É preciso assim - responde aquele - porque só por estas veredas podemos chegar ao sítio maravilhoso que vamos ver. Pelos caminhos largos e fáceis, em breve estaríamos na planície". - "Porque motivo devo eu sofrer tanto?" - exclamas tu também. Mas como podes tu sabê-lo? Só Deus o sabe! Examina bem um belo tapete da Pérsia: que magnífica harmonia de linhas e de cores! Volta-o: no avesso não verás senão uma intrincada confusão de fios. É assim a vida. Nós só vemos o avesso. O direito, isto é, o grande pensamento unificante, está na mão de Deus. É o próprio Deus eterno que tece o tapete da nossa existência, e a nossa limitada inteligência não pode descobrir as suas intenções. Os seus pensamentos não são os nossos caminhos.

Um dia, Santa Catarina de Sena teve de lutar contra uma tentação extremamente violenta. Tendo-a vencido com dificuldade, lamentava-se ela tristemente: "Onde estáveis, meu Jesus, enquanto a obscuridade invadia o meu coração?" - "Estava na tua alma - responde o Redentor. Se eu lá não estivesse, os pensamentos que assediavam o teu espírito teriam penetrado na tua vontade e teriam causado a morte à tua alma". Quando sofreres, não te assustes então, meu filho. Toda a força do oceano embravecido pode quebrar-se contra um só rochedo!

Não imites as plantas que estão direitas enquanto o sol as acaricia, mas que se fecham e se deixam esmorecer, logo que chegou o crepúsculo. O sofrimento é uma obra de arte divina talhada no mármore da tua alma. O que Deus quereria encontrar em tua alma é o ouro. E o ouro - sabe-lo bem - não está à superfície; é preciso procurá-lo nas profundezas. O mármore deve abafar mais de um soluço sob as marteladas do escultor. Mas não vês que, se o artista ligasse importância a isso, não poderia nunca fazer dele uma linda estátua,... uma obra-prima?...

Por isso, meu filho, não busques o sofrimento; mas se ele vier, olha-o bem de frente.
-------------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

O exemplo de Demóstenes

Demóstenes tinha apenas sete anos quando lhe morreu o pai. O seu tutor, pouco escrupuloso, esbanjou-lhe a fortuna... Encontrando-se, um dia, no Palácio da Justiça, por ocasião de uma audiência, ficou entusiasmado com o discurso de um advogado: e, vendo o povo levar o advogado em triunfo, concebeu a ideia de também ele vir a ser orador.

A partir deste momento, não mais teve outra preocupação no seu espírito... Os seus primeiros ensaios não foram, porém, felizes. O seu primeiro discurso foi abafado pelos gritos e gargalhadas do auditório; nem sequer pôde chegar ao fim. Desanimado, vagueava pelas ruas, havia já semanas, quando um velho, reanimando a sua energia, o levou a retomar os exercícios. Demóstenes deu-se ao trabalho com novo ardor, e quando os adversários zombavam dele, não lhes dava atenção. De vez em quando, retirava-se completamente do convívio do mundo e passava dias inteiros a falar diante das paredes de alguma gruta subterrânea. Como gaguejava um pouco, metia uma pedrinha debaixo da língua para melhor a dobrar. Durante os longos passeios que, só, dava à beira-mar exercitava-se a gritar em alta voz - tinha os pulmões fracos - e a declamar assim, ao ar livre, versos e discursos. Cada vez que presenciava uma grave disputa, retirava-se imediatamente para o quarto, e, ali, pesava e tornava a pesar os argumentos dos dois adversários, procurando ver bem qual tinha razão. Graças a estes contínuos e infatigáveis esforços de vontade, triunfou de todas as suas fraquezas e veio a ser o mestre de eloquência cujos discursos, ainda hoje - dois mil e trezentos anos após a sua morte - são lidos com interesse e proveito por quantos pretendem êxitos oratórios. Que belo exemplo nos dá o órfãozinho gago! E que maravilhosas forças se encontram escondidas no fundo da alma humana! Por vezes, são os mais atrozes sofrimentos corpóreos que nos mostram o que o homem é capaz de sofrer.

Durante os primeiros meses da guerra de 1914, servir eu na frente, na Sérvia. Um dia trouxeram-nos um hussard que tinham encontrado num pântano. A sua companhia, caída nas mãos do inimigo, tinha desaparecido toda debaixo da metralha. Só ele tinha escapado às balas, escondendo-se nas águas lamacentas de um pântano. Mas teve de manter-se escondido no charco durante muito tempo, porque os soldados sérvios, em cima das árvores vizinhas, tinham continuado, durante muitos dias, a inspecionar os arredores. Só depois de os sérvios terem partido é que os nossos encontraram este pobre hussard, extremamente enfraquecido, e no-lo trouxeram. Havia sete dias que não comia senão ervas! Do que um homem é capaz!

É possível que já tenhas ouvido contar casos de moribundos a que só a vontade forte de viver retinha a alma no corpo quase desfeito... porque eles queriam ver, ainda uma vez mais, por exemplo, a esposa ou um filho ausentes e que vinham a toda a pressa para junto dele. Sim, uma vontade forte é a melhor das medicinas para um corpo doente; e, por isso, meu filho, não te deixes abater pela tristeza, ainda que a Providência te tenha dado um corpo fraco e doente!

Um fidalgo húngaro, o conde Géza Zichv, falecido há anos, tinha perdido um braço na caça, quando jovem. Com uma só mão veio a ser, todavia, um dos mais afamados artistas de piano do seu tempo... Quantos jovens teriam sucumbido para sempre sob um semblante desastre! Perder um braço em plena juventude! Vê, pois, quanto pode a força de vontade, mesmo num corpo mutilado!

Tu serias, meu filho, bem mais agradecido à divina Providência pelas tuas mais pequenas qualidades, se quisesses recordar-te de que os maiores homens de todos os séculos tiveram, muitas vezes, de lutar contra pequeninos defeitos, contra as calamidades, até mesmo contra doenças hereditárias! Wallenstein, célebre chefe do exército alemão durante a guerra dos trinta anos, tinha os nervos de tal modo doentes que não podia sequer ouvir cantar um galo. Richelieu, eminente estadista francês, empalidecia de pavor à simples vista de um esqueleto. Bayle não podia ouvir a água cair às gotas. O cheiro do peixe causava febre a Erasmo de Roterdão. Scaliger punha-se a tremer todo quando via leite. Goethe sofria horrivelmente com o fumo do tabaco.

Eis ainda alguns casos mais surpreendentes.

A história conservou o nome de muitos homens que albergaram uma alma de gênio num corpo fraco e doente. Helmholz, físico célebre, tinha a cabeça enorme, como os imbecis. O filósofo Spinosa e o poeta clássico Schiller eram tuberculosos. Descartes, Kant, Milton, tinham uma saúde raquítica; o último até era cego. Não obstante, que nome brilhante adquiriram pelo trabalho!

Aqui está o que pode uma vontade forte! Sim, a alma é certamente capaz de remediar, ao menos em parte, a fraqueza do corpo.

Acontece, às vezes, que jovens doentes se lamentam vendo os seus companheiros de opulenta saúde. Se for esse o teu caso, meu filho, não te aflijas. Se, quando nasceste, recebeste um corpo débil e fraca saúde, não é culpa tua. Aliás, isso não poderá impedir-te de levares uma vida útil e verdadeiramente bela.
------------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

Receba nossas atualizações