domingo, 19 de março de 2017

Um homem monstruosamente preguiçoso


“Um homem monstruosamente preguiçoso vive em South Bucks, em parte ganhando a vida com uma coluna no Daily News de sábado. No momento em que costuma escrevê-la (que é sempre no último momento) sua casa é inesperadamente invadida por crianças de todas as formas e tamanhos. Sua secretária tem de sair, e ele é forçado a lida com os pigmeus invasores. Brincar com crianças é uma atividade gloriosa, mas o jornalista em questão nunca entendeu como possa ser considerado algo relaxante ou idílico. É algo que o faz pensar não em pequenos botões de flores sendo regados, mas sim em uma luta durante horas com gigantescos anjos e demônios.

Problemas morais da mais monstruosa complexidade assediam-no sem cessar. Deve decidir, perante os terríveis olhos da inocência, se, quando uma irmã derrubou os blocos de seu irmão, em vingança pelo irmão ter pegado dois doces fora de sua vez, é tolerável que este revide escrevendo no livro de figuras da irmã, e se tal conduta não justifica que esta apague o fósforo que o irmão acendeu ilicitamente. Justo quando está resolvendo este problema de acordo com princípios da mais alta moralidade, ocorre-lhe de repente que ainda não escreveu seu artigo de sábado; e que há apenas mais uma hora para entrega-lo. Com voz selvagem, manda alguém (provavelmente o jardineiro) telefonar a algum lugar para chamar um mensageiro; então se protege em outro quarto e arranca os cabelos, imaginando sobre o que poderia escrever...

Senta-se, desesperado; o mensageiro toca a campainha; as crianças esmurram a porta; os empregados vêm de tempos em tempos para dizer que o mensageiro está ficando aborrecido; e o lápis cambaleia, tornando o mundo um presente de mil e quinhentas palavras sem importância. Então o jornalista envia seu manuscrito e volta sua atenção para o enigma de se um irmão deveria confiscar o laço de sua irmã porque esta o beliscou em Littlehampton. É assim que um artigo é realmente escrito.”


G. K. Chesterton, Daily News, 17 de dezembro de 1910. Transcrito do livro: Joseph Pearce. Sabedoria e inocência: vida de G. K. Chesterton 


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