domingo, 5 de outubro de 2014

A ARTE DE PERSUADIR - Mario Ferreira dos Santos

A ARTE DE PERSUADIR
Capítulo do livro "CURSO DE ORATÓRIA E RETÓRICA"

Passamos, agora, a examinar os fundamentos da arte de persuadir, dispensando as regras oferecidas por muitos autores, de frágil aplicação, para preferirmos aquelas de valor incontestável.

A "ordem demonstrativa" é aquela que prova melhor que uma coisa é verdadeira. Já examinamos os aspectos concretos para uma argumentação ou para uma demonstração. Mas trata-se agora de persuadir, de fazer crer que uma coisa é verdadeira. Na antiga retórica, como arte de persuadir, ensinava-se a eloquência, isto é, a arte de persuadir um auditório, já examinada na Retórica.

São elementos da eloquência:

a) o uso de provas que tocam à razão e aos sentimentos, excitando, por exemplo, a cólera, a compaixão, a indignação;

b) o bom uso das figuras que já estudamos, cujo valor tivemos oportunidade de evidenciar, e que são eficientes para dar ênfase ao que se diz e ao que se escreve.

Pela ordem dos argumentos, quando cuidadosa, temos os meios mais seguros da persuasão.

Examinemos um exemplo célebre de Rollin, em seu "traité des études". A cidade de Cápua, que estivera aliada aos romanos, havia traído Roma para abrir as portas a Aníbal, o grande chefe cartaginês. Um dos principais da cidade era Pacuvius, o qual ofereceu a Aníbal um grande banquete. Mas soube Pacuvius que seu filho, Perolla, decidira aproveitar-se da oportunidade do banquete para matar Aníbal. Ao saber de tal intento, vai o pai à procura do filho e tenta dissuadi-lo. Emprega para tal três argumentos:


1.° — êle, Pacuvius, defenderá seu hóspede, porque assim é seu dever e precisará o filho matá-lo, antes de atingir Aníbal;

2.° — Aníbal é seu hóspede e, segundo a religião antiga, o hóspede é sagrado;

3.° — Aníbal está cercado de oficiais e de guardas e Perolla, o filho, será morto, sem dúvida pelos oficiais de Aníbal. .^

Qual a ordem para apresentar tais argumentos, de forma que possam eles persuadir o filho?

Ora, quem quer alinhar, numa ordem, uma série de argumentos, não pode ater-se ao valor de cada argumento em si, mas à ordem em que devem ser empregados, ordem capaz de persuadir, pela impressão que possam causar.

O filho de Pacuvius é um rapaz valente. Desprezará ou mostrará desprezar o perigo a que estará exposto ao atacar Aníbal.

Quanto aos escrúpulos religiosos, é êle bastante jovem e, na sua idade, nem sempre tais escrúpulos são suficientemente fortes para convencer.

Mas Perolla ama o pai e não desejaria tornar-se um parricida. Então a ordem deverá ser 3-2-1.

Que lições se tomam aqui?

Se o leitor tem de argumentar com alguém e o quer persuadir, e se dispõe de vários argumentos, deverá proceder assim:

1.º — fazer o balanço dos argumentos de que dispõe;

2.° — verificar o valor de cada um pelo seguinte processo:

a) iniciar com um argumento de força média, e depois os mais fracos;
b) os argumentos mais originais, mais inusitados, menos usados, menos comuns, devem ser empregados no fim;

3.° — dar aos argumentos uma forma expressiva, .aproveitando as figuras já expostas;
4.° — nunca esquecer a pessoa para quem emprega os argumentos, e verificar qual a escala de valores que a dirige, isto é, verificar qual a hierarquia de valores aceita pela pessoa que se quer convencer. Se são os valores religiosos, os estéticos, os éticos, os utilitários, os lógicos, ou os outros. Pode a pessoa ser um artista ou um religioso, mas se o aspecto utilitário tiver força de persuasão, o argumento utilitário deve ser acentuado;
5.° — quando o conhecimento da escala de valores não é possível de ser conhecido, usar, então, das regras dos números 1-2-3, que são suficientes para obter a per-.suasão desejada (1).


1) Para o melhor domínio da Lógica e da arte de argumentar, . aconselhamos nossos livros «Lógica e Dialéctica» e «Filosofia e Cosmovisão».

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