terça-feira, 15 de outubro de 2013

O VERDADEIRO E O FALSO DOM VITAL – Por Tristão de Athayde


Tristão de Athayde(Alceu Amoroso Lima)
Crítico literário, professor, pensador, escritor,Membro da Academia Brasileira de Letras


Há de todos os grandes homens, uma verdadeira e várias falsas efígies. Justamente por não caberem dentro dos moldes habituais, justamente por terem participado de lutas impiedosas e sofrido o louvor e o apodo de partidários e adversários, é que sua figura não pode nunca apresentar-se à história senão focalizada de modo antagônico e apresentando traços que se contradizem. Enquanto vivos, essa contradição é radical. Não é possível acomodação alguma. Levam consigo, até a morte, a tríplice visagem que a vida lhes empresta: a que os amigos veem, a que os inimigos traçam e a que julgam ter. E das três só é verdadeira… uma quarta. Pois só Deus sabe o que realmente somos. Só Ele dirá um dia, pela voz da posteridade e assim mesmo de modo aproximado – pois o nosso retrato verdadeiro só a visão beatífica revelará. – o que há de verdadeiro nos fragmentos de verdade de que é feita a imagem do homem neste mundo. O tempo é a voz de Deus. Dele vão lentamente emergindo os traços relativamente autênticos do que somos.
Há, portanto, dos grandes homens, ao menos uma verdadeira e várias falsas efígies. Dom Vital não podia escapar a esse fado universal. Sua vida foi uma luta contínua. E aqueles que assim vivem redobram as razões de equivocidades das imagens que deles tem o mundo.
Assim é que o grande Bispo foi apresentado, por muitos, e nem sempre os de fora, como sendo a própria expressão da truculência episcopal. Na farta messe literária e jornalística que a Questão Religiosa despertou, por todo o Império, a paixão extravasou de modo alucinante. A imagem que ficou, no público em geral, do Bispo de Olinda, foi a de homem intolerante e intratável, acostelado atrás dos seus privilégios, brandindo o báculo como um gládio, lançando anátemas como raios, querendo derrubar a Coroa para substituir por uma tiara, trocando a Constituição peloSyllabus e pretendendo varrer o liberalismo ambiente por uma onda de utramontanismo inquisitorial, que faria o Brasil retrogradar às fases mais sombrias do caos medieval. Esse é o falso Dom Vital. O verdadeiro não é a sua antítese. O Bispo de Olinda não era apenas a figura da mansidão. Ou antes, praticou a verdadeira mansuetude cristã, que não é apenas a negação da cólera, mas a sua temperança. João de S. Tomás nos diz que à mansuetude se opõem dois vícios, frutos, como todos os erros, dos extremismos contraditórios, do excesso ou da deficiência. “– À mansuetude se opõem: por excesso a iracundia e por deficiência um vício sem nome especial (sic), o das pessoas que são incapazes de cólera, embora tivessem para isso motivo razoável” (J. de S. Tomás – Isagoge ad Theologiam D. Thomae, II, IIae q. 158). No passo da Suma em que S. Tomás analisa esse “vício sem nome”, baseia-se ele numa sentença de S. João Crisóstomo, que diz: “Aquele que não se encoleriza quando tem razões para fazê-lo, peca”. Pois a paciência desarrazoada é o berço de muitos vícios, promove a negligência e provoca os maus e até os bons a procederem mal” (Hom. XI, in Math.).
E Santo Tomás raciocina: “A cólera deve ser entendida de dois modos. De um, como simples movimento da vontade, pelo qual alguém impõe uma punição, não por paixão, mas em virtude de um julgamento da razão. E, assim, sem dúvida, a falta de cólera é um pecado. Quando um homem se zanga com razão, sua cólera já não provém da paixão e por isso se diz que ele julga, não se enraivece. Em outro sentido, a cólera é tirada de um movimento do apetite sensível que acompanha uma paixão resultante de uma transmutação do corpo. Esse movimento é uma sequência necessária no homem, do movimento de sua vontade, desde que o apetite mais baixo acompanha necessariamente o movimento  do apetite mais alto, a menos que haja um obstáculo. Assim é que o movimento de cólera, no apetite mais alto, no apetite sensível, não pode faltar de todo, a menos que o movimento da vontade também falte ou seja fraco. Daí ser também um vício a falta de paixão da cólera, mesmo como falta de movimento na vontade dirigida à punição pelo julgamento da razão” (Sum. Theol. II, IIas, q. 158, art. 8).
Essa fina análise tomista da cólera, corrigida pela mansuetude, nos dá uma perfeita ideia do temperamento de um homem como Dom Vital, em sua verdadeira fisionomia. Não foi um fraco, um apático, um oportunista, que se acomodasse a qualquer situação, e confundisse a doçura e a mansidão de Cristo com a conivência com o mal. Por isso mesmo soube erguer-se varonilmente contra o erro, contra os poderosos, contra a iniquidade, sem temor do escândalo causado e particularmente das ameaças recebidas e postas em prática. Mas, ao mesmo tempo, jamais se deixou empolgar pela paixão, pela cólera apaixonada que é um vício tão grande quanto aquele “vício sem nome” de que nos falam S. João Crisóstomo, Santo Tomás e João de Santo Tomás, e que é a ausência da cólera quando há motivos de nos encolerizarmos. A mansuetude cristã não é um efeminamento. Não é um desfibramento do caráter. É apenas a educação da cólera, a afirmação de que o homem deve ser sempre senhor e não escravo de suas paixões.
O verdadeiro Dom Vital não foi, portanto, o homem truculento como pintam os seus adversários e como, por vezes, deixam de entender alguns dos seus próprios partidários. Foi, ao contrário, o perfeito filho de S. Francisco. Ao mesmo tempo, cheio de humildade, de pobreza, de renúncia, mas também inflexível na reação contra a iniquidade. Foi por isso mesmo um verdadeiro exemplo de cristão. Nele se conjugam, harmoniosamente, virtudes que o espírito do mundo apresenta como contraditórias: a energia e a mansidão, a firmeza e a renúncia, a inflexibilidade e a prudência, o espírito de ação e o espírito monástico de silêncio e oração. Conta-se que passava hora esquecidas rezando, alheio a tudo e a todos, a tal ponto que os coroinhas se divertiam em atirar, no bom frade, bolinhas de papel que iam ficando pregadas em seu hábito, sem que ele nem desse pela coisa, enquanto mergulhava em oração diante do Santíssimo.
Foi bispo contra a vontade. Defendeu-se, quanto pôde, contra a indicação da Santa Sé. Mas quando não houve outro remédio, foi Bispo de verdade, inteiramente devotado ao seu múnus pastoral, sem olhar a quaisquer interesses e conselhos de ordem subalterna ou utilitária. Sempre, porém, extremamente cuidadoso e sereno. Nunca partiu dele uma só provocação. Aguardou quanto pôde. Adiou qualquer solução mais forte enquanto foi possível e procurou trazer as Irmandades rebeldes ao reino da razão com boas maneiras. Só quando esgotou todos os meios pacíficos, como manda as Sagradas Escrituras, é que se dispôs a empregar as punições de ordem canônica.
Durante o processo, seu comportamento nunca foi o de um impulsivo. Exatamente o oposto. Sempre sereno, sempre superior, sempre conservando uma calma inalterável no meio dos acontecimentos catastróficos que abalavam todo o Império e toda a Igreja no Brasil, como só era possível a quem realmente vive uma vida de absoluto domínio de toda impulsividade inferior.
O retrato de Dom Vital, portanto, como um impulsivo, um apaixonado, um reacionário ultramontano, é tudo quanto há de mais contraditório com a verdade histórica e psicológica. Bravura e mansuetude foram as duas grandes virtudes desse varão realmente apostólico, exemplo perfeito da alma cristã que pôde compor, em perfeita harmonia, virtudes que o mundo geralmente dissocia, da violência arbitrária e da mansuetude uma ataraxia importante.
Não é, pois, o Dom Vital truculento, dos falsos retratos, que devemos colocar numa das culminâncias da nossa história espiritual e temporal, mas o verdadeiro Dom Vital, síntese incomparável de virtudes do coração manso, do caráter firme e da inteligência lúcida, reunidas num equilíbrio humano realmente sobrenatural.
(Texto publicado na Revista Dom Vital, ano XIII, n. 1, p. 8-10)

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