A BÁRBARIE DE BERLIM
GILBERT KEITH CHESTERTON
Tradução de Gustavo Corção.
Original: The Barbarism of Berlin (1914)
SUMÁRIO
Introdução da Primeira
Edição...................................3
Os
Fatos.......................................................................4
A guerra pela
palavra..................................................8
A recusa da
reciprocidade.........................................13
O apetite da tirania....................................................18
Anexo Oração pela beatificação de Chesterton.....................26
Introdução da Primeira Edição
Talvez espere o leitor encontrar aqui uma descrição da “Barbaria
de Berlim”, tal como se manifestou, através de Hitler e do nazismo. Encontrará
muito mais. Pois não é de Hitler que se ocupa Chesterton, nem o poderia ser: à
ultima guerra, já não esteve presente o grande comentador de idéias e
interprete de fatos que dignificou a literatura inglesa, em tantas obras, de
aspectos tão variados. Este livro, escrito há perto de trinta anos, também não
alude ou não alude apenas, à “barbaria de Berlim” da qual se fizeram encarnação
o Kaiser e seu apetite de devorar a Europa e o mundo. A “barbaria de Berlim”,
objeto deste ensaio, é fenômeno por assim dizer, permanente. Se Chesterton o
viu encarnado em Guilherme II, não deixa de convidar “os que se interessam pela
origem dos problemas humanos” a reportar-se a um velho escritor da época
vitoriana (Macaulay), que consagrou o útlimo e mais compacto de seus ensaios
históricos a Frederico-o-Grande, fundador dessa política prussiana que desde
então não mudou”.
Eis o grande interesse deste livro e de sua apresentação agora em
português: as conclusões que chegou Chesterton, pelo que pôde presenciar nos
anos de 1914-1918, facilmente serão confirmadas pelo leitor de 1946, que viveu
a experiência da segunda grande guerra. Quando formos levados a dizer sim a
tudo o que afirma Chesterton sobre as “principais linhas do caráter prussiano”,
então compreenderemos melhor alguns fatos de que tivemos notícia, e mais
profundamente entraremos no significado de muitas contradições de idéias e de
atitudes a que até hoje assistimos.
Aliás, a guerra ainda não terminou, a guerra contra a “barbaria de
Berlim”. Enquanto não se firmarem os fundamentos da paz, a guerra estará em
curso.
Muitas vezes ainda, seremos convidados a tomar posição ideológica
ou moral, perante os acontecimentos. Ajudar-nos-á muito este livro de
Chesterton.
Do que se afirma, hoje, por exemplo, a favor e contra as relações entre
a Rússia e as democracias ocidentais encontrará o leitor preciosas informações
no capítulo sobre “a guerra pela palavra”1
De que modo deve ser tratada a Alemanha de após-guerra? —
Pergunta-se com freqüência. Lendo-se os capítulos sobre a “recusa da
reciprocidade” e o “apetite da tirania”, muita coisa se aprenderá a respeito.
E de quanto se deverão esforçar as nações civilizadas pela
reeducação do prussiano (nem todo alemão é da Prússia), dir-nos-á
suficientemente o quarto ensaio sobre a “evasão da loucura”.
Além do mais, é um livro de Chesterton. Isto é bastante para
interessar o leitor. E quem o traduziu foi um discípulo do grande escritor
inglês: Gustavo Corção, menos um herdeiro das idéias e do estilo de Chesterton,
do que um igual a ele pelo temperamento e o gosto literário.
Os Fatos
A menos que todos sejamos loucos, existe sempre uma história por
trás do mais estranho e inquietante caso; e se todos somos loucos, então não
existe o que se chama loucura. Se eu ateio fogo a uma casa pode acontecer que
venha, com esse ato, iluminar fraquezas alheias ao mesmo tempo que evidencio as
minhas. É possível que o dono da casa seja queimado porque estava embriagado; é
possível que a dona da casa seja queimada por ser avara, e sucumba discutindo a
despesa de um aparelho de salvamento. A verdade, porém, é que ambos foram
queimados porque eu lhes pus fogo na casa. Essa é, no caso, a história. Os
simples fatos da história, relativos à atual conflagração européia, são
igualmente fáceis de contar.
Antes de abordarmos as questões mais profundas, que fazem desta
guerra a mais sincera da história humana, é tão fácil responder à pergunta de
como a Inglaterra nela se acha envolvida, como é fácil perguntar a um indivíduo
o que fez ele para cair num bueiro ou para falhar numa entrevista. Os fatos não
são a verdade completa. Mas os fatos são fatos, e neste caso são poucos e
simples. A Prússia, a França e a Inglaterra tinham, todas, prometido não
invadir a Bélgica. A Prússia propôs a invasão da Bélgica porque era o único
caminho praticável para a invasão da França. Mas a Prússia prometeu que,
mediante a ruptura da sua e da nossa promessa, arrombaria, mas não roubaria. Em
outras palavras, oferecia-nos uma promessa de fidelidade para o futuro e uma
proposta de perjúrio para o presente. Os que se interessam pela origem dos
problemas humanos podem reportar-se a um velho escritor inglês da época
vitoriana, que consagrou o último e mais compacto de seus ensaios históricos a
Frederico-o-grande, fundador dessa política prussiana que desde então não
mudou. Depois de descrever como Frederico rompeu o tratado que tinha assinado a
favor de Maria Teresa, passa a descrever como tentou Frederico reajustar as
coisas a seu favor com uma promessa que era um insulto. “Se Maria Teresa
consentisse em lhe abandonar a Silésia, então ele tomaria a sua defesa contra
qualquer potência que tentasse depojá-la de seus outros territórios. Assim
dizia ele, como se já não tivesse prometido a defesa, ou como se a nova
promessa pudesse valer mais que a antiga”. Esta passagem foi escrita por
Macaulay mas, em relação aos fatos contemporâneos, poderia ter sido escrita por
mim.
A respeito do imediato interesse inglês, de sua lógica e legal
origem, não pode haver razoável controvérsia. Há coisas tão simples que podem
ser provadas, quase, com planos e linhas, como em geometria. Seria possível fazer
uma espécie de calendário cômico, contando o que iria acontecer com um
diplomata inglês que, em cada circunstância, fosse reduzido ao silêncio pelo
diplomata prussiano.
24 de julho: A Alemanha invade a Bélgica.
25 de julho: A Inglaterra declara guerra.
26 de julho: A Alemanha promete não anexar a Bélgica.
27 de julho: A Inglaterra retira-se da guerra.
28 de julho: A Alemanha anexa a Bélgica; a Inglaterra declara
guerra.
29 de julho: A Alemanha promete não anexar a França; a Inglaterra
retira-se da guerra.
30 de julho: A Alemanha anexa a França; a Inglaterra declara
guerra.
31 de julho: A Alemanha promete não anexar a Inglaterra.
1 de agosto: A Inglaterra retira-se da guerra. A Alemanha invade a
Inglaterra.
Quanto tempo pode alguém esperar que se prolongue um jogo dessa
espécie ou que se mantenha a paz com tão ilimitado preço? Até que ponto
deveríamos prosseguir neste caminho em que as promessas são fetiches quando
estão na frente e escombros quando ficam para trás? Não. De acordo com os
fatos, os nítidos fatos, das últimas negociações, contador por qualquer dos
diplomatas em qualquer dos documentos, não há duas interpretações para a
história. E não há dúvida também sobre quem representou nela o papel do vilão.
Esses são os últimos fatos, os que envolveram a Inglaterra. É
igualmente fácil estabelecer os primeiros fatos, os que envolveram a Europa. O
príncipe, que era praticamente senhor da Áustria, foi assassinado por pessoas
que o governo da Áustria acreditou serem conspiradores sérvios. O governo da
Áustria acumulou armas e homens sem dizer palavra, nem à suspeitada Sérvia, nem
à aliada Itália. Pelos documentos infere-se que a Áustria guardou segredo para
todo mundo, exceto para a Prússia. Mais próximo da verdade, provavelmente,
seria dizer que a Prússia guardou segredo para todo mundo inclusive para a
Áustria. Tudo isso, porém, é o que se costuma chamar opinião, crença, convicção
ou bom-senso; e não é do que tratamos aqui. O fato objetivo é que a Áustria
advertiu a Sérvia que os oficiais sérvios deveriam se submeter à autoridade dos
oficiais austríacos; e que a Sérvia tinha quarenta e oito horas para se
submeter a essa advertência. Em outras palavras, o Rei da Sérvia estava
praticamente convidado a se despojar, não somente dos louros de duas grandes campanhas,
mas de sua própria coroa, de seu poder nacional e legal, e num lapso de tempo
mais curto do que se exige, habitualmente, para a liquidação de uma conta de
hotel. A Sérvia pediu uma protelação; uma arbitragem. A paz, enfim. Mas a
Rússia já tinha começado a mobilização; a Prússia, presumindo que a Sérvia ia
receber socorro, declarou a guerra.
Entre esses dois acontecimentos, o ultimato à Sérvia e o ultimato
à Bélgica, e no que se refere à conexão entre eles, alguém poderá,
evidentemente, discorrer como se todas as coisas fossem relativas. Se perguntar
por que se apressou tanto o Czar a correr em auxílio da Sérvia, é fácil
perguntar-lhe também por que se apressou o Kaiser a correr em auxílio da
Áustria. Se alguém diz que os franceses estavam para atacar os alemães, basta
responder que os alemães atacaram os franceses. Restam, entretanto, duas
atitudes a considerar; talvez mesmo dois argumentos a refutar, e parece-me que
tanto a refutação como a consideração se enquadram bem nesta introdução que, de
um modo geral, trata dos fatos. Para começar, há uma espécie de estranho e
brumoso argumento muito apreciado pelos retóricos profissionais que a Prússia
envia para instruir e retificar as mentes americanas e escandinavas.
Consiste este argumento em convulsões de incredulidade e escárnio à
simples menção da responsabilidade que teriam a Rússia com a sérvia e a
Inglaterra com a Bélgica. E consiste também em insinuar que, com tratados ou
sem tratados, com fronteiras ou sem fronteiras, a Rússia sairia a massacrar
teutões, e a Inglaterra correria a lhes furtas colônias. Neste ponto, como
aliás nos outros, eu acho que os professores que pululam na planície báltica
carecem de lucidez e de simples discernimento. É óbvio que a Inglaterra tem
interesses materiais a defender, e é provável que não deixará passar a
oportunidade de os defender; ou, em outras palavras, a Inglaterra certamente
ficaria muito mais tranqüila, como todo mundo, se a predominância da Prússia
fosse menor.
Sobra entretanto o fato: nós não fizemos o que os alemães fizeram.
Não invadimos a Holanda para adquirir vantagens navais e comerciais; se
disserem que nossa cupidez nos incitava ao ato ou que nossa covardia no-lo
impediu, mantém o fato: nós não invadimos a Holanda. Uma vez abandonado esse
simples bom senso, eu não posso conceber a possibilidade de julgamento de um
conflito. Um contrato pode ser feito entre duas pessoas para vantagem material
recíproca; mas a vantagem moral, ainda é geralmente admitido que ela fique com
a pessoa que cumpre o contrato. Não há certamente desonestidade em ser honesto,
ainda que a honestidade seja a melhor política. Imagine o leitor o mais
intrincado Dédalo de motivos e intenções; sempre, invariavelmente, o homem que
mantém sua palavra por interesse financeiro não pode ser apontado como pior do
que o homem que falta à palavra por interesse financeiro. E é fácil observar
que esse critério se aplica do mesmo modo à Sérvia, à Bélgica e à Grã-Bretanha.
Os sérvios podem não ser muito pacíficos, mas no caso que estamos discutindo
eram eles, certamente, que desejavam a paz. O leitor pode, entre outras
opiniões, considerar o sérvio como um salteador congênito, mas no caso, neste
caso que estamos discutindo, era o austríaco, certamente, que tentava assaltar.
Nessa mesma ordem de idéias, fazendo uma espécie de sumário histórico não é
vedado dizer que a Inglaterra é pérfida, nem há inconveniente em considerarmos,
em nosso foro íntimo, que Mr. Asquith1estava
votado desde a tenra infância à destruição do Império Germânico, como um Aníbal
ou um devorador de águias. Contudo, será sempre pouco sensato dizer que um
homem é pérfido porque manteve o que prometeu. É absurdo queixar-se da
inopinada traição que comete um homem de negócio quando chega pontualmente na
entrevista aprazada, ou do choque desleal produzido no credor pelo devedor que
vem pagar sua conta.
Para terminar, há uma atitude, muito divulgada nesta crise, contra
a qual eu faço questão de levantar um especial protesto. Dirijo-me aos
enamorados da paz, aos perseguidores da paz, que inconsideradamente, e em mais
de uma ocasião, tomaram a referida atitude. Refiro-me à impaciência que eles
demonstraram quando se discutia quem fez isto ou aquilo, ou se tinha razão ou
não tinha. Eles se contentam com dizer que uma monstruosa calamidade, chamada
guerra, foi desencadeada por uns ou por todos nós e deve ser encerrada por uns
ou por todos nós. Para essas pessoas este capítulo preliminar, relativo aos
acontecimentos como se passaram, parecerá não somente árido (ele é efetivamente
a parte mais árida da tarefa) mas sobretudo desnecessário e estéril. Ora, eu
faço empenho em dizer a essas pessoas que elas não têm razão; que elas não têm
razão, de acordo com os princípios da justiça humana e da continuidade
histórica; e que, acima de tudo, elas estão erradas, particularmente e
soberanamente enganadas em nome de seus próprios princípios de arbitragem e de
paz internacional.
Esses sinceros e magnânimos enamorados da paz estão sempre a nos
repetir que os cidadãos cessaram de resolver suas disputas pela violência
privada, e que as nações deveriam cessar de resolver as suas pela violência
pública. Não se cansam de nos dizer que já abolimos os duelos e que já é tempo
de abolirmos as guerras. Em resumo, eles baseiam invariavelmente suas propostas
de paz no fato de haver passado a época em que um cidadão comum se vingava a
golpes de machado. Mas como se consegue evitar que esse cidadão resolva suas
pendências de modo tão sumário? Que fazemos quando ele fere seu vizinho com a
machadinha da cozinheira? Ficamos de mãos dadas, como crianças, brincando de ciranda-cirandinha,
dizendo: “Somos todos responsáveis por isto, mas esperemos que o fato não se
generalize. Esperemos dias melhores, em que nos absteremos de agredir os
vizinhos a machado; em que nunca, jamais!, se lembre alguém de picar quem quer
que seja”? Ou dizemos: “O que está feito, está feito; para que voltar a esses
obscuros preliminares do caso? Quem poderá informar que sinistras intenções
tinha aquele homem que ficou ao alcance do machado?”
Não; não é assim que costumamos resolver esses casos. Mantemos a
paz na vida privada examinando os fatos, investigando de onde veio a provocação
e quem devemos punir. Entramos em detalhes obscuros, inquirimos as origens,
procuramos, com insistência, saber quem deu o primeiro golpe. Em resumo,
costumamos fazer o que estou fazendo, um pouco sucintamente, neste capítulo.
Assentado este ponto, convenho que atrás desses fatos existem
verdades, verdades de uma espécie terrível: verdades espirituais. Como simples
fato, o poder germânico foi desleal com a Sérvia, desleal com a Rússia, desleal
com a Bélgica, desleal com a Inglaterra, desleal com a Itália. Mas havia uma
razão para que ele fosse sempre desleal; e é dessa primordial razão, que
levantou contra ele a metade do mundo, que falarei nos capítulos seguintes. Trata-se
de uma coisa onipresente demais, que dispensa provas, e tão indiscutível que
não lucra com acúmulo de detalhes. Refiro-me, nem mais nem menos, à localização
do mal europeu moderno, depois de um século de recriminações e falsas
explicações; ou à descoberta do foco de onde saiu o veneno que se espalhou
sobre todas as nações do mundo.
1.
1.[Nota da Permanência]Hebert Henry
Asquith (12/9/1852-15/2/1928) foi Primeiro Ministro do Reino Unido de 1908 a
1916.
A guerra pela palavra
É inegável que existe uma persistente dúvida no espírito de muitas
pessoas, que reconhecem a legítima defesa na viva réplica da espada britânica,
e que morrem de amores pelo sabre devastador de Sadowa e Sedan1.
Duvidam que a Rússia, comparada com a Prússia, seja suficientemente democrática
e decente para ser aliada de potências liberais e civilizadas. Começarei, pois,
por essa questão de civilização.
É essencial, numa discussão desse gênero, assegurarmo-nos de que
não nos prendemos a meras palavras, mas às significações. Não é necessário,
numa argumentação, estipular o que uma palavra significa ou deveria significar.
Mas é indispensável, em cada caso, deixar bem claro o que pretendemos dizer com
as palavras. Desde que nosso adversário compreenda qual é a coisa de que estamos falando, pouco
importa para a clareza da discussão que ele preferisse outra palavra. Um
soldado não diz: “Temos ordens de ir a Mechlin, mas eu prefiriria ir a Malines2”.
Durante o caminho ele poderia discutir a diferença, sob o ponto de vista
etimológico ou arqueológico: o essencial, porém, é que ele saiba aonde deve ir.
Desde que saibamos o sentido que determinada palavra tem em determinada
discussão, não importa muito que ela possa tomar outro sentido em outra
discussão. Temos, indubitavelmente, o direito de dizer que a largura de uma
janela orça por quatro pés, ainda que, de repente, desloquemos o assunto para
os paquidermes dizendo que o elefante tem quatro pés. A identidade das palavras
não importa onde não existe dúvida sobre o sentido. Ninguém irá, provavelmente,
pensar que o elefante mede quatro pés ou que a janela tenha duas presas e uma
tromba flexível.
É essencial insistir no conhecimento bem consciente da coisa discutida, em conexão com duas
ou três palavras que são, por assim dizer, as palavras-chave desta guerra. Uma
delas é a palavra “bárbaro”. Os prussianos aplicam-na aos russos; os russos
aplicam-na aos prussianos. Ambos querem designar, creio eu, alguma coisa que
existe, que existe realmente, qualquer que seja o nome. Cada um, porém, designa
uma coisa diferente. E, se perguntarmos quais são e qual é a diferença,
compreenderemos então por que a Inglaterra e a França preferem a Rússia, e
consideram que a Prússia é realmente, das duas, a mais bárbara e perigosa. Para
começar, devo advertir que a questão é mais profunda do que o exame das
atrocidades, cuja prática, pelo menos no passado, foi equitativamente
partilhada pelos três impérios da Europa central, como também entre eles foi
partilhada a Polônia. Um escritor inglês, tentando nos desviar da guerra e
prevenindo-nos contra a influência russa, disse que havia, entre nós e a
aliança, os dorsos fustigados das mulheres polonesas. Mas não faz muito tempo
que um general austríaco foi linchado pelas ruas de Londres, pelos carroceiros
de Barclay e Perkin, por ter esbordoado mulheres. Quanto à terceira potência,
parece claro que o tratamento infligido pelos prussianos às mulheres belgas
teve tal estilo que, em comparação, o espancamento pode ser considerado mera
formalidade. Mas, como já disse, existe algo mais profundo do que as
recriminações atrás do sentido da palavra que ambas as partes empregam. Quando
o Imperador da Alemanha se queixa da nossa aliança com uma potência bárbara
semi-oriental, não está — eu o garanto — derramando lágrimas sobre o túmulo de
Kosciusko3.
E quando eu digo — e veementemente o afirmo — que o Imperador da Alemanha é um
bárbaro, não estou exprimindo apenas os preconceitos que eu possa ter contra a
profanação de igrejas e crianças. Meus concidadãos e eu, quando tratamos de
bárbaros os prussianos, exprimimos uma idéia certa e inteligível, que difere
daquela que se atribui aos russos e que, de fato, não pode ser atribuída aos
russos. É muito importante que o mundo neutro aprenda essa idéia.
Se um alemão chama o russo de bárbaro, quer dizer imperfeitamente
civilizado. Há um certo caminho que as nações ocidentais trilharam nesses
últimos tempos, e é admissível dizer que a Rússia não avançou tanto como os
outros; é incontestável que ela está atrasada em relação aos nossos modernos
sistemas em ciência, em comércio, em técnica, em meios de transporte e em
instituições políticas. O russo lavra a terra com uma velha charrua; usa uma
barba hirsuta; adora relíquias; e sua vida é tão rude e tão dura como a de um
súdito de Alfredo, o Grande. Assim é que o russo é bárbaro no sentido alemão.
Pobres-diabos como Gorki e Dostoievski terão que se arranjarem, sozinhos, nas
suas próprias reflexões sobre as paisagens, sem o auxílio de grossas citações
de Schiller pintadas nos bancos de jardim, ou de inscrições convidando-os a
agradecerem, com recolhimento, ao Todo-Poderoso, o belíssimo panorama de
Hesse-Pumpernickel. Os russos, não possuindo senão sua fé, seus campos, sua
grande coragem, e suas comunas autônomas, estão absolutamente excluídos daquilo
que, nos quarteirões mais elegantes de Frankfurt, é chamado o Verdadeiro, o
Belo e o Bem. Existe realmente um sentido que nos autoriza a considerar como
bárbaro um país tão retardatário em comparação com a Kaiserstrasse; e, nesse
sentido, os russos são bárbaros.
Mas não é nisso que pensamos, nós outros franceses e ingleses,
quando chamamos os prussianos de bárbaros. Ainda que suas cidades se elevassem
acima de seus navios aéreos, e seus trens viajassem mais rápidos que suas
balas, nós ainda os chamaríamos de bárbaros. É preciso saber exatamente o que
queremos dizer; e é preciso saber que é verdade. O que designamos não é uma
civilização imperfeita por acidente, mas algo que é hostil à civilização de
propósito. Algo que está voluntariamente em guerra contra os princípios que
tornaram possível até hoje a vida humana em sociedade. Sem dúvida, é preciso
ser parcialmente civilizado, mesmo para destruir a civilização. Selvagens
indolentes e incultos não seriam incapazes de tão importante devastação. Não
poderíamos ter hunos sem cavalos; ou cavalos sem a arte da equitação. Não
poderíamos ter piratas dinamarqueses sem navios, e navios sem a arte de
navegação. Esse personagem que eu chamo o Bárbaro Positivo deve estar, de um
modo geral, mais ao par das coisas do que esse outro que eu chamo o Bárbaro
Negativo. Alarico era oficial nas legiões romanas, o que não o impediu de
destruir Roma. Ninguém irá supor que os esquimós pudessem fazer o mesmo e tão
bem. Mas, no sentido que adotamos, a barbaria não é uma questão de métodos, mas
de fins. Afirmamos que esses vândalos postiços têm o objetivo perfeitamente
definido de destruir certas idéias que, na opinião deles, se tornaram estreitas
demais para o mundo, e sem as quais, em nossa opinião, o mundo sucumbiria.
É essencial que essa perigosa particularidade do Prussiano ou
Bárbaro Positivo, seja bem apreendida. Ele possui uma coisa que imagina ser uma
idéia nova, e está procurando aplicá-la a todos. Na verdade, trata-se apenas de
uma falsa generalização, mas ele está realmente tentando torná-la geral. Ora,
isso não se aplica ao Bárbaro Negativo; não se aplica aos russos e aos sérvios,
ainda que eles sejam bárbaros. Se um camponês russo espanca sua mulher, é
porque seus pais já antes dele o faziam; é provável até que espanque cada vez
menos, porque as coisas do passado tendem a se desvanecerem. Não lhe passa pela
idéia, como aconteceria a um Prussiano, ter feito uma nova descoberta em
fisiologia, observando que a mulher é mais fraca do que o homem. Se um sérvio
apunhala seu rival sem uma palavra, é porque outros sérvios antes dele fizeram
o mesmo. Talvez mesmo considere isso um ato de piedade, mas certamente não
considera um progresso. Ele não crê, como o Prussiano, ter fundado uma nova escola
em cronometria pelo fato de sair correndo antes do sinal de partida. Não pensa
que está adiantado em militarismo em relação ao resto do mundo somente porque
está atrasado em costumes. Não; o prussiano é perigoso porque está preparado
para combater por velhos erros como se fossem verdades novas. Ouviu falar,
vagamente, de algumas simplificações pouco interessantes, e imagina que nós
nada sabemos a respeito. Como já disse, sua mesquinha mas sincera demência
consiste em querer duas idéias, as duas raízes gêmeas da sociedade humana. A
primeira é a idéia de registro e promessa; a segunda, é a idéia de
reciprocidade.
É claro que a promessa, ou extensão da responsabilidade no tempo,
é aquilo que nos diferencia principalmente, não digo dos selvagens, mas das
bestas e dos répteis. Assim o reconhece, com sagacidade, o Antigo Testamento,
quando resume nestas palavras a sombria e irresponsável monstruosidade do
Leviatã: “Fará ele um pacto contigo?” A promessa, como a roda, é desconhecida
da natureza: é a primeira marca do homem. Relativamente à civilização humana é
que se pode dizer com convicção que no princípio era a Palavra. O juramento
está para o homem como o canto está para o pássaro ou o latir para o cão; é sua
voz, pela qual é ele conhecido. Assim como o homem, que não pode ser pontual
num encontro, não é bom mesmo para um duelo, também o homem, que não pode
manter as promessas que a si mesmo faz, não é são, mesmo para o suicídio. Não é
fácil citar uma coisa da qual se possa dizer que dela depende toda a enorme
complexidade da vida humana. Mas, se de alguma coisa depende, é dessa frágil
corda estendida entre as colinas estendidas do ontem e as invisíveis montanhas
do amanhã. Neste fio solitário e vibrátil estão penduradas todas as coisas,
desde o Armageddon até o almanaque, desde uma revolução bem sucedida até um
bilhete de volta. E é esse fio solitário que o Bárbaro golpeia pesadamente com
um sabre, que felizmente já está bastante embotado.
Basta ler as últimas negociações entre Londres e Berlim, para que isso
se torne evidente. Os prussianos fizeram uma nova descoberta em política
internacional: que muitas vezes é conveniente fazer uma promessa, e que é
curiosamente desvantajoso mantê-la. Ficaram encantados, em sua ingenuidade, com
essa descoberta científica e desejaram comunicá-la ao mundo. Fizeram, então, à
Inglaterra uma promessa, sob a condição de romper ela uma promessa, e ficando
implicitamente entendido que a nova promessa poderia ser quebrada tão
facilmente quanto a primeira. Com profunda estupefação da Prússia, essa
razoável oferta foi recusada! E eu estou convencido da perfeita sinceridade da
estupefação prussiana. E é nesse sentido que eu digo que o Bárbaro está
tentando cortar o fio da honestidade e dos límpidos testemunhos em que está
suspenso tudo o que os homens têm feito.
Os amigos da causa alemã queixaram-se de termos trazido da Índia e
da Algéria, contra os alemães, asiáticos e africanos que vivem no limiar da
selvageria. Em circunstância ordinárias eu simpatizaria com tal queixa
formulada por um povo europeu. Mas as circunstâncias atuais não são ordinárias.
Aqui, mais uma vez, a tranqüila e incomparável barbaria prussiana desce
profundamente abaixo do que chamamos barbaridades. Em matéria de barbaridade
estou certo que o árabe e o sikh levariam vantagens sobre o superior teutão. De
um modo geral, a razão justa para evitar o emprego de tribos não européias
contra os europeus foi dada por Chatham a propósito do uso dos pele-vermelhas:
aliados dessa espécie seriam capazes de atos diabólicos. Mas o pobre árabe que
passasse um week-end na Bélgica, poderia perguntar, muito razoavelmente, que diabólicos
atos teriam ficado para ele depois do que fizeram por conta própria os alemães
de alta cultura. Entretanto, como já disse, a justificação dos auxílios
extra-europeus é mais profunda do que as discussões desses detalhes. Baseia-se
em que, mesmo as outras civilizações, mesmo as mais retrógradas civilizações,
mesmo as remotas e repulsivas civilizações, dependem tanto quanto a nossa
própria desse primordial princípio, ao qual a supermoralidade de Potsdam4 declarou guerra aberta. Os
próprios selvagens fazem promessas, e respeitam quem as mantém. Os próprios
orientais registram seus compromissos por escrito, e embora escrevam da direita
para a esquerda, eles sabem a importância que tem um “farrapo de papel”. Muitos
negociantes nos dirão que um sinistro e quase desumano chinês é muitas vezes um
homem de palavra; e foi no meio das palmeiras e das tendas sírias que a grande
voz abriu o tabernáculo àquele que presta juramento contra o seu interesse e
que o cumpre. Há, sem dúvida alguma, um intrincado labirinto de duplicidade
entre os orientais, e talvez maior dose de malícia num asiático tomado
isoladamente do que num alemão. Mas não estamos aqui tratando das violações da
moral humana nas diferentes partes do mundo. Estamos tratando de uma nova e
desumana moral que se gaba de sonegar o dia do compromisso. Os prussianos
ouviram dizer, de seus homens de letras, que tudo depende de um impulso da
vontade, e de seus políticos que todos os arranjos se dissolvem diante da “necessidade”.
Eis aí o alcance da frase pronunciada pelo chanceler alemão. Ele não alegou, no
caso da Bélgica, alguma especial desculpa que pudesse apresentar esse caso como
uma exceção confirmando a regra. Ao contrário, argumentou nitidamente em nome
de um princípio aplicável a outros casos, que a vitória é uma necessidade, e a
honra um farrapo de papel. É evidente que a imaginação semi-educada de um
prussiano não pode, realmente, ir muito além disso. Não pode chegar a descobrir
que, se fossem as ações humanas completamente imprevisíveis em cada instante,
seria o fim não somente de todas as promesas mas de todos os projetos. A
incapacidade de compreender isto coloca o filósofo de Berlim, em nível mental,
abaixo do árabe que respeita o sal, ou do brâmane que preserva a casta. E nesta
pendência temos o direito de comparecer com a cimitarra ou com o sabre, com
arcos ou com fuzis, com a azagaia, com o tomahawk, com o boomerang — porque em todas essas coisas existe, ao menos, uma semente de
civilização que esses anarquistas intelectuais quereriam matar. E se, em nosso
último reduto, em nosso último combate, eles nos encontrarem equipados com tão
estranhas armas ou formados em torno de tão exóticas bandeiras, e se nos
perguntarem por que combatemos em tão singular companhia, saberemos o que
responder: “Nós combatemos pelo crédito e pela palavra; pelo registro da
memória e pela possibilidade de um comércio entre os homens; por tudo que
distingue a vida humana de um desgovernado pesadelo. Combatemos pelo longo
braço da honra e da lembrança, por tudo que eleva o homem acima das areias
movediças de seus humores, e que lhe dá o domínio sobre o tempo”.
1.
1.[N. da P.]Chesterton alude às
batalhas de Sadowa e de Sedan, ambas vencidas pela Prússia. A primeira ocorreu
em Hradec Králové, em 3 de julho de
1866, e foi o confronto decisivo da guerra Austro-Prussiana; a segunda ocorreu
próximo à cidade francesa de Sedan, em 1 de setembro de 1870, durante a guerra
Franco-Prussiana. Resultou na captura de Napoleão III.
2.
2.[N. da P.]Malines é o nome francês, e Mechlin, o inglês, de Mechelen, cidade da região de Flandres, norte da Bélgica, próxima a
Antuérpia, cujo idioma não é nem o inglês, nem o francês, mas o neerlandês.
3.
3.[N. da P.]Herói nacional da
Polônia e da Lituânia, Tadeu Kosciusko (1746-1817) liderou a revolta contra o
Império Russo em 1794.
4.
4.[N. da P.]Localizada a poucos
quilômetros de Berlim, Potsdam foi residência dos reis da Prússia até 1918.
A recusa da reciprocidade
No capítulo anterior eu procurei mostrar que barbaria, no sentido
que adotei, não é mera ignorância, ou mesmo mera crueldade. Tem um sentido mais
preciso, e significa uma hostilidade militante a certas idéias necessárias ao
homem. Tomei o caso do juramento ou do contrato, que o intelectualismo
prussiano quereria destruir. Disse com insistência que o prussiano é um bárbaro
espiritual porque se considera desligado de seu passado, tanto como um homem
que tivesse simplesmente sonhado. Confessa ele que, tendo prometido respeitar
uma fronteira numa segunda-feira, não pode prever a “necessidade” de a
desrespeitar na terça-feira. Resumindo, ele é como a criança teimosa que,
depois das mais razoáveis explicações, e das lembranças de arranjos já
admitidos, diz sempre que “quer porque quer”.
Uma outra idéia, que preside os negócios humanos, é tão
fundamental que, por isso, pode ser esquecida; mas agora pela primeira vez essa
idéia é negada. Poderíamos chamá-la “idéia de reciprocidade”. O prussiano
aparece como intelectualmente incapaz em relação a essa idéia. Eu creio que ele
não pode conceber a idéia básica de todas as comédias, isto é, que aos olhos do
outro é ele mesmo o outro. E se nós seguirmos essa pista através das
instituições da Alemanha prussianizada, descobriremos quão curiosamente
limitado tem sido o espírito deles nessa matéria. O germânico difere dos outros
patriotas pela incapacidade de compreender o patriotismo. Outros europeus compadeceram-se
dos poloneses ou dos galenses, por causa das margens violadas de seus rios; os
alemães compadecem-se somente de si mesmos. Tomariam à força o Saverne e o
Danúbio, o Tâmisa e o Tibre, o Garry e o Garrone, e continuariam a cantar
melancolicamente a teimosa e mesquinha vigilância exercida sobre o Reno e a
vergonha que seria se alguém lhes arrebatasse esse riozinho. É isso o que eu
entendo por ausência do senso de reciprocidade; e acharemos essa marca em tudo
que eles fazem como em tudo que fazem os selvagens.
Neste ponto, ainda uma vez, é preciso evitar cuidadosamente a
confusão entre a alma do selvagem e a simples selvageria no sentido da
brutalidade e do massacre, à qual se deixaram levar os gregos, os franceses, e
os mais civilizados povos, nos momentos excepcionais de pânico ou vingança. As
acusações de crueldade, em regra geral, são recíprocas. Mas para o prussiano —
e este é o centro da questão — nada é recíproco. A definição do verdadeiro
selvagem não depende de averiguar até que ponto ele maltrata os hóspedes e os
cativos mais do que as outras tribos de homens. Define-se o verdadeiro selvagem
dizendo que ele ri quando maltrata, e lamenta-se quando é maltratado. Essa
extraordinária desigualdade de espírito se encontra em cada palavra e ato que nos
vem de Berlim. Darei um exemplo. É claro que nenhum homem do mundo acredita em
tudo que lê nos jornais, e que nenhum jornalista acredita na quarta parte do
que lê. Estaríamos, por conseguinte, prontos a descontar uma grande parte das
narrativas sobre atrocidades alemãs; poríamos em dúvida algumas histórias,
negaríamos outras. Mas há uma coisa que não podemos negar ou por em dúvida: o
sinete e a autoridade do Imperador. Na proclamação imperial é admitido que
certas coisas “terríveis” foram cometidas; e são elas justificadas pelo que
tinham de terrificante. A terrorização de pacíficas populações por meios que
não fossem civilizados e quase não fossem humanos, era uma necessidade militar.
Ora muito bem. Esta é uma política inteligível e, na mesma medida, um argumento
claro. Um exército posto em perigo entre estrangeiros pode chegar às mais
terríveis extremidades. Mas, virando uma página do diário público do Kaiser,
vamos encontrá-lo escrevendo ao presidente dos Estados Unidos para se queixar
que os ingleses estão usando balas dum-dum1,
e violando vários artigos da convenção de Haia. Deixo de lado, momentaneamente,
o cuidado de averiguar se há uma palavra de verdade nessas acusações. Sinto-me
arrebatado em êxtase e satisfaço-me contemplando os olhos piscos do verdadeiro
bárbaro, do Bárbaro Positivo. Suponho que ele ficaria perfeitamente perplexo se
disséssemos que essas violações da convenção de Haia eram para nós
“necessidades militares”; ou que os artigos daquela conferência não passam de
farrapos de papel. Sentir-se-ia ofendido se lhe disséssemos que as balas
dum-dum, justamente por serem terríveis, nos seriam muito úteis para manter boa
ordem entre os alemães nas cidades conquistadas. Faça o que fizer, não pode se
livrar dessa idéia que ele, sendo ele e não nós, tem o direito de transgredir a
lei e de apelar para a lei. Dizem que os oficiais alemães gostam de um jogo
chamado Kriegsspiel, que quer dizer jogo de
guerra. Mas na verdade eles não poderiam praticar jogo algum, porque é próprio
de todo jogo ter as mesmas regras para ambos os lados.
Tomando uma por uma as instituições alemãs, observamos o mesmo
fenômeno, que não importa apenas pelo sangue derramado ou pela bravata militar.
O duelo, por exemplo, pode ser legitimamente considerado um costume bárbaro,
mas neste caso a palavra seria usada com outro sentido. Há duelos na Alemanha;
mas também os há na França, na Itália, na Bélgica e na Espanha; realmente, o
duelo existe em toda parte onde existem dentistas, jornais, banhos turcos,
almanaques, e outras pragas da civilização; exceto na Inglaterra e numa parte
da América. É possível que o leitor veja no duelo uma relíquia histórica das
mais bárbaras nações sobre as quais se edificaram os estados modernos. Ou então
pode-se afirmar que o duelo é, em toda parte, um sinal de alta civilização,
sendo sinal de um senso de honra mais apurado, de uma vaidade mais suscetível,
ou de um maior temor de descrédito social. Em qualquer dos pontos de vista,
porém, devemos admitir que a essência do duelo é a igualdade de armas. Não
chamarei, portanto, de bárbaros, no sentido que estou aqui adotando, os duelos
dos oficiais alemães e mesmo os combates de sabre que são usuais entre os
estudantes alemães. Não vejo motivos para negar a um moço prussiano o direito
de ter o rosto cheio de cicatrizes, uma vez que ele as aprecia; ainda mais,
chego a crer que muitas vezes essas cicatrizes são os únicos sinais a redimir a
irremediável insignificância de sua fisionomia. O duelo pode ser defendido, a
caricatura do duelo pode ser defendida.
Mas o que não pode absolutamente ser defendido é aquilo que é
peculiar à Prússia e de que já temos ouvido contar inúmeras histórias, algumas
das quais são certamente verdadeiras. Eu diria duelo unilateral. Refiro-me à
idéia de haver alguma dignidade em manejar uma espada contra um homem que não
tem à mão uma espada: um criado, um caixeiro ou mesmo um menino de colégio. Um
dos oficiais do Kaiser, em Saverne, foi encontrado retalhando diligentemente um
aleijado. Quero evitar, nestas discussões, qualquer apelo aos sentimentos. Não
percamos nossa serenidade perante a simples crueldade do ato, e prossigamos
estritamente as distinções psicológicas. Muitos outros, além dos oficiais prussianos,
assassinaram pessoas indefesas para roubar, para violar, ou simplesmente para
matar. O que é importante é que em nenhum outro lugar, senão na Prússia, há uma
teoria da honra associada a esses atos, como também não existe tal código para
envenenadores e batedores de carteira. Nenhum cidadão francês, italiano, inglês
ou americano se gabaria de ter conseguido uma afirmação de sua personalidade
pelo fato de ter retalhado à espada algum ridículo quitandeiro que não tivesse
à mão outra coisa além de pepinos. Dir-se-ia que a palavra que
traduzimos do alemão por “honra”, tem realmente um significado diferente
em alemão. Parece-me que significa mais exatamente o que chamamos “prestígio”.
O fato fundamental, por conseguinte, é a ausência da idéia de
reciprocidade. O prussiano não é suficientemente civilizado para o duelo. Mesmo
quando cruza a espada conosco, seus pensamentos não se parecem com os nossos;
quando, ambos, glorificamos a guerra, são coisas diferentes que estamos
glorificando. Nossas medalhas são trabalhadas como as suas, mas não significam
a mesma coisa; nossos regimentos são aplaudidos como os seus, mas o sentimento
que mora nos corações não é o mesmo; a Cruz de Ferro está no peito de seu rei,
mas não é o sinal de nosso Deus. Pois nós seguimos o nosso Deus — ai de nós —
com muitas recaídas e contradições, mas ele segue o seu muito
compenetradamente. Através de todas as coisas que temos examinado — o caso das
fronteiras nacionais, o problema dos métodos militares, as questões de honra e
de defesa própria — encontramos sempre, no que se refere ao Prussiano, uma
coisa de atroz simplicidade, uma coisa simples demais para nosso entendimento:
a suposição de que a glória consiste em empunhar o ferro e não em defrontá-lo.
Se outros exemplos fossem necessários, encontraríamos facilmente
uma centena. Deixemos, por enquanto, as relações de homem para homem nesse
encontro que se chama duelo; e tomemos as relações entre homem e mulher, nesse
imortal duelo que se chama casamento. Aqui descobriremos, novamente, que as
outras civilizações cristãs aspiram a uma espécie de igualdade que pode,
embora, ser considerada irracional ou perigosa. Assim é entre as pessoas das
classes ditas educadas, na América e na França, que encontramos os dois
extremos no tratamento da mulher. Os americanos escolheram o risco da
camaradagem; os franceses a compensação da cortesia. Na América é praticamente
possível que um moço saia com uma moça para que ele chama (lamento
profundamente dizê-lo) um divertimento; mas ao menos o homem vai com a mulher,
tanto como a mulher vai com o homem. Na França, a moça é resguardada como uma
freira enquanto não se casa; mas quando se torna mãe é realmente uma mulher
sagrada e quando se torna avó é um terror sagrado. Em qualquer desses extremos
a mulher leva alguma coisa desta vida. Há somente um lugar onde ela pouco ou
nada aproveita: o norte da Alemanha. A França e a América, a esse respeito,
aspiram desigualmente a uma igualdade — a América, por similaridade, a França
por contraste. Mas a Alemanha do norte aspira deliberadamente à desigualdade. A
mulher fica em pé, não mais irritada do que um copeiro; o homem fica sentado,
não menos à vontade do que um convidado. Aí temos uma ria afirmação de
inferioridade como o caso do sabre e do caixeiro. “Vais tu tratar com
mulheres”, diz Nietzsche, “não te esqueças do chicote”. Note bem o leitor que
ele não diz “o cabo de vassoura”, como ocorreria mais naturalmente ao espírito
de um espancador de mulheres mais comum e mais cristão, porque a vassoura faz
parte da vida doméstica e tanto pode ser manobrada pela mulher como pelo homem.
O que aliás acontece às vezes. A espada e o chicote, ao contrário, são armas de
uma casta privilegiada.
Passemos agora da mais próxima diferença, a que existe entre
marido e mulher, à mais distante das diferenças, aquela que existe entre as
longínquas e desligadas raças, que raramente se entraram face a face, e que
nunca se tingiram com o mesmo sangue. Ainda aqui acharemos o mesmo invariável
princípio do prussiano. Qualquer europeu pode ter um genuíno receio do “perigo
amarelo”; e muitos ingleses, franceses e russos sentiram-no e exprimiram-no.
Muitos podem dizer, e disseram-no, que o chinês pagão é efetivamente muito
pagão; que, se ele um dia se levantar contra nós, espezinhará, torturará,
devastará tudo, num estilo, de que os orientais são capazes, e que os
ocidentais não conhecem. Não duvido da sinceridade do Imperador da Alemanha
quando se esforça por nos mostrar que pesadelo de monstruosidade e abominação
seria essa campanha, se algum dia se realizasse. Aí vem, entretanto, a cômica
ironia que infalivelmente acompanha as tentativas que o prussiano faz para ser
filosófico. Pois o Kaiser, após ter explicado às suas tropas a importância de
evitar a barbaria oriental, ordena-lhes no mesmo instante que se tornem
bárbaros orientais. Diz-lhes, em muitas palavras, que sejam hunos: e que nada
deixem para trás em pé e com vida. Na realidade, ele oferece francamente um
novo batalhão de aborígenes tártaros ao Far-East, no lapso de tempo apenas necessário para um perplexo hanoveriano
virar tártaro. Qualquer pessoa que tenha o penoso hábito da reflexão já terá
percebido aqui, num relance, e mais uma vez: o princípio da não-reciprocidade.
Cozido e reduzido a seus ossos lógicos, aquele pensamento significa
simplesmente o seguinte: “Eu sou um alemão e você é um chinês. Eu, portanto,
sendo um alemão, tenho o direito de ser chinês. Mas você não tem o direito de
ser um chinês porque você não passa de um simples chinês”. Esse raciocínio é
provavelmente um dos vértices atingidos pela cultura alemã.
O princípio desprezado nesse caso, que pode ser denominado
Mutualidade pelas pessoas que não entendem ou não gostam da palavra Igualdade,
não permite tão clara distinção entre o prussiano e os outros povos, como o primeiro
princípio de um infinito e destrutivo oportunismo, ou, em outras palavras, o
princípio de não ter princípios. Também não permite esse segundo princípio uma
tão clara tomada de posição relativamente às outras civilizações ou
semicivilizações do mundo. Há sempre uma idéia de juramento e compromisso entre
as mais rudes tribos e nos mais sombrios continentes. Mas pode ser afirmado, a
respeito desse elemento de reciprocidade, mais fino e imaginativo, que um
canibal em Bornéu o compreende quase tão pouco como um professor em Berlim. Uma
estreiteza angular e uma seriedade unilateral é o defeito do bárbaro em
qualquer ponto do globo. Talvez venha daí, pelo que julgo saber, a significação
do olho único dos ciclopes: a impossibilidade de o bárbaro ver o contorno
completo das coisas ou fitá-las sob dois pontos de vista. Em conseqüência,
torna-se uma besta cega e um devorador de homens. Nada define mais globalmente
o selvagem, como já disse, do que sua incapacidade para o duelo. É o homem que
não pode amar — e até odiar — o seu próximo como a si mesmo.
Mas essa qualidade na Prússia tem uma conseqüência que se
relaciona com o inquérito feito sobre as civilizações inferiores. Ela resolve
ao menos, e de uma vez por todas, a questão da missão civilizadora da Alemanha.
Os alemães são, evidentemente, o último povo do mundo a que se possa confiar
tal tarefa. A vista deles é tão curta moralmente como fisicamente. Que vem a
ser o sofisma da “necessidade” senão uma inaptidão de imaginar o amanhã? Que
significa a não-reciprocidade senão a incapacidade de imaginar, já não digo um
deus ou demônio, mas simplesmente um outro homem? Serão esses que deverão
julgar a humanidade? Os homens de duas tribos africanas sabem não somente que
todos eles são homens, mas que todos são pretos. Neste ponto estão seriamente e
incontestavelmente mais adiantados que o intelectual prussiano que ainda não
chegou a compreender que aqui todos somos brancos. O olho vulgar não consegue
perceber no nórdico teutão nenhum sinal que o destaque especialmente entre as
mais incolores espécies da humanidade ariana. Ele é simplesmente um homem
branco, com tendências para o cinza ou para o pardo2 Apesar disso, ele explicará, em
solenes documentos oficiais que a diferença entre nós é a que existe entre “a
raça de senhores e a raça inferior”. O colapso da filosofia germânica ocorre
sempre no começo dos argumentos, mais do que no desenvolvimento e na conclusão;
e a dificuldade neste ponto, está em que não existe outro meio de verificar
qual é a raça superior a não ser investigando qual é a sua própria raça. Se não
conseguimos (como é geralmente o caso), ficamos reduzidos à absurda ocupação de
escrever a história dos tempos pré-históricos. Mas eu sugiro, com perfeita
seriedade, que, se os alemães puderem transmitir sua filosofia aos hotentotes
não há razão plausível para que não transmitam também o senso de seriedade
aplicável à raça dos hotentotes3.
Se eles chegarem a entrever a delicada sombra que distingue um gota de um
galense4, não haverá meio de
evitar que sombras semelhantes elevem o selvagem acima dos outros selvagens; e
que um Ojibway não descubra que possui mais uma pinta de vermelhidão do que os
Dacotas5;
ou que um negro do Camerun6 diga que não é tão negro como o
pintam. Porque esse princípio inteiramente arbitrário de superioridade racial é
a última e a pior das recusas de reciprocidade. O prussiano convida todos os
homens a virem admirar a beleza de seus grandes olhos azuis. Se admiram, fica
admitido que têm olhos superiores; se não admiram, fica provado que não têm
olhos para ver.
Por isso, onde estiver o mais miserável sobrevivente de nossa
raça, perdido e ressecado no deserto ou sepultado para sempre sob os escombros
de civilizações falidas — se ele ainda tiver uma débil lembrança que homens são
homens, que contratos são contratos, que toda questão tem dois lados ou mesmo
que é preciso serem dois para uma querela, então, esse sobrevivente terá o
direito de resistir à Nova Cultura, a faca, a pau e a padre; porque o prussiano
começa sua cultura pelo ato que é a destruição de todo pensamento criador e de
toda ação construtiva. Ele quebra na alma esse espelho onde o homem vê a face
de seu amigo — e de seu inimigo.
1.
1.[N. da P.]Este tipo de projétil
se estilhaça dentro do corpo do indivíduo atingido, provocando dores terríveis,
o que normalmente não acontece com uma bala comum. Por essa razão, o uso de
balas dum-dum foi condenada pela Convenção de Haia de 1899.
3.
3.Família de grupos étnicos
existente na região sudoeste da África existente, sobretudo na Namíbia, então
ocupada pelos alemães.
4.
4.[N. da P.]Ou um Godo de um
Gaulês.
5.
5.[N. da P.] Ojibway e Dacotas são
os nomes de dois grupos indígenas norte-americanos.
6.
6.[N. da P.]Camarões era colônia
alemã quando Chesterton escreveu esse livro.
O apetite da tirania
O Imperador da Alemanha queixou-se da aliança que nosso país
firmou com “uma potência bárbara e semi-oriental”. Já esclarecemos o sentido
que atribuímos à palavra “bárbaro”: aquele que é hostil à civilização e não o
que é insuficientemente civilizado. Mas se passarmos da idéia de barbaria para
a idéia de orientalismo, o caso se torna ainda mais curioso. Nada há
particularmente tártaro nos negócios russos, exceto o fato de terem os russos
expulsado os tártaros. O invasor oriental ocupou e oprimiu o país durante
longos anos; o mesmo, porém, aconteceu com a Grécia, a Espanha e com a própria
Áustria. Se a Rússia sofreu alguma coisa do oriente, sofreu por lhe resistir, e
é um pouco difícil admitir que o milagre de sua libertação venha agora pesar
como um equívoco em suas origens. Tenha ou não Jonas vivido três dias no interior
de um peixe, nem por isso se tornou um tritão. E no caso de todas as outras
nações européias que escaparam de monstruosos cativeiros, admitimos
perfeitamente a pureza e a continuidade do tipo europeu. Consideramos a antiga
dominação oriental como um ferimento mas não como uma mancha. Homens de pele
cobreada, vindos de África, governaram durante séculos a religião e o
patriotismo dos espanhóis. Nunca ouvi dizer, entretanto, que Dom Quixote fosse
uma fábula africana no gênero de “Uncle Remus”1 Tampouco ouvi dizer que os
vigorosos tons negros da pintura de Velasquez fossem devidos à influência de um
antepassado africano. No caso de Espanha que está tão próxima de nós, é fácil
reconhecer a ressurreição da nação civilizada e cristã depois de séculos de
servidão. Mas a Rússia não está tão perto, e a maioria das pessoas, para as
quais as nações não passam de letreiros no jornal, é capaz de imaginar, como o
amigo de Mr. Baring, que todas as igrejas russas são mesquitas. A terra de
Turguenieff não é uma selva de faquires; e mesmo o fanático russo tem tanto
garbo de não ser mongol, como o fanático espanhol se orgulha de não ser mouro.
A cidade de Reading, atualmente, oferece poucas oportunidades à
pirataria de alto mar; nos tempos de Alfredo foi, entretanto, um couto de
piratas. Seria, a meu ver, um pouco excessivo tratar os habitantes de Berkshire
de semidinamarqueses, simplesmente porque expulsaram os dinamarqueses. Em
resumo, uma temporária submersão em ondas de selvageria foi a sorte de muitas
das mais civilizadas nações da cristandade; e é perfeitamente ridículo concluir
que a Rússia, tendo sido a que mais duramente combateu, deve ser a que menos
recuperou. Em toda parte, sem dúvida, o oriente espalhou uma espécie de esmalte
nas regiões conquistadas, mas em toda parte o esmalte estalou. A verdadeira
história, de fato, é exatamente o contrário do provérbio barato inventado contra
os moscovitas. Não é exato dizer: “Raspe o russo, encontrará o tártaro”. Nas
horas mais sombrias da dominação bárbara, ainda era mais certo dizer: “Raspe o
tártaro, encontrará o russo”. Era a civilização que sobrevivia sob a barbaria.
Esse vital romance da Rússia, a revolução contra a Ásia, pode ser provado por
puros fatos, não somente pela atividade quase sobre-humana da Rússia durante a
luta, mas também (o que é muito mais raro no decorrer da história humana) pela
perfeita coerência de sua conduta desde então. É a Rússia a única das grandes
nações que realmente expulsou o mongol de seu solo, e que continuou a protestar
contra a presença do mongol em seu continente. Sabendo o que ele tinha sido
para a Rússia, sabia bem o que seria para a Europa. Seguia, deste modo, uma
linha de pensamento lógico que era, tanto quanto possível, hostil às energias e
às religiões orientais. Não é injusto dizer que todas as outras nações tiveram
alianças com o oriental, mongol ou muçulmano. A França serviu-se deles, como de
peças de artilharia, contra a Áustria; a Inglaterra apoiou-os calorosamente
durante o regime Palmerston; até mesmo os jovens italianos enviaram tropas à
Criméia. Quanto à Prússia e à sua vassala austríaca, é supérfluo dizer qualquer
coisa hoje2.
Seja como for, por este ou por aquele motivo, o fato histórico é que a Rússia é
a única das potências da Europa que nunca defendeu o Crescente contra a Cruz.
Isto, sem dúvida, não parece ser um assunto muito importante; mas
pode tornar-se em certas condições especiais. Suponhamos, para maior facilidade
de raciocínio, que existisse na Europa um poderoso príncipe que se desviara de
seu caminho, com ostentação, para tributar homenagens aos tártaros, aos mongóis
e aos muçulmanos que ainda se mantinham em postos avançados da Europa.
Suponhamos que existisse um Imperador cristão que nem sequer pudesse visitar o
túmulo do Crucificado sem se deter para congratular o último crucificador vivo.
Se existisse um imperador que oferecesse canhões, guias, mapas e instrutores
militares para defender os remanescentes mongóis na cristandade, que lhe
diríamos nós? Creio que poderíamos, pelo menos, pedir contas de sua impudência
quando ele alude ao apoio dado a uma potência semi-oriental. Não é exato que
tenhamos apoiado uma potência semi-oriental; o que é exato é que aquele
imperador apoiou uma potência inteiramente oriental, e isso ninguém poderá contestar,
nem ele mesmo.
Deve ser notada aqui, porém, a diferença essencial entre a Rússia
e a Prússia, e chamo a especial atenção daqueles que usam os habituais
argumentos liberais contra a Rússia. A Rússia tem uma política que ela vem
seguindo — se quiserem — através do mal e do bem. Em todo caso, e por isso
mesmo, tem produzido ora o bem ora o mal. Admitamos como certo que essa
política a levou a oprimir os finlandeses e os poloneses, observando de
passagem que os poloneses russos se sentem menos oprimidos que os poloneses
prussianos. É entretanto um fato histórico que a Rússia, tendo sido despótica
para alguns pequenos países, foi libertadora de outros. Emancipou, na medida
que pôde, os sérvios e os montenegrinos. Mas quais são os países que a Prússia um
dia libertou, mesmo por acidente? Não deixa de ser assaz extraordinário que nas
perpétuas mutações de sua política internacional os Hohenzollerns nunca,
jamais!, se tenham extraviado para o caminho da luz. Fizeram e desfizeram
alianças com quase todas as nações: com a França, com a Inglaterra, com a
Áustria, com a Rússia. Haverá um indivíduo bastante cândido para descobrir o
mais leve vestígio de progresso e de libertação, deixado por eles nesses povos?
A Prússia foi inimiga da monarquia francesa, mas ainda pior inimiga da
revolução francesa. Foi inimiga do Czar, mas pior inimiga da Duma3.
Ignorou totalmente os direitos austríacos, mas hoje está pronta para servir às
injustiças austríacas. Esta é precisamente a forte diferença entre os dois
impérios. A Rússia está procurando atingir certos fins inteligíveis e sinceros,
que para ela são ideais, pelos quais será capaz de sacrifícios e protegerá os
fracos. Mas o nórdico alemão é uma espécie de tirano teórico, sempre e em toda
parte devotado à tirania materialista. Esse teutão uniformizado tem sido visto
em lugares estranhos: fuzilando fazendeiros diante de Saratoga4 e açoitando soldados no condado
de Surrey5;
enforcando negros na África e raptando moças em Wicklow; mas jamais, por alguma
misteriosa fatalidade, foi ele visto prestando auxílio para a libertação de uma
única cidade, ou ajudando a independência de uma só bandeira. Onde houver,
porém, uma orgulhosa e próspera opressão, aí estará o prussiano,
inconscientemente lógico, instintivamente coercivo, inocentemente cruel;
“perseguindo as trevas como um sonho”.
Suponhamos um personagem (dotado de certa longevidade) que tenha
ajudado Alva a perseguir os protestantes holandeses, e depois tenha
ajudado Cromwell a perseguir os católicos irlandeses, e depois ajudado
Claverhouse a perseguir os puritanos escoceses; acharíamos mais razoável
chamá-lo de perseguidor do que chamá-lo de protestante ou católico. Tal é a
curiosa posição que o prussiano ocupa na Europa. O fato que nenhum argumento
pode alterar, é que em três casos convergentes e concludentes, ele esteve ao
lado de três governos distintos de diferentes religiões, que nada tinham de
comum senão o exercício da opressão. Nesses três governos, tomados
separadamente, é possível encontrar algo de desculpável ou pelo menos de
humano. Quando o Kaiser encorajava os russos a esmagarem a revolução, os
dirigentes russos acreditavam sem dúvida que estavam combatendo um inferno de
ateísmo e de anarquia. Um socialista, de uma espécie comum na Inglaterra,
pôs-se a gritar diante de mim quando falei em Stolypin6,
e disse que sua maior fama provinha do sistema de forca chamado “gravata de
Stolypin”. Na verdade, a respeito de Stolypin, há muitas outras coisas dignas
de interesse além de sua gravata: sua política sobre a propriedade rural, sua
extraordinária bravura pessoal, e, mais interessante ainda, o gesto que fez no
leito de morte, quando traçou o sinal da cruz na direção do Czar, coroa e
cabeça da cristandade. Mas o Kaiser não considera o Czar como chefe de uma
cristandade. Longe disso. O que ele prestigiava em Stolypin era a gravata,
apenas a gravata. Era a forca e não a cruz. O chefe russo acreditava na
ortodoxia da Igreja Ortodoxa; o arquiduque austríaco realmente desejava tornar
católica a Igreja Católica, e acreditava que se batia pelo catolicismo
batendo-se pela Áustria. Mas o Kaiser não era pró-catolicismo ou pró-Áustria;
ele era, pura e simplesmente, anti-Sérvia. Ainda mais: mesmo no cruel e estéril
esforço da Turquia, um indivíduo dotado de imaginação poderá ver algo da
trágica e portanto da comovente sinceridade do crente. O pior que se pode dizer
do muçulmano, como disse o poeta, é que ele oferece ao homem a escolha entre o
Corão e a espada. O melhor que se pode dizer do Imperador da Alemanha é que ele
não faz questão do Corão e que lhe basta a espada. Tenho para mim que os
próprios pecados dos outros três esforçados impérios, em comparação, se
revestem de tristeza e dignidade: eles não merecem que esse pequeno velhaco
luterano venha patrocinar o que neles há de mal, ignorando o que neles há de
bem. Ele não é católico; não é ortodoxo; não é muçulmano. É apenas um velho
cavalheiro que deseja ter parte no crime, não podendo ter parte nas crenças.
Deseja ser o perseguidor pela tortura sem a palma. Tão fortemente é o prussiano
arrastado por seus instintos contra a liberdade, que seria capaz de oprimir os
súditos de outras nações por não suportar a idéia de existirem pessoas privadas
dos benefícios da opressão. É uma espécie de déspota desinteressado.
Desinteressado como um demônio que está sempre disposto a fazer um serviço sujo
para alguém.
Tudo isso pareceria fantástico, evidentemente, se não fosse o
apoio de sólidos fatos que de outro modo seriam inexplicáveis. Na verdade, isso
seria inconcebível se se tratasse de um povo inteiro composto de indivíduos
livres e vários. Mas na Prússia a classe dirigente é de fato uma classe que
dirige: e muito poucas pessoas são necessárias para estabelecer a linha de
conduta que os outros seguirão. O paradoxo da Prússia é o seguinte: seus
príncipes e nobres, enquanto só têm, no mundo, o objetivo de destruir a
democracia onde quer que se manifeste, conseguiram se convencer que são eles,
os prussianos, não os guardiães do passado, mas os precursores do futuro. Mesmo
sem acreditarem na popularidade de suas teorias, crêem na possibilidade de sua
expansão. Novamente encontramos aqui um abismo espiritual entre as duas
monarquias em questão. As instituições russas, em muitos casos, estão realmente
atrasadas em relação ao povo russo; e muitos são entre eles os que não ignoram
esse fato. Mas as instituições prussianas são consideradas como estando
adiantadas em relação ao povo da Prússia; e muitos são, entre eles, os que
crêem nisso. Torna-se, assim, muito mais fácil aos senhores da guerra ir por
toda parte impondo uma escravidão desesperançada, visto que conseguiram impor
uma esperançosa escravidão aos homens de sua própria raça. E quando nos vierem
falar das decrépitas iniqüidades russas e de suas retrógradas instituições,
saberemos responder: “É exato; esta é a superioridade da Rússia”. Suas
instituições fazem parte de sua histórica, já como relíquias, já como fósseis.
Seus abusos foram um dia usos que se tornaram usados.
Se possuem velhos engenhos de tortura e terror, com o tempo e a
ferrugem eles se desmantelarão como as velhas cotas de malhas. Mas no caso da
tirania prussiana — proclama-se que ela não é antiga e que, ao contrário, “vai
começar agora” como no circo. Há na Prússia florescentes indústrias de algemas,
movimentadas lojas de rodas, cavaletes e pelourinhos — tudo conforme os mais
modernos e perfeitos modelos — com os quais pretende recuperar a Europa para a
causa da Reação... infandum renovare dolorem.
Se quisermos examinar o quanto isso é verdadeiro, podemos adotar o mesmo método
que nos mostrou que a Rússia, com sua raça e sua religião, dando às vezes invasores
e opressores, dará outras vezes um libertador e um cavaleiro andante. Do mesmo
modo, se é exato que as instituições russas estão fora de moda, também é exato
que eles exibem honestamente o bom e o mau que sempre existem nas coisas fora
de moda.
Em sua organização policial, eles mantém uma desigualdade que
contraria a idéia que temos de lei. Mas em suas organizações comunais, eles têm
uma igualdade que é mais velha do que a própria lei. Mesmo quando se esbordoam
mutuamente, como bárbaros, eles se tratam pelos nomes de batismo, como
crianças. No que têm de pior, mantém o que há de melhor numa sociedade rústica.
No que têm de melhor, são bons, com simplicidade, como meninos bons, como boas
irmãs de caridade. Mas na Prússia, tudo o que há de melhor, em matéria de
civilizados maquinismos, está ao serviço do que existe de pior, em matéria de
mentalidade bárbara. Ainda aqui o prussiano não tem um dos méritos fortuitos,
uma dessas sobrevivências felizes, um desses arrependimentos tardios, que
formam a heteróclita mas autêntica glória da Rússia. Aqui, tudo está apurado em
ponta, e apontado para um propósito, e esse propósito, se as palavras e os atos
ainda conservam algum sentido, é a destruição da liberdade nos quatro cantos do
mundo.
1.
1.Figura do folclore negro
norte-americano.
2.
2.Em 1915 a Turquia era aliada à
Alemanha e à Áustria.
3.
3.Conselho de Estado criado na
Rússia (1905) e dissolvido (1909). (N. T.).
4.
4.[N. da P.]Nas imediações do
condado de Saratoga, Nova York, ocorreram as Batalhas de Saratoga (19 de
setembro e 7 de outubro de 1777), que marcaram a reviravolta da Guerra de
Independência dos EUA. Boa parte dos soldados eram alemães contratados como
mercenários.
5.
5.[N. da P.]Ver, do mesmo autor,
“The Crimes of England”, capítulo V, “The Lost England”.
6.
6.[N. da P.] Pyotr Arkadyevich Stolypin
(1862-1911) serviu a Nicolau II e é considerado um dos maiores estadistas da
Rússia imperial. Reprimiu duramente revoltosos.
A evasão da loucura
Durante as considerações feitas sobre o espírito prussiano,
estivemos observando um fenômeno que parece ser, principalmente, uma limitação
mental: uma espécie de nó no cérebro. Perante o problema da população eslava,
da colonização inglesa ou do armamento e reforço do exército francês, a mesma
estranha má disposição filosófica se manifesta. Na medida em que a posso
acompanhar, seria possível resumi-la nesta frase: “É muito injusto que vocês
sejam superiores a mim porque eu sou superior a vocês”. Os porta-vozes desse
sistema parecem dotados de um curioso talento de concentrar confusões ou
contradições no mesmo período e muitas vezes na mesma frase. Já mencionei a
famosa sugestão do Imperador da Alemanha que nos incitava a nos tornarmos hunos
para conjurar o perigo dos hunos. Um exemplo mais eloqüente é o da ordem que
recentemente transmitiu às tropas em guerra no norte da França. Como muita
gente sabe rezava assim a ordem: “É meu Real e Imperial desejo que concentreis
vossas energias, no presente momento, sobre um único objetivo e que apliqueis
toda vossa habilidade e todo valor de meus soldados em exterminar antes de tudo
os traidores ingleses e em esmagar o desprezível pequeno exército do general
French”. A grosseria da observação pode não ser levada em conta por um inglês;
o que me interessa é a mentalidade, é o encadeamento de idéias que consegue se
embaraçar em tão curto espaço. Se o pequeno exército de French é desprezível,
parece evidente que o valor e a capacidade do exército alemão andaria mais
avisado não se concentrando sobre ele, e sim sobre maiores e menos desprezíveis
forças. Se todo valor e recurso do exército alemão se concentra contra o
exército de French, então ele não está sendo considerado como pequeno e
desprezível. Mas o retórico da Prússia tem dois sentimentos incompatíveis no
espírito, e insiste em enunciá-los ao mesmo tempo. Ele precisa considerar o
exército inglês uma pequena coisa, mas precisa também considerar a derrota
inglesa uma grande coisa. Tem necessidade de exultar, no mesmo momento, com a
completa fraqueza de um ataque inglês, e com a habilidade e o valor dos alemães
que repelirem aquele ataque. É preciso, de qualquer maneira, apresentar o mesmo
fato como um esperado e banal colapso inglês, e como um ousado e inesperado
triunfo alemão. Tentando exprimir simultaneamente essas percepções
contraditórias, ele tornou-se um pouco confuso. E por isso ele incitou a
Alemanha a cobrir todos os seus vales e montes com os espasmos de agonia desse
inseto quase invisível; e a tingir de vermelho as águas do Reno, até o mar, com
o impuro sangue dessa barata. Seria, entretanto, injusto basear uma crítica nas
alocuções de um príncipe acidental e hereditário, mas o fato é que o mesmo
fenômeno aparece com igual evidência nas palavras dos filósofos que têm sido
apresentados, mesmo na Inglaterra, como os verdadeiros profetas do progresso. E
em circunstância alguma aparece com maior nitidez do que no confuso discurso
sobre raça; e ainda mais especialmente sobre a raça teutônica. O professor
Havnack, e os indivíduos de sua espécie, nos censuram, se bem os compreendi,
pelo fato de termos rompido os “laços do teutonismo”, laço este que os
prussianos teriam observado estritamente, tanto nas observâncias como nas
brechas. Temos a prova disso na completa anexação de terras exclusivamente
habitadas por negros, como a Dinamarca. Outra prova nós temos na rapidez e na
alegria com que eles reconheceram os cabelos claros e os olhos azuis dos
turcos. Mas é, sobretudo, o princípio abstrato do Professor Havnack que mais me
interessa; procurando segui-lo, tenho sempre a mesma complexidade na
investigação, mas a mesma simplicidade no resultado. Comparando o meticuloso
escrúpulo do Professor a respeito do Teutonismo, com sua displicência a
respeito da Bélgica, não posso evitar a seguinte conclusão: “Um homem não
precisa manter o que prometeu; mas deve manter o que não prometeu”. Havia
certamente um tratado que ligava a Grã-Bretanha à Bélgica, admitindo mesmo que
não passasse de um farrapo de papel. Se existia algum tratado ligando a
Grã-Bretanha ao Teutonismo, o menos que dele se pode dizer é que é um farrapo
de papel perdido. Quase poderíamos dizer que é um farrapo de papel de embrulho.
Neste ponto, ainda uma vez, os pedantes que estamos considerando exibem uma
perversidade ilógica que produz vertigens em nosso espírito. Há obrigações, e
não há obrigações: às vezes parece que a Alemanha e a Inglaterra devem manter
mútua fidelidade; às vezes parece que a Alemanha não precisa manter fidelidade
alguma. Hoje somos nós os únicos, entre os povos da Europa, que quase merecemos
o título de germânicos; amanhã, também os russos e franceses são considerados
como se quase alcançassem o encantador caráter alemão. Mas através de tudo isto
subsiste, brumoso mas não hipócrita, o sentimento de um teutonismo comum.
O Professor Haeckel, uma das outras testemunhas invocadas
contra nós, adquiriu um dia certa celebridade quando demonstrou a notável
semelhança de duas coisas diversas, fazendo imprimir duas vezes a imagem da
mesma coisa. A contribuição do Professor Haeckel em biologia, nesse caso, era
exatamente igual à contribuição do Professor Havnack em etnologia. O Professor
Havnack sabe como é a cara de um alemão; quando deseja ter uma idéia da cara de
um inglês, torna a fotografar, simplesmente, o mesmo alemão. Em ambos os casos
há provavelmente tanta sinceridade quanta simplicidade. Haeckel estava tão
certo da relação e da ligação existentes entre as espécies ilustradas em
embrião que lhe pareceu mais fácil simplificar tudo por meio de uma repetição.
Havnack tinha tamanha certeza da semelhança existente entre alemães e ingleses,
que não hesitou em arriscar a generalização, dizendo que eles são exatamente
iguais. Ele fotografa, por assim dizer, a mesma cabeça loura e tola duas vezes,
e depois assinala a notável semelhança desses dois primos. Assim consegue ele
provar a existência do teutonismo tão irrefutavelmente como Haeckel provou a
proposição mais sustentável da não existência de Deus.
Ora, o alemão e o inglês não são de modo algum parecidos — exceto
no sentido de não serem negros tanto um como outro. Eles são realmente, nos
defeitos e nas qualidades, mais diferentes do que qualquer par de homens
tomados ao acaso na grande família européia. São antagônicos pelas raízes de
suas histórias e, ainda mais, por suas geografias. Não basta dizer que a
Grã-Bretanha é um país insular. Sob os golpes do mar, a Grã-Bretanha é uma ilha
quase dilacerada em três ilhas, e nos seus recantos mais abrigados e mais
interiores ainda se pode sentir algum cheiro de sal. A Alemanha é um belo,
poderoso e fértil país continental que só pode alcançar o oceano por um ou dois
caminhos estreitos e tortuosos, como os que vão ter aos lagos subterrâneos. Por
isso a marinha britânica é realmente nacional porque é natural; ela ganhou
corpo à custa de centenas de acidentais aventuras com navios e marinheiros,
antes e depois de Chaucer. Mas a marinha alemã é uma coisa artificial; tão
artificial como seria a construção de uns Alpes na Inglaterra. Guilherme II
copiou simplesmente a marinha britânica como Frederico II copiou o exército
francês: e essa insistência na imitação, de japonês ou de formiga, é uma das
mil qualidades que os alemães possuem e de que os ingleses são singularmente
desprovidos. Há outras superioridades alemães, entretanto, que são realmente
superiores.
As duas ou três coisas realmente apreciáveis que os alemães
possuem são exatamente aquelas que faltam nos ingleses: o verdadeiro senso da
música popular, por exemplo, e das canções do povo que não saíram das cidades
nem foram buscadas entre profissionais. Nisto, os alemães mais se parecem com
os galenses, mas sabe Deus o que ficaria do teutonismo se essa semelhança
tivesse fundamento. A diferença entre o alemão e o inglês é mais íntima, mais
profunda, do que seria de esperar das simples aparências; eles diferem mais do
que quaisquer outros europeus pela habitual disposição do espírito. Diferem
sobretudo por um traço, o mais inglês dos ingleses; diferem por esse pudor que
os franceses, talvez com razão, chamam de fausse honte, e que, certamente, se compõe de doses de orgulho e desconfiança,
formando um total que chamamos “timidez”. A própria grosseria de um inglês
provém quase sempre de uma certa encabulação. Mas a grosseria de um alemão
provém quase sempre de sua incapacidade de encabular. Ele come e ama
ruidosamente. Nunca lhe parece que um discurso, uma canção, um sermão ou um
banquete estejam deslocados, como a nós se afigurariam em
determinadas circunstâncias. Quando os alemães são patriotas ou religiosos não
sabem manter nenhuma reação contra o patriotismo e a religião, como os ingleses
e os franceses.
Ainda mais, o equívoco dos alemães no atual desastre em larga
medida proveio de terem julgado que a Inglaterra é simples, quando no contrário
ela é extremamente sutil. Observando que nossa política se tinha tornado financeira,
pensaram que ela era exclusivamente financeira; observando que nossos
aristocratas se tinham tornado regularmente cínicos, pensaram que eles eram
inteiramente corruptos. Não puderam apreender a sutilieza pela qual um gentleman arruinado pode vender um título
mas não venderia uma fortaleza; pode baixar um estandarte e resistir para não
baixar uma bandeira.
Em resumo, os alemães estão certíssimos de nos terem compreendido,
justamente porque não nos compreenderam. Se chegassem a nos compreender, é
possível que ainda nos detestassem com mais força: eu preferiria porém ser
malquisto por algum pequeno, mas verdadeiro motivo, do que perseguido com amor
por toda sorte de qualidades que não possuo nem desejo. E, quando os alemães
lograrem o primeiro vislumbre genuíno do que vem a ser a Inglaterra de hoje,
descobrirão que essa Inglaterra tem, imperfeito embora, humilhado e tardio, um
sentimento de obrigação para com a Europa; mas não sente o menor vestígio de
obrigação para com o teutonismo.
Essa é a última e mais forte das qualidades prussianas que aqui
consideramos. Há nessa espécie de estupidez uma estranha força escorregadia que
nos arrasta, não somente para fora das regras, mas para fora da razão. O homem
que realmente não percebe suas próprias contradições leva uma vantagem na
controvérsia, se bem que essa vantagem se dissipe quando ele tentar aplicá-la a
uma simples soma, ao jogo de xadrez ou a esse jogo chamado guerra. Dá-se o
mesmo com o caso do parentesco unilateral. O bêbedo que está persuadido
firmemente que um indivíduo totalmente desconhecido é um irmão perdido há muito
tempo, leva uma vantagem incontestável até o momento de se apurarem os
detalhes. “Precisamos ter um caos dentro de nós”, disse Nietzsche, “para
podermos dar a luz a uma estrela dançante”.
Esbocei, nestas ligeiras notas, as principais grandes linhas do
caráter prussiano. Uma deficiência de honra que chega a ser uma deficiência de
memória, uma egolatria que é honestamente cega para o ego dos outros; e, acima
de tudo, uma cócega de tirania e de intromissão com que o demônio atormenta, em
todos os lugares, os ociosos e soberbos. Devemos ainda acrescentar qualquer
coisa de informe no espírito, algo que se contrai e se distende sem nenhuma
relação com a memória e com a razão: um infinito potencial de desculpas. Se os
ingleses estivessem combatendo ao lado dos alemães, os professores prussianos
assinalariam quão admiráveis eram as energias desenvolvidas pelos teutões. Como
os ingleses estão no lado oposto, os mesmos professores dirão que aqueles
teutões não estão perfeitamente evoluídos. Ou, então, que eles tinham apenas o
necessário desenvolvimento para mostrar que não eram teutões. Provavelmente
dirão as duas coisas. Mas a verdade é que tudo que eles chamam evolução mercê
com mais justeza o nome de evasão. Dizem-no eles que estão abrindo janelas para
a luz e portas para o progresso. A verdade é que eles estão destruindo
inteiramente a casa da inteligência humana para poderem escapar em todas as
direções. Há um paralelo quase monstruoso, um presságio de mau agouro, entre a
alta cotação anunciada por seus filósofos, e a relativa baixa cotação de seus
soldados; porque aquilo que os professores chamam caminho do progresso é, na
realidade, o caminho da fuga.
Oração pela beatificação de Chesterton
Oração pela beatificação de Chesterton
em português, traduzido do espanhol.
Deus Nosso Pai,
Tu que enchestes a
vida de teu Servo Gilbert Keith Chesterton com aquele sentido de assombro
e alegria, e lhe destes aquela fé que foi o fundamento de seu incessante
trabalho, aquela esperança que nascia de sua perene gratidão pelo dom da vida
humana, aquela caridade para com todos os homens, particularmente em relação
aos seus adversários; faz com que sua inocência e seu riso, sua constância em
combater pela fé cristã em um mundo descrente, sua devoção de toda a vida pela
Santíssima Virgem Maria e seu amor por todos os homens, especialmente pelos
pobres, concedam alegria a aqueles que se encontram sem esperança, convicção e
ardor aos crentes tíbios e o conhecimento de Deus àqueles que não tem fé.
Te rogamos que nos
outorgue os favores que te pedimos por sua intercessão, (e especialmente
por....), de maneira que sua santidade possa ser reconhecida
por todos e a Igreja possa proclamá-lo Beato.
Tudo isto te
pedimos por Cristo Nosso Senhor.
Amém.
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