sábado, 16 de junho de 2012

A vitalidade da Igreja


Por Beato Ancleto González Flores
Publicado no Editoriales de la Palabra
20 de outubro de 1918, 566-568 p.

Sobre os escombros dos sistemas humanos que até agora não fazem mais do que fracassar e converter em ruínas tudo o que tocam, se há levantado e se levanta incontrastável o sistema proposto pela Igreja; sistema que nada tem de humano, que é inteiramente divino e, portanto, o único e verdadeiramente divino, ou seja, o único verdadeiramente salvador. É visível que por ódio, por perversão e por ignorância maldizem a Igreja e pretendem arrancar dela o prestígio que conquistou com sua santidade. Mas mesmo assim não se conseguirá retardar o dia solene em que o equilíbrio social será um fato. E se perguntarem, como o fez em certa ocasião Petrônio[1], a Paulo de Tarso: o que pode aportar a Igreja como elemento salvador nas grandes catástrofes de agora, sobretudo como meio eficaz para resolver o problema social? Nós repetiremos esta palavra sublime: o Amor.

Sim! A Igreja, muito longe de sustentar o conceito pagão da civilização, que era o de escravizar; muito longe de ensinar a teoria liberal, que visa por oprimir ao homem em nome da liberdade; muito longe de defender a teses socialistas, que é a de odiar sem medida; é elevada com majestade incomparável sobre todas as paixões e todas as tormentas para fazer vibrar a palavra criadora do amor. Mas ao mesmo tempo ensina e predica o amor, injeta nas almas que de verdade crêem e praticam as doutrinas católicas, uma corrente transbordante de caridade que sempre e em todas as partes tende a suavizar as dores dos delitos, a mitigar suas amarguras, a adoçar seus dissabores e, sobretudo, a fazer com que os fortes, os grandes e os ricos se unam a todos no abraço estreito de uma fraternidade sincera e ardente. Ainda que os sistemas humanos possam predicar a fraternidade, sem dúvida, jamais conseguiram fazer alguém acreditar nisso e nunca foram suficientes fortes para realizá-la.

Isto significa que, como a fraternidade, ou, para falar em cristianismo, a caridade, pede, exige a imolação e esta é impossível sem Deus e sem sua palavra e sem sua promessa. O amor ensinado pelas teorias dos homens é somente um amor utópico, quimérico que não existe  nem existirá jamais. Não sucede o mesmo com o sistema proposto pela Igreja como norma suprema das relações sociais, pois desde logo há que advertir que a palavra da Igreja se apresenta diante de nós com todo o prestígio que brilha no grande, no imortal, no eterno, enfim, na palavra de Deus. E assim, o homem que é incapaz de sacrificar-se somente pelo homem chega a imolar-se por Deus, e isto explica esse florescimento do amor produzido sob o influxo da Igreja e que há povoado o mundo com hospitais; homens e mulheres que tem por modelo São Vicente de Paula[2] e as Irmãs de Caridade. Nada, nem ninguém tem sido até agora, nem será jamais bastante forte para realizar esse trabalho maravilhoso que é única na história e da que só pode ufanar-se a Igreja católica.

O paganismo, com toda sua arte e sua filosofia, foi impotente ainda para conceber as maravilhas do amor cristão; o protestantismo não tem sabido mais que multiplicar o número dos pobres, diga-o a Inglaterra; o liberalismo não tem sabido mais que suprimir as ordens religiosas que têm feito mais pelos homens e pela civilização que todas as revoluções e todos os revolucionários juntos. Somente a Igreja, instituição divina suficientemente sábia para ver com intuição clara as necessidades da natureza humana e bastante forte para cristalizar em fatos as ideias redentoras, sabe e tem sabido em todo tempo dizer a palavra sublime do amor e fazer que surjam, floresçam admiravelmente as obras e as instituições que tendem a que o amor seja uma realidade vivente nas sociedades.


[1] Petrônio Cayo. Escritor italiano, autor de Satiricón, interessante testemunho sobre a decadência da aristocracia romana. Apodado Árbitro de la elegancia, morreu no ano 65.

[2] São Vicente de Paula (1581-1660) sacerdote Frances fundador da Congregação da Missa, chama também ordem dos Vicentinos ou Lazaristas

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