segunda-feira, 28 de maio de 2012

'Boi Mudo' - Chesterton




“ Entre os estudantes que se amontoavam nas salas de aula, havia um que, notório pela estatura elevada e pela corpulência, não conseguia ou não queria ser notável por outra coisa. Mantinha-se tão calado nos debates, que os companheiros começaram a dar à palavra “mudez” a mesma significação que os americanos lhe dão, pois na América a palavra é sinônima de “estupidez”. Claro que, daí a pouco, até a estatura imponente começou a ter só a imensidade ignominiosa do rapaz grande que fica para trás, na classe inferior. Chamaram-lhe o Boi Mudo. Tornou-se objeto não só de zombaria, mas também de piedade. Um estudante bondoso condoeu-se tanto dele, que buscou ajudá-lo com explicações, ensinando-lhe os elementos da lógica, como se se tratasse de lhe ensinar o alfabeto num livro de primeiras letras. O jovem bruto agradeceu-lhe com delicadeza tocante, e o filantropo continuou com êxito, até chegar a um ponto quanto ao qual ele próprio sentiu dúvidas, e de fato errou. Em face disto, o bruto, com toda a aparência de embaraço e perturbação, apresentou uma solução possível, que em verdade era a solução exata. O benévolo estudante ficou boquiaberto, como se estivesse a olhar para um monstro, ao ver o que se lhe afigurava uma misteriosa massa de ignorância e inteligência. E começaram a correr pelas escolas estranhos rumores.”

Chesterton, G.K. Santo Tomás de Aquino: biografia, LTR: São Paulo, p. 67. 

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