“ Entre os estudantes que se amontoavam nas salas de aula,
havia um que, notório pela estatura elevada e pela corpulência, não conseguia
ou não queria ser notável por outra coisa. Mantinha-se tão calado nos debates,
que os companheiros começaram a dar à palavra “mudez” a mesma significação que
os americanos lhe dão, pois na América a palavra é sinônima de “estupidez”. Claro
que, daí a pouco, até a estatura imponente começou a ter só a imensidade
ignominiosa do rapaz grande que fica para trás, na classe inferior. Chamaram-lhe
o Boi Mudo. Tornou-se objeto não só de zombaria, mas também de piedade. Um estudante
bondoso condoeu-se tanto dele, que buscou ajudá-lo com explicações,
ensinando-lhe os elementos da lógica, como se se tratasse de lhe ensinar o
alfabeto num livro de primeiras letras. O jovem bruto agradeceu-lhe com
delicadeza tocante, e o filantropo continuou com êxito, até chegar a um ponto
quanto ao qual ele próprio sentiu dúvidas, e de fato errou. Em face disto, o
bruto, com toda a aparência de embaraço e perturbação, apresentou uma solução
possível, que em verdade era a solução exata. O benévolo estudante ficou
boquiaberto, como se estivesse a olhar para um monstro, ao ver o que se lhe
afigurava uma misteriosa massa de ignorância e inteligência. E começaram a
correr pelas escolas estranhos rumores.”
Chesterton, G.K. Santo Tomás de Aquino: biografia, LTR: São
Paulo, p. 67.

Nenhum comentário:
Postar um comentário