terça-feira, 1 de março de 2011

O PARADOXO DO MUNDO


Darei um exemplo tosco do que quero dizer. Suponhamos que determinada criatura lunar, dada às matemáticas, tivesse que fazer uma descrição do corpo humano. Perceberia imediatamente que o fato essencial é a sua duplicação: um homem é dois homens, e o da direita é exatamente igual ao da esquerda.

Depois de ter comprovado que há um braço à esquerda, o atemático poderia aprofundar as suas pesquisas e verificar ainda que ambos os lados se encontra um número igual de dedos e de artelhos, olhos pares, narinas pares e mesmo lobos cerebrais pares. Por fim, concluiria que se trata de uma lei e, quando encontrasse um coração num dos lados, concluiria que há outro do lado. E justamente aí, quando maior certeza tinha de haver chegado À conclusão certa, é que estaria enganado.

É este desvio milimétrico da rigorosa precisão que constitui um elemento inquietante em todas as coisas. Parece quase uma secreta traição do universo. Uma maça ou uma laranja são suficientemente arredondadas para que lhes chamemos esferas, mas no fim das contas são realmente esféricas. A própria terra tem a forma de uma laranja, com o fim de induzir certo astrônomo incauto a chamar-lhe globo. A lâmina de uma espada, que termina em ponta aguçada; mas a folha, não.

Em toda a parte há este elemento silencioso e incalculável, que escapa aos racionalistas, mas apenas no último momento. A redondeza da terra induz a pensar que cada polegada da sua superfície segue a mesma curvatura; como também parece razoável que, tendo o homem um braço de cada lado, tenha também um coração de cada lado. Nem por isso os cientistas deixam de organizar expedições ao Pólo Norte, certamente por gostarem tato de lugares “chatos”*. E os cientistas continuam a organizar expedições para encontrar o coração do homem; e quando tentam achá-lo, costumam procurar do lado errado.

Pois bem, a verdadeira intuição ou inspiração revela-se quando se conseguem prever as deformidades ou surpresas ocultas. Se o nosso matemático lunar visse os dois braços e as duas orelhas, poderia deduzir daí as duas omoplatas e os dois hemisférios cerebrais. Mas se instituísse o verdadeiro lugar onde se encontra o coração, então eu diria que essa criatura é algo mais do que um matemático.


* O autor se aproveita aqui da ambigüidade da palavra “flat”, que tanto pode significar “plano, achatado” como “sem interesse ou sem projeção”.

CHESTERTON, G.K. Os paradoxos do cristianismo. Tradução de Henrique Elfes. São Paulo: Quadrante, 1993. p.15-17.

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