quinta-feira, 10 de março de 2011

O cristianismo e a lógica


É exatamente esta reivindicação que eu quero fazer em favor do cristianismo: o cristianismo não só deduz as verdades lógicas, como ainda, se de repente se torna ilógico, é porque encontrou, por assim dizer uma verdade ilógica. Não somente acerta ao falar das coisas, mas erra – se é que se pode dizer assim – exatamente onde as coisas estão erradas. Seu  plano ajusta-se perfeitamente às irregularidades ocultas e prevê o imprevisível. É simples ao tratar de verdades simples, mas é teimoso ao tratar de verdades sutis. Admitirá que o homem tem duas mãos, mas não admitirá – por mais que os modernos uivem – a dedução óbvia de que tem dois corações.

A única intenção que me move agora é, pois, mostrar esse fato, isto é, mostrar que, sempre que alguma coisa nos parece estranha na doutrina cristã, logo descobrimos que há algo de estranho na realidade.

Aludi noutra parte a uma frase sem sentido, que afirma que não se pode crer nesta ou naquela religião nos tempos atuais. Ora, é óbvio que qualquer coisa pode ser crida em qualquer época. Mas, por estranho que pareça, num certo sentido é verdade que determinado credo, se se acredita nele realmente, pode ser crido com mais firmeza numa sociedade complexa do que numa sociedade simples.

Se uma pessoa pensa que o cristianismo é verdadeiro em Birmingham, realmente tem razões mais claras para ter fé do que se nele acreditasse em Mércia*. Pois quanto mais a coincidência. Se os flocos de neve que caem  tivessem, por exemplo, a forma exata de um coração, poderia ser um mero acaso. Mas se caíssem na forma exata do labirinto de Hampton Court**, penso que se poderia chamar a isso um milagre. A filosofia do cristianismo veio a parecer-me exatamente um milagre deste tipo. A complicação do nosso mundo moderno prova a verdade da fé com mais perfeição do que o fazia qualquer problema simples nas eras da fé: foi em Notting Hill e Battersea*** que comecei a ver que o cristianismo era verdadeiro.

É por isso que a fé tem esses requintes de doutrina e de detalhes que tanto desesperam os que admiram o cristianismo sem acreditar nele. Uma vez que se aceita um credo, tem se o orgulho da sua complexidade da sua ciência: isto mostra como ela é rica em descobertas; e se está correta, é um elogio afirma que está correta até nos menores detalhes.

Uma estaca pode encaixar num buraco ou uma pedra numa depressão por mero acaso. Mas tanto uma chave como uma fechadura são complexas e, se uma se ajusta à outra, sabemos que se trata da chave certa.

*Mércia foi um dos reinos anglo-saxões do século VIII; Birmingham é um dos maiores centros industriais da Grã-Bretanha moderna. O autor, pelo contraste, enfatiza a diferente complexidade dessas sociedades.

** Palácio real em Londres, com mais de mil dependências.

*** Distritos industriais e operários de Londres.

CHESTERTON, G.K. Os paradoxos do cristianismo. Tradução de Henrique Elfes. São Paulo: Quadrante, 1993. p.17-19.

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