terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Jackson, por Hamilton Nogueira


Jackson

Hamilton Nogueira


Vinte oito anos são passados, e não nos sai da memória aquele dia trágico em que, arrebatado pelas ondas, deixou um vazio entre os seus entes mais queridos – sua família e seus amigos. Morreu aos trinta e sete anos de idade, deixando uma obra inacabada. Moço ainda, era nosso orientador, e continua a ser, agora, quando, pela idade, poderia ser nosso filho.

Não conheço na história do pensamento brasileiro ninguém que aos vinte anos de idade, tivesse uma visão tão nítida do problema religioso do nosso tempo.

Uma análise da obra de Jackson de Figueiredo deverá ser feita no plano da realidade brasileira da época em que viveu, quando o indiferentismo religioso, a tibieza dos católicos, a indistinção dos valores espirituais, a “extralimitação das coisas”, eram os sinais visíveis de uma sociedade que perdera o sentido de um cristianismo de todas as concessões feitas pelo liberalismo religioso, mostrar que o catolicismo é essencialmente vida, testemunho, foram os objetivos de sua ação como jornalista e escritor.

 A sua fé como a de Dostoievski passou pelo “cadinho de todas as dúvidas”, e nas suas obras principais “Reflexões sobre a Filosofia de Farias Brito” e “Pascal e a Inquietação Moderna”, podemos acompanhar o seu drama dialético entre o humano e divino.

Não é uma dialética fria, no sentido do racionalismo hegeliano, é uma dialética existencial, profunda e dolorosamente vivida, em que a luz e as trevas se alternam, em que as dúvidas, as angústias e inquietações se mesclam com a esperança do conhecimento da verdade. O seu livro sobre Pascal resume a sua própria vida. No solitário de Port Royal encontrou um irmão mais velho que passava pelas inquietações e atingiu a plenitude da fé. “O que me proponho a demonstrar é, justamente, que, mais uma vez, a dúvida encaminhou para a fé. Pascal e a sua angústia são o elemento que mais vivamente agita a consciência contemporânea, sendo causa de primeira ordem não só da reação espiritualista que vai estrangulando o materialismo moderno, mas também da já notada renascença, senão católica de um a outro extremo, pelo menos, cristã, entre as camadas intelectuais superiores em todo Ocidente.” Jackson não conheceu Kierkegaard. Se o tivesse conhecido, teria sido no Brasil, um dos seus grandes interpretadores, tão profundas são as suas afinidades de ordem espiritual. A sua atitude em face do absoluto era idêntica à do filósofo dinarmaquês, atitude de “temor e tremor”. Para ele como para Kierkeggard o amor é o laço que une o temporal ao eterno. Jackson admitiria o “salto no absurdo” como admitiu a “aposta” de Pascal. E, certo, teria dado a leitores apressados da obra de Kierkeggard. Digo sempre que, quem não o conheceu, foi roubado na vida, tão rica era a sua alma, tão grande a sua generosidade, a sua assistência, então nobres as suas atitudes nesses momentos em que uma tomada de posição é exigida, não importando o risco a que se submete quem quer que tenha assumido compromisso. E porque assim procedeu, deixou discípulos e continuadores da sua obra. “A Ordem” e o “Centro Dom Vital”, suas criações, continuam o movimento que iniciou, movimento de compreensão, de apelo aos que estão nas fronteiras da verdade.

Numa carta a Leon loy dizia Pierree Termiér: “La glorie de La chrité est devenir”. Jackson possuía esse dom divino. Daí o seu segredo de pescador de almas, a força do seu apostolado.


NOGUEIRA, Hamilton. Jackson.  A Ordem, Rio de Janeiro, v. 56, n. 5, p. 286-287, nov. 1956.


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