quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Jackson, humanista integral

Por Silvio Elia*

Quando das comemorações na primeira década da morte do grande brasileiro fui honrado com um convite para participar do número desta revista [A Ordem] ao mesmo dedicado, e não pude imediatamente aceder.

As minhas dificuldades não eram de tempo, nem de inspiração, mas de preparo.

Foi a doze anos atrás que me surgiu aos olhos, pela primeira vez, o nome de Jackson de Figueiredo. Cursava eu o ginásio e já me ia afeiçoando com os nomes de nossos mais notáveis homens de letras, pois entremeava o estudo nos compêndios com leitura de jornais e revistas. Conhecia-os, portanto, através das crônicas de imprensa.

Lembro-me perfeitamente a surpresa que me causou a notícia da morte de um Jackson. É que o jornal a dera com grandes louvores à inteligência e à personalidade do morto. Tive então a impressão – mais tarde confirmada - que se tratava de um vulto singular, e admirei-me bastante de nunca lhe haver lido o nome em qualquer outro periódico.

Todavia, Jackson durante ainda algum tempo continuou a ser para mim um desconhecido. Só quando vim a me sentir atraído pelos escritos de Tristão de Atayde, então em plena campanha de combate ao mofado cientismo de tantos soi-disant valores da nossa intelectualidade, é que reencontrei o seu nome. Percebi que ele era agitado como a bandeira de luta e conseguia reunir em torno a si temperamentos os mais diversos.

Nessa época, iniciando o curso jurídico, eu me sentia revoltado contra o ambiente bolchevizado da nossa Faculdade, em que professores panfletários inoculavam vírus dissolventes nas inteligências jovens que acorriam a suas aulas. Em nome da libertação do proletariado, negava-se Deus (que atualmente os comunistas se apressam em “respeitar”...), solopavam-se as bases da família, favorecia-se a libertação dos piores instintos. E não havia quem se levantasse contra tamanha dissolução que Tristão de Atayde, cujo livros se sucediam demolidores e restauradores.

Foi nessa ocasião que li alguns livros de Jackson. Confesso que muito pouco me interessou. Não que desconhecesse valor, mas neles não encontrei elementos com que satisfizesse a minha vontade de acertar com idéias definitivas e rechaçar as idolatrias demoníacas do marxismo internacional, ou nacional. Era cedo demais para eu compreender a posição do bravo sergipano.

Hoje se passaram alguns anos. Nesse breve espaço de tempo as condições do mundo se transformaram profundamente. O fascismo tornou-se de “defensor” em perseguidor da Igreja. O comunismo político procura uma aliança com as democracias e volta a incensar a lírica liberdade dos tempos burgueses. E as chamadas grandes democracias aproveitam-se dos erros crassos dos totalitarismos, para identificar a sua causa com a da cultura e, por isso, tentaram uma recomposição, bastante suspeita, com a Igreja.

Pois bem: no mundo novo de hoje, tão diferente do de há três anos, a personalidade de Jackson se vinca com o mesmo fulgor e a mesma atração dos tempos em que vivia entre os homens.

É esse admirável fenômeno que hoje se vai explicando. Jackson foi, essencialmente um anti-burguês. Foi um perturbador realmente, um homem que veio falar à avestruz da tempestade, exatamente quando o satisfeito animal melhor se julgava protegido pela asa...

Ora, o burguês é apenas um aspecto desprezível da natureza humana que triunfou num dado momento histórico. Ele, porém, está sempre ao nosso lado, chamando-nos, enleando-nos, convencendo-nos. Não podemos, nem devemos ceder um momento sequer. Para isso é preciso reagir sempre, reagir com violência, com âmago da nossa personalidade. Porque o burguês é o homem epidérmico, das ilusões fáceis e dos prazeres grosseiros.

Daí a luta de Jackson consigo mesmo, com o “seu” burguês. Daí a sua força sobre os bem intencionados, sobre todos aqueles que sinceramente procuravam a verdade.

Por isso os seus livros nada têm de sistemático, quase diríamos de harmonioso. Jackson nunca foi um fazedor de idéias. É muito fácil e distrai bastante os intelectuais burgueses a criação de sistemas. Não conheço melhor exemplo, no domínio da mediania intelectual, que a doutrina espírita, onde fantasias mentais são tão abundantes, quanto indemonstráveis e satisfazem comodamente a necessidade de uma explicação final do universo. Haverá coisa mais incômoda que o diabo e o fogo eterno?

Jackson não expõe idéias em seus livros, mas põem problemas. E quem ainda não os tiver sentido dentro de si, inútil buscá-los nas páginas de suas obras. O homem livresco é exatamente aquele que “conhece” os problemas e as soluções propostas, por haver encontrado expostos em algum trabalho, mas não os sentiu realmente em si. E por isso não os compreende. E Jackson ou é compreendido, ou abandonado. Não pode provocar admirações no puro intelectual, nem alegria entre os amáveis.

Essas razões que dele me distanciam, no primeiro encontro. Nessa época eu não percebera ainda o meu “burguês”. Estávamos talvez ainda um pouco identificados demais... e, com certeza, dele ainda não os despojamos suficientemente. Do ponto de vista intelectual, o que me seduzia era exatamente as idéias, e não as situações. Para mim as ideais governam o mundo e a consciência modelava a existência.

Por isso, dizia eu a princípio, sentir-me fraco demais para escrever sobre Jackson, quando a isso me aludiram.

Ao ler posteriormente o número de “A Ordem” em homenagem ao inquieto analista de de Maistre, bem como as reveladoras cartas que dirigiu a Alceu Amoroso Lima, verifiquei quão justo fora o meu temor. Não era eu que precisava falar dos outros de Jackson, mas precisamente quem precisava ouvir falar de Jackson. E de fato, os artigos de Amoroso Lima, Barreto Filho, Hamilton Nogueira nos apresentaram o verdadeiro Jackson, o apaixonado da “vida”, o diretor de consciências.

Jackson, pelo contrário, só se satisfazia com a solução total. Coisa alguma lhe interessava se não se satisfazia com a solução total. Coisa alguma lhe interessava se não fosse apreciada “sub ratione aeternitatis”. Os objetos mais queridos pela beleza, pela graça ou pela riqueza, ele os abandonava sem saudade, nem tinha inveja de que os possuía. A si próprio, a que tanto amava, a ponto de ser tentado a constituir-se em chave do universo, desprezava enquanto ser contingente e votado ao desaparecimento. Só a alma, a salvação da alma o orientava nas suas decisões.

E nesse sentido é que Jackson era homem de ação. Não ainda “de ação” na algaravia ianque de “ativista”. Mas de ação real, isto é, incapaz de se mover sem se para deixar a marca indelével de sua passagem.

Nem se pode dizer que Jackson só pensava para agir. Isso diria um comteano, ou qualquer outro calinada. Para Jackson, o pensamento já era a própria ação, pensar era agir, era se identificar com uma situação e compreendê-la e, portanto, resolvê-la.

Essas pequeninas reflexões e ainda outras me vinham à mente ao perpassar a extraordinária correspondência do autor do “Aevum”. E eu pude então entender porque não me aproximara de Jackson, quando estudante de direito. A minha inveterada tendência para tudo resolver na tela das idéias puras, o meu semi-burguesismo mesmo me afastaram desse perturbador, desse inquieto contagioso, que não deixava incólume alma alguma que resvalasse pelo campo de suas infatigáveis análises.

Só a lição da vida, só as situações que ela nos cria, só a necessidade de vencê-las, isto é, de assimilá-las a nós sem nos deturpar, nos pode por em face com certas questões fundamentais, que encontramos em Jackson de Figueiredo.

Doze anos passados, a sua presença é uma realidade. Jackson de foi talvez a mais forte personalidade da história do Brasil independente. Ele é uma revelação de Deus e da Terra e um sinal de que no Brasil nada se fará em contrário à corrente cristã e ocidental, que ele veio encarnar.

*ELIA, Silvio. Jackson, humanista integral. A Ordem, Rio de Janeiro, v. 21, n. 2, 167-171, fev. 1941.


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