sábado, 4 de dezembro de 2010

Os enigmas do Evangelho

Por G. K. Chesterton

Para entender a natureza deste capítulo é preciso recorrer à natureza deste livro. A argumentação escolhida como espinha dorsal do livro é aquele tipo de argumentação denominado reductio ad absurdum. Ela sugere que os resultados da aceitação da tese do racionalismo são mais irracionais que os nossos; mas para provar isso precisamos aceitar aquela tese. Assim, na primeira seção muitas vezes tratei o homem simplesmente como um animal para mostrar que o resultado disso era mais impossível do que se ele fosse tratado como um anjo. No mesmo sentido em que foi preciso tratar o homem simplesmente como um animal, é preciso tratar a Cristo simplesmente como homem. Devo suspender minhas próprias crenças, que são muito mais positivas e assim, partir da pressuposição de que essa limitação de fato existe, até mesmo para jogá-la por terra, para imaginar o que aconteceria com um homem que realmente lesse a história de Cristo como a história do homem; e até mesmo como a história de um homem de quem ele nunca tinha ouvido falar. E pretendo ressaltar que uma leitura realmente imparcial dessa espécie no mínimo provocaria, mesmo que não fosse imediatamente à fé, um espanto para o qual não haveria nenhuma solução a não ser na crença. Por isso, neste capítulo não apresentarei nada do espírito de meu credo pessoal; vou excluir até mesmo o estilo de minha maneira de falar e até de descrever, que eu acharia adequado ao falar em meu próprio nome. Aqui estou falando como um pagão humano imaginário, sinceramente, encarando o Evangelho pela primeira vez.

Ora, não é fácil considerar o Novo Testamento como um Novo Testamento. Não é nada fácil entender a boa-nova como nova. Tanto para o bem como para o mal, a familiaridade nos enche de pressupostos e associações; e nenhum homem da nossa civilização, não importa o que ele pense sobre religião, pode realmente ler esse texto como se nunca houvesse ouvido falar dele antes. Seja como for, é óbvio que é absolutamente a-histórico falar como se o Novo Testamento fosse um livro que houvesse caído, perfeitamente encadernado, do céu. Trata-se simplesmente de uma seleção que a autoridade da Igreja fez de um grande volume de antiga literatura cristã. Mas, deixando de lado qualquer questão desse tipo, existe uma dificuldade psicológica em sentir o Novo Testamento como novo. Existe uma dificuldade psicológica em ver aquelas palavras tão conhecidas do jeito que elas são, sem ir além do que elas intrinsecamente representam. E essa dificuldade deve ser de fato muito grande, pois seu resultado é muito curioso. O resultado é que a maior parte dos críticos modernos e da crítica atual, até mesmo da crítica popular, tece um comentário que é exatamente o inverso da verdade. É tão completamente o inverso da verdade que quase se poderia suspeitar que esses críticos simplesmente nunca leram o Novo Testamento.

Todos nós ouvimos gente repetindo centenas de vezes, pois eles nunca se cansam de dizê-lo, que o Jesus do Novo Testamento é de fato alguém sumamente misericordioso e bondoso, que ama a humanidade, mas que a Igreja ocultou esse caráter humano em seus repelentes dogmas e o sufocou com seu terrorismo eclesiástico até Jesus assumir um caráter desumano. Atrevo-me a repetir que isso é quase exatamente o inverso da verdade. A verdade é que é a imagem de Cristo nas Igrejas que aparece quase inteiramente suave e misericordiosa. É a imagem de Cristo dos evangelhos que mostra também muitos outros aspectos. A figura dos evangelhos de fato expressa com palavras de beleza que quase parte o coração a sua compaixão por nossos corações partidos. Contudo, essa não é de modo algum a única espécie de palavras proferidas por ele. Em contrapartida, elas praticamente constituem a única espécie de palavras que a Igreja em suas imagens populares sempre o faz proferir. A massa dos pobres está acabrunhada, e toda a massa do povo é de pobres, e para a massa da humanidade a coisa principal consiste em ter a convicção da incrível misericórdia divina. Ninguém que tenha os olhos abertos pode duvidar de que é sobretudo essa idéia de compaixão que o mecanismo popular da Igreja procura sustentar. As imagens populares contêm uma dose excessiva do sentimento do “Bom Jesus, manso e humilde”. Essa é a primeira impressão que um estranho sente e critica na Pietà ou num santuário do Sagrado Coração. Costumo dizer que, embora a arte seja insuficiente, não tenho certeza de que o instinto seja irreal. Seja como for, existe algo que assusta, algo que gela o sangue da gente na idéia de termos uma estátua do Cristo irado. Existe algo de insuportável até mesmo para a imaginação na idéia de virar a esquina de uma rua ou de entrar no espaço de um mercado e topar com a paralisante petrificação daquela figura atacando uma geração de víboras, ou daquela face fixando a cara de um hipócrita. Pode-se, portanto, justificar racionalmente a Igreja se ela mostra aos homens o rosto ou aspecto mais misericordioso; e com certeza o aspecto que ela mostra é o mais misericordioso. A idéia essencial aqui é esse aspecto é realmente muito mais especial e exclusivamente misericordioso que qualquer impressão que alguém poderia ter simplesmente mediante a primeira leitura do Novo Testamento. Alguém que se limitasse a tomar as palavras da história tal qual ele se apresenta teria uma impressão muito diferente; uma impressão cheia de mistério e talvez inconsistente; mas com certeza não seria apenas uma impressão de suavidade. Seria fortemente interessante, mas parte do interesse consistiria em deixar muitas coisas sem intuí-las ou explicá-las. A história dos evangelhos está cheia de súbitos gestos evidentemente significativos, só que nós não sabemos qual é o seu significado: são silêncios enigmáticos, são respostas irônicas. As explosões de ira, como tempestades acima de nossa atmosfera, não parecem irromper exatamente onde esperaríamos que elas acontecessem, mas parecem seguir algum mapa meteorológico superior e próprio. O Pedro que o ensinamento popular da Igreja apresenta é com muita justiça o Pedro a quem Cristo disse em sinal de perdão: “Apascenta as minhas ovelhas”. Esse não é o Pedro a quem Cristo se dirigiu como se ele fosse o demônio, dizendo aos gritos naquela sua obscura ira: “Para trás de mim, Satanás”. Cristo lamentou-se expressando nada menos que amor e compaixão por Jerusalém, fadada a assassiná-lo. Nós não sabemos que estranha atmosfera ou percepção espiritual o levou a colocar Betsaida no abismo abaixo de Sodoma. Estou deixando de lado por enquanto todas as questões de inferências ou exposições doutrinais, ortodoxas ou não. Estou simplesmente imaginando o efeito na mente de um homem se ele de fato fizesse aquilo de que esses críticos estão sempre falando; se ele realmente lesse o Novo Testamento sem nenhuma referência à ortodoxia e nem sequer à doutrina. Ele descobriria várias coisas que se encaixam muito menos na heterodoxia atual que na atual ortodoxia. Encontraria, por exemplo, que se há algumas descrições que merecem ser chamadas de realistas essas são precisamente as descrições do sobrenatural. Se há um aspecto do Jesus do Novo Testamento em que se pode dizer que ele se apresenta como uma pessoa eminentemente prática, isso acontece na sua atuação como exorcista. Não há nada de manso e suave, não há nada nem mesmo místico no sentido comum do termo, envolvendo o tom de voz que diz: “Cala-te e sai desse homem”. Parece mais o tom de voz muito prático de um domador de leões ou de um médico resoluto lidando com um maníaco assassino. Mas essa é apenas uma questão secundária apresentada como ilustração. Não estou aqui levantando essas controvérsias, mas sim considerando o caso do homem imaginário vindo da lua para quem o Novo Testamento é novidade.

Ora, a primeira coisa a observar é que se nós a tomarmos simplesmente como uma história humana, ela é, sob alguns aspectos, uma história muito estranha. Não me refiro aqui a seu tremendo e trágico clímax ou a qualquer implicação envolvendo triunfo naquela tragédia. Não me refiro aqui ao que é comumente chamado de elemento miraculoso; pois nesse ponto as filosofias diferem, e as filosofias modernas nitidamente vacilam. De fato pode-se dizer que o inglês escolarizado dos dias de hoje passou de um costume antigo, em que ele não acreditava em nenhum milagre a menos que fosse antigo, e adotou um costume novo, em que ele não acredita em nenhum milagre a menos que seja moderno. Ele costumava acreditar que as curas milagrosas cessaram com os primeiros cristãos e agora está inclinado a suspeitar que elas começaram com os primeiros cientistas cristãos. Mas aqui prefiro referir-me especialmente às não miraculosas e até mesmo despercebidas e imperceptíveis partes da história. Há muitíssimas coisas que ninguém teria inventado, pois são coisas de que ninguém jamais se utilizou de alguma forma particular; coisas que, se foram observadas, continuaram sendo bastante enigmáticas. Por exemplo, existe aquele longo período de silêncio na vida de Cristo até os trinta anos de idade. De todos os silêncios esse é o mais imenso e o que mais impressiona a imaginação. Mas não é o tipo de coisa que alguém talvez possa ter inventado para provar algum ponto; e até agora ninguém que eu saiba jamais tentou provar algum ponto em particular a partir desse silêncio. É impressionante, mas apenas impressionante como fato; não há nada particularmente popular ou óbvio acerca desse fato visto como uma fábula. A tendência comum da adoração do herói e da criação de um mito tem muito mais probabilidade de dizer exatamente o contrário. É muito mais provável que diga (como creio que dizem alguns dos evangelhos rejeitados pela Igreja) que Jesus exibiu uma precocidade divina e começou sua missão num idade miraculosamente tenra. E há de fato algo estranho no pensamento de que aquele que dentre todos os seres humanos menos precisava de preparação parece ter sido aquele que mais se preparou. Não me proponho especular se se trata de alguma forma da humildade divina, ou de alguma verdade da qual vemos uma sombra na mais longa tutela doméstica das mais nobres criaturas da terra; apenas menciono isso como um exemplo do tipo de coisa que seja como for dá azo a especulações, muito diversas das especulações religiosas reconhecidas. Ora, toda a história de Cristo está cheia dessas coisas. Não se trata de modo algum, como temerariamente se afirma em textos escritos, de uma história fácil de sondar até o fundo. É tudo, menos aquilo que essa gente menciona como sendo um Evangelho simples. Relativamente falando, é o Evangelho que tem o misticismo, e é a Igreja que tem o racionalismo. A meu ver, naturalmente, é o Evangelho que é o enigma, e a Igreja é a resposta. No entanto, qualquer que seja a resposta, o Evangelho, tal qual como se apresenta, é quase um livro de enigmas.

Em primeiro lugar, o homem que lesse o que diz o Evangelho não encontraria banalidades. Se ele houvesse lido, até mesmo com a mais respeitosa atitude, a maioria dos filósofos antigos e moralistas modernos, ele apreciaria a importância singular de dizer que não encontrou banalidades. Isso é mais que se pode afirmar até mesmo sobre Platão. É muito mais que se pode dizer sobre Epícteto, ou Sêneca, ou Marco Aurélio, ou Apolônio de Tiana. Isso é infinitamente mais que se pode afirmar sobre a maioria dos moralistas agnósticos e os pregadores das sociedades éticas, com seus rituais trabalhistas e sua religião da fraternidade. A moralidade da maior parte dos moralistas antigos e modernos tem constituído uma sólida e refinada catarata de banalidades fluindo sem jamais cessar. Essa com certeza não seria a impressão do estrangeiro independente imaginário que estudasse o Novo Testamento. Ele não perceberia nada tão banal e em certo sentido nada tão contínuo como aquele rio de banalidades. Ele descobriria muitas alegações estranhas que poderiam soar como a alegação de alguém ser irmão do sol ou da luz; muitos conselhos alarmantes; muitas repreensões espantosas; muitas histórias estranhamente belas. Ele veria algumas figuras de linguagem verdadeiramente colossais sobre a impossibilidade de fazer um camelo passar pelo buraco de uma agulha, ou a possibilidade de atirar uma montanha ao mar. Ele veria muitas simplificações bastante ousadas sobre as dificuldades da vida, como o conselho de lançar luz sobre todos sem distinção alguma como faz o sol, ou o de não se preocupar com o futuro seguindo o exemplo dos pássaros. Ele encontraria, em contrapartida, algumas passagens de uma obscuridade quase impenetrável para seu entendimento, como a moral da parábola do administrador desonesto. Alguns desses pontos poderiam impressioná-lo como fábulas e alguns como verdades, mas nenhum deles como um truísmo. Por exemplo, ele não encontraria as banalidades comuns em favor da paz. Encontraria vários paradoxos em favor da paz. Encontraria vários ideais de não-resistência, que tomados como se apresentam seriam pacíficos demais até mesmo para qualquer pacifista. Numa passagem ele seria aconselhado a tratar um assaltante não com resistência passiva, mas com incentivos positivos e entusiásticos, se os termos forem tomados ao pé da letra, cobrindo com presentes o ladrão de mercadorias. Mas ele não encontraria nenhuma palavra sobre toda aquela retórica óbvia contra a guerra que encheu as páginas de inúmeros livros, odes e discursos; nenhuma palavra sobre a perversidade da guerra, o desperdício da guerra, a assustadora escala da mortandade da guerra e todo o resto da conhecida loucura; de fato, nenhuma palavra sequer sobre a guerra. Não há nada que lance alguma luz particular sobre a atitude de Cristo acerca da atividade bélica organizada, excetuando-se o fato de que ele aparentemente gostava bastante dos soldados romanos. De fato, falando a partir do mesmo ponto de vista externo e humano, eis outra perplexidade: ele parece ter-se relacionado muito melhor com romanos que com judeus. Mas a questão nesse caso é certo tom a ser apreciado simplesmente lendo determinado texto; e poderíamos apresentar 
inúmeros exemplos disso.

A afirmação de que os mansos herdarão a terra está muito longe de ser uma afirmação mansa. Quero dizer que ela não é mansa no sentido de moderada e inofensiva. Para justificá-la, seria preciso mergulhar muito fundo na história e antecipar coisas então nem sonhadas e que muitos até agora não perceberam; coisas como o método com que os monges místicos reivindicaram as terras que os reis com sua praticidade haviam perdido. Se isso chegou a ser uma verdade foi porque se tratava de uma profecia. Mas certamente não era uma verdade no sentido do truísmo. A bênção derramada sobre os mansos daria a impressão de ser uma afirmação muito violenta, no sentido de violentar a razão e a probabilidade. E com isso atingimos outro importante estágio da especulação. Como profecia, ela de fato se confirmou, mas isso só aconteceu muito tempo depois. Os mosteiros foram os mais práticos e prósperos experimentos e propriedades na reconstrução que se deu depois da enxurrada de invasões bárbaras: os mansos de fato herdaram a terra. Mas ninguém poderia saber de nada disso naquele tempo – a menos que realmente houvesse alguém que soubesse. Algo semelhante se pode dizer acerca do incidente de Marta e Maria, que foi interpretado em retrospectiva e a partir de dentro pelos místicos da vida contemplativa cristã. Mas de forma alguma se tratava de uma visão óbvia do caso, e se poderia dizer sem medo de errar que muitos moralistas, antigos e modernos, concluiriam precipitadamente pelo óbvio. Que torrentes de eloqüência fácil teriam fluído deles para reforçar qualquer ligeira superioridade da parte de Marta! Que esplêndidos sermões sobre a Alegria do Serviço, o Evangelho do Trabalho ou o Mundo-tornado-melhor-do-que-o-encontramos e geralmente sobre todas as dezenas de milhares de banalidades que se podem proferir em favor de se dar ao trabalho de agir – por parte de gente que não se dá a nenhum trabalho para proferi-las! Se em Maria, a mística filha do amor, Cristo estava protegendo a semente de alguma coisa mais sutil, quem provavelmente o entenderia naquele tempo? Nenhuma outra pessoa poderia ter visualizado Clara e Catarina e Teresa brilhando acima do pequeno telhado de Betânia. O mesmo acontece de outro modo com a magnífica ameaça sobre trazer ao mundo uma espada para dividir. Ninguém poderia então ter adivinhado como isso poderia acontecer ou como poderia ser justificado. De fato os livre-pensadores ainda são simplórios a ponto de cair na armadilha e chocar-se com uma frase tão deliberadamente desafiadora. Eles de fato se queixam do paradoxo por ele não ser uma banalidade.

Mas aqui o ponto principal é que se pudéssemos ler os relatos do Evangelho como coisas tão novas como os relatos dos jornais, eles nos intrigariam e talvez nos assustassem muito mais que as mesmas coisas vistas como um desenvolvimento do cristianismo histórico. Por exemplo, depois de uma clara alusão aos eunucos dos palácios orientais, Cristo disse que haveria os eunucos do reino do céu. Se isso não significa o entusiasmo voluntário da virgindade, então só poderia ser entendido como algo muito mais antinatural e esquisito. Coube à religião histórica humanizá-lo pela experiência de franciscanos ou de irmãs de caridade. A simples declaração tomada isoladamente poderia muito bem sugerir uma atmosfera bastante desumanizada: o silencia sinistro e desumano do divã e harém asiático. Esse é apenas um de dezenas de exemplos. Mas a lição é que o Cristo do Evangelho poderia de fato parecer mais estranho e terrível do que o Cristo da Igreja.


Estou detendo-me no lado sombrio ou intrigante ou desafiador ou misterioso das palavras do Evangelho, não porque elas obviamente não tenham um lado mais óbvio e popular, mas porque esta é a resposta a uma crítica comum sobre um ponto vital O livre-pensador muitas vezes diz que Jesus de Nazaré foi um homem de seu tempo, mesmo estando adiante de seu tempo, e diz que não podemos aceitar sua ética como final para a humanidade. Depois o livre-pensador prossegue e critica sua ética dizendo de modo bastante plausível que os homens não podem oferecer a outra face, ou que eles precisam preocupar-se com o dia de amanhã, ou que a renúncia de si mesmo é demasiado ascética ou a monogamia demasiado rigorosa. Mas os zelotes e os legionários não ofereceram a outra face mais que nós, se é que chegaram a tanto. Os comerciantes judeus e os coletores de impostos romanos pensavam no amanhã tanto quanto nós, se não mais. Não podemos fingir estar abandonando a moralidade do passado em benefício de outra mais adequada ao presente. Certamente não se trata da moralidade de outra época, mas poderia ser a moralidade de outro mundo.


Em resumo, podemos dizer que esses ideais são impossíveis em si mesmos. Exatamente o que não podemos dizer é que eles são impossíveis para nós. São marcados de modo bastante perceptível por um misticismo que, se fosse uma espécie de loucura, sempre teria afetado o mesmo tipo de gente como louca. Tome-se, por exemplo, o caso do casamento e da relação entre os sexos. Bem poderia ter sido verdade que um professor da Galiléia ensinasse coisas naturais num ambiente galileu, mas não é isso. Racionalmente se poderia esperar que um cidadão do tempo de Tibério tivesse proposto uma visão condicionada pelo tempo de Tibério, mas não foi isso. O que ele propôs foi algo muito diferente: algo muito difícil, mas não mais difícil agora que naquela época. Podemos, por exemplo, dizer com sensatez que, quando Maomé estabeleceu seu compromisso polígamo, o compromisso foi condicionado por uma sociedade polígama. Quando permitiu que um homem tivesse quatro mulheres ele estava de fato fazendo algo adequado às circunstâncias, algo que em outras circunstâncias poderia ser menos adequado. Ninguém vai imaginar que as quatro mulheres fossem como os quatro ventos, algo que aparentemente fizesse parte da ordem da natureza. Ninguém dirá que o número quatro foi escrito para sempre nas estrelas do céu. Mas tampouco alguém dirá que o número quatro é um ideal inconcebível; que está além do poder da mente humana contra até quatro; ou contar o número de esposas e ver se o total é quatro. Trata-se de um compromisso prático que carrega consigo a natureza de uma sociedade particular. Se Maomé tivesse nascido em Acton no século XIX, bem poderíamos duvidar e indagar se ele encheria aquele subúrbio de haréns com quatro mulheres para cada unidade. Tendo nascido na Arábia no século VI, ele sugeriu em suas disposições conjugais as condições da Arábia daquele século. Mas Cristo em sua visão do casamento não sugere absolutamente nada, a não ser a visão sacramental do casamento tal qual a desenvolveu muito tempo depois a Igreja Católica. Era uma visão tão difícil para o povo daquela época como é para o povo de hoje. Era muito mais intrigante para o povo da época do que é para o de hoje. Judeus, romanos e gregos não acreditavam, e tampouco entendiam o suficiente para deixar de acreditar na idéia mística de que o homem e a mulher se haviam tornado uma única substância sacramental. Podemos achar esse ideal incrível ou impossível, mas não podemos considerá-lo mais incrível ou impossível que o poderiam ter feito eles. Em outras palavras, qualquer que seja a verdade, não é verdade que a controvérsia tenha sido alterada pelo tempo. Qualquer que seja a verdade, decididamente não é verdade que as idéias de Jesus de Nazaré eram adequadas a seu tempo e já não o são ao nosso. A medida exata de sua adequação a seu tempo talvez esteja sugerida no final de sua história.

Poderíamos afirmar a mesma verdade dizendo que, se a história for considerada meramente humana e histórica, nota-se como é extraordinariamente pouco o que existe nas palavras registradas de Cristo que de algum modo o vincula a seu próprio tempo. Não me refiro aos detalhes de um período, que até mesmo alguém do período sabe serem passageiros. Refiro-me aos fundamentos que até mesmo o homem mais sábio muitas vezes pressupõe serem eternos. Por exemplo, Aristóteles foi talvez o homem de maior sabedoria e mente mais aberta que já existiu. Ele se baseava inteiramente em fundamentos, que geralmente foram vistos como racionais e sólidos ao longo de todas as mudanças sociais e históricas. Mesmo assim, ele viveu num mundo em que se considerava tão natural ter escravos como ter filhos. E, portanto, ele reconheceu uma séria diferença entre escravos e homens livres. Cristo, tanto quanto Aristóteles, viveu num mundo que aceitava a escravidão, e ele não a denunciou de forma específica. Iniciou um movimento que poderia existir num mundo sem escravos. Ele nunca usou uma frase que fizesse sua filosofia depender da existência da ordem social em que viveu. Falou como alguém que tem consciência de que tudo é efêmero, inclusive as coisas que Aristóteles considerava eternas. Àquela altura o Império Romano se tornara simplesmente o orbis terrarum, sinônimo de mundo. Mas Jesus nunca fez sua moralidade depender da existência do Império Romano ou mesmo da existência do mundo. “Passará o céu e a terra, porém minhas palavras não passarão.”

A verdade é que quando os críticos falaram das limitações locais do Galileu sempre se tratava das limitações locais dos críticos. Ele sem dúvida acreditava em certas coisas em que determinada seita moderna de materialistas não acredita. Mas não se tratava de coisas particularmente peculiares de seu tempo. Estaria mais de acordo com a verdade dizer que a negação delas é muito peculiar de nosso tempo. Sem dúvida estaria ainda mais de acordo com a verdade dizer simplesmente que certa solene importância social, presente na maioria dos que acreditam nelas, é peculiar de nosso tempo. Ele acreditava, por exemplo, em maus espíritos ou na cura psíquica de males corporais, mas não por ser um Galileu nascido sob Augusto. É absurdo dizer que alguém acreditava em certas coisas por ser um Galileu vivendo sob Augusto, quando ele poderia ter acreditado nas mesmas coisas se tivesse sido um egípcio sob Tutancâmon ou um indiano sob Gengis Khan. Mas dessa questão geral do satanismo ou dos milagres divinos eu trato em outra parte. Basta aqui dizer que os materialistas precisam provar a impossibilidade de milagres contra o testemunho de toda a humanidade, não contra os preconceitos de provincianos do norte da Palestina sob os primeiros imperadores romanos. O que eles precisam provar nesta discussão aqui é a presença nos Evangelhos daqueles preconceitos particulares daqueles provincianos particulares. E, humanamente falando, é assombroso ver como é pouco o que eles conseguem apresentar até mesmo para começar a prová-lo.

É isso o que acontece nesse caso do sacramento do matrimônio. Talvez não acreditemos em sacramentos, como talvez não acreditemos em espíritos, mas está muito claro que Cristo acreditava nesse sacramento a seu modo e não de acordo com alguma corrente ou maneira contemporânea. Ele com certeza não tomou sua argumentação contra o divórcio da lei mosaica, ou do direito romano, ou dos hábitos da nação palestina. Os críticos de seu tempo teriam exatamente a mesma impressão que têm seus críticos de hoje: de estar diante de um dogma arbitrário e transcendental oriundo do nada, a não ser do próprio Cristo. Não estou absolutamente preocupado em defender esse dogma; o ponto central aqui é que é exatamente tão fácil defendê-lo agora como era então. Trata-se de um ideal completamente fora do tempo, difícil em qualquer época, em nenhum período impossível. Em outras palavras, se alguém disser que se trata do que se pode esperar de um homem perambulando naquela região naquele período, nós com muita justiça responderemos que parece muitomais o que poderia ser o misterioso pronunciamento de um ser além do homem, se ele vivesse entre os homens.


Insisto, portanto, que alguém que lesse o Novo Testamento com a mente sincera e pura não teria a impressão daquilo que atualmente muitas vezes se entende quando se fala de um Cristo humano. O Cristo meramente humano é uma figura construída, uma obra de ficção artificial, exatamente como o homem meramente evolucionário. Além disso, tem havido um número excessivo de cristos humanos descobertos na mesma história, assim como tem havido um número excessivo de chaves da mitologia descobertas nas mesmas narrativas. Três ou quatro escolas racionalistas separadas trabalharam sobre o tema e produziram três ou quatro explicações racionais de sua biografia. A primeira explicação racional foi a de que ele nunca existiu. E isso por sua vez provocou o surgimento de três ou quatro explicações diferentes, como a de que ele era um mito do sol, ou um mito do trigo, ou qualquer outro tipo de mito, o que também constitui uma monomania. Depois a idéia de que era um ser divino que não existiu deu lugar à idéia de que ele era um ser humano que de fato existiu. Na minha juventude a moda era dizer que ele era apenas um mestre ético à maneira dos essênios, que aparentemente não tinha muito a dizer que já não houvesse sido dito por Hillel ou por uma centena de outros judeus: como, por exemplo, que é gentileza ser gentil e que ser puro contribui para a purificação. Depois alguém disse que ele foi um louco tomado por uma ilusão messiânica. Depois outros disseram que ele fora de fato um mestre original porque se preocupara apenas com o socialismo; ou então (como disseram outros) apenas com o pacifismo. Depois surgiu uma personagem científica mais sinistra dizendo que Jesus jamais teria sido ouvido por ninguém se não fossem suas profecias sobre o fim do mundo. Como o Dr. Cumming (ministro anglicano que previu que o mundo acabaria em 1865), ele era importante apenas como milenarista e criou um terror na sua região anunciando a data precisa do juízo final. Entre outras variantes do mesmo tema estava a teoria de que Jesus era apenas um operador de curas espirituais. Essa era a visão implícita da ciência cristã, que precisa pregar um cristianismo sem a crucificação para explicar a cura da sogra de Pedro ou da filha do centurião. Existe outra teoria que se concentra inteiramente nas atividades do demonismo e naquilo que o demonismo chamaria de superstição contemporânea sobre os demoníacos, como se Cristo, feito um jovem diácono que recebe as primeiras ordens, houvesse avançado até o exorcismo sem nunca ultrapassar esse estágio. Ora, cada uma dessas explicações em si me parece singularmente inadequada; mas, tomadas em conjunto, sugerem alguma coisa justamente sobre o mistério que elas não captam. Com certeza deve ter havido algo não apenas misterioso mas também multifacetado envolvendo Cristo, considerando-se que dele se podem extrair tantos cristos menores. Se os cientistas cristãos se satisfazem vendo-o como um reformador social, e se satisfazem a ponto de não esperar que ele seja nenhuma outra coisa, a impressão que se tem é a de que ele de fato foi uma figura de alcance muito mais amplo que se poderia esperar que eles esperassem. E isso parece sugerir que há muito mais coisas que eles imaginam nesses atributos misteriosos de expulsar demônios ou profetizar o juízo final.

Acima de tudo, será que o nosso leitor inocente do Novo Testamento não tropeçaria em algo muito mais surpreendente para ele que para nós? Repetidas vezes tentei aqui a tarefa bastante impossível de inverter o tempo e o método histórico e de olhar com a fantasia para os fatos lá adiante em vez de olhar para trás com a memória. Assim, imaginei o monstro que o homem no início deve ter parecido à simples natureza a seu redor. Teríamos um choque ainda maior se realmente imaginássemos a primeira menção que foi feita à natureza de Cristo. O que sentiríamos ante o primeiro sussurro de certa sugestão sobre certo homem? Com certeza não nos cabe censurar ninguém que julgasse esse primeiro sussurro desvairado como algo simplesmente ímpio ou insano. Pelo contrário, tropeçar nessa pedra de escândalo é o primeiro passo. A incredulidade nua e crua é um atributo muito mais leal a essa verdade que uma metafísica modernista que a explicasse simplesmente como uma questão de grau. Melhor seria rasgar nossas vestes emitindo um alto brado contra a blasfêmia, como fez Caifás no julgamento, ou tomar o homem por um maníaco possuído por demônios, como fizeram os parentes e a multidão, em vez de insistir em discussões estúpidas sobre pequenos detalhes de panteísmo na presença de uma reivindicação tão catastrófica. Há mais sabedoria que se identifica com a surpresa de qualquer pessoa simples, repleta da sensibilidade da simplicidade, capaz de esperar que a relva secasse e os pássaros caíssem mortos da altura de seus vôos, quando um aprendiz de carpinteiro em sua lenta caminhada dissesse calmamente, quase por acaso, como quem está atento a alguma outra coisa: “Antes que Abraão existisse, eu sou”.

Extraído:  G. K. Chesterton, O Homem Eterno, Ed. Mundo Cristão, 2010, p. 197-210.

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