quarta-feira, 29 de dezembro de 2010

O verdadeiro sentido da vida

Por Anacleto González Flores

Discurso pronunciado no dia 26 de agosto de 1916, na primeira sessão celebrada  pela A.C.J.M. (Asociación Católica de la Juventud Mexicana), na cidade de Guadalajara.



Senhores:

Entre a “multidão” de ideias que se movem nos cérebros e que todos os dias escapam e se precipitam por todos os rumos, como aves de luz em busca de um céu que ilumina e de um espaço azul para bater suas assas, tem umas que apenas levantam poeira da terra, que apenas tocam a superfície dos corpos e que passam longe, muito longe das almas e vão a perder-se, desaparecer nos confins em que caem condenadas, impotente; outras, como a luz que vem do céu aquecer as plantas, a rejuvenescer os troncos envelhecidos como água que cai do firmamento e umedece e faz brotar os germens. Vão ao mais alto e baixo do espírito humano, tocam as distâncias, se estendem a todos os confins e sob o influxo incontrastável dos atos, se tornam orientação suprema das inteligências, dos corações, das vontades, em fim, dos homens e das coisas.

E aquelas ideias, ou seja, as que desaparecem e somem, tem um caráter de todo acidental e acessório e não importa para a humanidade senão de muito longe, e caso se faça uma discussão sobre elas deve ser breve para abandoná-las e fixar profundamente a visão do espírito nos princípios de poder decisivos e de força transcendental. Ah! E em torno delas devem-se travar as mais ardentes batalhas, deve livrar-se o possível das discussões e deve-se engajar na mais formidável e acalorada das discussões, porque batalhar, lutar e discutir ao redor dos grandes pensamentos, é o mesmo que batalhar, lutar e discutir em torno dos grandes destinos do gênero humano. 

Ai, pois, onde se inicie uma afirmação, onde surja um sistema e onde se levanta uma doutrina dessas que pretendem arrancar a verdade ou erro da supremacia sobre as mentes e os corações, devem estar juntos todos os soldados do pensamento, todos os lutadores da idéia; devem levantar todas as bandeiras, devem relampear no campo de batalhas todas as espadas, devem brilhar todas as baionetas, devem iluminar todas as trincheiras e deve combater feroz e ardentemente ao redor de todas as posições. Aí do que queira guarda a espada! O estigma dos covardes cairá sobre sua face como uma maldição. Aí dos espíritos desgastados pelo sofisma, pela inércia e pela podridão do coração!

A mão de Deus que tem acumulado a luz do pensamento no cérebro da classe governante saberá descarregar golpes formidáveis sobre todas as eminências e saberá fundir todos os cumes de montes; e a humanidade que cansada e transpirando espera pelos raios do sol que irão romper a sombra que escurece o horizonte, se precipitará por caminhos desconhecidos e extraviados; mas no dia do cataclisma, encontrará os pensadores gastados pelo sofisma e pela podridão do coração e os derrotará, com a ignorância e a força fundidas, em só poder de dissolução: a barbárie.

Frente a frente com os pensamentos de caráter transcendental todos os homens devem parar, ficar de pé e perplexos; o gênio deve interrogar todos os confins até que sua palavra, como luminar esplendoroso acendido dobre a planície, ilumine todos os caminhos que vão parar diretamente o por vir e o resto dos mortais sem temor e sem indecisão deverá precipitar pelas rotas traçadas desde os riscos da imanência.

E bem: houve uma época de pavor e obscura como a noite que põem nos céus a obstinação das grandes tempestades: essa época é conhecida na história com o nome de paganismo (1).  Durante ela, a humanidade gemeu desolada baixo o peso enorme do erro transcendental. Conceitos extraviados, sistemas errôneos e opiniões falsas acerca do que está acima ou abaixo, do céu ou da terra, de Deus e da matéria; a sobram haviam baixado sobre todos os abismos, havia subido a todos os cumes, havia enegrecido todos os horizontes e havia envolvido a gerações nos densos nevoeiros dos erros transcendentais.

Houve outra época luminosa e brilhante como as irradiações que o dia põem nos céus nas manhãs úmidas, claras e tranqüilas da estação de verão. Durante elas tiveram idéias precisas e exatas acerca de Deus e do homem, do espírito e da matéria; do que está longe ou próximo; se viu com claridade esplendorosa o ponto remoto de nossa partida, o confim longínquo em que encontraremos repouso e o lugar em que se livram os combates da vida. O Verbo luminoso de Deus partiu do Calvário, baixo a todos os abismos, prendeu seus fulgores em todos os cumes, acendeu todos os horizontes, tocou todas as longínquas e envolveu as gerações no oceano  de luz da verdade. Mas o erro não supôs nem quis declarar-se vencido e continuou, segundo a expressão do Conde de Maistre (2), preparando a grande conspiração contra a verdade. A rebelião estalou há um tempo e em todos os pontos, removeu todos os sistemas, sacudiu todas as doutrinas e removeu todas as idéias.  Os que ontem em apertadas multidões e com passo firme e seguro marchavam com a face voltada para o oriente, tiveram que deter-se um instante, entraram na confusão do pensamento que é mais obscura e mais negra que a confusão da palavra, não puderam se entender e se dispersaram para buscar a verdade, uns lá onde o sol se põem todos os dias; e outros, lá nos confins onde a luz não acende nem apaga jamais.

Tem vindo à desagregação dos espíritos; tem multiplicado e individualizado os sistemas; foi quebrado o feixe apertado e forte da inteligência e do coração formado pela verdade; tem sobrevivido a dissolução das idéias e se tem apoderado da humanidade inteira a anarquia dos entendimentos que é a causa geradora de todas as anarquias. A vida dos povos se derrama pelos caminhos extraviados e a época presente se encontra baixo o peso enorme do erro trancendetal.

Assinalar aqui todos os erros de caráter transcendental que padecemos nesses dias, seria cansar bastante vossa atenção e ir demasiado longe, por isto só analisarei por agora o verdadeiro sentido da vida.

Que o conceito da vida é força transcendental, o diz bem claro o fato de que dela depende a orientação individual e coletiva dos homens; e que as gerações de agora sofrem um grande erro sobre este ponto, nos demonstra o espetáculo doloroso que oferecem as sociedades modernas com o emprego que fazem de suas energias.

A questão pode ser colocada da seguinte forma: Qual é o verdadeiro sentido da vida? Ou, em outros termos: que emprego devemos fazer desta torrente de energias que circula por nossas artérias e que todos temos chamado vida? Teodoro Jouffroy (3),  esse grande filósofo que gemia desoladamente ao sentir em seu cérebro o vazio que abre a negação religiosa, escreveu estas ou semelhantes palavras:

“Há um livro pequeno que é posto nas mãos do homem nos primeiros anos de sua existência e nele se coloca a resposta e solução satisfatória aos grandes problemas que inquietam os pensadores e aperta fortemente o coração: se quer saber de onde vem, onde está e para onde vai? Pois não há mais que abrir o catecismo e se saberá o ponto fixo para a solução dessas questões.”

Bom, agora para resolver o problema do sentido da vida, poderia fazê-lo repetindo uma vez mais o que tantas vezes se tem dito: o homem foi posto no mundo para que ame a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Mas ainda que a verdade só se alcance por um ponto, no entanto, a ela se pode chegar por diversos caminhos, e nós agora vamos fazer um esforço para resolver este problema apelando a um procedimento, se não desconhecido de todo, quando menos não muito seguido.

Mas de uma vez tem passado por vossos olhos essa visão esplendorosa traçada com a mão mestra pelo pincel do autor Quo vadis? E vocês sabem da velha Roma envolvida em torrentes de sua voluptuosidade, de sua glória, de seu poder e de sua força, e perceberam também duas grandes figuras: uma que é o símbolo de um povo em dissolução e outra que é o símbolo do ressurgimento da humanidade caída: São Petrônio (4) e Paulo de Tarso. (5) o discípulo de Cristo e de Epícuro (6) se encontraram frente a frente e começou a discussão: “Grécia, - disse Petrônio -, nos contornos geniais de seus mármores, nos traços magníficos das pinceladas de seus pintores e no ritmo sonoro de suas estrofes imortais, tem lhe dado a beleza a humanidade; Roma no ímpeto avassalador de suas legiões, no esplendor de suas conquistas e na espada de seus capitães a deu poder e glória. E vocês cristãos, que vos atrai o gênero humano?” Paulo de Tarso se ergueu tão alto como era, fixou profundamente no pagão aqueles olhos que haviam visto sem reclamar a todos os tiranos, e logo, como torrente que se despenca, fez ouvir sua voz grave, solene e incontrastável e disse: “Nós trouxemos o amor”.

Veja bem, o problema proposto sobre o verdadeiro sentido da vida se resolve com a resposta de Paulo de Tarso; e nós podemos afirmar que esse sentido da vida se encontra no amor. E não é questão de meras palavras, nem misticismo, nem muito menos dogmatismo filosófico, não: é uma verdade que lança análise sobre as inteligências e que caem sobre os espíritos para não levantar-se jamais.

Nós surpreendemos a vida com diversos graus de poder e de força nos distintos seres que formam o universo. Ao longo da planície imensa e nos declives do pico, a encontramos nos momentos precisos em que os germens brotam a luz do dia e quando as ramas rejuvenescem e cobre os troncos desfolhados com o verde da primavera. Ah! Mas em torno dela e em seu centro não há queixas que se elevem, nem alegrias que se despertem, nem amarguras que se levantem, nem dores que se recordem, e por isso lá vão se perder e morrer os ecos dispersos pelos cantos de guerra o das harmonias que se escuta próximos dos mortos. Surpreendemos-nos a vida com diversos graus de poder e de força no animal: e entre o verde das folhas e os troncos da selva há pupilas que ascendem, olhos que se iluminam e se dilatam, quando o estrondo dos céus e as canções dos ninhos despertam mil sensações.

Finalmente, no homem encontramos a vida em um grau superior; não é o ímpeto que rejuvenesce as selvas e que rompe a resistência da terra e saca a luz os germens fecundados; não é o sentido que ao colocar-se em contato com a matéria se estremece e depois sacode e empurra poderosamente o sangue de nossas artérias, não: é o pensamento que relampeja em nosso cérebro, como o raio nas noites tormentosas; é a idéia que através das sombras em que nos envolve o mundo dos corpos, fagulha e traz seus rastros resplandecente que não  se apagam; é, em fim, esse poder que leva ao mais profundo de nossos ossos e põem no mais profundo de nosso ser; um estremecimento sentido por todos e conhecido por todos e que dilata o coração, que enlouquece a cabeça e que faz saltar a alma de júbilo: o amor. A análise, pois, de nossa natureza nos ensina que todos os poderes acumulados no homem, devem ter um só fim e devem reconcentrar-se em só ponto; o amor. O poder vegetativo seria inútil se não estivesse ordenado ao poder sensitivo; este por sua vez o seria, se não o estivesse ao intelecto e este se não se ordena pela vontade.

O amor constitui pois verdadeiro sentido da vida; mas esse amor deve ter por desejo o infinito e o homem. O infinito, porque o homem que é capaz de conceber o imenso e também o deseja, e, como a felicidade, tem que resolver-se na posse do que não se esgota nem perece jamais, do que é a plenitude do poder, da força e do ser, pois de outra sorte surgiria de novo o desejo e não terminaria a inquietude do espírito humano; o amor deve terminar ou ter por ponto objetivo o infinito, isto é, Deus. Com muita verdade dizia Santo Agostinho: Inquietum est cor nostrum donec requiescat in Te: inquieto está nosso coração até que não descanse em Ti.

Dirá vocês que o amor do homem deve terminar no infinito, em Deus. Isso está correto, mas o que é amor ao homem?; Que é o homem? Não é por acaso uma barreira que se rompe? Não é uma sombra que desaparece? Não é um fantasma que passa, um pouco de poeira que se dispersa como o sopro mais leve? Não é isso tudo o homem? Oh, sim! O homem é tudo isso, no entanto há entre o homem o grande poder da semelhança, o grande poder da fraternidade e, sobretudo, o grande poder de sua missão social.

Estava errado Aristóteles (8), apesar de todo seu gênio, quando não percebeu ou na quis perceber, a igualdade entre os homens; mas Cristo, que não em vão disse que Ele mesmo é a verdade e a vida, lançou sua palavra sobre nós e hoje todos nos vemos iguais. Existe o poder da fraternidade: por nossas veias corre e se precipita sangue vermelho, branco ou azul, que cor é não sei, mas o certo, o exato e o indispensável, é que um mesmo é sua origem, um mesmo seu ponto de partida, e por isso cada um de nós não é mais que uma prolongação do primeiro princípio humano.

Existe, por último, o poder da missão social: essa corrente de energias acumuladas no pensamento e no coração humano, não pode subir as alturas incomensuráveis, se não como rogar, como uma petição, com um queixa; mas não pode cobrar o que está acima, o infinito; e se deve baixar as profundidades para levantar os caídos, iluminar os que vivem nas sobras, e por último preencher os inumeráveis vazios e deficiências criados pelas limitações de nossa natureza. E os poderes antes mencionados devem impulsionar fortemente o amor, e de um modo especial a missão social deve estar encorajada, sustentada com vigor por Ele. A razão, pois, não nos ensina que o amor ao infinito e ao homem constitui o verdadeiro sentido da vida.

Se quiser, descemos do mundo das abstrações e das regiões altíssimas da metafísica para nos colocar em contato com os fatos. Agora me pergunto qual tem sido a luz da história, o critério que tem a humanidade para saber que emprego se deve dar a vida?  Pois a história nos ensina que o gênero humano se dividiu em três grandes grupos: o dos que tem colocado todos seus desejos e energias ao serviço do mal e do terror; o dos que tem amado até o sacrifício a verdade e o bem e os mornos e indiferentes que assistem o grande combate de braços cruzados. A humanidade e a história têm lançado sobre os primeiros seus anátemas e maldições; sobre os que não são capazes de fazer amar ou odiar porque não sabem conquistar o sorriso dos céus nem os ataques do abismo o silêncio, o esquecimento que cai sobre os sepulcros e que é a morte última e definitiva sobre a terra. Oh! Mas a história e a humanidade têm querido reservar os aplausos, os louvores e a apoteose para os que amam com delírio, com loucura e até sacrifício, o grande, o nobre, o santo, o infinito e o que merece nossa compaixão, nosso apoio e nossa ajuda, em uma palavra: Deus e o homem.

Saber viver é, pois, saber amar; mas não a nós mesmo com exclusão do infinito e do próximo, se não, sobretudo, o infinito e logo o homem que é e deve ser o objeto, o foco de nossa missão social.

Senhores, conta à história que certa vez um dos maiores conquistadores de Roma foi surpreendido chorando aos pés da estátua de Alexandre o Grande. Quando o perguntaram qual era o motivo de suas lágrimas, ele respondeu: choro porque não sei viver, prova disso é que em minha idade Alexandre havia silenciado o mundo com suas conquistas, enquanto eu ainda não cingi minha face com os louros da vitória.  As gerações de agora deveriam chorar desoladamente porque não sabem viver, porque não sabem amar e não sabem amar porque recusaram e tem concentrado todos os seus desejos, seus afetos e suas esperanças em amar a si mesmas. E por isso ao longo da imensa estrada, mole e gentilmente encostado no canto do caminho está a figura grotesca de Sancho (9) e apenas se vê de quando em quando na nuvem empoeirada dos caminhos da glória a dom Quixote, ou seja, ao espírito fortemente apaixonado do grande, do nobre, do santo, da verdade, da justiça e do direito. E se pode dizer de um modo geral que as gerações de agora sabem amar; de um modo especial temos que dizer dos jovens dos nossos dias; eles fazem a jornada da vida envolta nas sombras desse abismo onde tudo envelhece e degrada, e vivem esquecidos e sem nome porque se tem os  braços lançados no redemoinho das paixões e dos prazeres materiais. Ah! Não sabem amar.

Mas posso ter me equivocado ao ter generalizado os jovens. Há alguns jovens e entre eles está você, que sabem viver e que tem feito e fazem todo o possível para saber amar.  Pois bem, vocês e eu, estamos profundamente convencidos de que o verdadeiro sentido da vida se encontra no amor. Eu afirmo que isso é uma grande verdade, consagremos hoje em diante todas as nossas energias, nossos desejos e nossas esperanças em nossa vontade para viver conforme o verdadeiro sentido da vida. E agora que a luta entre o bem e o mal, entre a verdade e o erro, tem se intensificado e tomado uma amplitude transcendental, faremos um esforço para assistir todos os combates, para lutar em todas as batalhas e estarmos juntos em todos os encontros.

Viva Deus! Não haverá trincheiras que nos segure, muralha que não sofra nossos ataques, posição que resista ao nosso entusiasmo, nem bandeira que resista a nossas espadas. Nos altos de todos os cumes das montanhas estarão os triunfantes estandartes de Cristo, estandartes da civilização.


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1. Pagánus, em língua latina, significa aldeão ou campesino. Quando o Império romano se converteu ao cristianismo, os agricultores resistiram a ele ao grado que o término passou a usar-se para designar os não cristãos de antes e depois.

2. MAIST RE, José de, escritor e filósofo francês (1753-1821)

3. JOUFFROY, Teodoro. Filósofo espiritualista francês (1796-1799). Foram célebres seus cursos em Sorbone sobre o direito natural, seu Curso de estética e seus ensaios, recolhidos  na obra Mélanges Philosphiques.

4. PETRONIO, Cayo, escritor latino (s.I.d.C). Célebre por seu refinamento e clareza, é autor de El satiricón, frescor social da Roma neroniana.

5. SAN PABLO. Chamado Saulo de Tarso e apóstolo dos gentios, martirizado em Roma no ano 67. Depois de sua conversão a caminho para Damasco, organizou a disciplina eclesiástica e de doutrina cristã.

6. EPICURO, filósofo grego (341-270 a.C.) ensinava que o prazer é o fim supremo do homem. O prazer não consiste, disse ele, nos gozos materiais dos sentidos, se não no cultivo do espírito na prática da virtude.

7 SANTO AGOSTINHO. Gênio do pensamento universal, Pai da Igreja e bispo de Hipona (356-430), trás uma juventude complicada, se converteu ao catolicismo escutando santo Ambrósio de Milão.

8. ARISTÓTELES. Célebre filósofo grego, nasceu em Estagira, Macedônia (381-322 a.C.), foi uma das inteligências mais vasta que já existiu.

9. SANCHO PANZA, escudero de Dom Quixote, tipo de criado fiel mas falador, simples e ignorante e cheio de sentido comum.  

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