terça-feira, 23 de novembro de 2010

O plebiscito dos mártires


(Autoria de Anacleto González Flores.
Publicado no El Plebiscito de Los Mártires)


A história se repete. Na democracia, para votar contra os césares, necessita vestir-se, não o manto branco e severo do cidadão de Roma ou de Atenas, e sim as vestes tingidas de sangue que os mártires usam sobre suas costas. O dia em que Sócrates (1) se atreveu a opinar contra o Estado de Atenas necessitou, para dar seu voto, levantar a frente austera e serena de mártir, por cima da borda do copo de cicuta e dizer sua palavra de filósofo. Poncio Pilatos (2) questionou o Maestro para que desse seu voto à sua própria divindade, e Cristo, jovem de 33 anos que não havia freqüentado nenhuma escola nem havia assistido foro nem o ágora e que havia calejado suas mãos com a serra da serralheria, primeiro levantou sua face imperturbável de dono da eternidade e depois a estendeu, desolado, chagado, sobre o madeiro de desonra, para escrever seu voto ante os césares. No dia seguinte, por cima da juba dos leões e sobre o aço cintilante das espadas dos legionários, os discípulos do Maestro davam seu voto contra o paganismo e contra todas as deidades.

Platão (3) jamais se atreveu a votar contra os mencionados acima. E assegurava, porque acreditava na unidade de Deus, mas quando falava para o público se referia sempre aos deuses; em contrapartida, quando dizia seu pensamento de filósofo na intimidade, afastada das visões receosas dos fortes, falava de Deus. Não supôs nem quis votar contra os césares. Porque para votar contra eles não basta levar a estrela radiante no mais alto do espírito acessa nem ter a inspiração de gênio. Não basta conseguir fundar uma escola filosófica nem inventar um sistema. Não basta poder trazer sinos imortais em que cante a harmonia recôndita das coisas e do cosmo; é necessário saber e querer escrever com sangue e deixar que sobre a própria carne ferida, sangrando, fique o próprio pensamento fixado para sempre como as garras dos leões ou com a ponta da espada dos carrascos. E porque se escreve com sangue, segundo a frase de Nietzsche (4), para que fique escrito para sempre, o voto dos mártires não perde a validade jamais.

Até onde foi dirigido e em que sentido o voto de Alcibíades (5) ou o de Marco Túlio (6)? Não sabemos. Milhares de votos caíram nas mãos dos homens na corrente tumultuosa da democracia moderna, aberta a todos os ventos e a todas as tempestades. Apesar de isto, sua pegada se perdeu. O voto dos mártires está ás margens das páginas da história e ali tem ficado sempre. Tem ido mais longe. Através do silêncio de cada folha de pergaminho adicionada para formar a história, tem tocado a carne viva das gerações e todos os dias realiza o milagre de ressuscitar em todos os espíritos, com seu manto de sangue e com gesto destemido de um gladiador que nunca se rende. O mártir é e será sempre o primeiro cidadão de uma democracia estranha e inesperada, que me meio do naufrágio da violência, entrega sua vida para que jamais extinguir nem seu voto e nem sua lembrança.

Quando viram ferido de morte o Rei Henrique III da França (7) todos voltaram seus olhos em busca do assassino, encontrando, assim, um homem que passava tranquilamente com a cabeça descoberta; próximo dele havia um chapéu que estava escrito as palavras “fui eu”. A mão que instantes havia matado o rei estava ali: a vista de todos, clara, inconfundível. Igualmente sucede com o voto do mártir. Ao acabar de manchar com sangue a mão dos carrascos deixa um sinal inconfundível de seu pensamento. E por cima de todos os esquecimentos fica registrada sua afirmação suprema: “fui eu”. Na democracia e nos comícios onde se vota todos os dias com papéis numerosos, haverá a deturpação. A fraude, suborno e a mentira poderão se unir para enganar e conseguir resultados falsos e para encobrir nulidades. E a democracia virá a ser o que é, o que tem sido entre nós: um infame escamoteamento de números e de violência onde se cospe e desonra o povo. Isso não acontece dentro da democracia dos mártires. Porque se na outra se votava com pedras, como em Atenas, ou com túmulos como queria Chesterton (8) para não excluir os mortos, nesta se vota com vidas e sangue. O suborno, a mentira, a fraude, herança sangrenta dos dias obscuros e trágicos do terror 93, são impossíveis. Nossa democracia, a democracia que tanto ruído tem feito para glorificar o povo, até agora não tem sido mais que uma larga e sangrenta via-crúcis: o povo, chamado de soberano, tem levado a pior. Primeiro lhes proclamaram como Rei; em seguida lhes coroaram com coroa de espinhos; logo lhes entregaram um cetro de madeira, e os vestiram com farrapos de púrpura suja e envelhecida, depois lhes cobriram com cuspes e, não contentes ainda, os comediantes os expuseram a ridicularização pública.

Muitas vezes organizam comícios, mas com a necessária antecipação de que as cabeças e mãos são dos farsantes. E se assustam com o número dos que votaria contra eles. Em lugar de prepara uma votação séria e limpa, tem aberto uma mesa onde se reúnem jogadores profissionais. Nem sequer o azar pode tomar parte. Não tem havido mais cartas vitorias dos que as dos empresários de casas de jogos ilegais. E por mais que junte a multidão compacta e enorme da população, todos os resultados são invariável, mecânicos, assustadoramente adversos. E hoje estão abatidos e desiludidos. Estão cansados de farsas, fraudes e mentiras. Nestas circunstâncias tem surpreendido os últimos delírios de perseguição em que passam rodeados de espadas e baionetas por todos os lados de nosso país. A revolução possuída da loucura e da perseguição, tem abandonado, por causa de seus procedimento arrasadores, o velho sistema de votar com papel convencionalmente preparados pela fraude e se tem deixado, nos braços da democracia dos mártires. Hoje não se trata somente como antes, de votar em um homem ou contra um homem mais ou menos prestigiado, Hoje tampouco se trata de um convite aos comícios para designar novos mandatários. Hoje se trata de asfixiar o catolicismo cara a cara.

A revolução começou e terminou depois de enormes esforços para silencia as bocas, para comprimir todos os pescoços, para chegar até o estrangulamento. E ao sentir que Cristo está ausente nos ambientes, que faz falta na atmosfera de nossa vida, ao fazer o supremo esforços para arrancá-lo do mais profundo, do coração de nossa vida, Ele, que segue sendo o oxigênio imprescindível para nossa vida espiritual, aparece em todas as partes, todos os corpos e em todas as almas – ainda que sejam indiferentes -, os sinais inequívoco dessa asfixia. E esse povo enganado pelas farsas eleitorais, hoje em um inesperado impulso de reação, toda inteira se incorpora sobre as cinzas de sua desilusão com a democracia dos números e se lança cega de confiança aos braços da democracia dos mártires. Hoje não votamos com folhas de papel marcadas com selo de uma repartição municipal, hoje votaremos com vidas.

Devemos nos alegrar de que a revolução se empenhe em chegar até o estrangulamento da vida das consciências. Se assim continuar, a corrente de uma democracia em que os jogos fraudulentos eleitoral ficaram excluídos inevitavelmente. Hoje votaremos com vidas e com a vida. Com vidas, porque ainda que não haja milhões de mártires, poucos ou muitos, haverá. Antes de tudo votaremos com a vida, porque as rejeições vigorosas, arrasadoras dos estrangulamentos das consciências levarão a corrente inteira, total, da vida a uma quebra ruidosa e uma paralisia extrema, brusca e inesperada.

Se alguém colocar-se em dúvida o fato inegável de que o ar é condição capital para a vida e se atrever-se a escrever em uma lei a supressão do ar, chegando até o extremo de mandar que governadores e presidentes municipais o suprimissem; veríamos um esmagador plebiscito em que todos os pulsos fechados e as faces erguidas pediriam por oxigênio tão ansiosamente como pedia luz Goethe (9) moribundo. Os artigos anti-religiosos da atual Constituição são um ataque a vitalidade das consciências e a vitalidade do país, porque o catolicismo é alimento vital, para a maioria esmagadora dos mexicanos. E isto, até agora somente escrito em números inertes das estatísticas e nas geografias; isto é negado com espada na mão, pertinaz e infimamente pelo revolucionário em leis, em assembléias e nos comícios, que conseguirão o fechamento dos templos, com a redução de sacerdotes e a suspensão do culto, todas as inegáveis proporções de uma realidade vital, indiscutível, irrecusável de rejeição, será a mais solene e indubitável condenação dos artigos anti-religiosos da Constituição.

Ficou aberto o plebiscito desde que os perseguidores baixaram, com espadas na mão, o desejo de degolar as consciências. Ontém o país inteiro era uma imensa urna eleitoral deserta e abandonada pelo povo e onde repetidas vezes saíram responsáveis para enterra o catolicismo. Hoje todo o país se estremece ante esse gigantesco e inesperado plebiscito em que Cristo será proclamado, como o vento que respiramos, como o sol que nos ilumina, como a água que nos refresca, raio de luz insubstituível, da totalidade de nossa vida e da vida nacional. Não haverá nem tem outro remédio. A democracia teve e tem que lançar sobre os homens a capa ensangüentada dos mártires.

Somente assim, tingida de sangue, será um dia, o dia do martírio, o dia do estrangulamento, a heroína batizada por Cristo, que Ventura de Ráulica (10) saudava em um apóstrofe radiante.


1SÓCRATES (470-399 a.C.). Grego, dedica sua filosofia no estudo do homem e do mundo físico. Chega ao conceito de bem por análises do útil.

2 PILATOS, Poncio. Procurador romano da Judéia do ano 26 a 36. Pronunciou a sentença de morte contra Jesus.

3 PLATÓN (427-348 a.C.). Filósofo grego, discípulo de Sócrates, fundou a Academia. Escreveu os Diálogos. Usa a dialética como método de pensamento.

4 NIETZSCHE, Frederico (1844-1900). Filósofo alemão desenvolveu o tema do espírito livre que liberta da servidão moral e religiosa através do pensamento científico.

5ALCIBÍADES (450-404 a.C.). General ateniese, discípulo de Sócrates. Obteve brilhantes vitórias entre os lacedônios. Exilado na Pérsia, morreu assassinado.

6 CICERÓN, Marco Túlio (1551-1589). Político, ideólogo e orador romano, levou a eloqüência latina ao seu cume.

7 HENRIQUE III da França (1551-1589). Sendo Tenente General do reino, dirigiu as jornadas de Jarnac e Monteontour. Foi um monarca com vícios e morreu assassinado

8 CHESTERTON, Gilbert Keith (1874-1936). Escritor e polemista inglês, converso ao catolicismo, seu estilo vigoroso e de excepcional agudeza, inclinado ao paradoxo.

9 GOETHE, Wolfang (1749-1832). O mais grande poeta alemão, descendente da nobreza, encabeça um movimento romântico literário em sua pátria.

10 VENTURA di Ráulica, Gioacchino (1792-1861). Religioso e filósofo italiano, traduziu e propagou por sua pátria as obras de Maistre, Lamennais e Bonald. Foi um orador exímio e introduziu na França a neoescolástica.

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traduzido do livro:
FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. p. 203-207.

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