domingo, 7 de novembro de 2010

Diferenças entre o suicídio e o Martírio - Por Chesterton em Ortodoxia

“O suicídio não só constitui um pecado, ele é o pecado. E o mal extremo e absoluto; a recusa de interessar-se pela existência; a recusa de fazer um juramento de lealdade à vida. O homem que mata um homem, mata um homem. O homem que se mata, mata todos os homens; no que lhe diz respeito, ele elimina o mundo. Seu ato é pior (considerado simbolicamente) do que qualquer estupro ou atentado a bomba, pois destrói todos os prédios; insulta a todas as mulheres. O ladrão se satisfaz com diamantes; mas o suicida não: esse é seu crime. Ele não pode ser subornado, nem com as cintilantes pedras da Cidade Celestial. O ladrão elogia os objetos que furta, quando não elogia o dono deles. Mas o suicida insulta a todos os objetos da terra ao não furtá-los. Ele conspurca cada flor ao recusar-se a viver por ela.

Não existe nenhuma criatura no cosmos, por mínima que seja, para quem a sua morte não é um escárnio. Quando alguém se enforca numa árvore, as folhas poderiam cair de raiva e os pássaros fugir em fúria, pois cada um deles recebeu uma afronta direta. Obviamente pode haver patéticas desculpas emocionais para o ato. Geralmente as há para o estupro, e quase sempre para o atentado a bomba. Mas quando se trata de esclarecer idéias e o significado inteligente das coisas, então, na sepultura na encruzilhada* e na estaca cravada no corpo, há muito mais verdade racional e filosófica do que nas máquinas de suicídio do sr. Archer. Há um significado no enterro à parte de um suicida. O crime desse homem é diferente de outros crimes — pois torna até os crimes impossíveis.

Mais ou menos na mesma época li uma solene bobagem de algum livre-pensador. Dizia ele que um suicida era simplesmente o mesmo que um mártir. A patente falácia desse texto ajudou-me a esclarecer a questão. Obviamente um suicida é o oposto de um mártir. Um mártir é um homem que se preocupa tanto com alguma coisa fora dele que se esquece de sua vida pessoal. Um suicida é um homem que se preocupa tão pouco com tudo o que está fora dele que ele quer ver o fim de tudo. Um quer que alguma coisa comece; o outro, que tudo acabe.

Em outras palavras, o mártir é nobre, exatamente porque (embora renuncie ao mundo ou execre toda a humanidade) ele confessa esse supremo laço com a vida; coloca o coração fora de si mesmo: morre para que alguma coisa viva. O suicida é ignóbil porque mão tem esse vínculo com a existência: ele é meramente um destruidor. Espiritualmente, ele destrói o universo. E depois me lembrei da estaca e da encruzilhada, e o estranho fato de que o cristianismo mostrara esse rigor incomum para com o suicida. Pois o cristianismo mostrara um ardente incentivo ao martírio.

O cristianismo histórico foi acusado, não inteiramente sem razão, de levar o martírio e o ascetismo a um ponto extremo, desolado e pessimista. Os primeiros mártires cristãos falavam de morte com uma alegria horrível. Blasfemavam as belas funções do corpo, sentiam o cheiro da sepultura à distância como se ela fosse um campo de flores. Tudo isso a muitos parecia a própria poesia do pessimismo. Todavia, existe a estaca na encruzilhada para mostrar o que o cristianismo pensava do pessimista.

Esse foi o primeiro de uma longa série de enigmas que o cristianismo discutiu. E a discussão implicava uma particularidade da qual devo falar mais especificamente, sendo uma característica de todas as idéias cristãs, mas que evidentemente começou com esta discussão. A atitude cristã para com o mártir e o suicida não era o que com grande freqüência se afirma nos ensinamentos morais modernos. Não era uma questão de grau. Não que se devesse traçar uma linha nalgum ponto, com o auto- assassino exaltado caindo dentro dela e o auto-assassino acabrunhado logo fora dela. O sentimento cristão evidentemente não era apenas de que o suicida estava levando o martírio longe demais. O sentimento cristão era veementemente em favor de um e furiosamente contra o outro.

Esses dois fatos que pareciam tão iguais ocupavam extremos opostos de céu e inferno. Este homem jogava fora a sua vida; ele era tão bom que seus ossos secos podiam curar cidades durante a peste. Aquele homem jogava fora a sua vida; ele era tão mau que seus ossos poluiriam os de seus irmãos. Não estou dizendo que a fúria estava certa; mas por que era tão violenta?

Foi aqui que pela primeira vez percebi que os meus pés peregrinos pisavam numa trilha batida. O cristianismo também sentira essa oposição entre o mártir e o suicida. Será que talvez a sentira pela mesma razão? Será que o cristianismo sentira o que eu sentia, mas não sabia (e não sabe) expressar — essa necessidade primeiro de uma lealdade às coisas, e depois de uma devastadora reforma delas? Em seguida eu me lembrei de que realmente a acusação contra o cristianismo era a de que ele combinava essas duas coisas que eu loucamente tentava combinar, ü cristianismo foi acusado de ser, ao mesmo tempo, otimista demais sobre o universo, e pessimista demais acerca do mundo. A coincidência de repente me faz ficar paralisado.”

*Segundo o costume cristão, o suicida não podia ser enterrado no cemitério.

Trecho retirado da obra de Ortodoxia de G.K. Chesterton, publicada pela editora Mundo Cristão, 2007, p.120-123

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