sábado, 20 de novembro de 2010

Chesterton e o seu livro sobre S. Francisco de Assis

(Por  Olívio Montenegro, Recife, 1930 
Publicado na revista A Ordem de 1955.)


Fixar fortemente as realidades dignas de serem compreendidas, é faculdade em Chesterton de mais relevo. E esta faculdade é uma das raras, por isso mesmo que é uma das mais simples, das que sofrem menos o contato da imaginação e o contato das ideias puras. Mas muita gente que admira Chesterton, eu noto que admira dentro desse ar meio divertido, meio cético, que em geral tomam as pessoas grandes quando  estão diante de crianças de espírito. E em que acham muita graça, mas que não julgam tomá-las a sério. Porque Chesterton ainda é um puro paradoxal para muita gente. Um diletante.

Entretanto um escritor seríssimo. O menos paradoxal dos escritores. Destes que repelem por instinto tudo o que não cheira à realidade e à vida. Tudo o que é convenção e artifício entre os homens. O único paradoxo que à conta de Chesterton eu descubro é ver quanto ele é um autor pouco popular justamente pela única qualidade que o devia fazer o mais lido dos autores – o senso comum. E o seu difere muito do bom senso. O bom senso como um saber ver praticamente, com oportunidade, com oportunidade e razão.

E o senso comum como um saber ver realmente, com veracidade e intuição. Mas é que, em verdade, o senso comum não populariza ninguém por isso mesmo que ele é o mais estranho do que parece à nossa vida ordinária. E outra coisa não nos insinua Chesterton em seu livro sobre S. Francisco de Assis, quando diz que a vida ordinária é mais cheia de imaginação do que a vida contemplativa. Mais artificial e menos pura.

A cada passo a imaginação está a substituir e a obscurecer no homem comum os melhores trechos da vida. Poderíamos dizer: os mais arquitetônicos, os de contorno mais plásticos e incisivo. Daí a impressão sem unidade e sem sentido que a vida deixa a muita gente. As suas largas sombras de mistério. Este constante e desesperado esforço na ponta dos pés para ver através de obstáculos que tampam a vista.

É preciso uma candura quase como a das crianças para ver com simplicidade, e justo. Agora quando a essa candura da primeira idade vem se juntar o senso crítico do homem feito, então apanhar-se todo o sentido de realidade que tem a obra de um escritor como Chesterton. Sentido de realidade e não paradoxo. E compreende-se que sejam os contos de fada os que mais interessem e o deleitem e o convençam. they seem to me to be the entirely reasonable thing. They are not fantasies: compared with them other things are phantastic. Fairyland is nothing, but the sunny country of common sense”. É uma citação do seu livro de polêmica “Orthodoxy”. Ao mesmo tempo livro de forte exegese, de aguda, extraordinária interpretação religiosa. E que um sopro de vida introspectiva acende, numa página e noutra, um interesse dramático. Aliás , uma vez bem fixado, não há escritor que dê mais ao vivo o sentimento do pitoresco do que Chesterton. Um pitoresco que Gilberto Freyre me definiu uma vez a “preto e branco”. Deixo aos íntimos de leituras de Chesterton que avaliem o fino e forte dessa definição.

Mas foi para falar do livro sobre S. Francisco de Assis que comecei a escrever sobre Chesterton. Desta biografia sobre S. Francisco de Assis, e que não tem nenhum sinal de parentesco com outros estudos de biografia como eles são feitos todos os dias. Uma biografia que não é simplesmente a vida exterior de um santo! O seu retrato. E em geral as biografias são unicamente um retrato. Uma imagem que ensombra, empalidece, dissipa todas as outras imagens da vida. Por isto o ar de fantástico, inverossímel de quase todas essas biografias. Não nos dão o invisível, e o que se agita de todos os lados em torno de uma vida. É uma vida como a dos teatros que elas nos dão; artificialmente cerrada entre os decoros da cena.

O trabalho de Chesterton constitui porém quase que uma inovação nesta matéria. Ele disse que para descrever um homem era preciso muitas vezes descrever um mundo. E não foi que para nos dar a vida de S. Francisco, ele nos retratou quase toda a idade média, a idade média desde o período do Troubadours, desde o IX século até as cruzadas? Deu-nos toda época heróica da idade média. E na história da vida de S. Francisco de Assis, este estudo da idade média, não entra como uma decoração, como um fundo de quadro, mas como um elemento de vida, como uma ambiente, o único ambiente em que se podia refletir a alma deste santo. Este santo de que tínhamos muito retratos, mas não o retrato de sua vida interior. Tinhamos a sua fisionomia, mas não tínhamos a sua alma. Tínhamos seu corpo macerado e nu, o céu cilício e a sua barba afilada, tínhamos o seu ascetismo implacável, a miséria enfim, do seu corpo. Da robustez e da saúde da sua alma tínhamos muito pouco, ou quase nada. Do que havia de saúde e de fortemente jovial, e sonoramente alegre, e poeticamente heróico; do que havia de claro e ardente na alma deste santo ninguém nos deu mais ao vivo do que Gilbert K. Chesterton.

Nas biografias de S. Francisco de Assis, como nas de todos os santos, é comum passar-se por cima do homem para se chegar ao santo. Chesterton porém nos dá esta novidade encantadora: de chagar ao santo muito naturalmente pelo homem. É uma biografia que é ao mesmo tempo uma lição cristã. Que é ao mesmo tempo uma aplicação da doutrina do Evangelho. O homem à semelhança de Deus. E mais – ele não diminui o meio para servir o homem. Chesterton coloca S. Franscisco no seu verdadeiro meio, aliás o único quadro da vida em que a individualidade do grande santo podia chegar à sua maior plenitude de força e de beleza moral. A sua visão psicológica do homem tem a mesma penetração que a sua visão histórica do meio. A mesma força e a mesma precisão. S. Francisco ganha como significação de símbolo. O símbolo da idade média. Esta idade média de que Chesterton nos oferece a mais viva e a mais duradoura imagem que é possível se oferecer de uma época; época que também sofreu e continua a sofrer o martírio e a crucificação por que passaram os seus santos. O martírio e a crucificação dos que vão revistar com olho insensível e profano. Com olho e faro de abutre. A idade média marcou uma das idades mais românticas da história (romântica, não sentimental), mas foi também uma das mais práticas. Este senso de prático da idade média descobriu-o o olhar reto e simples de Chesterton, um senso prático que não tem nenhuma relação com o senso egoísta e desumano da vida moderna. Um senso prático que era ao mesmo tempo um senso de fraternidade e de comunhão humana.

E de que as corporações, corporações de toda a espécie e ligadas a toda a atividade são o seu tipo mais aperfeiçoado. Senso prático que não repelia mas colaborava com o sentido heróico da vida. O seu sentido espiritual. Esta fazer da vida medieval o homem moderno não a descobre facilmente. Ou melhor, não a apanha do primeiro golpe. Esta comovida agitação diante da vida. O poder de estar na vida como numa aventura.

A vida para o homem do nosso século é apenas uma luta (struggle for life). Na idade média (séculos XII e XIII) a vida porém foi sempre alguma coisa mais de que uma luta; do que a luta pela luta, a força pela força, do espírito moderno. Foi antes uma conquista, que é o drama na luta. E não é uma relação que sente mais voluptosamente, e mais fundo: uma relação de amor, poderíamos dizer. E é este traço da idade média que não poderia passar fora do golpe de raio da visão de Chesterton – este sentimento poético da vida que nos séculos XII e XIII, se conserva com uma força inesgotável através de toda a luz branca do seu misticismo.

Aliás, toda a inquietação espiritual de que se ressentem o pensamento e a ação  do homem medieval, nesse amor à vida é onde tem a sua principal raiz. No sempre esperto e aguçado desejo de fraternização e intimidade com os seres e as coisas do Universo.

A arte dos “troubadours” tão cheia de febre, e tão cheia de luz, tão intensa e tão transparente ao mesmo tempo, é a imagem mais concentrada desse sentimento amorosos do homem em face das coisas da terra, do seu interesse a um tempo positivo e lírico, sensual e cristão por todas as formas de Natureza. S. Francisco de Assis tinha como ninguém uma alma de “troubadour”. Em S. Francisco de Assis tinha como nenhum homem este impulso cordial pela vida da Natureza e seu colorido, a sua força, o imperscrutável mistério das suas criações, assumiu um relevo mais dramático. A grande poesia de S. Francisco não está tanto nos seus versos, nos seus cantos ao Sol, está na sua vida mesmo, na sua ação, e nas suas obras. A harmonia, a grande harmonia que havia de dominar a sensibilidade desse santo, não foi naturalmente a harmonia da idéia, e antes a harmonia do Universo. A vida para ele tinha um ritmo maior do que todos os outros ritmos que podem nascer do sentimento ou da idéia. Para S. Francisco de Assis a vida na terra nunca lhe soube a aprovação. Nada de provação a vida para o grande asceta, o grande esfaimado de jejuns; esse voluptuoso de penitências e de martírio. Apenas uma lição. Apenas uma lição de profundas e íntimas experiências, é o que ela foi cá para o bom S. Francisco de Assis. Ou mais simplesmente – um campo de constantes e venturosas descobertas.

Não pode nada haver que no homem concentre mais sensação de vida, e interiormente nos intensifique e desenvolva mais do que uma descoberta. É como um novo sentido que nascesse em nós. Pois S. Francisco, e é Chesterton ele mesmo quem no-lo revela, era justamente este homem para quem não havia o mistério puro. O mistério sumia-se diante dos olhos do seu espírito como a treva com a luz.

Não se cita na história exemplo de uma visão arquitetural da vida, mais permanente, nem mais lúcida e instantânea.

Uma visão a ferir sempre os efeitos gerais que não são os efeitos em massa de uma floresta, mas são os efeitos em articulação, em corpo, de um monumento, de uma catedral. Porque é uma diferença que vale a pena marcar, a diferença entre uma visão em globo, e uma visão integral, das coisas. S. Franscisco possuía justamente essa visão integral, que não sacrifica a parte ao todo, mas que os distingue com uma acuidade infalível.

O que mais espanta em S. Francisco de Assis, o que mais espanta no retrato a carvão que Chesterton nos dá desse santo, é a inalterável unidade que se percebe entre a sua vida interior e a sua vida exterior. É a esquisita fidelidade do seu gesto ao seu sentimento. A sinceridade absurda das suas atitudes, ou melhor a coerência, a irreprimível lógica da sua ação. O seu amor às vezes, aos bichos, aos elementos como o Sol e Água, tudo irmãos, porque tudo emanado do mesmo Poder e da mesma Vontade, tem uma cor de inteligência sobrenatural. Essa profusão de humanitarismo na vida de S. Francisco de Assis, talvez dentro do prejuízo do espírito moderno viesse a ter uma expansão medíocre. Na idade média, porém, ela produziu a Ordem dos Menores, essa Ordem que, diz Chesterton, “foi da natureza de um tremor de terra ou de uma irrupção vulcânica: explosão que lançou fora com uma energia dinâmica as forças acumuladas desde dez séculos, na fortaleza ou no arsenal do mosteiro, e dispersou todas as suas riquezas em todos os pontos da terra”.

De S. Francisco de Assis poderia se dizer (se grau houvesse para santidade) que  foi o maior santo da idade média, pelo menos num sentido: de que foi quem melhor a exprimiu nos seus ideias de justiça, e na sua ânsia de Deus.

Assim é que certas ordens da idade média parecem uma criação pura de S. Francisco de Assis, como essa ordem dos Cavaleiros, por exemplo. Essa ordem de homens devotados exclusivamente ao serviço dos fracos e dos humildes, e dos pobres e dos aleijados é todo um poema em ação, em vida. É a maior confluência que se pode imaginar da poesia, na força. A ordem dos cavaleiros a serviço de todos os oprimidos e inválidos, é uma como antecipação em ponto inferior da ordem dos Menores. Há um tão forte de família entre as duas ordens, que ninguém diria nascidas tão distantes uma da outra. O que a ordem dos Cavaleiros procurou fazer pela vida terrestre dos pobres. É lírico tudo isso, mas grande como a vida mesma.
            
Autoria de Olívio Montenegro, Recife, 1930,
Retirado da revista A Ordem, vol. LIV, n. 1, 1955.

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