quinta-feira, 28 de outubro de 2010

The Diabolist - Chesterton

THE DIABOLIST

Gilbert Keith Chesterton

Costumo uma vez por outra, introduzir um elemento real em meus ensaios, mencionando certo fatos, tais como encontrar-me com o Presidente Kruger ou ser jogado fora de um taxi. O que tenho agora a contar realmente aconteceu; apenas, nada tem a ver com os problemas da política prática ou da segurança indivudual. Foi simplesmente a coisa mais terrível que aconteceu em minha vida. Isto se passou há tanto tempo, que não posso lembrar exatamente as palavras do diálogo; só as perguntas e respostas principais. Há, porém, uma sentença pela qual posso responder, palavra por palavra, - tão terrível, que não poderia esquecê-la, ainda que o quisesse. Foi a última frase proferida, e que não se dirigia a mim.

O fato ocorreu no tempo em que freqüentava uma escola de arte. Estas escolas são diferentes das outras no seguinte: sendo de recente criação e de frouxa disciplina, apresentam um nítido contraste entre o aplicado e o vadio. O estudante de uma escola de arte, ou faz um monte de trabalho ou não faz então coisa alguma. Eu pertencia, com os outros simpáticos companheiros, ao segundo grupo; e isto me arrastava algumas vezes, para a companhia de pessoas que eram muito diferentes de mim, mas que eram ociosas por motivos outros. Eu era, realmente, ocioso porque andava muito ocupado: estava empenhado em descobrir, para minha extrema e duradoura estupefação, que não era ateísta. Outros porém andavam empenhados em descobrir o que Carlyle chama (com excessiva delicadeza) o fato de a ginga, ser quente na boca.

De resto, dou por bem empregado aquele tempo, porque permitiu-me proveitosa aproximação a um bem representativo número de boêmios. E neste ponto há duas coisas curiosas que o crítico da vida humana pode observar. A primeira é o fato de que há uma diferença real entre homens e mulheres: enquanto estas preferem conversar duas a duas, aqueles o fazem sempre três a três. A segunda é que, quando conhecemos (como às vezes acontece) três jovens estouvados e idiotas que se reúnem e se embriagam todos os dias, cedo descobrimos que um dos três não é, por algum extraodinário motivo, nem uma coisa nem outra. Nestes pequenos grupos devotados a esta escumosa dissipação, há quase sempre um que parece ter-se submetido apenas por concessão ao espírito dos companheiros; um que, embora aprecie a tola trivialidade dos amigos, é capaz de discutir política com um socialista e filosofia com um católico.

Foi a um homem assim que passei a conhecer bastante. Parecia estranho que ele gostasse de seus parceiros de bebedeira, e, mais estranho ainda, que gostasse de minha companhia. Horas do dia conversava comigo sobre Milton ou arquitetura gótica, e ia horas da noite, até onde, nem por hipótese, gostaria de segui-lo. Era um homem de rosto comprido e irônico, espessos cabelos de fogo, e tinha um porte de gentleman, -- embora preferisse, por qualquer razão, andar como um criado carregando baldes. Dava a idéia, assim, de um jóquei gigante e mal comparando, lembrava um arcanjo que tivesse entrado para o turfe (corrida de cavalos). Mas nunca poderei esquecer aquela meia hora em que ele e eu discutimos sobre coisas de interesse real, pela primeira e última vez.

Ao longo da grande fachada do edifício da Escola havia uma parte em declive, cujos degraus de pedra eram mais altos, creio eu, do que os que dão acesso à Catedral de São Paulo. Era uma noite escura de inverno, e nós vagávamos sobre aquelas alturas lúgubres como as pirâmides sob as estrelas. Naquela escuridão, o único ponto visível para nós era uma fogueira; algum jardineiro queimava qualquer coisa no terreno, e, de vez em quando, chispas de fogo vinham em nossa direção como fúlgidos vagalumes. Para cima também tudo era escuro; mas se olhássemos com firmeza, notar-se-iam as verticais em cinza, que penetravam pela noite a dentro – e a fachada colossal do edifício dórico, fantástico, a encher o céu, como se este ainda estivesse tomado pelo gigantesco espírito do paganismo.

Meu companheiro perguntou-me abruptamente porque me tornar ortodoxo. Até ou ouvir tal pergunta, não tinha eu bem consciência desse fato; mas, naquele instante, convenci-me de que era absolutamente verdadeiro. Um longo e intenso amadurecimento permitiu-me responder imediatamente, sem necessitar a menor reflexão.

--“Sim, sou ortodoxo”, disse-lhe, “porque cheguei à conclusão, certa ou errada, depois de pensar até amolecer os miolos, de ser exata a velha crença de que a heresia é ainda pior que o pecado. Estou certo de que o erro é mais ameaçador do que o crime, porque ele gera os crimes. O imperialista é mais nocivo que o pirata; porque o imperialista mantém uma escola de piratas: ensina pirataria desinteressadamente e sem salário adequado. O adepto do amor livre é pior que o libertino, porque este é sério e despreocupado mesmo nas aventuras mais fugazes, enquanto aquele é calculista e irresponsável no mais estável devotamento. Temo a dúvida dos tempos modernos, porque ela é demasiado perigosa”.

--“Você quer dizer perigosa para a moral?”, perguntou-me ele num tom gentilíssimo.

--“Desconfio que você esteja com razão; mas porque é que você se interessa pela moral?”

Fitei-o rapidamente. Ele repuxara o pescoço como tinha o costume de fazer, e, desse modo, iluminou-lhe bruscamente a face a luz da fogueira. Seu queixo comprido incendiados, o que o fez semelhante a um diabo que contemplasse um abismo de fogo. Senti uma inexplicável sensação, e quando acalmei, uma aluvião de fagulhas saltos mais alto.

--“Não são maravilhosas estas chispas de fogo?” perguntei-lhe.

--“Sim”, respondeu.

--“Isto é tudo que espero que você admita inicialmente”, disse eu.


Tomaremos aquela mancha de fogo, e eu deduzirei dela a moral cristã. Antes eu pensava, como você, que o interesse de alguém por uma chispa de fogo era qualquer coisa que ia e vinha com a mesma chispa. Antes eu pensava que o prazer fosse livre como o fogo e que a estrela cadente está apenas no cume de uma invisível pirâmide de virtudes, e que o fogo ardente é apenas a flor que desabrocha no caule dos hábitos humanos, que pessoas como você não podem ver. Somente porque sua mãe lhe ensinou a dizer “obrigado” por um saco de balas, é você capaz de agradecer à Natureza ou ao caos por aquelas estrelas cadentes de um instante ou pelas estrelas brancas de todo o tempo. Somente porque você assistiu humildemente aos fogos de artifício de 5 de novembro, é você, capaz agora de apreciar qualquer foguete que veja. E se você se encanta com as lágrimas vermelhas que dele se desprendem, é porque já ouviu falar do rubro sangue dos mártires; assim como admira as fagulhas prateadas , porque o brilho é a glória. Aquele fogo floresceu com as virtudes e com elas fenecerá. Seduza uma mulher e aquela centelha será menos brilhante; verta sangue, e ela será menos vermelha. Seja realmente mau, e elas serão para você as manchas de um papel de parede.

Ele tinha tal lisura intelectual que me fazia desesperar de sua alma. Um ateu comum negaria que a religião produz a humildade ou que a humildade produz alegria simples; ele, ao contrário, admitia ambas as idéias. Apenas disse: -- “Mas não posso eu encontrar no pecado a razão de si próprio? Admitindo-se que cada mulher que eu seduza uma daquelas chispas se apague, não haverá alegria pela expansão do mal...?”

--“Você vê aquele fogo?” perguntei-lhe. “Se tivéssemos uma verdadeira democracia militante, alguém queimá-lo-ia naquelas labaredas como a um partidário do Diabo”.


--“Talvez”, disse ele, desanimado, no mesmo tom indiferente. “Apenas o que você considera mau, eu considero bom”.

Desceu sozinho os largos degraus, eu senti ímpetos de limpar aquelas pedras. Mais tarde o segui; e quando fui apanhar meu chapéu, no corredor embaixo, ouvi-lhe novamente a voz, embora sem perceber o que dizia. Parei sobressaltado, e ouvi então a voz de um de seus piores companheiros:

--“Ora, isso é impossível saber-se”. Neste momento vieram aquelas duas ou três palavras, das quais me lembro sílaba por sílaba. Pois ouvi o partidário do Demônio dizer: “Eu declaro-lhe que fiz todas as outras coisas. Se eu fizer isso, não saberei mais distinguir entre o bem e o mal”. Afastei-me, rapidamente. E, ao passar pela fogueira, não pude distinguir bem, por minha vez, se aquilo representava o inferno ou o furioso amor de Deus.

Soube mais tarde que ele morrera; suicidara-se provavelmente, antes com as armas do prazer que as do sofrimento. Que Deus o ajude, pois eu sei o caminho que escolheu; mas nunca soube, nem mesmo ousei imaginar, em momento ele parou.

Publicado na revista A Ordem, V. 47, n. 1, 1952
Tradução de Oswaldo Tavares Ferreira

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