segunda-feira, 23 de agosto de 2010

Um fator do problema social

Um fator do problema social

(Autoria de Anacleto González Flores.
Publicado no Editoriales de La palabra,
1 de julho de 1917)

Depois de termos visto o verdadeiro conceito da questão social (Leia o artigo A Questão social), convém assinalar suas causas. Para isto começaremos, por assim dizer, mostrando que este grande problema tem sido gerado em primeiro lugar pela desorientação religiosa. Os espíritos superficiais e, sobretudo os que se crêem admiráveis destes tempos, vão sorrir com lástima desta constatação; mas facilmente se tranqüilizarão se souberem e se recordarem que Proudhon*, que esta muito longe de ser um clerical, encontrava, como ele dizia, um problema teológico através de toda questão social e política. Por nossa parte, vamos entrar sem dúvida no campo da racionalidade com o fim de demonstrar que nossa constatação se apóia na realidade.

O extravio dos espíritos no campo religioso pode ser considerado sobre dois aspectos: como poder formidável de dispersão das energias das coletividades, ou também como um conceito errôneo acerca da vida humana e de tudo o que tem contato com ela, com seu fim e seus destinos. Sobre o primeiro ponto de vista, as agitações profundas que tem sofridos os povos, e, sobretudo as catástrofes internas e o estado constante de lutas dos países em que tem sido imperceptível a unidade em matérias religiosas, são um argumento imbatível que demonstra que o desequilíbrio das sociedades sai principalmente das discrepâncias tão profundas que agora de um modo especial se tem apoderado dos homens. Seria muito diferente a situação das relações sociais e a unidade, que é e tem sido sempre a alma da civilização e das coletividades, reinasse majestosamente e soberanamente sobre as consciências em questões tão importantes como as que se estão próximo da religião. Diante disso, seguramente poderíamos pronunciar de novo esta frase célebre do insigne sociólogo Federico Le Play, conseguida graças a seus estudos profundos e imparciais: "Onde reina o Decálogo não existe a questão social".

Mas, contudo, a desagregação dos elementos sociais na ordem religiosa gera uma grande calamidade e um perigo constante de dissolução e uma fonte inesgotável de discórdias e divisões; o falso conceito acerca dos destinos da vida humana assinala as discrepâncias antes assinaladas, torna impossível o equilíbrio nas relações políticas, jurídicas e econômicas que entram na formação das sociedades.

E para que nossa alma fique convicta a este respeito, basta recontar, ainda que seja brevemente, os abismos insondáveis abertos em épocas paganas pelos ensinamentos sobre a igualdade. Ensinou-se então, utilizando-se de talentos como Aristóteles, de que havia homens que naturalmente nasciam escravos; acreditou-se que a mulher não poderia elevar-se à categoria do homem; que o pai teria direito sobre seus filhos o direito de vida e de morte, de fato o indivíduo se perdia totalmente em meios as coletividades e ficava despojado de sua própria personalidade; enfim, não temos que traçar com suaves nuances um quadro que com todos seus horrores e suas degradações, surge em nossa imaginação delineando com pinceladas vigorosas e profundas com o fato de remeter nossa vista ao passado. E bem, aquele caos que havia feito impossível a luz da verdadeira civilização, e que envolvia em plena desordem as almas e os corpos e havia criado e mantido a questão social, foi desfeito como nuvens que se dispersam e se diluem no diáfano azul em presença do sol, por um pensamentos eminentemente religiosos: o de Cristo. Disse-se então que os homens são iguais, porque sua origem é comum, porque tem os mesmos destinos e conseqüentemente, como homens, os mesmos direitos.

Ninguém se atreverá a negar que esta doutrina desde o instante mesmo em que fixa a origem e o fim da humanidade, tem um caráter essencialmente religioso. Portanto, o desequilíbrio enorme daquela idade, a pagã, tinha sua origem na desorientação religiosa. O da igualdade, tristemente celebrado pela revolução Francesa, é uma mentira histórica e um grande erro filosófico; nada mais. Os verbos deslumbrantes de Mirabeau, a rebelião das multidões sedentas de sangue, de pilhagem e da decapitação dos reis, nobreza e os sacerdotes, não puderam assimilar em nada a obra maravilhosa realizada pelo Catolicismo a favor da igualdade. O despotismo monárquico de Luis XIV foi impulsionado pelo despotismo republicano. Hipólito Taine o demonstra admiravelmente. Pelo que toca o momento atual e fixando-nos somente nas relações entre os trabalhadores, encontramos que estes estão em uma situação pior que as do paganismo; ouçamos Dárdano: "Os antigos compravam o trabalho e o trabalhador e cuidavam um do outro. Agora se compra unicamente o trabalho. Se prescinde do trabalhador, o qual, só, abandonado e indefeso, deve pensar unicamente em si mesmo, em seu presente e no seu amanhã". E este fato, afirmado com muitíssima razão pelo ilustre escrito acima citado, é, para os que refletirem um pouco, uma revelação de que o liberalismo, como demonstramos brevemente, modificou o verdadeiro conceito de vida humana em um grande erro, o da igualdade nas relações do trabalho com o que os sociólogos chamam homo economicus, ou seja, o homem máquina.

Ora, poderíamos ter afirmado sobre a igualdade considerando esta desde outros pontos de vista; mas o desequilíbrio social de nossos dias vem do conceito exato, verdadeiro acerca da origem, fim e direitos do homem, de que se tem perdido no grande desconcerto, na grande desorientação das energias sociais em questões de tanta transcendência como são as dos problemas religiosos.


*PROUDHON, Pierre-Joseph (1809-1865). Economista francés, pai do anarquismo teórico.

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Transcrito e traduzido do livro:
FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. p. 466-469.

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