quarta-feira, 7 de julho de 2010

A questão social

A questão social

(Autoria de Anacleto González Flores.
Publicado no Editoriales de La palabra,
24 de junho de 1917)



Os grandes problemas que interessam profundamente a humanidade devem ser conhecidos até em seus últimos detalhes e pelo maior número possível, já que a solução teórica e prática, para ser uma realidade esplendorosa, exige o esforço de todos os homens. Por isto agora vamos nos fixar com toda a precisão sobre o verdadeiro conceito da questão social. Os sociólogos a formulam da seguinte maneira: é um problema que consiste em ordenar as energias sociais em uma forma total que satisfaça as exigências racionais dos associados; ou também: é o problema do restabelecimento da paz entre as classes antagônicas da sociedade e de um modo especial entre os representantes do capital e do trabalho.

A questão social, como se vê, é um feito, um grande feito que tem por caráter saliente o desequilíbrio das forças coletivas, e um estado de luta entre os distintos elementos que formam o organismo social. É certo que há profundas discrepâncias acerca de sua natureza, mas no fundo a definição antes dada delineia exatamente o problema que temos resolvido estudar.

Os socialistas pensam e ensinam que a questão social é de caráter eminentimente econômico, e que não envolve nenhum outro problema fora do que se relaciona com a distribuição mais ou menos perfeita da riqueza; mas isto é um grande erro, porque ainda que é certo que a parte mais sensível do desequilíbrio social seja seu aspecto econômico, há que convir que também abarca questões de outras ordens e que em última análise são sua verdadeira causa. Para  se convenser disso basta pensar que as energias sociais tomam sua direção correta ou fatal do pensamento, e este, por sua vez, segue o rumo assinalado pelos sistemas e as relações que encadeiam os indivíduos para mover a coletividade será inevitavelmente o que seja da orientação do espírito. Colocados, pois, diante de um fato social, devemos passar da análise superficial das coisas às profundidades que encerram o verdadeiro segredo que explica o fenômeno, e para isto temos de nos perguntar o que é que pensam as gerações; e uma vez conhecida a idéia ou a doutrina que reside nas almas, veremos com claridade meridiana que todo desequilíbrio, assim como a fisionomia dos povos, não é mais que a cristalização de um pensamento.

E que os corpos sempre tem sido e serão arrebatados pelo movimento que agita os espíritos, e eles vão impetuosamente pelas vias traçadas pelos sistemas. A respeito deste ponto de vista, nem o homem nem a huminidade são divisíveis: tem um só fisionomia; a de seu pensamento que, impulsionado irresistivelmente para reinar sobre tudo, cria leis, instituições, costumes, enfim, esse conjunto complicado que por conveção chamamos sociedade.

Daí resulta que a questão social, mais que uma questão de atos, é um questão de princípios, e que seu aspecto econômico não é o problema total, se não um de suas faces, se se quiera a que mais impreciona e mais fortemente se faz sentir. Se segue além, segundo o que foi exposto antes, que o desequilíbrio dos povos deve ser buscado no desequilíbrio do pensamento, depois nas leis e costumes difundidos por elas, e daí vamos encontrar a desorganização que se tem aponderado das relações materiais que entram na estrutura do corpo social.

Ao querer delinear, pois, com traços vigorosos e precisos o que os mais grandes sociólogos tem chamado a única e verdadeira questão das sociedades, devemos dizer que nos encontramos não só diante do abismo aberto pelo ódio e pelo orgulho entre o capitalismo e o proletariado; não só diante do caos que envolve as relações econômicas, não, o problema se extende a regiões mais altas e toca pontos mais profundos; arranca a linha mesma em que nasce o pensamento e vai a parar longes confins onde se encontram os corpos e onde se alça o império das idéias.

Propriamente em toda a desorganização social não há mais que um desequilíbrio: a dos espíritos, causados pelos falsos sistemas e cristalizados nos atos que formam a vida prática da humanidade. Em última análise o desequilíbrio de fundo ou da parte material das coletividades, é o desequilíbrio de frente ou das almas, levadas ao mundo dos corpos [Faz referência ao pecado do homem].

E com isto chegamos ao ponto em que aclarado os conceitos até aqui sinalizados e sintetizando as idéias expostas, podemos dizer que a desorientação suprema de todas as energias socias (desorientação religiosa, política, moral, jurídica e econômica) que vão precipitadamente ao grande cataclisma da manhã com todas suas agitações, suas tempestades e suas catástrofes desoladoras como as do oceano, vigorosas com as dos céus e fundas como as das almas, é e se chama questão social.

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Transcrito e traduzido do livro:
FLORES, Anacleto González. Obras de Anacleto González Flores. Guadalajara: Ayundamento, 2005. p. 465-466

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