terça-feira, 22 de junho de 2010

Capítulo do livro "A vida intelectual" de A.D. Sertillanges

Capítulo retirado do livro "A vida intelectual", de A.D. Sertillanges, disponível gratuitamente para downloads aqui.
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CAPÍTULO V - O campo do trabalho
I – A ciência comparada.


É difícil dar um conselho determinado sobre o que convém aprender, e menos ainda sobre a dosagem dos elementos admitidos num plano de trabalho. S. Tomás não fala disso nos Dezesseis Preceitos. É questão de vocação pessoal, em correlação com o fim a alcançar.

Contudo, é possível dar breves indicações que sirvam de ponto de partida a úteis reflexões. Não tomamos a questão na sua origem primeira; falamos para pessoas que já ultrapassaram a idade escolar e se propõem organizar ou completar estudos profundos.

Vêm aqui a propósito as interessantes observações do P. Gratry sobre a Ciência Comparada. A maneira como as desenvolve será talvez um pouco antiquada, no entanto merecem ser seriamente ponderadas pelos intelectuais de nossos dias.

Entendemos por ciência comparada o alargamento das especialidades pela aproximação das disciplinas conexas e a subordinação das mesmas e do seu conjunto à filosofia geral e à teologia.

Embora cultivemos uma especialidade, não é prudente, nem fecundo, confinar-nos nela exclusivamente.

Equivaleria a pôr antolhos. Nenhuma ciência se basta a si mesma; nenhuma disciplina, encarada em si só, é luz suficiente para iluminar os seus caminhos. Isolada, mirra-se, emagrece, estiola-se e, na primeira ocasião, extravia-se.

A cultura parcial é sempre indigente e precária. O espírito ressente-se disso continuamente; a falta de liberdades de movimentos e de segurança de visão paralisa os gestos.

Podemos asseverar sem paradoxo que cada ciência, profunda, daria as demais ciências, as ciências a poesia, a poesia e as ciências a moral, depois a política e a própria religião no que esta possui de humana. Tudo está em tudo: divisões só as operam a abstração. Abstrair não é mentir, reza o provérbio: abstrair non est mentiri, contanto que a abstração, que distingue, isola e concentra a sua luz num ponto, não separe do objeto de estudo o que dele depende mais ou menos diretamente. Privar, assim, de comunicações um objeto seria falseá-lo, porque os seus vínculos fazem parte dele.

Será possível estudar uma peça de relógio, sem pensar na peça vizinha? Ou estudar um órgão, sem tomar em conta o organismo? Do mesmo modo, é impossível avançar em física ou em química sem a matemática, em astronomia sem a mecânica e sem a geologia, em moral sem a psicologia, em psicologia sem as ciências naturais, em coisa alguma sem a história. Todas as ciências são interpendentes; as suas luzes cruzam-se, e qualquer tratado inteligente de uma delas implica mais ou menos as outras.

Por conseguinte, se quiserdes alcançar um espírito aberto, claro, verdadeiramente forte, começais por desconfiar da especialidade. Lançai as bases segundo a altura do edifício que quereis construir; os trabalhos de escavação serão tanto mais largos quanto mais fundo pretendeis chegar. O saber não é torre nem poço, é habitação humana. Um especialista, se não for homem, é manga de alpaca, a sua esplêndida ignorância torna-o, transviado entre os humanos; é um inadaptado, um anormal, um louco. Livre-se o intelectual católico de copiar semelhante modelo. Acima de tudo será homem, pois pertence, por vocação, ao gênero humano; pisará o solo com pé firme, com a sua base de sustentação, e não saltitando sobre as pontas dos pés.

O saber tentou sondar a noite em todos os sentidos; nela mergulham os sábios, a mão para apanhar estrelas, desenvolvendo nobre esforço que não deixa indiferente nenhum pensador autêntico. Seguir até certo ponto as explorações de certos investigadores é, para vós, obrigação que no fim se resolve em capacidade decuplada para as vossas próprias pesquisas.

Quando chegardes à especialidade, depois de ter experimentado muita cultura, amplificado o olhar e compreendido o sentimento das ligações pelas profundidades, sereis homens diferentes daqueles que se confinam em estreita disciplina.

O cultivo exclusivo de qualquer ciência apresenta igualmente perigos que ninguém de bom senso desconhece. O estudo isolado das matemáticas falseia o juízo, habituando-o a um rigor que nenhuma outra ciência, e menos ainda a vida real comporta. A complexidade da física e da química causa fastio e apouca o espírito. A fisiologia conduz facilmente ao materialismo, a astronomia corre o perigo de habituar à divagação, a geologia converte-vos em galgos que tudo farejam, a literatura torna-vos balofos, a filosofia incha, a teologia expõe-vos ao falso sublime e ao orgulho doutoral. Precisais passar de um espírito a outro, a fim de corrigi-los um pelo outro; precisais de variar as culturas para não cansar o solo.

Não julgueis que, pelo fato de prosseguir até certo ponto o estudo comparado, ficareis sobrecarregados ou impedidos de vos dedicar com afinco a uma especialidade, porque a luz, que dessa comparação irradia, facilitará a visão das coisas, e o espírito, ganhando em amplidão, será mais apto para receber sem se prejudicar.

Quem se instala no centro das ideias fica depois com o caminho desembaraçado para seguir em qualquer direção. E que melhor acesso ao centro do que tentar diferentes vias, que, à maneira dos raios dum circulo, dão o sentimento dum encontro e duma encruzilhada comum?
Conheço um lingüista que, no espaço de quinze dias, consegue deslindar uma língua nova. Porquê? – porque sabem muitas outras. Num relance, o espírito abarca o novo idioma, os seus caracteres fundamentais, a sua constituição. As ciências são as diversas línguas em que o homem balbucia penosamente a natureza inefável; decifrar muitas delas é favorecer cada uma, porque afinal todas são uma só coisa.

Demais a mais, despertos o instinto poderoso e o entusiasmo em todo o homem bem dotado por esta maneira de viajar através das ciências e de explorar estes magníficos domínios, como se visitam alternadamente os fiordes da Noruega, o Corno de Ouro, os hipogeus do Egipto, as pampas da América e os palácios chineses, este ardor épico, capaz de empolgar uma inteligência ao contacto das grandezas do espírito, comunica ao estudo inspiração e facilidade surpreendentes.

Um rabino, a quem censuravam de sobrecarregar a lei, respondeu: <>. Esse sim tinha zelo, o zelo que, no domínio das capacidades espirituais, corresponde ao calor que dilata os corpos. Uma taça, ao sol, tem maior capacidade do que à sombra. Um espírito deslumbrado perante o espetáculo da verdade, e por ele desdobrado como arco-íris, toma-se capaz de adquirir sem fadiga, com alegria, conhecimentos que enervariam o triste cultor duma única ciência.

Os grandes homens foram sempre mais ou menos universais; sobressaindo numa parte, nas outras foram pelo menos curiosos, freqüentemente sábios, às vezes até especialistas. Não conseguireis confinar num só ramo do saber homens da envergadura de Aristóteles, Bacon, Leonardo de Vinci, Leibniz ou Goethe. Henrique Poincaré, na Academia das Ciências, espantava os colegas das outras secções, pelas suas concepções geniais: consultá-lo era colocar-se imediatamente no centro do saber, ponto onde todas as ciências se identificam. Não alimentais semelhantes pretensões? Embora! O que as grandes sumidades praticaram permanece sempre como indicação fecunda para os demais. Traçai um plano amplo, que se vá reduzindo pouco a pouco pelo que diz respeito ao tempo consagrado a cada estudo secundário, e não quanto à largueza de vistas nem ao espírito de trabalho. Escolhei acertadamente os conselheiros. Um só entre mil para o conjunto, outros para cada parte, se preciso for. Reparti o tempo, regulai a sucessão das culturas, nunca procedendo ao acaso.

Em cada coisa, ide direitos ao essencial, não vos deixando enredar nas minúcias: não é por estas que se empunham as ciências; é muitas vezes pelo pormenor mas pelo pormenor característico, isto é, pelo fundo.

Mas, para vos orientardes neste domínio, precisais de penetrar no que ainda falta dizer. Assim como nenhuma ciência particular se basta a si própria, assim também o conjunto das ciências, se não sustenta sem a rainha das ciências – a filosofia(1) –, nem o conjunto dos conhecimentos humanos sem a sabedoria derivada da ciência divina – a teologia. O P. Gratry exprimiu, sobre este ponto, verdades capitais, e S. Tomás, indo mais além, assinalou o lugar e a dignidade destas duas rainhas do duplo reino(2). As ciências, sem a filosofia, desclassificam-se e desorientam-se. As ciências e a filosofia, sem a teologia, desclassificam-se mais ainda, visto repudiarem uma coroa celeste; e desorientam-se mais irremediavelmente, porque a terra sem o céu não encontra a sua órbita, nem as influências que lhe dão fecundidade.

Hoje que a filosofia esmoreceu, as ciências rebaixam-se e dispersam-se; hoje que se ignora a teologia, a filosofia é estéril, não conclui coisa alguma, faz crítica e faz história sem bússola; é sectária e muitas vezes destruidora, nunca tranquiliza nem ilumina; não ensina. E os seus mestres, que têm a dupla desgraça de ignorar e de ignorar que ignoram, consideram a teologia uma coisa do outro mundo.

Sim, a teologia pertence ao outro mundo, quanto ao objecto; mas o outro mundo governa este, continua-o em todos os sentidos, para trás, para diante e para cima, e portanto não é de espantar que o ilumine.

O melhor que pode fazer um intelectual católico, que pertence ao seu tempo, é trabalhar, pela parte que lhe toca, em nos restituir a ordem de que carecemos. O de que o nosso tempo precisa, do ponto de vista doutrinal não é a dose de saber, é a harmonia do saber, harmonia que só se obtém por um apelo aos primeiros princípios(3).

A ordem do espírito deve corresponder à ordem das coisas, e como o espírito só se instrui verdadeiramente pela investigação das casualidades, a ordem do espírito deve corresponder à ordem das causas. Portanto, existindo um Ser primeiro e uma Causa primeira, é lá que se completa e ilumina ultimamente o saber. Primeiramente como filósofo, por meio da razão, em seguida como teólogo, utilizando a luz que vem do alto, o homem de verdade deve centrar a sua investigação naquilo que é ponto de partida, regra e fim a título primeiro, naquilo que é
tudo para tudo e para todos.

Em toda a espécie de objetos e disciplinas, só reina a ordem, no momento em que os princípios, dispostos hierarquicamente até ao princípio primeiro, desempenham o papel de princípios, de chefes, como num exército, como numa casa ordenada, como num povo.

Repudiamos hoje os primeiros princípios; mas, por isso, o saber desarticulou-se. Possuímos farrapos, magníficos ouropéis, não possuímos vestidos; possuímos excelentes capítulos, não temos livro completo, não temos Bíblia.

As Bíblias do saber foram outrora as Sumas: faltam-nos hoje as Sumas, e ninguém entre nós seria capaz de compor uma. Tudo é caótico. Mas, se ainda é cedo para redigir uma Suma coletiva, pelo menos cada homem que pensa e que deseja verdadeiramente saber, pode tentar constituir a sua Suma pessoal, isto é, pôr ordem nos conhecimentos, invocando os princípios desta ordem, ou seja, filosofando e coroando a sua filosofia por uma teologia sumária, mas profunda.

Os sábios cristãos, desde o princípio até ao fim do século XVII, foram todos teólogos, e os sábios, cristãos ou não, até ao século XIX, foram todos filósofos. Depois, o saber baixou; alastrou em superfície e perdeu em altura, e portanto também em profundidade, porque a terceira dimensão tem dois sentidos que se correspondem. Que o católico, cônscio desta aberração e das suas conseqüências, saiba fazer-lhes frente; intelectual ou desejoso de o ser, aspire à intelectualidade completa, em todas as suas dimensões.

Não se lhe tira a seiva, pelo contrário dár-se-lhe um curso glorioso. Em razão deste novo impulso comunicado ao saber, deste apelo dos dados humanos a uma colaboração celeste, todos os conhecimentos são vivificados e todas as ciências alargadas. A unidade da fé dá ao trabalho intelectual o caráter de cooperação imensa. É a obra coletiva dos humanos unidos em Deus. Por isso a ciência cristã, tal qual é e muito mais ainda quando se escrever a Suma dos tempos modernos, ultrapassará em amplidão e inspiração os monumentos da antiguidade e do neo-paganismo. As enciclopédias estarão para ela como Babel para as catedrais.

Quem busca a verdade não tem o direito de ignorar tão rico tesouro. É de esperar que a próxima geração, carrilada por esta que tão notoriamente ultrapassa as precedentes, se aproxime muito naturalmente e sem respeito humano da ciência das ciências, do cântico dos cânticos do saber, da teologia inspiradora, e encontre nela a maturação e a elevação, o lirismo potente e calmo, expressão completa da vida do espírito.

Não custa penetrar no campo da teologia, nem o seu estudo exige muito tempo, a não ser, é claro, que se tome como objecto de especialidade. Dedicai-lhe quatro horas por semana, durante cinco ou seis anos; é o suficiente; depois só tereis de conservar o aprendido. Sobretudo, porém, não vos fieis em falsos mestres. Tomareis, logo de entrada, S. Tomás de Aquino. Estudai a Suma, mas antes disso aprendereis os dogmas basilares da fé. Tende à mão o Catecismo do Concílio de Trento, esplêndido resumo da doutrina teológica(4).

Possuí plenamente este manual e continuai, dia a dia, em companhia de S. Tomás, o desenvolvimento racional da ciência divina. A princípio, o texto parecer-vos-á seco e abstruso; pouco a pouco, brilharão as luzes dominadoras; as primeiras dificuldades vencidas terão como recompense novas vitórias; aprendereis a língua da terra, e, ao fim de algum tempo, circulais por lá como em vossa casa, com a impressão de que residis numa sublime habitação.

Estudai, é claro, em latim! As traduções da Suma, muitas vezes traiçoeiras, são sempre insuficientes. Quem se deixasse acobardar perante o esforço de aprender uma língua que um espírito ordinário consegue dominar em dois meses, não mereceria que nos preocupássemos com a sua formação(5). Falamos para entusiastas: se querem penetrar na <>, dêem-se ao trabalho de procurar a chave dela.

Ser-vos-ia útil alguma obra de introdução, que vos fizesse pressentir o conteúdo de S. Tomás e servisse de prelibação. Todavia, não pareis aí; tomai a mão que se vos estende para vos pôr em movimento(6).

Por outro lado, um repetidor de espírito aberto e bem informado prestar-vos-ia valioso auxílio, diria até indispensável. Iniciar-vos-ia paulatinamente no vocabulário técnico do tomismo, poupar-vos-ia hesitações e quiproquós, esclareceria um texto por outro texto, assinalaria as pistas e defenderia os passos dos precipícios. No entanto, persuadido como estou do mal que fazem amigos inábeis, da desilusão e escândalo provocado por comentários estúpidos, recomendo-vos que prefirais a solidão a um concurso pouco inteligente. Esforçai-vos por quebrar a noz; magoareis as mãos, mas acabareis de a partir, e então será o próprio S. Tomás quem instrui o seu discípulo.

Para esse fim, consultai cuidadosamente, a propósito de cada artigo, as passagens diferentes a que as edições costumam remeter; consultai o Index tertius, esse tesouro, imperfeito, mas ainda assim tesouro; comparai; estudai de sorte que os documentos se completem e comentem mutuamente, e depois redigi o artigo estudado. Excelente ginástica que dá maleabilidade, amplidão e vigor ao espírito, e o torna preciso, inimigo do sofisma e do pouco mais ou menos, e ao mesmo tempo o enriquece de noções claras, profundas, bem encadeadas, sempre ligadas aos princípios primeiros, constituindo, pela sua coadunação, uma forte síntese.


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(1) É curioso que, na hora atual, a própria ciência convida o sábio a elucidar problemas que até aqui dependiam da filosofia: casualidade, determinismo, probabilidade, contínuo e descontínuo, espaço, tempo, etc. Logicamente, o sábio, nesses casos, deveria recorrer ao filósofo; mas este, as mais das vezes, retrai-se, fecha-se nos seus antigos quadros, e o sábio vê-se então obrigado a filosofar por si próprio, e fá-lo sem experiência e muito frequentemente de través.

(2) Cf. sobretudo, Suma Teologica, toda a Questão I; Comentário ao De Trinitate, de Boécio, Questão II, art. 2; Contra Gentes. liv. I, cap. I.

(3) Escreveu Carlos Dunan: <>. Les Deux idéalismes, Paris, Alcan, 1911, P. 182.

( 4) A título de auxiliar, seja-me permitido indicar o Catecismo dos Incrédulos, publicado com o fim de facilitar aos nossos contemporâneos a compreensão da doutrina cristã c das suas bases.

( 5) Não se julgue que o Autor possui um segredo para ensinar o latim em dois meses! Não se trata do latim clássico, mas do latim empregado por S. Tomás. O vocabulário tomista é tão reduzido, as construções sempre as mesmas e tão alheias ao que torna difícil o latim, que só um preguiçoso recuará diante da conquista deste tesouro.

( 6) Cf. o livro elementar de J. Maritain, Éléments de Philosophie, Paris, Téqui, 1920. Para estudo mais profundo: A.D. Sertillanges, Saint Thomás d'Aquin, 2 vols. [Coll. <>], Paris, Alcan, 1910.

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