segunda-feira, 3 de maio de 2010

"Eu sei que já ganhamos várias almas através do prazer. Ainda assim, o prazer é invenção d'Ele, não nossa."

[Esta carta foi transcrita do livro "Cartas de um Diabo a seu Aprendiz", de C.S. Lewis. Esta correspondência se dá entre o experiente diabo (Fitafuso) e o seu sobrinho Vermebile. Lewis nos dá uma aula de como são as artimanhas e arapucas utilizadas pelo diabo para nos confundir. Hoje, Lewis se surpreenderia como nós demos tão rapidamente ao diabo o maior prêmio que ele poderia receber: não acreditar na existência dele; ou, acreditar em demasia e se sentir atraído por ele! Amigo da cruz]


Querido Vermebile,

Espero que a minha última carta o tenha convencido de que a tribulação, o ponto baixo de "aridez" e embotamento que o seu paciente enfrenta no momento, não irá, por si só, dar-lhe a sua alma, e sim que é algo que precisa ser devidamente explorado. A seguir discorrerei sobre como explorar essa fase.

Em primeiro lugar, sempre fui da opinião de que os períodos de baixa da ondulação humana nos dão uma excelente oportunidade para todas as tentações de cunho sensual, principalmente as do sexo. Talvez isso seja uma surpresa para você, porque, afinal de contas, é nas fases de pico que existe mais energia física e, portanto, mais apetite em potencial; mas você deve se lembrar de que o poder da resistência também está no seu nível máximo. A saúde e a disposição que você quer usar para produzir a luxúria também podem — ai de nós — ser facilmente usadas para a labuta, a diversão, o pensamento ou a alegria inócua. O ataque será mais bem-sucedido quando todo o mundo interior de um homem estiver frio, vazio, triste. Também é importante notar que a sexualidade nas fases de baixa difere sutilmente em qualidade da sexualidade nas fases de pico — está bem menos propensa àquele fenômeno insípido que os humanos chamam de "apaixonar-se", mais propensa a ser atraída para as perversões e bem menos contaminada por aqueles adendos generosos, cheios de imaginação e até mesmo espirituais que geralmente fazem com que a sexualidade humana seja tão decepcionante.

O mesmo acontece com os outros prazeres da carne. Você terá mais chance de tornar o seu homem um legítimo alcoólatra se lhe empurrar a bebida como solução para sua apatia e exaustão do que ao encorajá-lo a usar a bebida como forma de diversão entre amigos quando ele estiver feliz e expansivo. Nunca se esqueça de que, quando lidamos com qualquer prazer, na sua forma normal e gratificante, estamos, de certo modo, no campo do Inimigo. Eu sei que já ganhamos várias almas através do prazer. Ainda assim, o prazer é invenção d'Ele, não nossa. Ele concebeu prazeres. Nossa pesquisa, até o momento, não permitiu que produzíssemos sequer um deles. Tudo o que podemos fazer é encorajar os humanos a abordar os prazeres que o nosso Inimigo criou e usá-los de certas formas, ou em certos momentos, ou em certo grau que Ele tenha proibido. Sempre tentamos, portanto, trabalhar longe das condições naturais de qualquer prazer, e sim naquelas em que ele é menos natural, em que menos sugira seu Criador, e menos gratificante. A fórmula, portanto, resume-se a uma ânsia cada vez maior por um prazer cada vez menor. É mais seguro e é mais elegante. Possuir a alma de um homem e não lhe dar nada em troca — é isso o que realmente alegra o coração do nosso pai. E as fases de baixa são a época em que devemos dar início a esse processo.

Mas existe um método ainda melhor para explorar os momentos de baixa, que é através dos próprios pensamentos do paciente sobre eles. Como sempre, o primeiro passo é afastá-lo do conhecimento. Não o deixe sequer suspeitar da existência da lei da ondulação. Deixe-o pensar que seria natural que o entusiasmo inicial de sua conversão durasse e que deveria ter durado para sempre, e que o seu atual estado de aridez é um estado igualmente permanente. Uma vez que essa crença errônea estiver bem arraigada dentro dele, você poderá avançar de diversas maneiras. Tudo dependerá de o seu homem ser do tipo fácil de desencorajar, aquele que pode ser tentado a cair em desespero, ou de ser do tipo adepto do auto-engano, aquele que pode ser levado a acreditar que está tudo bem. É cada vez mais raro o primeiro tipo entre os humanos. Se o seu paciente for desse tipo, tudo será mais fácil. Você deverá apenas afastá-lo da influência dos Cristãos mais experientes (o que é fácil de conseguir nos dias de hoje), voltar sua atenção para as passagens apropriadas nas Escrituras e guiá-lo para que fique totalmente determinado a recobrar seus sentimentos anteriores através da pura força de vontade. Se você fizer isso, ele será nosso. Se ele for do tipo mais esperançoso, seu trabalho consistirá em fazê-lo resignar-se à atual frieza de sua alma e gradualmente contentar-se com ela, tentando convencer-se de que, afinal de contas, ela não está tão fria assim. Dentro de uma ou duas semanas, ele ficará em dúvida se os primeiros dias do seu Cristianismo não foram talvez um tanto exagerados. Converse com ele sobre "moderação em todas as coisas". Se você conseguir fazê-lo chegar ao ponto de pensar que "a religião é benéfica só até certa medida", você poderá então soltar fogos de artifício, pois a alma dele estará prestes a ser sua. Uma religião moderada é tão proveitosa para nós quanto religião nenhuma - e ainda mais divertida.

Existe também a possibilidade de atacar a sua fé diretamente. Quando você conseguir fazê-lo imaginar que o período de baixa é permanente, será que não poderia também persuadi-lo de que "sua fase religiosa" irá acabar, como todas as suas fases anteriores? É claro que não existe um modo concebível de ir, através da lógica, da afirmação "Estou gradualmente perdendo interesse por este assunto" até a afirmação "Tudo isso é falso". Mas, como eu disse anteriormente, você deve contar com o jargão, não com a razão. A simples palavra "fase" certamente fará a mágica. Suponho que a criatura já passou por várias fases antes — todos eles passam — e que ele se sinta superior a todas as fases ruins das quais conseguiu sair; não porque ele as tenha realmente avaliado, mas apenas porque estão no passado. (Imagino que você sempre o alimente com ideias nebulosas sobre Progresso, Desenvolvimento e o Ponto de Vista Histórico, e que lhe dá muitas biografias modernas para ler, não é? Nesses livros, todas as pessoas estão sempre saindo de fases, não é mesmo?)

Captou a ideia? Distraia a atenção dele da simples antítese entre Verdadeiro e Falso. Ponha em sua mente algumas expressões bem vagas - "foi só uma fase", "já passei por isso" — e nunca se esqueça desta bendita palavra: "adolescente".

Afetuosamente, seu tio,

FITAFUSO
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Transcrito do livro:

CLIVE STAPLES LEWIS, Cartas de um Diabo a seu Aprendiz, Carta 9, Oxford, 1942.

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