terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Vontade forte!

Já sabes agora, meu filho, de quem se pode dizer: eis um caráter bem formado! Não pode tratar-se senão de um jovem que tem nobres princípios, um ideal elevado, e que sabe ser-lhe fiel. Sim, permanecer fiel àquilo que reconheceu ser a verdade, mesmo se mais ninguém a professa, mesmo se todos os que o rodeiam são indiferentes e apáticos... Permanecer-lhes fiel, apesar de mil exemplos contrários, permanecer-lhes fiel em qualquer circunstâncias!

Ai! como isto é difícil e penoso, por vezes!

Quando rapazes indelicados e atrevidos se divertem, há já meia hora, a amesquinhar o companheiro um tanto desajeitado, e que este, qual infeliz cordeirinho perseguido por cães de caça, implora em vão socorro com um olhar suplicante, - desviar então a atenção desses traquinas para que eles terminem as suas diabruras - eis um ato de ternura, de coragem, de fidelidade aos princípios! Uma vontade forte!

Quando alguns estudantes, mais ou menos céticos, começam a troçar, rindo-se grosseiramente das mais sagradas verdades da religião e procuram deitar por terra os ensinamentos do padre com "argumentos" extraídos de velhos livros encontrados não sei onde - levantar a voz em favor da verdade religiosa ultrajada, denunciar claramente os erros e os sofismas destes "argumentos", e isso decididamente, mas sem ferir ninguém - eis um caráter heróico! Uma vontade forte!

Quando os risos chocarreiros dos colegas te chegam pela janela aberta e te dão vontade de deixar o aborrecido problema de álgebra que deverias fazer, para correres com eles para o recreio - permanecer fiel ao dever e dizer simplesmente "não", é ainda sinal de um caráter firme, de uma vontade forte!

Durante as perseguições sangrentas dos primeiros séculos do Cristianismo, um pobre camponês foi preso e conduzido junto da estátua de Júpiter. "Deita incenso no fogo e sacrifica aos nossos deuses!" - lhe disseram. "Não!" - respondeu simplesmente...

Começam a torturá-lo; não se queixa. Levantam-lhe o braço de modo que a mão fique precisamente por cima das chamas, e metem-lhe dentro incenso. - "Deixa cair o incenso e serás livre!" - "Não" - responde de novo Barlaam. E fica lá imóvel, com o braço estendido... A chama sobe mais alto, começa a queimar-se; já o incenso fumega; mas o homem não se mexe... a mão é queimada com o incenso, mas Barlaam prefere o martírio a negar o seu Deus. Uma vontade forte!
Oh! meu querido filho, como hoje são raros, entre nós, estes caráteres de martírio! Destes caráteres que já o poeta pagão cantava:

Justum ac tenacem propositi virumSi fractus illabatur orbisImpavidum ferient ruinae

Eis outro exemplo: aquele soldado de Pompeia que a erupção do Vesúvio encontrou no seu posto. Tudo à sua volta é reduzido a cinzas pela lava ardente; tudo se desmoronou; o mundo parece ter acabado... mas ele fica ali, imóvel, fiel até à morte, no posto em que o dever o colocou. Vês, meu filho, é esta retidão, esta fidelidade aos princípios, é a esta fronte erguida que nós chamamos caráter!

Ai! lançando um olhar sobre a juventude contemporânea, vejo tipos tão diferentes! Oh! tão, tão diferentes! Vejo estudantes perfumados, de todo preocupados com a moda. Vejo alguns que saem de um cinema para entrar logo noutro, que não procuram senão distrações mundanas, que só têm uma preocupação: a do seu monóculo ou dos seus cigarros, que só vivem para o esporte. Vejo-os preguiçosos. Sim, vejo muitos, muitos estudantes que não estudam... Um paradoxo!
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*Extaído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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