terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Sofrer sem se queixar

A vida humana é uma série ininterrupta de alegrias e tristezas que alternadamente se sucedem; e, para muitos de nós, os dias sombrios são mais numerosos que os de bom sol. Quem diz viver, diz sofrer.

Na vida de um jovem há já dificuldade, provações mais ou menos duras, insucessos, mal-entendidos, doenças, sofrimentos físicos e morais. E onde melhor se revela o caráter é precisamente em suportar os golpes que o ferem: Sustine!

Muitas vezes, os indigentes olham os ricos com inveja, e os estudantes pobres invejam os seus colegas mais afortunados. Parecem não acreditar que cada um de nós tem, sobre a terra, o seu quinhão de aflições - de uma maneira ou de outra.

Há homens que cerram furiosamente a mão e que blasfemam contra a sua sorte no tempo de sofrimento: são almas grosseiras. Outros há que, de cabeça baixa e morte na alma, choram o seu destino com impotente resignação: são almas fracas. E há-os ainda que, sofrendo embora nas horas de provação ou de doença, chorando a morte de um ente querido, sabem que o sofrimento virilmente suportado é o fogo que dá ao aço do caráter a mais bela têmpera. Pode-se ser pobre e feliz, rico e infeliz ao mesmo tempo. Pode ser-se feliz com um corpo doente, e infeliz com uma saúde de ferro. Pode ser-se cego e feliz, ao mesmo tempo, como melancólico com olhos de águia. Tudo depende da maneira como nós deixamos o sofrimento operar em nossa alma. Utiliza-o então, meu filho, na educação d teu caráter. Lembra-te sempre de que uma dor suportada pacientemente aumenta o valor de um homem, que aquele que se faz pequeno cresce, que aquele que sabe humilhar-se se eleva, que a cólera dominada torna mais forte; numa palavra, que o sofrimento suportado com Deus torna a alma mais pura e o caráter mais nobre.

Um quadro tem sempre luz e sombras. O talento do artista consiste precisamente em harmonizar estes dois contrastes e fazer sair deles a beleza. - Deus, que é o nosso Pai celeste, conhece as nossas dificuldades. Foi Ele que permitiu que tal infortúnio nos viesse. Tal infortúnio faz, portanto, parte dos seus desígnios a nosso respeito. Qual é este desígnio? Como o poderíamos nós conhecer com o nosso pobre cérebro humano? Punir-nos-á pelos nossos pecados passados? Quererá tornar-nos mais fortes em vista do futuro? Purificar-nos? tornar-nos mais sérios? Quererá dar-nos ocasião de fazermos provisão de merecimentos? Não o sabemos. Mas uma coisa sabemos nós: é que a nossa alma deve sair mais pura, mais profunda, mais grave, melhor, numa palavra, do fogo do sofrimento. A nossa oração, nesses dias sombrios, deve ser esta:

Senhor, seja feita a vossa Vontade,
No bom tempo como na tempestade!
Vossa Vontade se faça, Senhor,
Na alegria ou quando chega a dor!
Senhor, vossa vontade seja feita:
Vós sabeis o porquê - minh'alma aceita-a!

O sofrimento suportado sem se queixar é um excelente meio de desenvolver o caráter e fortalecer a vontade. É natural que o homem procure livrar-se do sofrimento. Mas, se não o consegue, mau é que procure aliviar-se, lamentando-se e chorando... Procura tu, com todas as tuas forças, resignar-te naquilo que não puderes mudar, pôr em paz a tua alma, e terás feito muito para fortificares a vontade. A alma de vontade fraca deixa-se reduzir a pó sob o camartelo do sofrimento. Inversamente, o caráter viril, lançará, talvez, chispas, mas, tal como o aço, torna-se depois mais resistente. "Pode mostrar-se tanto heroísmo no leito da dor, como no campo de batalha" - disse Séneca. Isto significa que o sofrimento é a melhor escola do caráter. Se te encontrares a braços com a contrariedade, lembra-te das palavras do barão J. Eötvös: "As provações da vida não têm o poder de abater aquele que sabe, no meio de atrozes torturas, guardar a confiança na Providência". Do fundo da tua alma roga com aquele grande cristão: "Dai, Senhor, aos outros, caminhos planos, nos quais se pode caminhar muito tempo sem fadiga. Dai-lhes os bens que eles mais desejam. Para mim, peço-vos uma senda pedregosa e áspera, com bom aspecto todavia, que me conduza sempre mais resoluto, e que eu possa seguir com a convicção de que não me perderei". (Eötvös)

Se os Romanos diziam que "é uma virtude romana fazer grandes coisas": "fortia agere romanum est" - acrescenta-lhe tu que "é uma virtude cristã sofrer muito" "- fortia pati christianum est".

Pensa um pouco na tristeza sem nome, no negro pessimismo, na melancolia indizível, que inundavam, no tempo do paganismo, as almas mais nobres. Hoje não encontro um único ser que não preferisse a morte a tal existência. Os gozos desregrados dos sentidos davam-lhes o desgosto do mundo; e, no entanto, não tinham outros desejos senão esses. Somente um ou dois tiveram como que um pressentimento do Cristianismo, o que os elevou às mais puras regiões.

Quando estão na adversidade, o pagão e o descrente não sabem senão ranger os dentes; ao passo que o cristão suporta a dor pacientemente, e não com o cego fatalismo daqueles. Sem dúvida, o Cristianismo não pode fazer desaparecer do mundo a miséria, o sofrimento e as múltiplas tentações que conduzem ao pecado, mas sabe, ao menos, dar-lhes explicação, justificar os desígnios de Deus.

Acaso, sofres tu muito, meu filho? És pobre e doente? Teus pais estão na miséria? Suportas duras provações? Pergunta-te onde quererá Deus chegar. Talvez te esteja punindo dos teus pecados passados! Talvez Ele queira amadurecer a tua alma para uma vida mais fervorosa, temperar a tua alma como o fogo tempera o aço! Talvez ainda Ele queira aumentar os teus merecimentos para a vida eterna! Talvez te conduza através da existência como o guia da montanha conduz o viandante! - "Porque escolhes estas veredas escarpadas, pedregosas e incômodas?" - pergunta este. - "É preciso assim - responde aquele - porque só por estas veredas podemos chegar ao sítio maravilhoso que vamos ver. Pelos caminhos largos e fáceis, em breve estaríamos na planície". - "Porque motivo devo eu sofrer tanto?" - exclamas tu também. Mas como podes tu sabê-lo? Só Deus o sabe! Examina bem um belo tapete da Pérsia: que magnífica harmonia de linhas e de cores! Volta-o: no avesso não verás senão uma intrincada confusão de fios. É assim a vida. Nós só vemos o avesso. O direito, isto é, o grande pensamento unificante, está na mão de Deus. É o próprio Deus eterno que tece o tapete da nossa existência, e a nossa limitada inteligência não pode descobrir as suas intenções. Os seus pensamentos não são os nossos caminhos.

Um dia, Santa Catarina de Sena teve de lutar contra uma tentação extremamente violenta. Tendo-a vencido com dificuldade, lamentava-se ela tristemente: "Onde estáveis, meu Jesus, enquanto a obscuridade invadia o meu coração?" - "Estava na tua alma - responde o Redentor. Se eu lá não estivesse, os pensamentos que assediavam o teu espírito teriam penetrado na tua vontade e teriam causado a morte à tua alma". Quando sofreres, não te assustes então, meu filho. Toda a força do oceano embravecido pode quebrar-se contra um só rochedo!

Não imites as plantas que estão direitas enquanto o sol as acaricia, mas que se fecham e se deixam esmorecer, logo que chegou o crepúsculo. O sofrimento é uma obra de arte divina talhada no mármore da tua alma. O que Deus quereria encontrar em tua alma é o ouro. E o ouro - sabe-lo bem - não está à superfície; é preciso procurá-lo nas profundezas. O mármore deve abafar mais de um soluço sob as marteladas do escultor. Mas não vês que, se o artista ligasse importância a isso, não poderia nunca fazer dele uma linda estátua,... uma obra-prima?...

Por isso, meu filho, não busques o sofrimento; mas se ele vier, olha-o bem de frente.
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*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

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