terça-feira, 19 de janeiro de 2010

PORQUÊ SOU CATÓLICO

GILBERT KEITH CHESTERTON: PORQUÊ SOU CATÓLICO


Por Gilbert Keith Chesterton (1874-1936)

Tradução: Rondinelly Ribeiro

Fonte: The Collected Works of G.K. Chesterton, Vol. 3

A minha dificuldade em explicar por quê sou católico decorre do fato de existirem cerca de dez mil razões, mas todas se resumindo em apenas uma: porque o Catolicismo é verdadeiro. Poderia preencher todo este texto com frases isoladas, cada uma se iniciando pelas palavras: "é a única que. . .", como, por exemplo, (1) é a única que realmente evita que o pecado de se torne um segredo; (2) é a única onde o superior não pode ser superior, no sentido de arrogante; (3) é a única que liberta o homem da degradante escravidão do ambiente de sua época; (4) é a única que fala como se suas palavras sempre fossem verdadeiras; como se fosse um mensageiro que se recusa a adulterar uma mensagem verdadeira; (5) é o único tipo de Cristianismo que realmente contém todo tipo de pessoas; inclusive as mais respeitáveis; (6) é a única que tenta mudar o mundo a partir do interior; através da escolha, não pelas leis; e assim por diante...

Ou poderia tratar a questão pessoalmente e descrever minha própria conversão; mas tenho a sensação que este método faria desmerecer o assunto em questão. Muitos homens sábios foram convertidos às piores religiões. Eu prefiro muito mais tentar mencionar aqui sobre a Igreja Católica as coisas que não foram ditas mesmo por seus muitos e respeitáveis rivais. Em resumo, eu diria primeiramente sobre a Igreja Católica que ela é católica. Antes gostaria de deixar bem claro que ela não é somente maior que eu, mas maior que qualquer coisa no mundo; ela é de fato maior que o mundo. Mas como este espaço é curto, a considerarei em sua capacidade de guardiã da verdade.

Outro dia um conhecido escritor, de certa maneira bem-informado, disse que a Igreja Católica é sempre inimiga das novas idéias. Provavelmente não ocorreu a ele que sua própria observação não era precisamente uma novidade. Esta é uma das concepções que os católicos vêm continuamente refutando, porque ela mesma já é muito antiga. De fato, estes que se queixam de que o catolicismo não consegue dizer nada de novo, raramente pensam ser necessário dizer qualquer coisa nova sobre o catolicismo. Aliás, um estudo sério e real da história mostrará fato contrário. À medida que as idéias realmente sejam idéias, e à medida que tais possam ser novas, os católicos sempre sofreram por sustenta-las quando eram novidades; quando eram novas demais para encontrar qualquer outro apoio. A Igreja Católica não foi somente a primeira neste campo, mas a única; e assim está, e até agora ninguém consegue compreender o que ela tem descoberto.

Assim, por exemplo, quase duzentos anos antes da Declaração de Independência e da Revolução francesa, numa época dedicada à ostentação e ao elogio dos príncipes, o cardeal Belarmino e Suarez, 'o Espanhol', derrubaram toda a teoria da democracia real. Porém, naquela época de Direito Divino, eles somente causaram a impressão de serem modernistas e Jesuítas sanguinários, rastejando com punhais para assassinar os reis. Então, novamente, os pensadores das escolas católicas disseram tudo que poderia ser dito sobre seus problemas práticos e até os problemas de nossa própria época, duzentos anos antes destes serem escritos. Disseram que realmente haveria problemas de conduta moral; mas tiveram o infortúnio de afirmar isto duzentos antes. Num tempo de fanatismo, de livre e fácil vitupério, eles foram classificados como mentirosos e plagiadores por estarem sendo psicólogos antes que a psicologia fosse moda. Seria fácil citar vários outros exemplos, além de casos de idéias que ainda são muito recentes para serem entendidas. Há passagens do documento Rerum Novarum, publicado em 1891 pelo do Papa Leão, que só agora começam a ser usadas como sugestão para movimentos sociais muito mais recentes que o socialismo. E quando Belloc escreveu sobre o Estado Servil, desenvolveu uma teoria econômica tão original que dificilmente alguém já a tenha compreendido inteiramente. Alguns séculos doravante, outras pessoas provavelmente a reproduzirão, e o farão de forma errada. E então, se os católicos se manifestarem, seu protesto será explicado pelo fato, bem conhecido, de que os católicos não dão valor a novas idéias.

Não obstante, o homem que fez aquela observação sobre os católicos quis dizer algo; Preferindo tornar mais clara sua afirmação, é mais justo fazer entender o seu significado. O que ele quis dizer era que, no mundo moderno, a Igreja Católica é de fato a inimiga de muitos modismos influentes; a maioria reivindica ser nova, embora muitas delas estejam na verdade começando a se tornar um pouco antigas. Em outras palavras, o que ele quis dizer sobre a Igreja freqüentemente atacar o que o mundo em um determinado momento apóia está perfeitamente correto. A Igreja geralmente se manifesta contra os modismos passageiros deste mundo; e tem experiência suficiente para saber quão rapidamente são fugazes. Mas para entender exatamente o que está envolvido, é necessária uma visão mais ampla e considerar a natureza última das idéias em questão, para entender, por assim dizer, a idéia da idéia.

Nove entre dez das chamadas ?novas idéias? são na verdade erros antigos. A Igreja Católica tem como um de seus deveres de liderança prevenir que as pessoas caiam nestes erros; de os tornar eternos, como as pessoas sempre fazem se forem deixadas por si mesmas. A atitude Católica frente à heresia, ou como alguns dizem, frente à 'liberdade', pode ser explicada talvez pela metáfora de um mapa. A Igreja Católica carrega um tipo de mapa da mente como o mapa de um labirinto, e ela é o guia deste labirinto. Foi compilado do conhecimento que, considerado como humano, é completamente sem qualquer paralelo humano.

Não há outro caso de uma instituição inteligente contínua que tenha refletido sobre o pensar por dois mil anos. Sua experiência cobre quase todas as experiências; e especialmente quase todos erros. O resultado é um mapa em que todos os becos sem saídas e estradas mal conservadas estão claramente demarcados, todos os caminhos que demonstraram ser os piores pela melhor das evidências: a dos que foram derrotados por eles.

Neste mapa, os erros são exceções. A melhor parte dele consiste em pátios de recreio e alegres campos, onde a mente pode ter a liberdade que desejar; sem mencionar qualquer campo de batalha intelectual em que esta batalha está indefinidamente aberta e indecisa. Porém ela assume a responsabilidade da demarcação de certas estradas que levam a parte alguma, ou à destruição, a uma parede rígida, ou a um íngreme precipício. Desta forma, evita que os homens desperdicem seu tempo ou percam suas vidas em caminhos que foram fúteis ou desastrosos repetidas vezes no passado, e que podem receber viajantes outras vezes no futuro. A Igreja faz-se responsável por advertir seus membros contra estes maus caminhos; e sobre estes depende a real questão do caso. Ela defende dogmaticamente a humanidade de seus piores inimigos, esses monstros horríveis encanecidos de devoradores dos antigos erros. Hoje todas estas falsidades apresentam um meio de parecerem suaves, especialmente à geração moderna. Sua primeira declaração sempre soa inofensiva e plausível. Darei somente dois exemplos. Parece inofensivo dizer, como muitas pessoas já disseram: "Ações somente estão erradas se são más para a sociedade" Siga-o, e cedo ou tarde você terá a crueldade de um enxame de abelhas ou de uma cidade de pagãos, estabelecendo a escravidão como o melhor e mais barato meio de produção, torturando os escravos nos julgamentos, porque o indivíduo não é nada ao Estado, declarando que um homem inocente deve morrer para povo, como fizeram os assassinos de Cristo. Então, talvez, voltarás às definições católicas, e descobrirá que a Igreja, enquanto diz que é nosso dever trabalhar para a sociedade, também proíbe a injustiça individual. Ou novamente, parece simples e inócuo dizer: "Nosso conflito moral deve acabar com uma vitória do espiritual sobre o material" Siga-o, e cedo ou tarde você acabará como um maniqueu, dizendo que o suicídio é bom porque é um sacrifício, que uma perversão sexual é boa porque não produz nenhum fruto, que o demônio fez o sol e lua porque são materiais. Então podes começar a imaginar por quê o catolicismo insiste na existência de espíritos do mal e do bem; e que o que é material também podem ser sagrado, como na Encarnação ou a Missa, no sacramento do matrimônio ou a ressurreição do corpo.

Hoje não há outra instituição no mundo que esteja atenta a prevenir as pessoas dos falsos caminhos. O policial chega muito atrasado quando tenta prevenir os homens do erro. O médico também chega muito atrasado, pois ele só vem para trancafiar o louco, e não para aconselhar um homem são em como não ficar louco. E todas as outras seitas e escolas são inadequadas para este propósito. Não é porque cada uma delas não possa conter uma verdade, mas precisamente porque cada uma delas contêm a sua verdade. Nenhuma das outras realmente pretende conter a verdade. Isto é, nenhuma das outras realmente pretende estar buscando na mesma direção. A Igreja não está simplesmente armada contra as heresias do passado e mesmo do presente, mas igualmente contra as do futuro, e estas podem ser o exato oposto destas do presente. O catolicismo não é ritualismo; pode no futuro lutar contra algum tipo de superstição ou de um exagero idolátrico do ritual. O catolicismo não é asceticismo; repetidas vezes no passado reprimiu exageros cruéis e fanáticos de asceticismo. O catolicismo não é meramente misticismo; está agora mesmo defendendo a razão humana contra o mero misticismo dos pragmáticos. Assim, quando o mundo tornou-se puritano, no século XVII, a Igreja foi acusada de tornar a caridade um sofisma, por tornar tudo fácil por causa do confessionário. Agora que o mundo não está se tornando puritano, mas pagão, é a Igreja que em todo lugar protesta contra uma lassidão pagã do modo de vestir e tantos outros costumes. Está sendo feito o que os puritanos desejavam que fosse feito. Entre todas as possibilidades, tudo que é melhor no Protestantismo somente sobreviverá no Catolicismo; e neste sentido, todos os católicos serão puritanos quando todos os puritanos serão pagãos.

Dessa forma, por exemplo, o catolicismo, de uma certa forma pouco compreendida, permanece fora de discussões como sobre o Darwinismo. Fica fora dela porque fica ao redor dela, como fica uma casa ao redor de dois móveis perpendiculares. Não é nenhum sectarismo vangloriar-se em dizer que ela está anterior, posterior, e além de todas estas coisas em todos os sentidos. É imparcial na disputa entre o Fundamentalista e a teoria da Origem das Espécies, porque retrocede a uma origem anterior àquela Origem, que é mais fundamental que o fundamentalismo. Ela sabe de onde veio a Bíblia. Também sabe para onde vão a maioria destas teorias da Evolução. Sabe que existem muitos outros evangelhos além dos Quatro Evangelhos, e que os outros só foram eliminados pela autoridade da Igreja Católica. Sabe que há muitas outras teorias evolutivas além da teoria de Darwin; e que há grande possibilidade de que esta última seja eliminada por uma ciência mais tardia. Não aceita, no sentido convencional da palavra, as conclusões da ciência, pela simples razão de que a ciência nada concluiu. Concluir é fechar, decidir; e não é provável que o homem da ciência assim possa proceder indubitavelmente. Não acredita, no sentido da convencional da palavra, no que a Bíblia diz, pela razão simples de que a Bíblia sozinha não diz nada. Você não pode por um livro no local das testemunhas (NT: como nas cortes judiciárias) e perguntar para ela o que realmente ela significa. A própria controvérsia fundamentalista destrói o fundamentalismo. A Bíblia por si mesma não pode ser base de acordo quando é causa de discórdia; não pode ser o fundamento comum dos cristãos quando alguns tomam-na alegoricamente e alguns literalmente. O católico refere-a a algo que possa dizer algo, ao vivo, consistente e contínuo entendimento de que tenho falado; a sabedoria de um homem guiado por Deus.

Cada momento faz crescer em nós a necessidade moral de uma mente imortal. Devemos ter algo que suportará os quatro cantos do mundo, enquanto fazemos nossas experiências sociais ou construímos nossas utopias. Por exemplo, nós devemos possuir um pacto definitivo, se somente pelo truísmo da fraternidade humana resistiremos a alguma reação da brutalidade dos homens. Nada é mais provável agora mesmo do que a quebra de um modo geral da liberdade dos ricos por causa da corrupção do governo, ignorando todas as tradições de eqüidade com mero orgulho pagão. Devemos ter o truísmo em parte reconhecido como verdadeiro. Devemos evitar a repetição sombria dos erros antigos. Devemos tornar o mundo intelectual seguro para a democracia. Mas nas condições da moderna anarquia mental, nem ela nem nenhuma outra idéia estará segura. Assim como os protestantes apelavam aos seus pastores com relação à Bíblia, e não percebiam que a Bíblia também poderia ser questionada, da mesma forma os republicanos apelavam aos reis com relação ao povo, e não percebiam que o povo também podia ser desafiado. Não há nenhum fim para a dissolução das idéias, a destruição de todas as provas da verdade, que tenha se tornado possível a partir do momento em que o homem abandonou a tentativa de manter uma verdade central e civilizada, para conter todas as verdades e caminhos, e que refute todos os erros. Desde então, cada grupo tomou para si uma verdade e gastou o seu tempo para torná-la uma falsidade. Não tivemos nada mais que movimentos; ou em outras palavras, monomanias. Mas a Igreja não é um movimento, mas um local de reunião; o rendez-vous de todas as verdades do mundo.
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(1874-1936), Gilbert Keith Chesterton. Apostolado Veritatis Splendor: GILBERT KEITH CHESTERTON: PORQUÊ SOU CATÓLICO. Disponível em http://www.veritatis.com.br/article/1924. Desde 01/09/2003.

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