terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Obedecer sem murmurar

Um outro meio de educação do caráter é a obediência... É preciso obedecer quando se é novo. Mas, refletindo bem, agora que o teu espírito começa a amadurecer, verás que a obediência é a base indispensável da tua liberdade e de toda a vida social.

É lindo ver um grupo de escoteiros ou de filiados da Mocidade Portuguesa marchando com garbo e que, a uma palavra do comandante, ficam repentinamente pregados ao solo! E o que é que nos dá esta impressão agradável, senão a sua obediência perfeita?

E porque é necessário que obedeças? Em primeiro lugar, porque não és um ser independente.

"O que? Eu não sou independente? De quem, ou de que é que eu dependo?"

- Dependes, meu amigo, de uma multidão de pessoas e de coisas. Estás longe de ser o centro do mundo, e não podes viver como se não tivesses necessidade de ninguém. Queres saber quem poderia viver independentemente de tudo, sem se preocupar com alguém ou com o que quer que fosse? Aquele e só aquele que se desse a si mesmo a vida, que se metesse no berço e se alimentasse por si mesmo, que talhasse a sua estatura, que não tivesse necessidade de bem algum terrestre, que, ao morrer, se deitasse a sua estatura, que não tivesse necessidade de bem algum terrestre, que, ao morrer, se deitasse ele mesmo no caixão, cavasse a própria sepultura e se enterrasse a si próprio. - Ris-te? Dizes que tal homem não existe? Tens toda a razão. Acabas, pois, de verificar que não se encontra na terra um homem perfeitamente independente.

Além disso, é preciso obedecer porque é a obediência que nos torna perfeitamente livres. - "Não será antes a desobediência?" - pensarás. Não, meu amigo. A desobediência abre as portas aos excessos e à licença. Observa o cavalo que, rebentando os arreios e quebrando as rédeas, se precipita em corrida veloz. É livre? Não. Não sabe para onde vai. Pode matar-se.

É necessário ainda obedecer pra aprender a mandar. - A vontade humana não se inclina de bom grado senão diante de uma forte personalidade; e quanto mais te submeteres de bom grado à legítima vontade dos outros, mais força ganhará a tua alma. O caminho que conduz à liberdade espiritual tem a palavra "obediência" à maneira de tabuleta.

"A minha alma era completamente livre quando eu obedecia" - faz dizer Goethe ao seu Efigênio (V, 3). A obediência é um excelente meio de fortalecer a vontade. Bem sabes que aqueles que te mandam - teus pais e professores - o fazem para teu bem, e não na intenção de te humilhar ou te fazer desesperar. Tens de reconhecer que um estudante de catorze ou dezesseis anos não pode ter uma experiência e um raciocínio tão seguros como o seu pai de quarenta ou cinquenta anos. Por consequência, se teus pais ou os teus professores te ordenarem qualquer coisa, fá-la imediatamente, sem murmurações e sem desgosto - ainda que te pareça que, desta vez, são duros a teu respeito. Lembra-te que és ainda muito leviano e inexperiente, que tens ainda grandes dificuldades em te subtrair a influências exteriores enganadoras e aos cegos impulsos de teus sentidos. Ainda nunca ouvi alguém, chegado à idade de homem, lamentar-se da severidade de seus pais durante a sua infância. Mas conheço muitos que, mais tarde, lamentaram amargamente não lhes terem obedecido melhor quando eram crianças.

Sei que tu, meu querido filho, és obediente.

Sê-o sempre - não porque é necessário, mas porque tu o queres, porque sabes que é para teu bem. Exercita-te em querer fazer o que deves fazer; isto te aproveitará duplamente. Repete muitas vezes a oração sublime de Santo Agostinho: "Senhor, permiti que eu faça a vossa vontade, e depois mandai o que quiserdes".
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*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

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