terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O que queres vir a ser?

Sim, o que queres vir a ser? Supões, talvez, que me interesso aqui pela escolha da tua carreira. Não; não é isso que aqui me interessa. Não te pergunto se queres ser médico ou negociante, engenheiro ou sacerdote, advogado ou industrial; para onde irás, aonde te conduzirão os teus talentos, a tua vocação, as circunstâncias, a tua situação social... pouco me importa isso aqui. Mas o que me importa muito, é que venhas a ser um homem e que cumpras o teu dever na situação que tiveres escolhido.

Sim, mais uma vez, que queres vir a ser? Se eu te faço esta pergunta à maneira de adeus, é porque eu desejaria saber se já alguma vez te perguntaste qual é a verdadeira finalidade, a grande missão do homem neste mundo. Porque, neste mundo, tudo, até o inseto mais minúsculo, até o mais pequeno grão de areia, tem um sentido, uma significação, um encadeamento estreito com o universo inteiro. Muitas vezes, esta finalidade, este destino das coisas, é dificilmente perceptível; não obstante, tudo a tem.

Só o homem não haveria de ter a sua finalidade? A sua é até a mais sublime de todas. E qual é então esta finalidade do homem?... A glorificação de Deus e a sua própria felicidade.

Que quer isto dizer? Isto quer dizer que deves empregar todas as tuas forças para realizar o teu ser essencial, a substância da tua vida na sua inteira totalidade. Por outras palavras: deves vir a ser um homem de caráter, um cristão e um patriota de caráter irrepreensível.

E quem é um homem de caráter? Aquele que ousa afrontar a corrupção moral sob todas as suas formas.

E quem é um cristão e um patriota de caráter irrepreensível? Aquele que não blasona de patriota com palavras teatrais, mas que serve a sua pátria com uma vida honesta e uma fidelidade inviolável ao seu dever.

Meus filhos: com a energia indomável de vossas almas juvenis, trabalhai por virdes a ser cristãos que honram a sua pátria!

A grande nação de tempos antigos - o Império Romano - edificou em Roma uma igreja magnífica. Deram-lhe o nome de "Panteão" e para ela trouxeram todos os deuses dos povos subjugados. Os ídolos mais extravagantes encontraram lugar neste templo construído com arte incomparável, e estas imagens grotescas - sinais de tentativas confusas da alma humana - davam uma nota triste e dissonante no meio de ricos tesouros acumulados sob as maravilhosas arcadas das colunas coríntias.

Um dia, em princípios do século IV, chegaram a esta cidade alguns viajantes estrangeiros: eram cristãos vindos de muito longe. Entraram no Panteão e, à vista de todas estas divindades pagãs de rostos extravagantes, ficaram possuídos de profunda tristeza. Um deles tomou então o seu pequeno crucifixo que trazia ao peito, tendo-o colocado ao pé da enorme estátua de um daqueles deuses, retirou-se em silêncio com os companheiros.

Olha, meu filho: esta pequena cena assemelha-se muito à luta que um jovem cristão deve sustentar hoje no panteão dos ídolos modernos. Ao saíres da escola, também tu hás-de sentir o sopro gélido do paganismo contemporâneo passar sobre o ideal da tua alma juvenil. No mundo, onde mutuamente se empurram e se espezinham uns aos outros para passar à frente, encontrar-te-ás bem depressa diante do panteão de erros e de preconceitos malsãos diante dos quais tantos dos teus compatriotas estarão de joelhos e como que em êxtase, - panteão onde só não terá lugar a adoração ao verdadeiro Deus.

E - quer queiras quer não - serás obrigado a penetrar neste panteão, e a ficar rodeado deste novo paganismo. O que então te importará será precaver-te bem para não te tornares também pagão.

Se trouxeres a cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo ao peito e no teu coração, se viveres segundo os princípios cristãos, se não te envergonhares do teu crucifixo no meio dos teus companheiros e de teus amigos, no teu ofício, na sociedade, e isso por toda a tua vida, ficarás cristão, irradiarás luz, alegria, bom exemplo. E, assim, de jovem de caráter, tornar-te-ás homem de caráter.
---------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Receba nossas atualizações