terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O perigo do bom êxito

Bem sei que o bom êxito é um grande estímulo para o homem, que ajuda a perseverar nos seus esforços, e que depressa nos desmoralizamos quando nada nos sai bem. Também compreendo perfeitamente que os êxitos e os elogios dão satisfação a um jovem. E, todavia, meu filho, eu desejaria exortar-te a nunca te deixares seduzir por estas vantagens. Porque, se é verdade que o inêxito pode, por vezes, quebrar a energia, também acontece com frequência que os louvores recebidos demasiado depressa ou mesmo só imaginados ocasionam a ruína dos talentos mais sérios.

Um rapaz começa, por exemplo, a tocar violino ou a dedicar-se à pintura. Em jantar de festa, os seus pais e amigos aplaudem-no como um novo Mozart ou um novo Munkesy. Nada mais lhe é preciso: julga-se imediatamente um gênio capaz de abalar o mundo, um "super-homem", e começa a conduzir-se como se imagina que convém a um senhor. Torna-se pedante, original. Nada lhe faz já impressão. Critica à direita e à esquerda. E, sobretudo, não mais estuda. "É o meu talento que me fará viver" - diz ele.

Ignoro se já correste o perigo dos elogios abusivos, se já te saudaram como o grande pianista ou o grande pintor do futuro. Mas, peço-te instantemente, meu filho, que, se Deus te deu realmente algum talento artístico, o cultives o melhor que puderes, mas sem por isso perderes o sentido das proporções, o bom equilíbrio. Não julgues facilmente que virás a ser um poeta célebre ou um músico de renome, e que, por esta razão, não precisas de estudar outras matérias. Certamente, deves aproveitar o talento que Deus te deu, mas isso não há de impedir-te de obter um diploma ou de aprender um ofício que poderá garantir-te a existência. Seria um grande erro querer alguém fiar-se nas suas competências. Uma vez chegado a adulto, verificarás que o mercado dos talentos está cheio de talentos medíocres, e que aqueles que fundaram todas as suas esperanças em suas obras artísticas, quase nunca chegam a ser nada na vida. Além disso - confessa-o ainda - é-se mais útil à humanidade confeccionando um par de botas bem feitas, do que escrevendo um grande volume de versos confusos ou borrando alguns quadros sem gosto.
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*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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