terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O jovem teimoso

Um jovem teimoso!... Dá-se hoje a estas palavras um significado estranho. Quase não servem senão para designar alguém como agressivo, cabeçudo, desobediente. Quanto a mim, prefiro dar a esta expressão o significado original: por jovem teimoso, entendo um jovem que tem vontade de ferro. A caturrice e a obstinação não são fruto de uma vontade de ferro - são uma contorção da vontade. Um jovem teimoso, no verdadeiro sentido da palavra, é aquele que sabe imperar aos seus músculos facciosos, aos olhos, ao ouvido, ao estômago.

Examinemos mais de perto que infelicidade não é para alguém ter apenas vontade fraca, e, inversamente, que bênção seria tê-la de ferro.

1º Aquele que não tem a vontade bem exercitada e bem dócil, é incapaz de desempenhar uma missão séria, seja ela qual for. Conheces, decerto, estudantes que não podem ser acusados de preguiçosos, e que, não obstante, não fazem progressos em seus estudos. Batizei-os acima: "estudantes zangões".

Trabalham muito estes infelizes - talvez mais que os outros - mas sem resultado algum. Não sabem o que é estudar atentamente, ocupam-se de tudo, sem nunca se ligarem decididamente a uma coisa. Têm sempre diante de si um livro de estudo, mas substituem-no cada quarto de hora, por o acharem já "horrivelmente insuportável"! Estão sempre trabalhando, mas evitam fazer o mais leve esforço; e, sem esforço, não há trabalho eficaz. Em suma, não fazem mais que dissimular habilmente a preguiça dando-lhe a aparência de febril atividade. Chegado, porém, o fim do ano - como eles se lamentam amargamente! "Trabalhei tanto - dizem eles - e, não obstante, fiquei reprovado!".

E, uma vez deixados os estudos, que se tornam eles?... Vítimas de suas impressões de momento, homens sem princípios, que esquecem facilmente os seus deveres, que levam uma existência ao acaso e sem destino. Infelizes! E qual foi o defeito que ali os conduziu? A fraqueza de vontade.

2º Passemos a outro tipo: ao jovem cuja vontade não é disciplinada... "Esse tal é incapaz de examinar uma coisa a fundo".

E, todavia, todo aquele que quiser aumentar o número de seus conhecimentos ou conhecer o triunfo, deve habituar-se a uma observação rápida e perfeita das coisas. Para lá chegar, é necessariamente preciso ter a vontade disciplinada - para vir a saber distinguir o que é mais importante daquilo que o é menos, para fazer uma ideia exata da situação em que se encontra e agir com lógica e consequência...

Uma vontade disciplinada não está somente ao nosso serviço quando se trata de ver, ouvir, dizer ou fazer alguma coisa; ela obedece-nos e preserva-nos de muitas quedas, quando nos é necessário não olhar, não escutar, não dizer e não fazer aquilo que os nossos sentidos depravados quereriam e que as leis da moral nos proíbem.

3º Vou mais longe: aquele que não tem a vontade disciplinada não pode refletir nem desenvolver o seu espírito. Para se chegar à verdade é preciso trabalhar com firmeza e persistência. Um jovem de natureza instável é impaciente, mesmo quando lê. Volta agitadamente as folhas do livro: deseja chegar à última o mais brevemente possível. Isso nada lhe aproveita. O jovem de vontade dócil, ao contrário, lê lenta e atentamente; demora-se nas frases mais importantes e sublinha-as; não aceita ao acaso as ideias que contêm, mas reflete sobre elas seriamente para verificar se o autor tem ou não razão; toma nota das passagens mais interessantes, etc. Somente assim se podem adquirir conhecimentos novos. Também isto supõe uma vontade firme.

4º É ainda preciso uma vontade forte para recordar as coisas. Há estudantes que julgam ter saído de embaraços quando, em vez de responderem à pergunta, afirmavam sem hesitar: "Eu sei, senhor Professor, mas agora não me lembro"... ou ainda - se lhes confiaram um trabalho que esqueceram - que supõem ser o "esquecimento" uma justificação aceitável... E, no entanto - à parte casos de doença de nervos - o hábito de esquecer as coisas deve ser escrito, a maior parte das vezes, no capítulo da vontade indisciplinada. Se uma palavra, um nome ou um acontecimento não te vierem ao espírito, não olhes imediatamente para o livro - é o que fazem os estudantes preguiçosos - mas esforça-te por os recordares, afirmando assim a tua vontade. E se te derem uma incumbência qualquer, não te contentes com fazer um nó na ponta do lenço para te recordares, mas pensa nela frequentemente, muitas vezes no dia, e verás que não a esqueces.

O esquecido que faz isso facilmente se corrigirá do seu mau hábito. O homem pode tornar-se a tal ponto senhor da sua vontade que em momento algum lhe perde o domínio, nem mesmo dormindo. Conheço pessoas que se exercitaram a despertar por si a uma hora exata que fixaram ao deitar. - Se, inversamente, um jovem não lutar contra o hábito de esquecer as coisas, ficará sempre esquecido, mesmo homem feito, e hão-de hesitar em lhe pedir qualquer serviço, e terá com frequência dissabores. Entra ao serviço dos caminhos de ferro e confiam-lhe a vigilância da linha? Omitirá, uma ou outra vez, algum sinal e o comboio descarrilará. - Vem a ser professor? Esquecer-se-á de dar a lição. - Advogado? Não irá à audiência. - Pode até acontecer que esqueça o dia do seu casamento!
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*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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