terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O exemplo de Demóstenes

Demóstenes tinha apenas sete anos quando lhe morreu o pai. O seu tutor, pouco escrupuloso, esbanjou-lhe a fortuna... Encontrando-se, um dia, no Palácio da Justiça, por ocasião de uma audiência, ficou entusiasmado com o discurso de um advogado: e, vendo o povo levar o advogado em triunfo, concebeu a ideia de também ele vir a ser orador.

A partir deste momento, não mais teve outra preocupação no seu espírito... Os seus primeiros ensaios não foram, porém, felizes. O seu primeiro discurso foi abafado pelos gritos e gargalhadas do auditório; nem sequer pôde chegar ao fim. Desanimado, vagueava pelas ruas, havia já semanas, quando um velho, reanimando a sua energia, o levou a retomar os exercícios. Demóstenes deu-se ao trabalho com novo ardor, e quando os adversários zombavam dele, não lhes dava atenção. De vez em quando, retirava-se completamente do convívio do mundo e passava dias inteiros a falar diante das paredes de alguma gruta subterrânea. Como gaguejava um pouco, metia uma pedrinha debaixo da língua para melhor a dobrar. Durante os longos passeios que, só, dava à beira-mar exercitava-se a gritar em alta voz - tinha os pulmões fracos - e a declamar assim, ao ar livre, versos e discursos. Cada vez que presenciava uma grave disputa, retirava-se imediatamente para o quarto, e, ali, pesava e tornava a pesar os argumentos dos dois adversários, procurando ver bem qual tinha razão. Graças a estes contínuos e infatigáveis esforços de vontade, triunfou de todas as suas fraquezas e veio a ser o mestre de eloquência cujos discursos, ainda hoje - dois mil e trezentos anos após a sua morte - são lidos com interesse e proveito por quantos pretendem êxitos oratórios. Que belo exemplo nos dá o órfãozinho gago! E que maravilhosas forças se encontram escondidas no fundo da alma humana! Por vezes, são os mais atrozes sofrimentos corpóreos que nos mostram o que o homem é capaz de sofrer.

Durante os primeiros meses da guerra de 1914, servir eu na frente, na Sérvia. Um dia trouxeram-nos um hussard que tinham encontrado num pântano. A sua companhia, caída nas mãos do inimigo, tinha desaparecido toda debaixo da metralha. Só ele tinha escapado às balas, escondendo-se nas águas lamacentas de um pântano. Mas teve de manter-se escondido no charco durante muito tempo, porque os soldados sérvios, em cima das árvores vizinhas, tinham continuado, durante muitos dias, a inspecionar os arredores. Só depois de os sérvios terem partido é que os nossos encontraram este pobre hussard, extremamente enfraquecido, e no-lo trouxeram. Havia sete dias que não comia senão ervas! Do que um homem é capaz!

É possível que já tenhas ouvido contar casos de moribundos a que só a vontade forte de viver retinha a alma no corpo quase desfeito... porque eles queriam ver, ainda uma vez mais, por exemplo, a esposa ou um filho ausentes e que vinham a toda a pressa para junto dele. Sim, uma vontade forte é a melhor das medicinas para um corpo doente; e, por isso, meu filho, não te deixes abater pela tristeza, ainda que a Providência te tenha dado um corpo fraco e doente!

Um fidalgo húngaro, o conde Géza Zichv, falecido há anos, tinha perdido um braço na caça, quando jovem. Com uma só mão veio a ser, todavia, um dos mais afamados artistas de piano do seu tempo... Quantos jovens teriam sucumbido para sempre sob um semblante desastre! Perder um braço em plena juventude! Vê, pois, quanto pode a força de vontade, mesmo num corpo mutilado!

Tu serias, meu filho, bem mais agradecido à divina Providência pelas tuas mais pequenas qualidades, se quisesses recordar-te de que os maiores homens de todos os séculos tiveram, muitas vezes, de lutar contra pequeninos defeitos, contra as calamidades, até mesmo contra doenças hereditárias! Wallenstein, célebre chefe do exército alemão durante a guerra dos trinta anos, tinha os nervos de tal modo doentes que não podia sequer ouvir cantar um galo. Richelieu, eminente estadista francês, empalidecia de pavor à simples vista de um esqueleto. Bayle não podia ouvir a água cair às gotas. O cheiro do peixe causava febre a Erasmo de Roterdão. Scaliger punha-se a tremer todo quando via leite. Goethe sofria horrivelmente com o fumo do tabaco.

Eis ainda alguns casos mais surpreendentes.

A história conservou o nome de muitos homens que albergaram uma alma de gênio num corpo fraco e doente. Helmholz, físico célebre, tinha a cabeça enorme, como os imbecis. O filósofo Spinosa e o poeta clássico Schiller eram tuberculosos. Descartes, Kant, Milton, tinham uma saúde raquítica; o último até era cego. Não obstante, que nome brilhante adquiriram pelo trabalho!

Aqui está o que pode uma vontade forte! Sim, a alma é certamente capaz de remediar, ao menos em parte, a fraqueza do corpo.

Acontece, às vezes, que jovens doentes se lamentam vendo os seus companheiros de opulenta saúde. Se for esse o teu caso, meu filho, não te aflijas. Se, quando nasceste, recebeste um corpo débil e fraca saúde, não é culpa tua. Aliás, isso não poderá impedir-te de levares uma vida útil e verdadeiramente bela.
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*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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