terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O estudante pobre

Sinto-me sempre comovido quando vejo a luta quase sobre-humana que alguns jovens têm de sustentar para poderem continuar seus estudos. Lembro-me de um cujos pais, pobríssimos, viviam no campo e eram incapazes de o auxiliar eficazmente neste ponto. O rapaz aprendia bem; era muito aplicado. Levantava-se cedo para ter tempo de fazer os seus exercícios escolares e de ensinar ainda um colega mais novo. Nunca tomava o pequeno almoço e, ao meio-dia, tomava a refeição em casa de uma família que tinha dó dele. Trazia a comida remendada. No Inverno, não tinha aquecimento no quarto. Era seu companheiro de carteira um estudante elegante e perfumado. Este tinha uma gola de pele no casaco de Inverno, e, durante o recreio das dez horas, comia, com fastio, indolentemente, sentado num canapé, um pãozinho com presunto e manteiga. O meu pobre amiguinho via-o fazer isto quase com as lágrimas nos olhos. "Meus Deus, meu Deus, porque tenho eu de lutar tão amargamente" - dizia ele. Escuta-me, meu filho: se és um destes estudantes pobres, desejaria consolar-te. A pobreza não é vergonha. Além disso, os anos de estudo passados na luta têm um imenso valor educativo. O teu colega rico, que cresce no bem-estar, gastará facilmente o tempo precioso da juventude, que não mais voltará, em divertimentos, prazeres, distrações contínuas - em desportes levados ao excesso, o que seria ainda o menor mal. Para ele, o liceu perturba as suas habituais distrações, ao passo que para o pobre o estudo é um prazer, um conforto, uma consolação - a esperança de um futuro melhor. Conheço muitos rapazes para quem a falta de ideias sérias e a ausência de gosto pelo trabalho são justamente motivadas por um expressivo bem-estar. Rodeados de amigos igualmente levianos, perdem o tempo a jogar partidas de bilhar, a passear nas ruas elegantes, a dançar, a fazer flirt. Oh! não quero negar que a pobreza pode dar-nos muitos momentos amargos, pode cortar as asas a muitos talentos! Mas estou igualmente certo de que é maio o número de talentos e de caracteres que naufragaram no bem-estar. O jovem muito rico não sente razão alguma para trabalhar. Inversamente, para o pobre o mundo é como que um grande armazém, onde, graças ao seu trabalho, ele poderá comprar o que quiser. Chegado à idade madura, se, pelo seu trabalho conseguiu uma boa posição, saberá então apreciar quanto deve às privações da juventude.

O jovem rico - mesmo quando bem intencionado - nos seus estudos só procura um diploma; o estudante pobre adquire, além disso, sofrendo fome e frio no decurso dos anos do liceu, confiança em si mesmo, firmeza, prontidão nas decisões, e a faculdade de se dominar em todas as situações. Muitos talentos se perdem, sem dúvida, no alforge da pobreza, mas perdem-se muitos mais ainda no bem-estar que a riqueza traz.

"Os deuses vendem todas as suas mercadorias pela moeda do trabalho" - diz um provérbio grego. André Carnégie, conhecido milionário, dá-nos uma boa lista de grandes industriais americanos que começaram a sua vida como simples operários ou caixeiros sem capital: Wanamaker, Claflin, Lord, Field, Barr, Rockefeller, Gould, Seligmam, Wilson, etc. Garfield que, mais tardem veio a ser presidente dos Estados Unidos, era tão pobre na sua juventude que, na idade de 16 anos, quando resolveu embarcar, teve de apresentar-se como ceifeiro a um pequeno lavrador para ganhar dinheiro para a viagem. O lavrador recusou-se a aceitá-lo, dizendo que para aquele trabalho precisava de homens, não de moços.

"E se o moço puder fazer trabalho de homem, não valerá tanto como ele?" - perguntou-lhe Garfield em tom respeitoso, mas firme. A resposta agradou tanto ao patrão que imediatamente contratou o rapaz.

No dia seguinte, o patrão mandou-o ceifar com quatro homens em pleno vigor da idade, os quais, depois de terem troçado do novo ceifeiro, pegaram com ardor no trabalho, supondo que o jovem companheiro depressa perderia o fôlego. Enganaram-se. Este acompanhou-os tão bem que os quatro, ao meio-dia, já desejavam bem o repouso. As mãos de Garfield estavam cheias de "borregas" (ampolas), mas não se queixava. Depois do jantar, pediu aos companheiros que o deixassem dirigir o trabalho: queria mostrar ao patrão que sabia trabalhar como um homem. Os ceifeiros consentiram nisso, mas em breve se arrependeram, porque Garfield conduziu o trabalho com ardor tal que os quatro homens, que não queriam ficar atrás, quando chegou a tarde, estavam exaustos. De seu lado, Garfield não parecia muito fatigado; e quando os outros se foram deitar, pediu ainda ao patrão uma candeia. - "Para que?" - perguntou o patrão admirado. - "Ainda queria estudar um pouco - respondeu Garfield - porque, durante o dia, não tive tempo".

- "Mas, meu rapaz, tu hoje trabalhaste por três, tens necessidade de repouso. Ora dize-me lá como te chamas?" - "Chamo-me James Abraham Garfield" - respondeu-lhe pegando na candeia. Foi para o quarto e estudou durante boa parte da noite. Este pobre estudante veio a ser Presidente dos Estados Unidos!

Poderia escrever-te páginas e páginas de histórias semelhantes a esta. A vida é cheia de exemplos animadores.

-------------------------------------------------------------
*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S. L.]: Coimbra, 1963.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Receba nossas atualizações