terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O escravo da consciência

O escravo da consciência! Este título lê-se como o de um romance de detetives, - pensarás. Mas enganas-te. Se se pode dizer de um jovem que é senhor da sua vontade e escravo da sua consciência, é a maior honra que se lhe pode fazer. Se fores capaz de permanecer invencível e continuamente fiel a tudo o que a consciência te ordena, és um rapaz de caráter nobre.

Em todos os veículos há um pequeno prego que mal se vê mas que tem a maior importância: é o do eixo. Se cair, o carro pode continuar a andar ainda durante algum tempo. Mas a roda não tardará a cair e o veículo voltar-se-á.

No caminho do caráter encontrarás também um pequeno princípio, na aparência superficial, mas, de fato, muito importante: a adesão sem reserva à voz da consciência. É indispensável que te tornes seu servidor submisso, seu dócil cordeiro.

Tem dois inimigos, esta voz da consciência. Primeiro: o mundo que te rodeia e a contradiz quase sempre; segundo: dentro de ti, as tuas desordenadas inclinações, os teus instintos que despertam e que procuram levar-te a não lhe dares ouvidos.

Acontece-se, algumas vezes, teres momentos de entusiasmo em que pareces andar pelas regiões etéreas, muito acima dos nevoeiros terrestres; tomas então a resolução firme de seguir sempre a voz da tua consciência, de jamais abandonar o caminho da honra, de nunca pensar, dizer ou fazer uma coisa que seja um pecado. Nestes momentos sentes-te tão leve, tão bom, tão feliz! - Mas, uma hora mais tarde, já te apercebes de que tal ou tal colega, e ainda este e aquele, não observam os mandamentos de Deus; que tal livro, tal peça de teatro, tal filme, não fazem senão expor ao ridículo os teus nobres princípios - do primeiro ao último. É a provação, talvez a maior das provações; porque, se toda a gente fosse má, como poderias tu permanecer bom? Se todos os teus colegas fossem sem caráter, como poderias tu sozinho permanecer fiel ao teu nobre ideal?... Eu te digo, meu filho: quando toda a gente viesse a mentir, seria então necessário que nunca mentisses; quando todos os colegas fossem para o campo passear ao domingo, durante a santa missa, seria então necessário que tu os não imitasses; quando todos fossem grosseiros na linguagem, seria necessário que tu ficasses calado.

E encontrarás ainda outras provas, porque os inimigos da consciência não são somente externos; há-os internos no teu próprio coração.

É costume chamar-se à consciência a voz de Deus. E não haverá razão para isso? Quem nunca ouviu esta voz, no seu foro íntimo?

Sempre que um rapazinho queria intrometer-se com um colega, uma voz, suave como o som de uma pequena campainha de prata começava a retinir dentro dele: "Não o faças, não o faças". Quando queria o que lhe não pertencia, a mesma voz se ouvia ainda. E quando estava tentado a cometer um pecado muito maior, deixava de ser a voz suave da campainha, para se assemelhar ao som de um grande sino que dá pancadas desesperadas: "Não o faças! Não o faças!" - dizia a consciência agitada.

Recomendo-te, ainda uma vez mais e bem alto, meu filho, que te habitues, desde hoje e sem reserva, a escutar a voz da tua consciência. É a tua juventude que decidirá se, mais tarde, serás ou não homem consciencioso. E tu bem sabes que, para a sociedade, o homem consciencioso é como que o pilar sobre o qual repousa o edifício inteiro.

Quem diz escravo da sua consciência, diz escravo de Deus; e quem diz escravo de Deus, quer dizer completamente livre.

Não conheço louvor comparável ao que se fez, um dia, de um deputado inglês, falecido ainda novo: "Todo o seu ser parece estar impregnado dos dez mandamentos de Deus".

Nada receies do mundo, salvo a tua consciência! Aquele que, com receio de ser ridicularizado, omite as coisas que a consciência lhe ordena, é um caráter muito fraco.

O jovem que não ousa rezar ou pôr-se de joelhos na igreja, "porque as outras pessoas reparam", é escravo da sua fraqueza, não da sua consciência.

Huxley tem muita razão em dizer: "A virilidade bem compreendida é uma vontade forte, dirigida por uma consciência delicada".

Aquele que, antes de cada uma de suas ações, se pergunta medrosamente o que, a tal respeito, dirão os outros, não tem vontade, e o seu caráter está longe de ser firme. Quem age segundo os seus instintos, sem ouvir a voz do bom-senso, quem coloca os desejos agradáveis antes dos estritos deveres, igualmente não é um caráter firme.

O coração te ditará os desejos.

A consciência apontará o dever!

Se quiseres cantar vitória plena,

à segunda deverás obedecer!

(F.W. Weber)

Os antigos reis da Pérsia mandavam pôr no seu travesseiro 50 mil talentos de ouro - uma soma enorme! - a fim de assegurar-se um bom repouso. O imperador Calígula, além da sua guarda pessoal, tinha animais selvagens às portas do palácio para não deixar chegar ninguém junto dele, enquanto dormia. Artemon punha um escudo por cima da cabeça, para impedir que o teto o esmagasse, se, por acaso, caísse durante a noite. Mas o que é tudo isto!... O melhor dos travesseiros é uma consciência tranquila.

Sê senhor da tua vontade, escravo da tua consciência!

Pedro de Verona sofreu o martírio pela sua fé. Foi rasgado com estiletes. Depois dos primeiros golpes, exclamou com firmeza: "Credo!"(1) - "Eu creio!". E, quando caiu por terra, já sem poder falar, molhou o dedo no próprio sangue e escreveu no solo esta mesma palavra: "Credo". Era um caráter, um escravo da sua consciência.

(1) Credo, em latim, significa [EU] CREIO.
--------------------------------------
*Extaído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Receba nossas atualizações