terça-feira, 19 de janeiro de 2010

O demônio do dinheiro

Noutros tempos, antes da guerra de 1914, um estudante dispunha de muito pouco dinheiro. Seus pais davam-lhe, quando muito, alguns reais para trazer no bolso e que ele podia gastar à sua vontade. E contentava-se com isso. Hoje, porém, neste tempo anormal em que vivemos, a sede do dinheiro, o auri sacra fames, perturba muitas almas de rapaz. Não é raro vê-los especular, jogar na Bolsa. Há muito bem pouco tempo, não se suicidava um rapaz de dezessete anos porque não podia fazer face às perdas que acabava de sofrer nesse jogo? Que horrível tragédia! Não será, por isso, inútil falar aqui um pouco deste assunto.

Eu queria, meu filho, que tivesses noções bem claras sobre o valor do dinheiro. Decerto, não se pode viver sem dinheiro; mas é igualmente certo que viver somente para o dinheiro é indigno de um homem. Correr atrás do dinheiro não pode ser um fim digno de uma existência humana; o dinheiro não passa de um meio para se procurarem os bens mais necessários à vida. E se, infelizmente! o bezerro de ouro tem ainda tantos adoradores como outrora, no tempo em que os Judeus se prostravam diante dele no Deserto, - se, ainda hoje, se avaliam, muitas vezes, as pessoas pelo seu automóvel ou por suas propriedades, - peço-te instantemente a ti, meu filho, que as não julgues senão pela sua honra!

Um dia, um homem extremamente rico declarou à beira da morte: "Durante quarenta anos, trabalhei como um escravo para arranjar a minha fortuna; o resto da minha vida gastei-o a guardá-la como um detetive; e que recebi eu por tudo isto? O alimento, a habitação e o vestuário... nada mais!" São Bernardo disse com razão: "Junta-se a fortuna com o trabalho, guarda-se com inquietação, e perde-se com dor".

O poder não dá a felicidade,

Nem o luxo ou grandeza no viver;

Também o mar, na sua imensidade,

Não vale a fonte para quem quer beber.

(Reviczky)

Não será então permitido arranjar fortuna, mesmo por meios legítimos? Evidentemente que é. Somente, a riqueza tem as suas obrigações, e o homem rico que não cuida fazer todo o bem que pode peca gravemente. Segundo a sublime doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo, não é permitido amontoar riquezas senão para serem empregadas a fazer o bem. Ah! é necessário repelir o comunismo e defender o direito de propriedade; mas não é menos necessário reconhecer que as enormes fortunas particulares que existem ainda hoje não foram arranjadas só pelos seus proprietários, que centenas de trabalhadores as regaram com o suor do seu rosto, - e que, por consequência, estas fortunas, pelo menos em parte, devem ser utilizadas para o bem de toda a humanidade.

"Noblesse oblige" - a nobreza obriga - diz uma bem conhecida divisa. Mas a riqueza obriga também! Obriga a auxiliar os que precisam, a fazer caridade... Não esqueças nunca as graves palavras de Constantino Magno: "Ser imperador, é uma questão de sorte; mas, se a sorte te pôs no trono, procura desempenhar bem as tuas funções!" - Peço-te, meu filho, mormente se Deus te deu pais ricos, que cultives em ti o sentido social da riqueza, e que cedo te deixes penetrar da concepção cristã da caridade. "A riqueza endurece o coração" - disse Börne. Se és filho de um industrial ou de um negociante, pensa um pouco na quantidade de mineiros que suam e penam nas entranhas da terra à luz de uma lanterna bruxoleante, - no número de operários que trabalham junto de fráguas ardentes e de locomotivas movidas a vapor, - na quantidade dos acidentes de que todos podem ser vítimas no seu penoso trabalho. É tudo isso - não o esqueças - que traz ao cofre de teu pai enormes receitas. Todos estes pobres têm uma família: mulher, filhos - filhos como tu - que, muitas vezes, não têm o que comer!... Se estes pensamentos encontrarem albergue em teu coração, saberás auxiliar os pobres, consoante os teus recursos. E, o que é mais importante ainda, conservarás vivo outro pensamento, infelizmente tão desconhecido de tantas pessoas ricas: Deus emprestou-te somente a sua grande fortuna, e, no teu último dia, terás de dar-lhe conta exata do seu emprego. Crê-me: se todas as pessoas ricas vivessem assim - e é isso que a religião cristã lhes pede que façam - a questão social que esconde tantos perigos e que ameaça o mundo com um abalo profundo, poderia ser resolvida num só dia. "A tua riqueza e os teus grandes rendimentos serão para ti uma bênção, se te servirem para dares mais" - disse Kazinezy.

Sim, dá ao teu próximo, dá à tua pátria!... Perguntaram, um dia, a alguém, tornado poderosamente rico depois de ter sido extremamente pobre, o que é que ele tinha feito para juntar tão grande fortuna. "Meu pai - respondeu - ensinou-me a nunca ir divertir-me antes de ter acabado o meu trabalho, e a não gastar nunca o dinheiro antes de o ter ganho". Estas palavras tão simples encerram grande sabedoria. Não gastar levianamente o dinheiro que outros ganharam! Não se é independente, não se é homem, enquanto se gastar o dinheiro dos outros... E, mesmo para um estudante, é esta a norma - não poderia ser doutro modo. É natural, sem dúvida, que ele gaste o dinheiro de seus pais. Mas que se abstenha de gastar em superfluidades um centavo que seja!... E ainda, que nada compre a crédito; quer dizer, que ele não gaste dinheiro de que não terá a posse senão no dia seguinte ou depois!

Gasta sempre menos do que tens. Quantos estão descontentes com a sorte, não porque lhes faltem recursos, mas porque se julgam na impossibilidade de reduzir as despesas! Quantos grandes proprietários, senhores de verdadeiros latifúndios, caíram na pobreza por não terem obedecido a esta regra! Não quiseram acreditar o que Walter Scott faz dizer a um de seus heróis históricos: "mais almas foram levadas à morte pelo dinheiro, que corpos pelos fios das espadas". - Ao contrário, pessoas de medianos rendimentos, fazendo economias, vivem tranquilas e sem preocupações.

Muitos rapazes não sabem gastar dinheiro. Falo daqueles que são incapazes de passar diante de uma confeitaria, uma casa de objetos fotográficos ou desportivos, uma exposição de selos ou um cinema, cada um conforme as suas preferências, sem lá entrar imediatamente, se trazem uns centavos no bolso. Estes rapazes, embora disponham de imensos rendimentos quando forem homens, nunca estarão satisfeitos; nem mesmo virão a ser ricos, porque a fortuna fundir-se-á em suas mãos como a neve ao sol.
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*Extraído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

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