terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Levantou-se com o pé esquerdo

A tua alma, com o tempo, está sujeita a variações. Umas vezes, é inundada de sol, e tu sentes-te alegre como um pássaro. Outras vezes, ao contrário, e sem tu lhe saberes a razão, é envolvida por espesso nevoeiro úmido. Há dias em que estás de bom humor, e então o trabalho parece-te fácil. Outros há em que o tempo chuvoso, um desgosto, uma dor de cabeça, etc., entristecem-te a ponto de te encrencares com toda a gente.

"Levantou-se com o pé esquerdo" - dizem de ti, nesses dias. Tu, por tua vez, dizes: "Parece que estou em dia de azar!..."

Estes estados não dependem de nós; não somos, portanto, responsáveis por isso. Mas depende de nós que nos esforcemos por nos tornarmos senhores destas más disposições e por não nos deixarmos andar de um lado para outro, ao sabor do nosso capricho, no cumprimento dos nossos deveres. Quando estamos de bom humor, aproveitemo-lo quanto pudermos; nessas horas, o trabalho rende mil vezes mais. Mas, se nós só estudarmos quando estamos bem dispostos, nunca faremos coisa que se veja. E, sobretudo, que viremos nós a ser, mais tarde, se desprezarmos os deveres de estado quando o trabalho nos repugna?...

Meu filho, quando não estiveres disposto para um trabalho que tens obrigação de fazer, procura fazê-lo, apesar de tudo. Entrega-te ao trabalho, seja ou não do teu agrado. Dize-te a ti mesmo: "Não importa! é o meu dever - fá-lo-ei".

- "Um trabalho assim não valerá muito" - dirás. Enganas-te. Terá a imensa vantagem de te habituar ao cumprimento do dever, a não obedeceres a teus caprichos, a dominá-los. De mais, não é somente no trabalho que nos é necessário saber dominar o humor; é-o também em nossas relações sociais e em toda a nossa conduta! Se estás de mau humor, é necessário que o não faças sentir à tua família por mais modos, respostas secas ou uma cara engelhada. Quantas vezes temos a lamentar palavras ofensivas e atos irrefletidos para os quais nos deixamos ir sob a influência da má disposição! Quantas vezes ainda, depois de ter falado com precipitação, sem pensar em ofender alguém, nós, verificando que fizemos mal, exclamamos: "Meu Deus! eu não queria isso! Não o disse por mal!". Mas... veio demasiado tarde o arrependimento! A verdadeira grandeza da alma revela-se na adversidade, nas horas de perigo ou de revés.

Permanecer confiante nos dias sombrios, arrastar com o infortúnio sem embicar, não se deixar esmagar por uma fatalidade - é essa a virtude dos carvalhos, dos rochedos - das grandes almas! E é também a daqueles que sabem vencer o seu mau humor.

Nas profundezas do mar, onde nunca chegam os raios do sol, onde a natureza já não tem cores, onde a temperatura se mantém invariavelmente à volta do zero, onde se rarefaz o pouco ar que o oceano contém, onde o peso desmedido das águas deveria esmagar tudo, neste mistério obscuro das ondas - oh! maravilha! - vivem peixes luminosos. Nada lá chega da energia radiante do sol, desta fonte única de luz terrestre; uma obscuridade acabrunhadora e gelada se estende sob as ondas; mas a sabedoria do Criador não esqueceu estes lugares sombrios, e criou peixes, semelhantes a lanternas vivas, que vivem e giram nestas densas trevas. Alguns têm sobre as ilhargas glândulas que brilham como pérolas; outros têm, à frente, no cimo da cabeça, como que uma pequena lente que recebe a luz destas mesmas glândulas, intensifica-se e projeta-a para a frente, como faria um refletor. Ora, meu filho, se as profundezas do oceano escondem uma vida assim radiosa, não tens tu razão alguma, se a boa ordem reina em tua alma, para te deixares oprimir por ideias negras; nenhuma razão para te "levantares com o pé esquerdo"... Sim, esforça-te por seres alegre como as aves, que a força luminosa da tua alma vencerá o teu mau humor. Sê sempre, em casa, uma fonte de vida, de alegria, de jovialidade e de luz, sobretudo nas horas em que o véu sombrio da tristeza, das preocupações materiais e dos múltiplos males da vida cobre a alma de teus pais.

"Post tenebras spero lucem!" (Jó, XVIII, 12). Depois da obscuridade vem a luz; depois da chuva, o bom tempo!
------------------------------------------
*Extaído do livro: TOHT, Tihámer. O jovem de caráter. [S.L]: Coimbra, 1963.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Receba nossas atualizações