terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Gênio ou perseverança

O trabalho aturado, mantido durante longo tempo, assemelha-se à água que corre brandamente, desde há séculos: cava um leito profundo.

Nem toda a gente pode vir a ser um gênio: isso só é dado a um pequeno número. Mas todo o homem deve escolher um objetivo elevado que deverá procurar realizar durante toda a vida com assídua perseverança - um objetivo que nunca deverá perder de vista e que será como que o esqueleto, a espinha dorsal de toda a sua atividade. O próprio gênio está sujeito a esta lei: deverá ligar-se forte e apaixonadamente a um determinado ramo da arte ou da ciência.

As obras de arte e os resultados científicos que maior honra dão ao espírito humano não são fruto de uma inspiração passageira do gênio, mas de uma infatigável paciência, semelhante à das formigas. Por consequência, os jovens apenas dotados de talento médio, podem também aspirar a resultados brilhantes, se tiverem vontade ativa e perseverante, porque o segredo do êxito neste mundo é ligar-nos com um "quero" tenaz a um nobre objetivo. A única diferença entre um grande homem e um homem insignificante não é, muitíssimas vezes, senão uma indomável energia e uma vontade implacável que falta a este e que caracteriza aquele, ao serviço de um objetivo comum. A perseverança, a aplicação e o trabalho têm feito incomparavelmente mais bem ao mundo, do que o gênio com os seus mais brilhantes dons.

Sem aplicação contínua, não há recompensa. O trabalho inspira sempre respeito. - "Vá depressa; acabemos com isto quanto antes!" - é a divisa de muitos estudantes. Queres saber quanto tempo levou Dante para acabar a sua obra imortal - "A Divina Comédia"? Precisamente 30 anos.

Dickens, o grande escritor inglês, disse que cada um dos seus livros lhe tinha custado imenso trabalho. O historiador americano Prescott estava já quase completamente cego quando, para terminar a sua grande obra - "Fernando e Isabel de Espanha" - achou indispensável aprender as línguas modernas e consagrou-lhes dez anos. O célebre astrônomo, Newton recomeçou quinze anos a sua "Cronologia", e só então ficou satisfeito com ela. O imortal pintor Ticiano, enviando ao imperador Carlos V o seu quadro "A última ceia", escrevia-lhe: "Majestade: envio-vos um quadro em que trabalhei quase todos os dias e, muitas vezes, até de noite, durante sete anos". Virgílio levou vinte anos a compor a "Eneida" e, antes de morrer, quis destruí-la por não a achar suficiente boa.

Fénelon refundiu dezoito vezes o seu livro notável sobre a educação, intitulado "Télémaque", e da última vez ainda lhe fez muitos retoques. Edison mal tinha saído da infância e já passava muitas noites a ler - não romances - mas obras científicas sobre mecânica, química e eletricidade.

Tolstoï era o mais severo dos críticos para os livros da sua autoria. Costumava dizer que era preciso lavá-los ou passá-los muitas vezes no crivo para lhes extrair os grãos de ouro; não só lhes corrigia o borrão, mas também as cópias, e só tomava a terceira por texto definitivo, não sendo raro que ainda esta fosse retocada. Stephenson trabalhou quinze anos a aperfeiçoar a sua locomotiva, antes de conhecer a glória. Watt matutou trinta anos antes de descobrir a máquina a vapor condensado. Herschel quis construir um espelho côncavo para um dos seus telescópios. O primeiro não o satisfez; o segundo tampouco. Fez terceiro, quarto... o centésimo que rejeitou como os outros. Construiu mais de duzentos espelhos côncavos antes de produzir um que ficou absolutamente perfeito; mas venceu! Já vês, pois, meu filho, que a perseverança e a aplicação são um auxílio poderoso até para os maiores gênios. Quando perguntavam a Newton - que era, certamente, dotado de excepcional talento - como tinha chegado a fazer as suas grandes descobertas, respondia modestamente: "Refletindo muito". É-se quase tentado a dizer que ele era de aplicação exagerada, porque, para repousar, não fazia mais que mudar o objeto de estudo.

Encontramos ainda um magnífico exemplo que explica os brilhantes triunfos do político inglês Robert Peel, um dos maiores oradores do Parlamento inglês, que refuta os argumentos de seus adversários políticos, uns após outros, com uma memória admirável. E todavia, os seus talentos não ultrapassavam a mediania. De onde lhe veio, então, tão excelente memória? Ainda criança, seu pai, ao domingo, quando vinha da igreja, fazia-o subir para uma mesa, e fazia-lhe repetir a homilia que acabara de ouvir. A princípio, aquilo não ia; mais tarde, porém, o exercício apurou-lhe de tal modo a memória, que Peel podia repetir a homilia quase palavra por palavra. E foi em virtude deste esforço persistente que, mais tarde, obteve os seus grandes êxitos políticos.

Stephenson, inventor da máquina a vapor, era filho de pais tão pobres que não puderam mandá-lo para a escola. Depois de passar doze horas por dia agarrado às máquinas, passava parte das noites a aprender a ler e escrever. Só aos dezenove anos aprendeu a fazer o seu nome. O seu único prazer era instruir-se e fazia-o até durante as refeições. Não era raro vê-lo a resolver problemas de aritmética escrevendo-os a giz nas tábuas dos carros negros do carvão.

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